MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/09/2011

Portugal de Inês Pedrosa: de Adorno a Bauman

“…um médico representa sempre um deus lascivo para as mulheres, e ele não o ignora. Sobretudo um cirurgião… Também eu já me deixei fascinar pela idéia de fazer amor com um homem capaz de desenhar o meu corpo a bisturi, víscera a víscera, até os ossos. Cedi à erótica do desmembramento, que viceja como um contraponto insidioso da independência das mulheres. Os homens tendem a feminizar-se para acompanhar solidariamente a nossa tão esforçada emancipação: choram conosco, queimam-se nas frigideiras conosco, suam ao nosso lado nos espelhos dos ginásios. E nós acordamos a sonhar com um homem de olhos gelados, que nos trate como corpos desalmados, com todos os requintes proibidos…”

       (Inês Pedrosa, Nas tuas mãos)

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de agosto de 2011)

    A notável ficção portuguesa das últimas décadas rompeu o isolamento do país ibérico, pelo menos para os leitores brasileiros:  de repente vieram à cena vários autores—não eram exceção, e sim regra—legíveis e modernos (sim, pois antes, parecia mais difícil ler textos lusitanos do que  textos em francês ou espanhol, parecia uma outra e desagradável língua), alguns dos quais estão no primeiro plano da prosa contemporânea (Saramago, Lobo Antunes, Lídia Jorge, José Luís Peixoto, Gonçalo M.Tavares), e outros permanecem acima da média da produção na área do romance.  É o caso, por exemplo, de Miguel Sousa Tavares, Francisco José Viegas, Mário de Carvalho e de Inês Pedrosa. Desta última, a Alfaguara publicou em 2011 uma nova edição da sua segunda experiência no gênero, Nas tuas mãos (1997) [1].

   Ao estrear, em 1992, com A instrução dos amantes, ela já se revelara um grande talento, contando as peripécias de uma turma de adolescentes, com suas hierarquias, códigos, cirandas amorosas, formação de personalidades, de uma forma quase tão vigorosa quanto a de Vargas Llosa em Os chefes e Os filhotes, aos quais oferecia a contrapartida feminina. O que prejudicava deveras o resultado é que ela não sabia quando parar nas suas formulações poéticas, e resvalava muitas vezes no mau-gosto e na lengalenga. Momentos brilhantes conviviam em solução de continuidade com momentos de prosa morta e rebarbativa.

    Por exemplo:

“Eles riram-se. Eram cúmplices. Nunca falavam de amor. Só falavam dos amores  dos outros. A noite encontrava-os nos sítios mais estranhos. Os outros diziam que eles eram muito amigos. Eles não diziam nada. Nem sequer se tocavam, na vida real. Ninguém sabia que ela ficava horas a fio sentadas nos degraus à espera. Ninguém sabia nada. Apareciam em toda a parte para melhor se esconderem.Um dia, ele esteve quase a dizer-lhe que não podia passar sem os sentidos dela.

   Mas não disse. Dinis Marta entendia que o sublime cintila no centro da vulgaridade… Sempre vivera assim, em queda imóvel dentro do seu microscópio de sentimentos. Isabel gostava de o lembrar aos seis anos, a dizer a avó: Eu sei que o Pai Natal não existe. Mas não te esqueças de apagar a lareira antes de irmos dormir, que é para ele não se queimar quando vier. Dinis considerava que esta deixa não abonava as suas faculdades intelectuais e declarara-a infame mentira.

   O humor é um poderoso corrosivo dos hábitos de irmãos; neste particular, Dinis e Isabel não constituíam exceção. Isabel alimentava a secreta esperança de ver fenecer o amor de Cláudia. À força purgante do convívio. Mas Dinis orquestrava a sua privacidade com talentos felinos. Cláudia sugeria-lhe cinemas, praias, entrevistas sucessivas. Dinis acedia a um encontro que declinava o seguinte, de um modo doce e fluido que prescindia de qualquer negativa. Furtava-se às marcações, que mascarava de acasos. Quanto mais Isabel porfiava em doutriná-la acerca das fraquezas do irmão, maior se punha o interesse de Cláudia no rapaz. Que ele se fechasse no quarto dias a fio sem motivo aparente, ou que gritasse com a empregada porque as camisas estavam mal passadas, pareciam-lhe apenas singularidades de um ser mítico. Isabel  desfiava pormenores de terrena eloqüência; era o quarto cheio de roupa suja, as horas em frente ao espelho, o roubo constante da carteira da cozinha, as covardias e as demências minúsculas. Mas Cláudia continuava encostado à janela para o ver chegar.

    Dinis aterrorizou-se quando percebeu que o seu amor secreto trocava risos e confidências com a irmã. Passou do terror ao espanto e do espanto a uma sedução maior, porque nada fascina tanto os homens como a inabalável convivência das mulheres. Tinha a certeza de que Isabel  daria dele uma imagem pobre, se não ridícula, e não compreendia que a paixão de Cláudia pudesse sobreviver a essa devassa. Ora as paixões são fantasias e duram o tempo que souberem colher da morte que as inventa. Quanto mais real Dinis lhe surgia, mais Cláudia o recriava em delírios invulneráveis[2].

  Em Nas tuas mãos, Inês Pedrosa evolui consideravelmente como narradora, decerto porque soube separar com habilidade os registros, já não confundindo a intervenção autoral, as “considerações” de autor, com a fala, a “voz” do personagem. O resultado até pode ser mais convencional, sob  certo aspecto, entretanto adquire mais vigor e consistência narrativa. Agora temos as protagonistas e seu discurso dominando o palco. Mais ainda, são três vozes muito distintas e muito fortes, revelando-nos Portugal de 1935 a 1994.

