MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/07/2012

A FICÇÃO MACULADA (pela necessidade de “fazer estilo”)

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immaculada ampliada

AUTORA ESTREANTE ERRA AO TENTAR

                              “FAZER BONITO” NA PROSA

Immaculada, da tradutora e dicionarista Ivone C. Benedetti aparece nas livrarias com uma capa (não bastasse o título inócuo) que certamente não ajuda esse romance de estréia. E quando contei a trama, alguns amigos acharam-na batida e cheia de chavões: após ser traído pela esposa (que comete adultério com o cunhado) e ficar viúvo de forma suspeita, Francisco, instado pelo pai, Evaristo, pede a mão da encantadora Immaculada (que tem apenas 10 anos) aos pais, para dali a cinco anos. Tudo em nome dos negócios, pois há interesse em terras, que aproximam as duas famílias. Apesar de uma paixão adolescente por um imigrante, Paolo (usado num enredo de vingança pela irmã, Annunziata, preceptora de Immaculada), o casamento de conveniência é realizado e atravessa a ditadura getulista, terminando em desastre.

Porém, eu defendo o livro enquanto folhetim: mesmo não trazendo nenhuma novidade, acho que ela soube não apenas criar um grupo de personagens como também conduzi-lo através da década em que transcorre a história. A narração em geral é competente e os diálogos são bons. Então por que a resolveu seguir por uma rota-titanic, que só poderia dar em naufrágio?

A questão é que Ivone C. Benedetti não quer apenas contar uma história de forma interessante e bem narrada. Ela quer fazer estilo, quer tirar poesia da prosa, esquecendo-se que há uma poesia da prosa em todos os bons romancistas (afinal, traduziu Balzac). Por causa dessa ambição, temos, então, trechos horrendos e risíveis, em que parece que temos um parnasiano ou um Afrânio Peixoto psicografados, como o seguinte: “Francisco entrou. Deitou-se na cama. As bochechas ainda queimavam incendiadas de vinho. Puxou Immaculada pela cintura, que se deixou carregar com docilidade nunca vista. Francisco puxava para si uma vestal cobiçada por outros homens. Tirou-lhe a combinação, e ela se deixou acariciar, beijar, mas não só. Também amou em arroubos tempestuosos, atirando-se ao coito como se atira à terra a chuvarada de verão, em bátegas incontroláveis. A vestal despiu-se de messalina”; ou jogos de palavras tolos, por exemplo: “Suástica, foice e martelo. Foi-se o martelo” e “As de Dantas não eram chegadas, eram cheganças, sempre prolongadas e agitadas, como danças”!!!??? O que é isso, leitor?

Benedetti parece seguir, infelizmente, a receita de Nélida Piñon, a nossa Sherazade do Paraguai, autora de romances pretensiosos e ruins, embora habilíssima em marketing pessoal. Há trechos inteiros com toques piñonescos (e, portanto, subliterários): “preferia as horas em que podia fechar os olhos, mas sem dormir. Esses eram os momentos de alinhavar histórias, bordar desfechos”;Vasculhava gestos e olhares como quem remexe gavetas à meia-noite, sem saber se quer mesmo achar o que procura e, se achando, tira o que achou de baixo dos trastes”.

Immaculada resulta então um tanto frouxo e amorfo, não convencendo nem como romance histórico ou de confrontos ideológicos, nem como romanção, nem como romance intimista ou experiência de linguagem. Há material para um bom romance tradicional, na minha opinião, e creio que uma soda cáustica no preciosismo ridículo, na afetação, já daria outra cor à sua tela. Pois ela precisa se decidir, se quer fazer bonito no estilo (no pior sentido do termo) ou fazer ficção (que, a meu ver, seria sua salvação). Pois ainda não está fazendo nenhum dos dois. Há um trecho onde se afirma que Immaculada não quer que lhe roubem a “coerência das fabulações”. Ivone C. Benedetti deveria estar vigilante quanto a isso também. Seu casamento de conveniência com a arte de contar histórias pode ser tão desastroso quanto o da sua heroína.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de agosto de 2009)

ANOTAÇÕES DE 18 DE AGOSTO

A experimentada tradutora e dicionarista Ivone C. Benedetti estréia agora na ficção com IMMACULADA, que mereceu uma caprichada edição da WMF Martins Fontes, quanto ao tratamento do texto, paginação, etc,  que infelizmente não se refletiu na escolha da capa. Sendo romance de autor desconhecido, o título já não ajuda muito, é sem graça e inócuo, e uma capa expressiva seria essencial. Porém, a montagem de imagens feita por Rodrigo Rodrigues dificilmente chamará a atenção do leitor incauto. Esperemos que numa próxima edição, escolham outra.

