MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/05/2012

15 DESTAQUES DE 2010

(uma versão reduzida saiu em A TRIBUNA de Santos de 04 de janeiro de 2011)

É sempre  bom esclarecer que quando um crítico propõe destaques entre as publicações de um ano, ele não está propondo uma lista de melhores, o que seria risível. Quem lê tudo o que se lança num ano? E se lesse, que tipo de pessoa seria essa?  Por exemplo, saíram em 2009 e são dois dos melhores livros da década  A fantástica vida breve de Oscar Wao, de Junot Díaz, e Quando haverá boas notícias, de Kate Atkinson, e o leitor não os encontrará na minha lista do ano passado. O mesmo deverá acontecer com lançamentos de 2010, que não tive oportunidade de ler. Também não entrarão na minha lista obras que ganharam nova tradução, caso de reaparições importantíssimas, como  Walden, de Thoreau, nas mãos especialíssimas de Denise Bottmann, ou as novas versões dos romances de William Kennedy (A grande jogada de Billy Phelan & Ironweed), ou de Henderson, o rei da chuva, de Saul Bellow, ou ainda de A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Nabokov, só para citar alguns; ou então  novas edições de autores essenciais (é o caso de dois lançamentos primorosos do ano que acabou, os Contos Completos de Lima Barreto e a edição conjunta de Diário do Hospício  & Cemitério dos Vivos).

Tendo em mente essas limitações, eis 15 lançamentos imprescindíveis do último ano (em comentários sumários e necessariamente superficialíssimos):

1)Sartoris, de William Faulkner (CosacNaify)-  Romance fundador, que em 1929 deu início à saga da decadência sulista, representada pelo mítico condado de Yoknapatawapha, um dos lugares fundamentais da ficção,  e em que a obsessão do maior escritor norte-americano pelo tempo se traduz numa narrativa  caleidoscópica fascinante.

2) Verão, de J.M. Coetzee, e Invisível, de Paul Auster (Companhia das Letras)-  Dois dos mais notáveis escritores da pós-modernidade no auge de sua maestria, em relatos que se aproximam do limite do relato tal como conhecemos.

3) Memórias Inventadas, de Manoel de Barros (Planeta)- Um poeta que se recusa a sair da infância e vet o mundo e a linguagem  com outros olhos que não sejam os da não-domesticidade, do não-conformismo. O resultado é uma poesia-brincadeira-infantil muito séria e contundente. Neste ano também, pela Leya saiu a sua Obra Completa, a qual preencheria um ano todo da vida de um leitor.

4) O arquipélago da insônia, de António Lobo Antunes (Alfaguara)- O mais lírico e pungente dos livros ciclópicos publicados pelo grande autor português nesta última década, chegando ao requinte de ter um narrador autista. Também prova cabalmente como a lição de Faulkner foi fecunda. Mas poucos o seguiram com tal radicalismo.

5)A câmara de inverno, de Anne Michaels (Companhia das Letras)- Finalmente, depois de mais de uma década,  o segundo romance da fabulosa autora canadense, que já criara um fascinante deslocamento geográfico em  Peças em fuga. Memória, esquecimento, conservação, deterioração, os opostos se atraem nessa autêntica poesia da prosa, incursão bissexta no gênero narrativo de uma poetisa consagrada.

6) Senhores e Criados e Outras Histórias, de Pierre Michon (Record)- O grande autor francês, de Vidas minúsculas, aproxima a ficção  da pintura e do relato biográfico, em três textos, pelos quais circulam figuras como Van Gogh, Goya, Watteau, Piero della Francesca ou Claude Lorrain. Michon é da estirpe de um W. G. Sebald ou de um Claudio Magris.

7) Um homem apaixonado, de Martin Walser (Planeta)-  Uma bela incursão pela alma, mente, espírito e corpo de Goethe, o qual, septuagenário, se inspira na sua paixão por uma mocinha de 19 anos para compor um de seus mais famosos poemas. É o eros da criação contra a aproximação da morte, e aí não importa tanto se a paixão biográfica foi bem sucedida ou não.

8) A morte de Matusalém, de Isaac Bashevis Singer (Companhia das Letras)- O maior contador de histórias curtas da 2ª. metade do século XX em plena forma, tanto nas incursões sobrenaturais, onde mergulha no imaginário judaico, quanto (ou sobretudo) nas soberbas narrativas realistas.

9) Hóspedes do Vento, de Chico Lopes (Nankin)- Talvez o mais talentoso contista  brasileiro surgido nesta década, em sua terceira e mais equilibrada coletânea, após os talentosos Nó de sombras & Dobras da noite.

10) Sabres e utopias, de Mario Vargas Llosa (Objetiva)-  Uma chance de conhecer o pensamento político do incontornável vencedor do Nobel de 2010, sem que necessariamente tenha de se concordar com ele.

