MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/10/2015

FOLHETIM E CONSPIRAÇÃO: “O cemitério de Praga”, de Umberto Eco

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(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 15 de novembro de 2011)

Em Seis passeios pelos bosques da ficção (1994), Umberto Eco fez uma brilhante demonstração de como os “Protocolos dos Sábios do Sião”, que denunciavam um suposto complô judeu para dominar o mundo (e que se tornaram peça-chave do antissemitismo, inclusive na ideologia hitlerista), se originavam das várias versões deturpadas de cenas de romances rocambolescos como Os mistérios de Paris, de Eugene Sue, e Joseph Balsamo, de Alexandre Dumas[1].

A paixão de Eco por folhetins, por imposturas e pela tolice humana (ou seja, o hábito de acreditar em qualquer coisa) fez com que ele desenvolvesse tal esquema num romance, O cemitério de Praga [“Il cimitero di Praga”, 2010, que comento na tradução de Joana Angélica D´Ávila Melo]. O título se refere a uma espécie de cena primordial, bebida nos romances, e urdida e reaproveitada pelo personagem principal, Simone Simonini: um encontro de rabinos representando as doze tribos de \Israel no referido cemitério, onde eles expõem a teia judaica para controlar as finanças mundiais, a ruína do cristianismo e dos valores ocidentais e a subsequente dominação global.

Criado por um avô fortemente conservador e antissemita, Simonini devora os livros de Sue e Dumas. Após a morte do velho, roubado por um tabelião, que o priva da sua herança, ele revela-se hábil na falsificação de documentos, em forjar papéis supostamente “autênticos” e, numa Itália ainda não unificada e assolada por conflitos armados, nos quais avulta a figura de Garibaldi,  inicia uma carreira como informante e agente duplo que o levará a se instalar na Paris de Napoleão III, da Comuna e da guerra (perdida) contra a Alemanha, períodos em que os serviços secretos precisam sempre de “provas” contras os oponentes.

Temos, então, toda a atmosfera do folhetim: disfarces, conspirações, fomentação da opinião pública contra um determinado inimigo (jesuítas, maçons, comunistas, mas em especial judeus). Ficamos sabendo da trajetória de Simonini por meio de um diário que ele escreve (em 1897), ao perceber estranhos lapsos de memória, desconfiando de que pode sofrer de dupla personalidade (a “outra” seria a identidade de um abade que ele assassinara e jogara nos esgotos embaixo da sua morada parisiense décadas antes). Portanto, ao longo da reconstituição, as duas personalidades dividem o diário, gerando informações e fontes tipográficas diferentes (há uma terceira, que mostra a interferência do Narrador, que “edita” esse material para torná-lo palatável ao gosto contemporâneo).

Aqui no Brasil, o romance de Eco foi duramente criticado pelo excesso de referências eruditas, pelo seu estilo bricabraque (colagem, paródia de estilos). Uma besteira, como sabe quem leu e curtiu O nome da rosa e O pêndulo de Foucault. Esse conhecimento está entranhado no grande escritor italiano, não é uma erudição borra-botas à la Dan Brown e congêneres.

O que incomoda em O cemitério de Praga, apesar de ser um bom romance (mas podia ser bem melhor) é a combinação de três fatores. Em primeiro lugar, a dupla personalidade desagradável e odiosa que protagoniza a narrativa. Isso não seria tão problemático (em O perfume, por exemplo, o herói também era horrível) se a estrutura do romance não contradissesse a sua tese principal: Eco nos diz que as teorias conspiratórias são uma prova da credulidade geral, porém toda a sua trama é calcada em conspirações e jogos de poder bastante reais e documentados, e mesmo que a paranoia e o racismo ditem certas concepções populares, ele nos oferece indícios suficientes de que há um controle subterrâneo do mundo e das informações.