Li as cem primeiras páginas e posso garantir: Benedetti é uma narradora hábil, certamente entende do riscado: estou no ponto em que Francisco, o personagem principal, viúvo convicto, instado pelo pai, Evaristo, e pelo sócio Carlinhos, pede a mão de Immaculada (que tem apenas 10 anos e um encanto infantil) aos pais, para dali a cinco anos, quando ela fizer 15 anos. Tudo em nome dos negócios, pois há interesse em terras, que aproximam as duas famílias. No entanto Helena, mãe da menina (belíssima mulher, pela qual Francisco tem forte atração) é contra o compromisso, e quer que a própria Immaculada decida no seu aniversário de 16 anos, que seria em maio de 1933, o que situa o momento em que estou na trama em 1928.

Isso se passa em São Paulo, onde Francisco é advogado e quer investir em construção civil. O pai é meio contra, insistindo na eternidade da prosperidade do café (que, sabemos, entrará em derrocada no ano seguinte).

Dois anos antes,  Francisco também se dedicava à vida de fazendeiro. Filho mais novo de Evaristo, puxara a mãe em aparência e comportamento. O filho mais velho, que herdou o nome do pai, é um traste, sempre envolto em problemas de sedução de mulheres.

Francisco teve de viajar a negócios e quando voltou, surpreendeu o irmão com a esposa (os fatos são mais complicados e cheios de meandros, só estou pincelando os pontos principais da trama). O irmão foi mandado para uns cafundós, a esposa devolvida à família, com a recomendação de que fosse enfiada num convento. Como na sua tentativa de fuga (pois estamos numa época em que o marido poderia matar a adúltera “para lavar a honra”), Lucinha machucou o pé, chamaram uma curandeira local para tratar dela. A curandeira vaticinou que ela deveria se manter longe dos rios. Dito e feito: pouco tempo depois, Francisco recebe a notícia de que está viúvo, a mulher afogou-se. Mas por ser motivo de risota e escárnio, prefere abandonar a fazenda e dedicar-se ao exercício do direito, contrariando o pai. Aliás, contrariando a função meramente familiar do curso que seguira:

“Vinte e sete anos de vida, advogado que não advogava, advogado moldado para as necessidades da casa.

__A família está precisando de alguém entendido em leis. Conhecimento que jauda nos negócios e na política…”

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Afirmei que Benedetti era habilidosa e entendia do riscado. Basta ver a cena em que Francisco surpreende “um homem” dentro de casa (aquele que depois saberemos ser seu irmão). A seqüência de eventos já proporciona ao leitor a descrição da moradia, afora a mentalidade de um homem como Francisco:

“… viu um vulto cortar a luz da lua que penetrava pelo vitral dos fundos. Era um homem! Francisco, com o coração em sobressalto, pôs a mão na cintura. Estava sem o revólver! A arma estava no escritório, que ele tinha fechado antes de viajar. A chave estava na mesa de cabeceira. Não podia perder tempo… resolveu segui na direção do vulto, mas passando pela porta do quarto do casal, pôs a mão na maçaneta: a porta estava trancada. Quando voltou a olhar para o corredor, o vulto tinha sumido. As portas, simétricas e enfileiradas, corredor afora, estavam todas fechadas. Qual delas abrir? E como abrir sem estar armado? Pensou em descer as escadas correndo e chamar Geraldo ou Bento. Mas enquanto isso o homem fugiria. Por onde? Por alguma janela. Qual? As da frente eram altas demais. e quem pulasse por alguma de trás se esborracharia na telha-vã do puxado da cozinha ou em leno pátio, na frente da casa de Geraldo. Mas por aquela janela da ponta da casa era fácil, a janela do quarto de hóspedes, janela que dava para uma sacada, sacada que dava para um gramado. Desceu as escadas correndo. Quantas vezes tinha imaginado que por lá qualquer um poderia entrar na casa…”