11) A questão dos livros, de Robert Darnton (Companhia das Letras)- magnífica reunião de ensaios  do historiador norte-americano onde ele discute o passado, o presente e o futuro do livro e do conhecimento enciclopédico.

12) Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify)- Quanto mais vou conhecendo a obra de Vila-Matas, mais vou achando que ele é um dos grandes nomes da literatura atual. Este talvez seja o seu livro mais ambicioso.

Hors concours: 2666, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras) & Os embaixadores, de Henry James (CosacNaify)- O que teria em comum um romance escrito por um Chileno e que transcorre num México microcosmo da nossa época, e um romance  em que James nos mostra o problema do cosmopolitismo, a problemática convivência entre americanos e europeus? Simplesmente são os romances mais ambiciosos escritos na década inicial do século, no caso de Bolaño, o nosso próprio século, e no caso de James, o século passado, e que parecem esgotar as formas narrativas em curso.

Feliz 2011 e um monte de leituras para todos.

17/03/2012

Destaque do Blog: HÓSPEDES DO VENTO, de Chico Lopes

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/03/17/onde-os-fracos-nao-tem-vez/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/23/o-conforto-do-acanhamento-e-as-promessas-do-breu-o-estranho-no-corredor-de-chico-lopes/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/13/15-destaques-de-2010/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de agosto de 2010)

Jorge Luis Borges afirmava que Henry James era um “habitante resignado do Inferno”.  Ao longo das coletâneas Nó de Sombras (2000) e Dobras da Noite (2004), Chico Lopes—não por acaso tradutor e admirador do autor de A Volta do Parafuso—delineou muito claramente o “Inferno” específico por onde se movem seus personagens. Em termos espaciais, ele poderia ser circunscrito pela seguinte passagem, que consta do seu terceiro livro, Hóspedes do Vento, lançado este ano (pela Nankin):

“Gente espremida, coisas que a nova cidade encurralava com bares, lanchonetes, carros estacionados com toca-fitas estrugindo música sertaneja, lojas de 1,99, de conveniências, e difícil chamar de footing o que havia na rua 15 de Janeiro, mas uns remanescentes, de idade indefinível, ainda subiam e desciam. Sem esperar mais nada, cumpriam a rotina por nunca terem tido outra coisa ou imaginação para sequer cogitar dela. Milagre que ainda andassem para cima e para baixo, sem rumo, que não fossem nomes nos anúncios da funerária, colocados nos principais pontos da rua”

Ou seja, o espaço urbano das pequenas cidades interioranas tornou-se “moderninho” como qualquer lugar do planeta, entretanto não eliminou as almas perdidas, os fantasmas, a má consciência quase mítica que ficou de uma época espremida entre um tradicionalismo sufocante e uma transformação célere, sobretudo espetaculosa, sem atingir de fato os alicerces da repressão sexual, dos recalques, das fantasias, dos fetiches; enfim uma realidade em que um dos personagens de Dobras da Noite pode confidenciar a outro: “Parceiro, foi aqui que eu entendi direito o que é solidão, o que significa ser uma alma penada”. Ou, como lemos na nova coletânea, “Mágoa de que viver fosse isto—um eterno suspiro por uma não-existência, por algo cuja comprovação jamais fora possível”.

Homens cuja “falha trágica” é a virilidade débil e titubeante, arrastando-se de bar em bar, gays, mulheres solitárias, os personagens de Hóspedes do Vento se arrastam pelo “Inferno” inscrito vigorosamente por Chico Lopes no mapa da nossa ficção contemporânea, porém de uma maneira a princípio mais fluida, menos espessa e irrespirável, do que nos  volumes anteriores.

Dos treze contos reunidos, boa parte se constitui de textos curtos, de grande precisão técnica e nos quais o foco narrativo feminino é bastante explorado:  homens-fetiche de masculinidade, assovios incitadores, povoam as histórias de O assovio, O nome no ar, Perdendo Heitor. Enquanto isso, rapazes passam por testes de virilidade, sempre aquém das imagens do “macho da espécie”, triunfante e dominador, em A mulher do cantor (onde se exercita uma espécie de narrativa à Vargas Llosa, em que uma colóquio conduz a narração) e O quarto da atriz (o melhor dos textos curtos de Hóspedes do Vento, a meu ver, e do qual eu extraí a longa a citação acima sobre o espaço urbano): “Encostei-me àquelas paredes, excitado, esgueirando-me para frente, para finalmente ficar junto à janela, passar os dedos sobre sua madeira, afagá-la, descascá-la mais um pouco. Era preciso urinar, urinar livremente, para tornar tudo isso mais completo.Era meu, era eu”.