Por último, e o defeito principal, a meu ver, é que—ao utilizar a moldura folhetinesca—ele contrariou as regras do jogo, e ao invés de injetar emoção e aventura, parece fazer um resumo acadêmico das situações e dos caracteres. Nunca sentimos uma convicção narrativa profunda (mesmo num nível paródico) de todas aquelas peripécias coloridas e extravagantes. É como um banho de água fria na fervura da intriga. Ao “editar” os excessos dos folhetins, Eco não conseguiu compensar em graça e verve aquilo de que nos privou. Parece que ele esticou—de forma inteligente e engenhosa—o tom da sua conferência de Seis passeios pelos bosques da ficção por 400 e tantas páginas. Uma pena.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/16/agua-fria-na-fervura-de-uma-velha-trama-o-cemiterio-de-praga-de-umberto-eco/

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NOTA

[1] «Como os estudiosos observaram é fácil perceber que os Protocolos foram um produto da França oitocentista, pois estão repletos de referências a questões do fin-de-siècle francês (como o escândalo do Panamá e os rumores sobre a presença de acionistas judeus na Companhia do Metrô de Paris). Também é claro que foram baseados em vários romances famosos. Infelizmente, a história, mais uma vez, era tão convincente como narrativa que muita gente não teve dificuldade em levá-la a sério.  O resto é História: um monge itinerante chamado Sergei Nilus, que vivia entre a comunidade russa da França—uma figura bizarra, meio profeta e meio canalha, desde muito obcecado com a idéia do Anticristo—a fim de favorecer sua ambição de tornar-se conselheiro espiritual do czar, prefaciou e publicou o texto dos Protocolos. Depois, esse texto percorreu a Europa e foi cair nas mãos de Hitler. Vocês conhecem o resultado…» (Trad. Hildegard Feist)

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16/11/2011

Água fria na fervura de uma velha trama: “O cemitério de Praga”, de Umberto Eco

uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos, em 15 de novembro de 2011

“Criamos um público que quer mais; talvez não me leiam para conhecer as tramas dos inimigos da Cruz, mas por pura paixão narrativa, como acontece com aqueles romances de peripécias em que o leitor é induzido a tomar o partido do criminoso…” (Umberto Eco, O cemitério de Praga)

I

No livro em que reproduz conferências feitas em Harvard, Seis passeios pelos bosques da ficção (1994), Umberto Eco fez uma brilhante demonstração de como os Protocolos dos Sábios do Sião, que denunciavam um suposto complô judeu para dominar o mundo (e     que se tornaram um importante instrumento do antissemitismo, inclusive na ideologia hitlerista), se originavam das várias versões deturpadas de cenas de romances rocambolescos como O Judeu Errante, de Eugene Sue, e Joseph Balsamo, de Alexandre Dumas.

Na última conferência, Protocolos ficcionais, lemos (aqui em tradução de Hildegard Feist):

“…se a atividade narrativa está tão intimamente ligada à nossa vida cotidiana, será que não interpretamos a vida como ficção e, ao interpretar a realidade, não lhe acrescentamos elementos ficcionais?

   Eu gostaria de contar uma história espantosa que, sem sombra de dúvida sempre foi ficcional—porque foi baseada em citações explícitas de fontes ficcionais—e que no entanto muitas pessoas infelizmente assumem como verdadeira.

   A construção de nossa história se iniciou há muito tempo, no começo do século XIV, quando Filipe, o Belo, aniquilou os templários. Desde então inventaram-se muitas histórias sobre as atividades dos sobreviventes da Ordem. Ainda hoje podemos encontrar sobre esse assunto dezenas de obras recentes(…)

   No século XVII surgiu outra história—a da Rosa-Cruz(…) Salvo umas poucas insinuações, ninguém admitia pertencer à irmandade, pois o grupo era secreto e os autores rosa-cruzes diziam que não eram rosa-cruzes. Isso significa que, ipso facto, todos os que mais tarde se declararam rosa-cruzes com certeza não o eram. O resultado é que não só não existe nenhuma prova histórica da existência dos rosa-cruzes, como por definição não pode mesmo existir (…) Nos séculos subseqüentes, os adeptos formaram incontáveis grupos esotéricos que se proclamaram os únicos e genuínos herdeiros dos rosa-cruzes originais e afirmaram possuir documentos indiscutíveis—os quais, no entanto, não podem ser mostrados a ninguém, uma vez que são secretos.