Há uma visível ambição machadiana no projeto da autora; temos uma epígrafe tirada de Quincas Borba (aliás, bárbara), muitas reflexões sobre a natureza humana e jogos de palavras. Os capítulos são curtos e com titulos irônicos e engraçadinhos. Deixem-me já adiantar que não gostei desses pequenos títulos, soam forçados e não ajudam em nada o texto. E Benedetti precisaria ter ajustado a sintonia fina do seu estilo porque às vezes, em vez de invocar Machado, ela acaba caindo na afetação forçada de uma Nélida Piñon, uma autora que eu particularmente não suporto.

Momento feliz, sintonia fina ajustada: quando Evaristo se culpa por não ter tomado providências logo, conhecendo o filho mais velho e sabendo da possibilidade do adultério: “agora Francico  falava em sair da fazenda, em ir para São Paulo, advogar. O que seria dele sem o filho? Além d mais, com a dissolução do casamento, perdia-se o dote de Lucinha, ótimas terras na região de São Simão… E não era só isso. Havia títulos. Aquela hesitação fatal tinha sido responsável por um enorme prejuízo. Como um erro de um minuto pode custar a um homem um prejuízo de milhares de contos de réis e a anulação de anos de acertos!”

       Influência clara de Machado: “Temos quinze dia s para pensar, não adianta querer pensar tudo numa noite, vá dividindo o pensamento um pouco por dia”.

Sintonia fina desajustada, afetação, piñonismo: “homem capaz de atravessar eras e eras políticas com o mesmo prestígio incólume e impoulo, ainda que de suas mãos emanassem cargos e cargos, como universos inteiros emanam do espírito de um demiurgo”, passagens  ‘literárias”, no mau sentido: “Ao lado do bule, o cheiro do resto do café acariciava narinas”; veja-se que trecho insuportável (contrastando com a bela discussão sobre Voltaire e a propriedade de terras): “as pontas dos galhos da árvore em frente. Com a brisa fria batendo, eles ora se estremunhavam ora se retorcia, parecendo braços de afogados a lhe mandarem mensagens cifradas… No mistério das entranhas, os sentimentos já não brotavam como fonte cristalina da argila da razão. Era um borbotão de cloaca”. !!??

Vamos ver o que prevalece. Parei na pág. 111 e o romance tem 379.

ANOTAÇÕES DE 21 DE AGOSTO

Nunca vou entender por que as pessoas sabotam seu próprio talento. Terminei IMMACULADA. Quando contei a trama  para alguns amigos, todos acharam que é batida, muito convencional e cheia de chavões. Porém, eu defendo o livro enquanto fabulação: mesmo não trazendo nenhuma novidade, acho que Ivone C. Benedetti criou um grupo de personagens e soube conduzi-los até o fim, através da década em que transcorre a história (o grosso da trama se dá entre 1927 e 1937). A narrativa em geral é competente e os diálogos são bons. Então por que a autora resolveu enveredar por um caminho-titanic, uma rota que só poderia dar em naufrágio?

Para exemplificar minha perplexidade, vou transcrever um trecho horrendo da página 342 (Immaculada embriagou-se um pouco, viu um homem parecido com o seu amor de adolescente, e de repente ficou mais disposta a transar com o frio e indiferente marido, Francisco, com o qual mantinha um protocolo burocrático de relações sexuais; ele, por sua vez, sustenta uma amante, Natália):

“Francisco entrou. Deitou-se na cama. As bochechas ainda queimavam incendiadas de vinho. Puxou Immaculada pela cintura, que se deixou carregar com docilidade nunca vista. Francisco puxava para si uma vestal cobiçada por outros homens. Tirou-lhe a combinação, e ela se deixou acariciar, beijar, mas não só. Também amou em arroubos tempestuosos, atirando-se ao coito como se atira à terra a chuvarada de verão, em bátegas incontroláveis. A vestal despiu-se de messalina”

O que é isso? Que vocabulário é esse? Já disse que às vezes Benedetti lembrava o lado mais horroroso (haverá um que não o seja?)  da “preciosa ridícula” da nossa literatura, Nélida Piñon (que resultou em livros ruins e pretensiosos como A república dos sonhos ou A casa da paixão; o que li de melhor dela foi o paródico A força do destino). Só que o trecho acima ultrapassa qualquer fronteira, lembra até os momentos mais bizarros de uma Cassandra Rios (as descrições sexuais do delicioso Macária, por exemplo), e, pior, lembra aqueles escritores que já despertavam risotas e casquinadas em sua época, como Afrânio Peixoto ou Coelho Neto.

