MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/03/2017

UM CLÁSSICO DO MODERNISMO E DA CONTRACULTURA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de março de 2017)

Na semana passada, comentei Ao Farol, de Virginia Woolf, por conta dos 90 anos de sua publicação original. Outro clássico do modernismo, também surgido em 1927, ainda mais influente (marcou profundamente a época da contracultura, nos anos 60), é O LOBO DA ESTEPE, a mais conhecida obra do grande Herman Hesse.

Harry Haller, o protagonista, está chegando aos 50 anos obcecado pela ideia de degolar-se com uma navalha, para fugir da angustiante divisão do seu ser em duas personalidades: uma burguesa, que deseja calor, companhia (ele, um errante, sempre se hospeda em casas que lembram sua infância); outra, que ele denomina de “lobo da estepe”, misantropa e desadaptada, destinada à solidão e orgulhosa dessa condição.

Doris Lessing, a respeito de O Carnê Dourado (1962), romance que tem muitas afinidades com O LOBO DA ESTEPE, inclusive por causa da estrutura ousada e complexa, afirmou que às vezes pirar é uma forma de autocura, uma maneira de nosso eu interior eliminar falsas dicotomias e divisões. É o que acontece com Harry Haller: ele é convidado a participar de um Teatro Mágico, “só para raros e loucos”.

Esse teatro é sua própria personalidade. Hesse investe contra a pretensa unidade do eu. Na verdade, somos um feixe de eus: “Não há nenhum eu, nem mesmo o mais simples, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas”.

E Harry, ao longo do romance, irá experimentar algumas das suas outras almas, numa saudável esquizofrenia, por assim dizer, tendo como guias Hermione e Pablo. Hermione é seu duplo feminino, a cortesã que o obriga imperativamente a usufruir da vida, a dançar, a praticar intensamente o sexo, a se dissolver “na festa”.

Pablo, por sua vez, é o belo músico aparentemente burro e tolo, mas que se revela o guia para os mais recônditos cenários do Teatro Mágico, aqueles onde Harry terá que se deparar com suas almas mais sombrias. Pois uma das “lições” da história de Harry Haller é que se precisa do humor, acima de tudo; para se encarar a vida a sério é necessário não se levar a sério. Como o Mozart do Teatro Mágico diz a Haller: “Aprenda a levar a sério o que merece ser levado a sério, e a rir de tudo o mais!”.

Contudo, o melhor de O LOBO DA ESTEPE é que não há soluções ou verdades definitivas, nem o personagem acaba bem, apaziguado, conciliado. Esse livro, na terceira leitura, como na primeira (e provavelmente numa quinta ou décima) é um duro e perturbador reaprendizado da sensibilidade e da percepção do mundo. E sempre restará ao leitor a esperança de, na próxima leitura, ter aprendido a jogar melhor o jogo da existência, desejo formulado por Harry nas frases finais.

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01/12/2015

O MÁGICO E O UMBRAL: AS BIOGRAFIAS CONJETURAIS DE HERMANN HESSE

SWITZERLAND-LITERATURE-HERMANN-HESSECapa Demian V3 MF

[uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 18 de novembro de 2015, ver: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/11/o-magico-e-umbral-as-biografias.html]

1

Não deixa de ser um fato inusitado, apesar de auspicioso, a Record publicar uma edição comemorativa dos cinquenta anos da tradução de Ivo Barroso para Demian História da juventude de Emil Sinclair[1].  Texto-ícone do século vinte, fez a cabeça de muitos. Nele encontramos a famosa e nietzschiana frase: «Quem quiser nascer tem que destruir um mundo».

