MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/12/2014

A BALADA DE ADAM HENRY: Ian McEwan, a dimensão do irreparável e a fachada cinzenta

Ian+McEwan

balada- capa

“Homens ocultavam recursos em contas do exterior, mulheres exigiam para sempre uma vida de conforto. Mães impediam crianças de ver os pais apesar de ordens judiciais; pais se negavam a oferecer sustento aos filhos apesar de ordens judiciais. Maridos agrediam esposas e filhos, esposas mentiam ou maquinavam ardis, um ou outro, bêbados, viciados em drogas ou psicóticos; e crianças, na prática, eram obrigadas a tomar conta de pais incapazes, crianças de fato vítimas de abusos sexuais ou mentais, ou ambos, seus depoimentos transmitidos numa tela ao tribunal. E fora da área de competência de Fiona, em casos das cortes criminais e não das varas de família, crianças torturadas, mortas de fome ou por espancamento, espíritos maus arrancados de dentro delas em ritos animistas padrastos jovens e cruéis quebrando ossos de bebês sob os olhares abobalhados e cúmplices das mães, e drogas, álcool, sujeira doméstica extrema, vizinhos indiferentes e seletivamente surdos para não ouvir os gritos, assistentes sociais descuidados ou atarefados demais para intervir…”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de dezembro de 2014)

A leitura de A Balada de Adam Henry me fez relembrar das bem-sucedidas peças de Peter Shaffer, como Real Caçador do Sol (1964), Equus (1973) e Amadeus (1979), nas quais com inteligência cênica (e boa dose de esquematismo, pois todas seguiam uma fórmula) um indivíduo disfuncional e incômodo[1], entretanto cheio de vida, no sentido pleno do termo (no que tem de dor e horror também) colocava em xeque o protagonista aparentemente realizado, “ajustado”. Textos de uma época em que a razão ocidental e seus parâmetros eram questionados visceralmente, ainda guardavam um quê da contracultura.

Fiona Maye, a protagonista de Ian McEwan em seu novo romance, é uma juíza da vara de família. Uma decisão controversa de sua parte afetará o futuro de Adam Henry, a poucos meses de se tornar maior de idade (o título original, The Children Act, refere-se à lei britânica correspondente ao nosso Estatuto da Criança e do Adolescente): testemunha de Jeová, ele recusava a transfusão de sangue que o salvaria de sequelas tenebrosas do tratamento de leucemia e da morte certa. Visando o seu bem-estar e pleno desenvolvimento (em especial, depois de visitá-lo no hospital), dentro do entendimento que a lei permite, apesar das convicções arraigadas do próprio rapaz e do respeito ao relativismo cultural, Fiona determina que ele receba a transfusão.

O problema é que Adam é um exaltado (e poeta, resgatando o sentido romântico que outrora revestia o epíteto), amante do absoluto (para quem foi jovem e idealista, será fácil reconhecer-se), por mais ridículo que pareça para os padrões atuais, quando até a juventude parece mergulhada na ironia e na negatividade. Ele se afasta da comunidade religiosa a que pertencia e passa a seguir Fiona, a qual representaria uma instância suprema diversa, a justiça secular, com outra sabedoria (pobre e iludido Adam!) e o poder de transfigurar o destino das pessoas. E dessa forma, no parco contato direto que tem com a mulher que salvou sua vida, ele a confronta com possibilidades transgressivas e insólitas (por exemplo, deseja morar com ela).

Mas nós, leitores, conhecemos muito bem, a essa altura, a juíza (Adam é focalizado de modo mais oblíquo — pudera, é um personagem espinhoso, roçando o improvável), sabemos que o marido a largou, à beira dos 60 anos, “por falta de ardor”, e que ela vive o cotidiano mais rotineiro e convencional, no que tais palavras podem sugerir de estreito, mesmo com uns laivos diferenciais (é musicista amadora, porém talentosa). Embora profissional capaz, justa, e uma boa pessoa, não há ninguém mais distante de ser um indivíduo estimulante — capaz de mudar, de fato, fora das prerrogativas legais, qualquer existência — do que ela.