Autran Dourado afirmou que teve de se despir da mania de querer “escrever bem”, ser um artífice do estilo para poder ser um ficcionista de verdade. E em outras ocasiões, eu já tratei de alguns escritores nossos que falseiam seus romances  com um estilo laborioso e artificioso: além de Nélida, tivemos já José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso e a ficção sempre forçada de Mário de Andrade. Isso não é uma receita, claro, uma fórmula, que sirva para todo mundo: dois grandes escritores, nada afeitos a “compor romances”, assim o fizeram, através de uma linguagem única. São romances atípicos, peculiares, estranhos, porém são geniais. Refiro-me aos romances de Cornélio Penna e aos de Clarice. Quem pode resistir ao mistério de A menina morta ou A maçã no escuro?

Voltemos ao caso Benedetti. O tempo todo ela quer caprichar na sua prosa, quer que ela não seja mera narrativa. E vemos trechos como o já citado ou então trocadilhos que, faça-me o favor… Exemplo (na página anterior à do trecho citado acima): “Suástica, foice e martelo. Foi-se o martelo”!!!??? Ou anteriormente (na pág.203): “As de Dantas não eram chegadas, eram cheganças, sempre prolongadas e agitadas, como danças”!!!??? É uma pena.

Veja-se em contraste, um trecho de um diálogo entre pai e filho (Evaristo e Francisco), antes do aparecimento de Immaculada na história, que mostra as potencialidades da autora:

Evaristo:  “…que bobagem é essa de se preocupar se os empregados riem ou não? Você tem autoridade aqui? Tem ou não? Tua palavra é lei, sim ou não?”

Francisco: “Meu pai, já não estamos no tempo da escravidão.”

Evaristo: “Não é questão de escravidão nem de meia escravidão. De um homem na sua posição ninguém há de rir. Isso não existe! Isso não  pode existir!”

Francisco: “Pois existe, meu pai. Pois existe! Essa gente toda que nos rodeia só esconde as garras enquanto é mais fraca. No dia em que puderem, nos matam… E enquanto não podem matar, riem…Nós estamos rodeados de estrangeiros e de filhos de escravos…” (p.38)

Ou então um momento de ação narrativa simples e competente (em 1931, quando Francisco incautamente vai a um comício comunista): “…a multidão não estava compacta, mas não era muito fácil abrir caminho. Enquanto rumava para a entrada da XV de Novembro, ouvia gritos esparsos de ´Apoiado`. Chegando lá, tentou enveredar pela rua, mas não conseguiu. Algum pega-pega na esquina, um aglomerado denso impedia a passagem. Não enxergou direito o que acontecia. Percebendo aquela assuada masculina entremeada de gritos femininos, teve a idéia de desviar pela rua Direita. Também ali a multidão se aglomerava. Tinha andado uns trinta metros quando alguém gritou: ´A força pública!´ Começou o corre-corre: uns corriam da praça, outros para a praça. Francisco tentava não correr. Dez passos adiante levou uma trombada brutal e cambaleou para trás. Mas não caiu porque antes levou um tranco nas costas, que o empurrou para o lado e, aí sim, lhe deu um tombo. Ele logo se levantou e, assustado, foi amparar-se na parede da direita. Encostado nela caminhou até a reentrância da primeira porta que apareceu e lá se refugiou…”(p.157). Isso sim é exercício de prosa narrativa, e além disso, é o gancho para que Francisco conheça o fascista Alfonso Molinaro, cuja trajetória (e de outros ex-colonos da fazenda) vai às vezes se entremear ao enredo principal (o casamento de Francisco e Immaculada) nos anos 30, no cadinho político da era getulista.