   No século XVIII, um ramo francês da maçonaria chamado Maçonaria Escocesa (também conhecida como Maçonaria Templária e Ocultista) tornou-se parte dessa construção ficcional. Os maçons escoceses não só fizeram suas origens remontarem aos construtores do Templo de Salomão, como ainda afirmaram que os construtores do Templo se relacionavam com os templários, cuja tradição secreta teria sido transmitida por intermédio dos rosa-cruzes. Essas sociedades secretas e a possível existência de ´Superiores Desconhecidos´que guiavam o destino do mundo foram tema de debate na época imediatamente anterior à Revolução Francesa (…)

    Entre 1797 e 1798, num esforço para explicar a Revolução, o abade Barruel escreveu suas Memórias para servir à história do jacobinismo, livro supostamente factual que parece um folhetim. Naturalmente, ele se inicia com uma discussão sobre os templários. Depois que seu grão-mestre Molay foi executado na fogueira, eles se transformaram numa sociedade secreta empenhada em destruir o papado e todas as monarquias e criar uma república mundial. No século XVIII, assumiram o controle da maçonaria(…) foram ainda responsáveis pela criação dos jacobinos. Todavia, quem controlava os jacobinos era uma sociedade ainda mais secreta, a dos Iluminados da Baviera—regicidas por vocação. Assim, de acordo com Barruel, a Revolução Francesa veio a ser o resultado final de uma velha trama.

   Até Napoleão encomendou relatórios sobre seitas clandestinas. O autor desses documentos foi Charles de Berkheim, que—como fazem em geral os espiões e informantes—obteve sua informação de fontes públicas e entregou ao soberano, como um fantástico furo de reportagem, todas as notícias que este poderia ter lido [por exemplo, nos livros de Barruel].Aparentemente Napoleão ficou tão impressionado com essas descrições horripilantes de um diretório de Superiores Desconhecidos capazes de governar o mundo que fez o possível para ingressar no grupo.

   As Memórias de Barruel não contêm nenhuma referência aos judeus. Contudo, em 1806, o abade recebeu uma carta de um certo capitão Simonini, o qual afirmava que Manés (o inventor do maniqueísmo) e o Velho da Montanha (grão-mestre da ordem secreta dos Assassinos e aliado notório dos templários) eram judeus; que a maçonaria fora fundada por judeus, e que os judeus se infiltraram em todas as sociedades secretas existentes. Parece que a carta de Simonini foi, na verdade, fabricada pelos agentes do ministro da polícia Joseph Fouché, que andava preocupado com o fato de Napoleão se aproximar da comunidade judaica francesa por motivos políticos.

   Barruel ficou assustado com as revelações de Simonini e consta que declarou reservadamente que a publicação da carta poderia provocar um massacre dos judeus. Não obstante, elaborou um ensaio no qual aceitava as idéias de Simonini, e, embora destruísse esse texto, os boatos já haviam começado a se espalhar. Só produziram resultados interessantes m meados do século, quando os jesuítas se alarmaram com os protagonistas anticlericais do Risorgimento italiano, como Garibaldi, que eram afiliados à maçonaria. Passaram então a dizer que os carbonari italianos eram agentes de um complô judaico-maçônico.