Por infelicidade, num determinado momento, Fiona se deixa levar pela vitalidade voraz de Adam e comete uma ação impensada e ominosa, por todos os padrões da “normalidade”. E então, mesmo num formato narrativo limitado (vejo em A Balada de Adam Henry a vocação de um conto longo, esticado em demasia), Ian McEwan tem a oportunidade de colocar numa fábula de ambientação contemporânea a dimensão do irreparável, fundamento de seu livro mais celebrado, Atonement-Reparação (2001). Nele, o dano causado era retificado através das várias versões literárias que a perpetradora, uma escritora, se propôs ao longo da vida como expiação (uma delas, justamente o romance que líamos).

A questão fascinante suscitada pelos dilemas morais (numa época em que se prega, mas pouco se pratica, o respeito à diversidade) e pelos atos de consequência desastrosa no tecido narrativo de A Balada de Adam Henry se descortina quando o irreparável que se pratica não tem nem o esteio da reelaboração literária dos eventos. De volta a uma forma mais sucinta (não obstante Sweet Tooth-Serena, seu livro anterior, ser uma de suas melhores realizações), McEwan talvez atingisse novamente a voltagem crispada e implacável de sua obra-prima, Amsterdam (1998).

Nada feito. Ele preferiu (assim como sua Fiona) o morno, o cauteloso, aquele voo confortável nas asas da elegância estilística que já comprometera consideravelmente o escopo de Sábado (2006), outra fábula moral sobre a atualidade que prometia muito e resultava desfibrada. Temos muitas passagens citáveis (“Até onde era neurologicamente possível não pensar, ela não tinha nenhum pensamento”, na excelente versão de Jorio Dauster), nada incomuns, contudo, no time de prosadores britânicos de alto coturno, como Margaret Drabble ou Julian Barnes, para citar apenas dois nomes do seu naipe e próximos em faixa etária (e ambos já traduzidos no Brasil[2]).

O leitor, talvez injustamente, se sente meio Adam Henry, forçando a entrada para uma possível (e desejável) exploração em profundidade dos meandros morais o nosso estágio civilizatório, deparando-se com um cutucar a onça com vara longa demais, de dentro de uma zona de conforto bem delimitada. Daí a inesperada nostalgia pelos dramas maniqueístas (nunca chegavam ao fundo, decerto), todavia nada escassos em ardor, do mencionado Peter Shaffer. O Ian McEwan de A Balada de Adam Henry é todo ele uma impecável e indevassável fachada cinzenta

VER TAMBÉM NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2012/06/26/esplendores-e-miserias-de-reparacao/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/28/destaque-do-blog-serena-de-ian-mcewan-ou-as-praticas-invasivas/

balada

_________________________________________

NOTAS

[1] Como Atahualpa, em Real Caçador do Sol, pertencente a uma civilização diferente, “bárbara”, na visão do conquistador europeu. Mas sua função dramática não é muito diferente do perturbado Alan Strang de Equus e do Mozart tal como figurado em Amadeus.

[2] De Margaret Drabble recomendo  A era do gelo (1977), A geração do meio (1980) e A trilha luminosa (1987), publicados pela Rocco assim como diversos livros de Barnes, mais conhecido no Brasil nos últimos anos, após ter recebido o Booker Prize por O sentido de um fim (2011).

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/01/24/o-escritor-como-personagem-conan-doyle-e-seu-caso-dreyfus/

resenha mcewan

book1-sub-superjumbo

28/06/2012

Destaque do Blog: “SERENA” ou As práticas invasivas

“Eu queria personagens em que pudesse acreditar, e queria que me deixassem curiosa sobre o que iria acontecer com eles…”

( uma versão da  resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 26 de junho de 2012)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada na FOLHA DE SÃO PAULO, em 28 de de junho de 2012, VER:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/51329-narrativa-apresenta-delicioso-elogio-do-ilusionismo-ficcional.shtml)