A certa altura do livro, os contos vão ficando maiores e se espessando. Chico Lopes parecia ter conduzido o seu leitor para um caminho mais leve e menos áspero… ledo  engano, era apenas um atalho para encurralá-lo novamente nesse seu universo em que noite e a sombra se dobram e formam nós inescapáveis. E dessa vez, o envelhecimento, a realidade bruta da morte enquanto possibilidade, aparece como um componente muito presente, caso de Dois no Espelho, no qual a aparente superioridade de um velho heterossexual sobre um equivalente homo se esfuma.

E aí então três contos logos e maravilhosos se encarregam de recolher os leitmotivs semeados ao longo da sua trajetória ficcional, amplificando-os e tornando-os vertiginosos: todas as mulheres dos outros contos e seus “heróis” másculos se condensam na procura fantasmática da protagonista de A terceira porta, todos os homens tíbios e acossados (agora inclusive pela idade e pela “indesejada das gentes) podem ser representados pelo Max de A recusa, o qual movido pelo seu nome de conquistador (Maximiliano, assim como outro personagem, o de O caso dos pés, prefere o nome estrangeiro e de general vencedor, Wellington, em lugar do verdadeiro, de que ele se envergonha tanto, como símbolo da sua pobreza e insignificância), disputa uma garota muito, mas muito mais jovem, com outro galanteador maduro (só que mais vulgar e truculento) até que se vê acossado pelo pavor primordial:

Não quer dormir, a idéia vem assustando-o ultimamente, desde que começara a ter pesadelos, desde que começara a achar que esse prédio—um dos mais antigos da cidade—fora má escolha, nesses três anos. Mudara muitas vezes de endereço, nada o satisfazia, e achara, no início, que ali estaria bem, próximo a tudo, todos os ruídos, a vida da cidade a subir-lhe pela janela, mas um esconderijo tranqüilo; a vista dava-lhe uma sensação de domínio, era o último andar, mas a verdade é que havia velhos demais, que pela noite adivinhavam-se tosses, servidões, vísceras inquietas, movimentos nauseantes, naquelas mulheres divorciadas, viúvas ou simplesmente solitárias pela vida toda, naqueles senhores que pareciam estar sempre indo e vindo de hospitais, gente que por vezes aparecia pálida no elevador, gente que tentara se aproximar dele, mas fora repelida e mantinha agora um olhar ressentido e malévolo, bem metido, esse aí, ouvira um ex-vereador dizer entre dentes, e os corredores, e o mofo difícil de debelar, e um cheiro de coisas deixadas, acumuladas, perdidas, furtivas, escamoteadas, restos obscuramente fatais a impregnar paredes, a tornar os corredores anormalmente vivos e de uma melancolia ameaçadora. Por vezes, ao descer do elevador, a luz automática não funcionava, e parecia demorar demais a chegar a seu apartamento, parecia que teria que lutar contra densidades no ar; um ondular de forças, de lembranças, olhares, pequenas bocas borradas de batom, ávidas de sugar, pedaços de cabelos, pernas, fragmentos de muitas almas que se interpunham entre ele e a porta, até que, finalmente, alívio, a abrisse.”

 

E no outro ponto alto de Hóspedes do Vento, os rapazes todos obcecados com seus ritos de passagem, que povoaram todos os três livros de Chico Lopes (o que já rendera um dos seus melhores contos, Cavalo e Sombra, de Dobras da Noite) se cristalizam no narrador de Estrela de Junho. Temos ao mesmo tempo Paraíso (através da rememoração quase proustiana), Purgatório e (o já esperado) Inferno: hipocrisia, disse-que-disse, desejos reprimidos e no entanto um lirismo que nos permite ver, ouvir, sentir, pressentir, quase cheirar essas reminiscências, nas quais encontramos esta bela passagem (que aparece após um escândalo “sexual” na festa junina principal da cidadezinha , ainda num tempo sem “gente espremida, coisas que a nova cidade encurralava com bares, lanchonetes, carros estacionados com toca-fitas estrugindo música sertaneja, lojas de 1,99, de conveniências” ):

[meu pai] “sorria para si, lembrando de algo bem preciso e cômico que não ia me contar; cuspia de lado, ria outra vez, batia com força no meu ombro; gostava que a minha cara de inexperiência ficasse u pouco corada, que tivesse o que me ensinar.

      Mas, quanto ao que eu aprendia, era obscuro…”

Portanto, apesar das novidades, da variedade maior, da técnica ainda mais apurada, Chico Lopes nos faz sentir o mesmo que o personagem de Certo pássaro Noturno, que fecha com honra o seu melhor livro: “Mudara de estado, embocara em outra geografia, e por isso era estranho que, de repente, ao abrir um pouco mais a janela, parecesse estar voltando a um quadro bem conhecido….” Sorte para nós, leitores.

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