    Todavia, no século XIX, os anticlericais também tentavam difamar os jesuítas mostrando que conspiravam contra a humanidade. Foi o caso de muitos escritores ´sérios´(…); contudo, foi um autor de folhetins, Eugène Sue, quem deu a maior publicidade a tais acusações. Em seu romance O judeu errante, o perverso monsieur Rodin, a encarnação da conspiração jesuítica mundial, é claramente mais uma versão romanesca dos Superiores Desconhecidos. Monsieur Rodin retorna no último romance de Sue, Os mistérios do povo, onde o plano diabólico dos jesuítas é exposto até o último detalhe criminoso num documento enviado a Rodin (personagem ficcional) pelo diretor da Ordem, padre Roothaan (figura histórica). Sue retoma ainda outra personagem ficcional, Rodolphe de Gerolstein, de seu romance Os mistérios de Paris (um autêntico livro ´cult´, a ponto de milhares de leitores enviarem cartas a suas personagens). Gerolstein se apodera do documento e revela ´quão astuciosamente se urdiu essa trama infernal e que terríveis sofrimentos, que pavorosa escravização, que horrendo despotismo significaria para a Europa e o mundo se ela tivesse vingado´.

   Em 1864, depois de publicados os romances de Sue, um tal Maurice Joly criticou Napoleão III escrevendo um panfleto liberal em que Maquiavel, que representa o cinismo do ditador, conversa com Montesquieu. A conspiração judaica inventada por Sue… agora é atribuída a Napoleão—e detectei nesse panfleto nada menos que sete páginas que, se não são plágio, no mínimo estão repletas de extensas e inconfessas citações de Sue. Joly foi preso por causa de seus escritos anti-imperiais, passou quinze anos no cárcere e depois se suicidou. Saiu de cena, porém vamos reencontrá-lo mais adiante.

     Hermann Goedsche, um funcionário do Correio alemão, que já publicara panfletos de caráter político caluniosos e difamatórios, escreveu em 1868, sob o pseudônimo de sir John Retcliffe, um romance popular intitulado Biarritz, no qual apresentava uma cena de ocultismo no cemitério de Praga. Seu modelo fora a cena da reunião (descrita em 1849 por Dumas em Joseph Balsamo) de Cagliostro, chefe dos Superiores Desconhecidos, com um grupo de outros Iluminados, para tramar o caso do colar de diamantes. Contudo, em vez de retratar Cagliostro e Cia, Goedsche remontou a cena com representantes das doze tribos de Israel, que se reúnem a fim de preparar a conquista do mundo pelos judeus—conquista que seu grão-rabino descreve em detalhes.

   Cinco anos depois, um panfleto russo (Os judeus, senhores do mundo) reutilizou a mesma história como se fosse verdadeira. Em 1881, o periódico francês Le Contemporain publicou a história mais uma vez, afirmando que provinha de uma fonte irreprochável, o diplomata inglês sir John Readcliff. Em 1896, François Bournand voltou a citar os discursos do grão-rabino (a quem chamou de John Readcliff) em seu livro Os judeus, nossos contemporâneos). A partir daí a reunião fictícia inventada por Dumas, acrescida dos projetos criados por Sue e atribuída por Joly a Napoleão III tornou o discurso ´real´ do grão-rabino e reapareceu em vários lugares.

    A história não termina aí. O russo Piotr Ivanovich Rachkovski (que não era personagem de ficção, mas bem que merecia ser) havia sido preso por seu envolvimento com grupos revolucionários esquerdistas e mais tarde se tornou informante da polícia; na virada do século, ingressou na organização terrorista de extrema-direita conhecida como as Centúrias Negras e acabou se tornando chefe da Okhrana, a polícia política do czar. A fim de ajudar o conde Sergei Witte, seu protetor, a livrar-se de um adversário político, Elie de Cyon, Rachkovski tratou de vasculhar a casa deste último; ali encontrou um panfleto que era uma cópia do texto de Joly contra Napoleão III com uma ressalva: Cyon ´corrigira´ para atribuir as mesmas idéias a Witte. Como todo adepto das Centúrias Negras, Rachkovski era um antissemita feroz (e esses fatos ocorreram mais ou menos na época do caso Dreyfus) e criou uma nova versão romanesca daquele velho texto, eliminando todas as referências a Witte e atribuindo a trama aos judeus. O nome Cyon lembrava Sion, e Rachkovski achou que uma trama de judeus denunciada por um judeu podia ser altamente confiável.