Serena, o novo romance de Ian McEwan, nos lança nos anos 1970, período em que a Grã-Bretanha descambava numa crise de energia (como o resto do mundo ocidental), na inflação, no desemprego, numa onda de atentados do IRA, sem falar nas mudanças drásticas de costumes, que já vinham da década anterior. Até no fechadíssimo Serviço Secreto as mulheres tiveram que ser admitidas! É o caso da narradora, Serena Frome, recrutada (através da ligação amorosa com um professor bem mais velho, desmascarado depois como traidor) para o MI5, onde exerce função subalterna. Apesar da sua formação elitista em Cambridge, ela não passa de uma proletária do mundo da espionagem e no horizonte da sociedade inglesa: “Como funcionária de nível baixíssimo, o salário da minha primeira semana depois de feitos os descontos foi de quatorze libras e trinta pence, na nova moeda decimalizada, que ainda não tinha perdido o seu ar pouco sério, imaturo, fraudulento (…) Eu me virava de uma semana para outra, mas não estava me sentindo parte de um glamuroso mundo clandestino…”.[1]

Serena também é uma leitora voraz de romances, entretanto não aprecia a ficção contemporânea, as experiências formais que não respeitam o “contrato tácito” entre escritor e leitor, desfazendo a ilusão por meio de jogos metalinguísticos e colocando os bastidores da criação à mostra. Ela deseja ler uma ficção que ofereça um chão tão firme quanto a realidade![2] Pobre Serena.

Assim acompanhamos o seu relato, vivaz, desenvolto (e eivado de diminutivos que lhe dão um ar bastante peculiar), que poderia ser, dentro da obra mcewaniana (uma das mais prestigiadas da atualidade) a contrapartida feminina do Leonard de O inocente (1990), o qual também vivenciava uma sombria educação sentimental enquanto servia a espionagem britânica na Berlim ocupada e dividida dos anos 1950[3].

McEwan, pelo menos nos livros que conheço dele (todos da sua época madura, a partir dos anos 90), parece oscilar entre a ambientação em épocas passadas, registrando as microscópicas mudanças comportamentais (Reparação, Na praia são outros exemplos)[4], e um presente contra o qual seus protagonistas neuroticamente adotam uma atitude defensiva (caso de Amsterdam, Sábado e Solar), sentindo-o especialmente ameaçador[5]. Justamente quando parecia mais mergulhado na contemporaneidade, nos impasses  da “virada do milênio” (ao lançar sua provável obra-prima, Amsterdam, em 1998), seu romance seguinte (Reparação, 2000) surgia como algo antiquado, um exercício de virtuosismo estilístico. Até que se descobria que todo aquele “romanção” era a última e desesperada versão que uma escritora dava a fatos traumáticos da sua adolescência. Serena odiaria isso, os tais bastidores à mostra. Pobre Serena.

Amando a ficção, ela é recrutada para uma operação da agência na qual um escritor promissor, Tom Healy, seria financiado (sem o saber) pelo Serviço Secreto como instrumento nos debates ideológicos da Guerra Fria. Apaixonando-se por ele, os dois são alvo de um escândalo, como ela nos contará quatro décadas depois. Ou não? Eis que John Le Carré cede lugar a Paul Auster e suas tramas em que uma ficção contém outra ficção: desmoralizado, Healy desaparece e deixa uma carta para Serena, através da qual ficamos sabendo que a narrativa que estávamos lendo era o romance que ele estava escrevendo durante a ligação escandalosa deles. A serviço do MI 5, ela espionava Tom. A serviço da literatura, ele a transformava em personagem, apropriando-se da sua vida e das suas experiências.[6]

Acompanháramos a “voz” de uma personagem carismática afirmando “não vou perder muito tempo com a minha infância e a minha adolescência; descobrimos então que essa bravata de “não perder muito tempo” se devia ao fato de que Tom, pesquisando a vida da amante, manteve uma impressão vaga desse período de formação. A razão: ao procurar a sua irmã, que leva uma vida “alternativa” fumou maconha com ela (“embora possa ter esquecido quase tudo por causa da névoa da erva). O chão firme tremeu, e o leitor talvez não consiga decidir qual é o processo mais invasivo e insidioso, a espionagem ou a prática ficcional. Mas ambos mostram que não fazemos a menor ideia do que está acontecendo.