    Na primeira parte, Jenny conta como, ao casar com António José, o amor da sua vida, consentiu numa farsa: o matrimônio nunca foi consumado e o marido vivia com o amante, Pedro, ambos dilapidando a fortuna da família dela, apostando em cassinos (ela, que permanece virgem, através de um buraco na parede, espia os jogos amorosos entre os dois homens). Ao longo do tempo, a Casa do Xadrez, onde moravam, se tornava abrigo de artistas e intelectuais—e todos estes ou se alinhavam contra ou eram cooptados pelo regime salazarista, que manteve o atraso português por meio século, com seu provincianismo tacanho e seu rígido apego aos mais esclerosados dogmas católicos.

    A narração de Jenny é tão bonita, é uma prosa recôndita tão luminosa, que parece difícil que nas partes seguintes a autora consiga superá-la. Além disso, ela prova para o leitor que o romanesco e até o folhetinesco podem ainda coexistir com a ficção mais exigente, sem precisar chafurdar na subliteratura, como aconteceu com Isabel Allende após A casa dos espíritos.

    No entanto, as outras duas partes conseguem ser ainda mais contundentes: na segunda, através das fotos que marcaram sua vida (ela justamente é uma profissional da área), Camila, filha de Pedro com uma judia que se refugiou por algum tempo em Portugal (e que morreu depois num campo de concentração)—uma das diversas e fugazes traições do amante de António José, fugindo ao jugo do amor veemente deste—, conta como foi torturada pelos agentes do regime, como apesar do isolamento ibérico, as mudanças de costumes (as relações entre os sexos, por exemplo) foram se insinuando no tecido social, e como após os anos 80, mesmo com as chamadas liberdades democráticas, algo desandou na nossa espécie por causa da transformação dos indivíduos em consumidores e fatias do Mercado. Pode-se dizer que nas duas primeiras partes, o livro segue o imperativo de Theodor W. Adorno (1903-1969): o romance era a luta do ser humano vivo contra as relações sociais petrificadas. Mas, e quando essas relações se tornam aparentemente líquidas e fluidas, ainda que sejam coercitivas mesmo assim? Como fica o ser humano vivo?

    As mulheres de Nas tuas mãos, e o próprio título indica isso, procuram o diálogo, o contato, o enleio com o homem (e isso explica a estrutura em espiral mais do que a aparente circularidade que torna as últimas páginas tão enganosamente incômodas, como se houvesse um retrocesso). Porém, algo sempre se opõe a esse desejo: no caso de Jenny, a opção sexual do amado; no caso de Camila, a fatalidade: os dois homens principais da sua vida são mortos brutalmente: Eduardo é fulminado por um raio e Xavier—guerrilheiro moçambicano—é executado e decapitado.

   De Xavier, Camila terá uma filha, a mulata Natália, a voz da terceira parte (através de cartas), que mostra de forma cabal o que a Europa ainda não entendeu em 2011, se nos fiarmos pelos conflitos ali latentes: que a miscigenação, a mistura, a mútua assimilação é o único caminho do futuro. Mesmo assim, a arquiteta Natália enfrenta um mundo ainda mais complicado do que a “avó” Jenny (que criou sua mãe) e Camila: ao invés do monolítico e ultrapassado universo salazarista, a era da pós-modernidade—porosa, anômica, relativista, onde ninguém se compromete com nada, e as atitudes mudam como roupas da estação.

  Nas tuas mãos é um belo exemplo da sutil transformação do mundo romanesco de Adorno para o mundo de Bauman. E mostra por que o romance como peculiar forma de contar histórias ainda é tão necessário.


[1] A responsável pelo lançamento das primeiras obras (inclusive Nas tuas mãos) dela no Brasil é a Planeta.

[2] Sublinhei os trechos que particularmente me desagradam. Aqui vou bater mais uma vez numa tecla na qual sempre insisto: no equívoco que é confundir a poesia da prosa com “prosa poética”. Nunca dá muito certo, especialmente em romances. Quando estava lendo A instrução dos amantes escrevi umas anotações que intitulei (para ecoar Lukács e seu clássico “Narrar ou descrever”) “Narrar ou discorrer”, porém cheguei á conclusão de que não se poda generalizar nada em matéria de romance (ou mesmo de qualquer outro gênero ou forma). Mas basicamente Inês Pedrosa larga de mão a narração e discorre sobre suas personagens, o que me dá a impressão de conversa fiada. Agora: mesmo autores gigantescos como Faulkner e Clarice Lispector têm esses momentos e nem por isso são menos gigantescos, mas aqui temos o imponderável da genialidade, como é o caso das páginas de A maçã no escuro. Não é o caso de A instrução dos amantes, evidentemente.

   Em As tuas mãos as formulações (tirando o fato de serem formuladas na voz da personagem) ganham em precisão e eficácia:

“Já não há crimes nobres pela simples razão de que a nobreza é, antes de mais, uma forma de orquestração do tempo. Ou era; entretanto, o tempo mudou de sexo e de ritmo e tornou-se pura velocidade. Aparentemente, também no mundo do crime deixou de haver lugar para o êxtase contemplativo ou para o jogo da estética. Mata-se como se vive: com sentido prático e rapidez…”

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