   O texto criado por Rachkovski foi provavelmente a primeira fonte dos Protocolos dos Sábios do Sião. Os protocolos são claramente ficcionais, pois neles os sábios expõem seus malignos projetos sem o menor pudor—o que seria plausível num romance de Sue. Porém é difícil acreditar que alguém agisse na realidade com tamanho descaramento. Os Sábios declaram abertamente: `Temos uma ambição ilimitada, uma cobiça voraz, um desejo impiedoso de vingança e um ódio intenso´ (…)

   Como os estudiosos observaram é fácil perceber que os Protocolos foram um produto da França oitocentista, pois estão repletos de referências a questões do fin-de-siècle francês (como o escândalo do Panamá e os rumores sobre a presença de acionistas judeus na Companhia do Metrô de Paris). Também é claro que foram baseados em vários romances famosos. Infelizmente, a história, mais uma vez, era tão convincente como narrativa que muita gente não teve dificuldade em levá-la a sério.  O resto é História: um monge itinerante chamado Sergei Nilus, que vivia entre a comunidade russa da França—uma figura bizarra, meio profeta e meio canalha, desde muito obcecado com a idéia do Anticristo—a fim de favorecer sua ambição de tornar-se conselheiro espiritual do czar, prefaciou e publicou o texto dos Protocolos. Depois, esse texto percorreu a Europa e foi cair nas mãos de Hitler. Vocês conhecem o resultado…”

II

A paixão de Eco por folhetins, por imposturas,  pelo lixo cultural  e pela tolice humana[1] (ou seja, o hábito de acreditar em qualquer coisa) fez com que ele desenvolvesse o esquema acima num romance, O cemitério de Praga (na deliciosa tradução de Joana Angélica D´Ávila Melo para Il cimitero di Praga). Como se vê, o título se refere a uma espécie de cena primordial, bebida nos romances, e urdida e reaproveitada pelo personagem principal, Simone Simonini: um encontro de rabinos representando as doze tribos de \Israel no referido cemitério, onde eles expõem a teia judaica para controlar as finanças mundiais, a ruína do cristianismo e dos valores ocidentais e a subseqüente dominação global.

Criado por um avô fortemente conservador e antissemita (e que seria o suposto autor da carta a Barruel), Simonini devora os livros de Sue e Dumas. Após a morte do velho, roubado por um tabelião, que o priva da sua herança, ele revela-se hábil na falsificação de documentos, em forjar papéis supostamente “autênticos” e, numa Itália ainda não unificada e assolada por conflitos, nos quais avulta a figura de Garibaldi,  inicia uma carreira como informante e agente duplo que o levará a se instalar na Paris de Napoleão III, da Comuna e da guerra (perdida) contra a Alemanha, e do caso Dreyfus, períodos em que os serviços secretos precisam sempre de “provas” contras os oponentes.

Temos, então, toda a atmosfera do folhetim: disfarces, conspirações, fomentação da opinião pública contra um determinado inimigo (jesuítas, maçons, comunistas, mas em especial os judeus, cada vez mais). Ficamos sabendo da trajetória de Simonini por meio de um diário que ele escreve (em 1897), ao perceber estranhos lapsos de memória, quando desconfia de que pode sofrer de dupla personalidade (a “outra” seria a identidade de um abade que ele assassinara e jogara nos esgotos embaixo da sua morada parisiense décadas antes[2]). Portanto, ao longo da reconstituição, as duas personalidades dividem o diário, gerando informações e fontes tipográficas diferentes (há uma terceira, que mostra a interferência do Narrador, que “edita” esse material para torná-lo palatável ao gosto contemporâneo).

Aqui no Brasil, o romance de Eco foi duramente criticado, num artigo do Estado de São Paulo, por Maurício Santana Dias, pelo excesso de referências eruditas, pelo seu estilo bricabraque (colagem, paródia de estilos). Uma besteira, como sabe quem leu e curtiu O nome da rosa e O pêndulo de Foucault. Esse conhecimento está entranhado no grande escritor italiano, não é uma erudição borra-botas à la Dan Brown e quejandos, flui sempre natural e com graça, o que é raríssimo.