Como consolo, basta dizer que se trata de um dos melhores romances do grande escritor britânico e um ótimo trabalho do tradutor de Ulysses, Caetano W. Galindo. No encontro dos dois craques, Sweet Tooth acomoda-se bem por aqui como Serena. [7]


[1] É uma experiência curiosa, pelo menos para mim, perceber a época em que cresci como um período já “histórico”. Foi um dos aspectos mais marcantes da leitura do livro.

[2] Num texto a respeito de RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL, de Ricardo Piglia (que pode ser encontrado no blog), citei o seguinte trecho de SERENA:

“… era narrado por um macaco falante dado a reflexões angustiadas sobre a sua amante, uma escritora que estava tendo dificuldades  com o seu segundo romance (…) Só na última página fui descobrir que o conto que eu estava lendo era na verdade o conto que a mulher estava escrevendo. O macaco não existe, é um espectro, um ser criado pela imaginação irrequieta. Não. E não de novo. Isso não.  Fora a coisa exagerada e bisonha do sexo interespécies, eu desconfiava instintivamente desse tipo de truquezinho ficcional. Eu queria um chão firme debaixo dos pés. Na minha opinião havia um contrato tácito com o leitor, que o escritor devia honrar. Nenhum elemento de um mundo imaginário e nenhum dos seus personagens deveria poder se dissolver por causa de um capricho do autor.  O inventado tinha de ser tão sólido e consistente quanto o real…”

[3] Não obstante esse livro ter sido responsável pela minha demora em conhecer melhor a obra de McEwan. Quando o li (ainda na edição da Rocco, publicada no Brasil em 1992), depois de ver a versão de John Schlesinger, achei um romance laborioso e correto, sem nada de especial. Foi a leitura de Amsterdam (também em edição da Rocco.; agora ambos têm reedição pela Companhia das Letras) que me revelou o autor de SERENA.

[4] Em  SERENA podemos ler, entre muitas outras passagens do mesmo tipo:

“Aquilo [funghi e pancetta] era comida exótica na Inglaterra dos anos 1970…”

“…sacudiu o jornal ruidosamente na minha direção—papel-jornal era barulhento naquela época…”

[a irmã, Lucy]: “…foi a primeira pessoa que eu vi usando um shortinho feito de uma calça Jean cortada…”

[o câncer]Nos anos 1970 estava começando a acabar o tempo em que as pessoas baixavam a voz para dizer a palavra…”

“Ele me apontou uma das cadeiras de plástico injetado de um laranja forte que então começavam a invadir os escritórios…”

[5] Como exemplo, cito dois trechos de SÁBADO (aliás, um romance de que não gostei muito, no todo):

“Faz parte da nova ordem esse estreitamento da liberdade mental, do seu direito de divagar. Não faz muito tempo, seus pensamentos vagavam de um modo mais imprevisível, cobriam uma longa lista de assuntos. Desconfia que está virando um simplório, o sugestionável e afoito consumidor da ração de notícias, as migalhas que as autoridades deixam cair. É um cidadão dócil, que vê o Leviatã ficar mais forte, enquanto ele mesmo se agacha sob a sua sombra… Esse avião russo voou direto para dentro da sua insônia, e Henry sentiu-se perfeitamente feliz em deixar que a notícia e todo o processo de ínfimas alterações nervosas do noticiário, ao longo do dia, colorissem à vontade o seu estado emocional…”

“É uma condição da época, essa compulsão para ver como anda o mundo e unir-s à maioria,  a uma comunidade de angústia. O hábito ficou mais forte nos últimos dois anos; estabeleceu-se uma nova escala de valores de notícias, por conta de cenas monstruosas e espetaculares (…) Todos têm medo disso, mas também uma aspiração mais sombria, na mente coletiva, uma ânsia de autopunição e uma curiosidade sacrílega. Assim como os hospitais têm os seus planos em tempos de crise, as redes de tevê ficam a postos para transmitir as notícias, e o público aguada. Maior, mais gritante, da próxima vez. Por favor, não deixe que aconteça. Mas, mesmo assim, deixe que eu veja tudo, na hora que estiver acontecendo, e de todos os ângulos,  deixe que eu esteja entre os primeiros a saber…”