E na mesma pág. 203 onde há aquele jogo de palavras infame, que já citei, há um momento folhetinesco interessantíssimo, pois uma das encarregadas de vigiar a virginal Immaculada, a italiana  Annunziata (que está lendo,não por acaso, O Conde de Monte Cristo), ouve, sem querer, um diálogo em que os pais da menina ridicularizam seu próprio pai que havia presenteado a patroa da filha com uns sapatos chinfrins. E aí Annunziata concebe o plano de fazer com que o irmão, Paolo (por quem Immaculada se apaixonou), desonre a pupila, destruindo assim o casamento com Francisco, que salvaria financeiramente a família (uma das cláusulas para a efetuação do casório seria um exame médico que atestasse a virgindade). Nesse passo do romance, Benedetti me lembrou os melhores momentos de uma romancista tradicional muito talentosa, Colleen McCullough (não tenho nada contra, muito pelo contrário, Pássaros Feridos ou Uma obsessão indecente):”Annunziata, ali, impercebida, sentiu uma dor que só conhecem as crianças e os que se lembram da infância: a dor de ouvir falar mal do pai… Para tais dores só há dois remédios: choro ou vingança” (p.204). É a minha parte favorita de IMMACULADA, principalmente porque revela  a índole de proprietária, bem próxima a de Evaristo e de Francisco, de Helena, a mãe. Ao saber da tentativa de sedução, manda um capanga executar o irmão de Annunziata friamente (não contarei aqui o que acontece de fato).

BREVE ANTOLOGIA DE MOMENTOS PIÑONESCOS, o querer fazer “literatura”, que roubam da autora “a coerência das fabulações”, e em que se misturam o preciosismo, o mau gosto, o ridículo e o chavão:

“preferia as horas em que podia fechar os olhos, mas sem dormir. Esses eram os momentos de alinhavar histórias, bordar desfechos”;

“Francisco tinha medo de Paris porque nunca tinha sonhado”  (p.127)

“do seu ânus [a escolha do termo já é deplorável, se ela queria um trecho escatológico, inclusive para definir certos aspectos da personalidade “anal” de Francisco, deveria perder esses preciosismos, porque “cu” é bem preferível a “ânus”] jorrou um jato pútrido que foi rebentar contra a borda do vaso sanitário, poluindo suas paredes e espalhando um charco abominável por grande parte da casa… enquanto o intestino amotinado saraivava merda sanguinolenta para dentro do vaso, o estômago enfuriado tratava de expelir onde quer que fosse tudo o que ainda restasse dentro de si…” (p.170)

“Immaculada hesitava. Na verdade, não queria buscar os quadros. Mostrar suas obras àquele homem era como mostrar-lhe a alma.” (p.190)

“Marília… Alma viril de frade em forma feminina” (p.294)

“Vasculhava gestos e olhares como quem remexe gavetas à meia-noite, sem saber se quer mesmo achar o que procura e, se achando, tira o que achou de baixo dos trastes” (p.306)

Devo dizer também que a parte em que Immaculada fica meio ao deus-dará na sua casa, após a dissolução do casamento, isolada de todos, sem empregadas, convivendo apenas com a amiga da infância e o filho desta (que é filho de Paolo, o irmão de Annunziata, e que Immaculada toma como protegido, deixando-lhe até a fazenda de herança) me lembrou, para pior (só faltou a criança ser uma menina), aqueles momentos “huis clos” entre mulheres meio enlouquecidas pelo sofrimento que a sociedade patriarcal lhes impingiu do superestimados romances de Toni Morrison (Amada, Paraíso).

Enfim, comparações à parte, IMMACULADA acaba não convencendo nem como romance histórico (pois fica tudo muito frouxo), nem como romanção (ao qual ela não tem coragem de dar fôlego, apesar de “estar tudo ali” para tanto), nem como romance intimista (já que a linguagem nunca tem a profundidade necessária para isso, congelando-se na afetação e no arremedo de imagens), nem como experiência de linguagem. Há material para um bom romance, na minha opinião, e creio que uma soda cáustica no preciosismo ridículo já daria outra cor à sua tela. Pois ela precisa se decidir, se quer  fazer estilo (no pior sentido do termo) ou fazer ficção (que, a meu ver, seria sua salvação). Pois ainda não está fazendo nenhum dos dois.

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