O que incomoda em O cemitério de Praga, apesar de ser um bom romance (mas podia ser bem melhor; não posso deixar de ressaltar, entretanto, que Eco se mostra particularmente inspirado no achado final, a maneira como interrompe o diário de Simonini) é a combinação de três fatores. Em primeiro lugar, a dupla personalidade desagradável e odiosa que protagoniza a narrativa [3]. Isso não seria tão problemático (em O perfume, de Patrick Süskind, ou Diário do Farol, de João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, os heróis também são horríveis) se a estrutura do romance não contradissesse a sua tese principal: Eco nos diz que as teorias conspiratórias são uma prova da credulidade geral, porém toda a sua trama é calcada em conspirações e jogos de poder bastante reais e documentados, que ratificam a noção de que o mundo é regido nas sombras, e mesmo que a paranóia e o racismo ditem certas concepções populares (como acontece até hoje com relação aos judeus[4]), ele nos oferece indícios suficientes de que há um controle subterrâneo do mundo e das informações.

Por último, e o defeito principal, a meu ver, é que—ao utilizar a moldura folhetinesca—ele contrariou as regras do jogo, e ao invés de injetar emoção e aventura, parece fazer um resumo acadêmico das situações e dos caracteres. Nunca sentimos uma convicção narrativa profunda (mesmo num nível paródico), a “pura paixão narrativa”, de todas aquelas peripécias coloridas e extravagantes.

É como um banho de água fria na fervura da intriga. Ao “editar” os excessos dos folhetins, Eco não conseguiu compensar em graça e verve aquilo de que nos privou. Parece que ele esticou—de forma inteligente e engenhosa, bem entendido—o tom da sua conferência de Seis passeios pelos bosques da ficção por 400 e tantas páginas. Uma pena.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/04/17/guglielmo-guilherme-william-os-trinta-anos-de-o-nome-da-rosa/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/30/tratados-sobre-a-tolice-humana-os-romances-de-umberto-eco/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/16/ecoterapia-a-auto-ajuda-necessaria/


[1] A impostura e a necessidade das gentes de acreditar em qualquer coisa aparecem tematizadas de forma diferente em O pêndulo de Foucault e Baudolino (aliás, a questão da impostura, dos documentos forjados, tem um ilustre antecedente na literatura italiana, o magistral O conselho do Egito, de Leonardo Sciascia); o “lixo cultural” que permeia nossa identidade e forja afetos, gostos, tanto quanto a “cultura” ganhou uma formulação maravilhosa naquele que seria o maior romance de Eco se não existisse o genial O nome da rosa: A misteriosa chama da rainha Loana.

[2] E esgotos sempre evocam o lado “subterrâneo” da respeitabilidade burguesa, pelo aspecto físico sórdido e pestilento, e pela ambigüidade moral.

[3] Convenhamos, é muito difícil sintonizar com um enredo se não nos identificamos minimamente com o protagonista, e, em geral, tendemos a nos identificar com o personagem “do bem” (embora venhamos a nos divertir mais com os vilões). Há casos em que o herói é muito bocó e trouxão (há pouco tempo, li um romance de Dumas, O cavaleiro de Saint-Hermine em que acontecia isso), mas mesmo assim o movimento da história nos envolve e nos faz torcer por ele. Não acontece isso em O cemitério de Praga.

[4] Não resisto a ser cri-cri: dá até para entender esse ponto-de-vista quando se pensa no Estado de Israel, e como a dependência econômica dos EUA a ele, fez com que Obama adotasse uma atitude indigna na questão do reconhecimento da Palestina (sem falar que há uma grita geral devido à possibilidade de um programa nuclear no Irã, mas ninguém protesta com o arsenal nuclear e a fabricação de mísseis por parte dos israelenses). Não obstante, como é tudo às claras, despudoradamente às claras….

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