[6] Eu era um romancista sem romance, e agora o acaso tinha jogado um belo de um osso na minha direção, o esboço de uma história útil. Uma espiã estava na minha cama, a cabeça dela estava no meu travesseiro, os lábios dela estavam grudados na minha orelha. Ela escondia seus motivos reais e, o que era crucial, não sabia que eu sabia. E eu não ia contar. Então eu não ia confrontar você, não haveria acusações ou uma briga final e uma separação, ainda não. Em vez disso, silêncio, discrição, uma espera paciente, e literatura. Os eventos decidiriam a trama. Os personagens já estavam prontos. Eu não ia inventar nada, só registrar. Ia ficar olhando você trabalhar. Eu também podia ser espião…”

[7] Há alguns pequenos reparos que poderiam ser feitas, mas que no geral não comprometem em nada o trabalho de Galindo: acho, contudo, que ele utiliza certas gírias, como “dar de barato” ( expressão repetida várias vezes no texto brasileiro) que podem fazer seu trabalho ficar rapidamente datado.

São Paulo, quinta-feira, 28 de junho de 2012Ilustrada
Ilustrada

CRÍTICA ROMANCENarrativa apresenta delicioso elogio do ilusionismo ficcionalALFREDO MONTE
ESPECIAL PARA A FOLHA
Serena, a protagonista do novo romance de Ian McEwan, relata como, nos anos 1970, se envolve numa operação que a aproxima de Tom Healy, escritor que seria financiado (sem o saber) pelo departamento de espionagem onde ela é uma funcionária subalterna.

Apaixonando-se, fica num dilema: como contar a ele que está sendo usado como instrumento da Guerra Fria?

Eis os fatos “sólidos” da narrativa, com uma personagem que nos pega de jeito com sua voz peculiar.

Como em “O Inocente”, McEwan utiliza a espionagem, o recuo temporal e a educação sentimental da protagonista para projetar inquietações atuais sobre o futuro da Inglaterra.

Sua obra oscila entre o passado que emerge em decisivas mudanças de costumes (“Na Praia”) e o presente ameaçando personagens na defensiva (“Sábado”).

Mas eis que, disseminadas na narração de Serena, temos pistas de que John le Carré vai dar lugar a Paul Auster.

Ou ao McEwan de “Reparação”, um romanção bem sólido (e à primeira vista surpreendente num autor que produzira algo tão “virada do século” e pós-modernista como “Amsterdam”, talvez sua obra-prima) e que se revelava “líquido” -era apenas uma das inúmeras versões de fatos com as quais uma escritora lutava durante boa parte da sua vida.

[O leitor que não queira saber surpresas da nova trama deve parar de ler por aqui.]

Em “Serena”, conhecemos algumas obras de Tom Healy. A principal delas é o próprio relato que estamos lendo, onde o escritor revela ser o espião da existência da agente secreta que o monitorava.

Mais ainda, trata-se de um cabo de guerra entre duas concepções de mundo: leitora voraz, Serena quer a ficção nos trilhos da representação fingidora, sem os bastidores à mostra, sem malabarismos metalinguísticos; Healy, como escritor, obriga-a a ver os truques todos, a fabricação do ilusionismo.

Um dos detalhes mais deliciosos desse elogio do pacto ficcional que é “Serena” mostra como nós, leitores, fomos manipulados. Havíamos seguido a “voz” da personagem carismática dizendo “não vou perder muito tempo com a minha infância e a minha adolescência”.

Descobrimos então que essa afirmação se devia ao fato de que o escritor, pesquisando a vida de Serena, manteve uma impressão vaga desse período de formação.

A razão: ao procurar a irmã dela, ficou chapado de baseado (“embora possa ter esquecido quase tudo por causa da névoa da erva”).

É um “mútuo engodo”, do qual o leitor também participa com prazer, se estiver disposto a assistir à peça de olho nos bastidores.

SERENA
AUTOR Ian McEwan
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Caetano W. Galindo
QUANTO R$ 39 (384 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

Blog no WordPress.com.