Hermann Hesse (1877-1962) publicou-o em 1919 sob pseudônimo e houve muita especulação na época sobre a verdadeira identidade do autor. Quando foi descoberta, o livro passou a ser considerado uma espécie de divisor de águas na sua trajetória artística. E um grande salto, constata-se hoje, embora na memória de quem aqui escreve e tenham permanecido, durante anos, após a primeira leitura, muitos aspectos irritantes e literariamente derrisórios, a saber:

1) essas pessoas (guias, como são denominadas) que aparecem do nada e que dão ao leitor a ideia de que o universo inteiro está voltado para o destino do protagonista, Emil Sinclair;

2) os símbolos (o pássaro heráldico meio gavião meio fênix, o sinal de Caim, a mãe que se chama Eva), que são exaustivamente explicados para o leitor, como se este fosse retardado;

3) a ausência absoluta de um pano de fundo mínimo para as reviravoltas íntimas do personagem, já que todos à sua volta parecem fantasmas;

4) os diálogos irreais e inverossímeis, e, se pensarmos na faixa etária dos personagens (se é que se pode chamar de personagens seres tão esquemáticos, pedantes e pomposos).

Recapitulemos o fio de enredo: Emil Sinclair, aos 10 anos, oriundo de uma família extremamente religiosa, fica à mercê de outro menino, Kromer, que faz chantagem com ele. Um terceiro garoto, Max Demian, forasteiro que começou a estudar no mesmo colégio de Sinclair, aproxima-se dele e consegue afastar Kromer.

A experiência com Kromer faz Sinclair entrar em contato com o que ele chama de mundo sombrio, subjacente ao mundo luminoso representado pela família. Demian revela, através de uma reinterpretação da história de Caim, que não existe tal dicotomia: o mundo é ao mesmo tempo luminoso e sombrio. Mas Sinclair ainda não está preparado para aceitar tal verdade (e «the readness is all», como diria Hamlet), e através de suas experiências como adolescente mantém uma visão dualista: ora cai na esbórnia, na dissipação, ora cultua a pureza e a santidade[2].

Durante essa trajetória, Demian manteve-se afastado da vida de Sinclair e este teve como único amigo o organista (e sacerdote frustrado) Pistórius, que lhe ensina tudo sobre Abraxas, divindade da Antiguidade a um só tempo Deus e Demônio, congregando em si o luminoso e o sombrio.

A aproximação da guerra é o paralelo coletivo da busca de Sinclair: ele tem de sair da casca, isto é, destruir um mundo, para nascer um novo homem; e o mundo carcomido da Europa talvez tenha de passar pela destruição para renascer como a ave fênix: «A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir o mundo».

As quatro objeções mencionadas só funcionam se forçarmos a barra para enquadrar convencionalmente Demian como romance ou novela. Sem essa muleta classificatória, o texto revela suas qualidades e o seu alcance. E nos damos conta de que foi escrito por um poeta que se exprime num relato lírico, projeção poética de experiências pessoais, que não demanda qualquer verossimilhança, pois se fundamenta numa simbologia particular. Que se aceita ou não.

Só mais tarde é que Hesse conseguiu se reequilibrar como narrador, conservando as conquistas de Demian. Surgiram, assim, seus autênticos romances: O lobo da estepe, Narciso e Goldmund e O jogo das contas de vidro.

Vencidos (parcialmente, é preciso confessar) certos preconceitos literários, é fascinante observar, numa releitura, como Hesse trabalha com vários elementos do imaginário cristão (a história de Caim, a figura de Eva, os dois ladrões crucificados com Jesus, a luta de Jacó com o anjo) para lançá-los de encontro a conceitos do pensamento religioso oriental, principalmente aqueles que são o que talvez de mais coerente e pertinente se tenha pensado sobre o mundo e a existência, isto é, aqueles que se baseiam na impermanência de todas as coisas, mesmo as que amamos; e, além do orientalismo (que daria origem ao seu belíssimo livro seguinte, Sidarta, de 1922[3]), a presença da psicanálise de feição junguiana, com o uso insistente dos sonhos e do inconsciente coletivo, sem contar uma inequívoca tendência edipiana.

Aliás, tudo isso está representado no texto pela mudança de significado de outro símbolo importante: o umbral (ou soleira) que a princípio servia para delimitar o mundo luminoso e o mundo sombrio, e depois é retomado como símbolo de passagem, mas uma passagem que faz tudo convergir e que congrega tudo, inclusive as contradições.

E se o livro parecia antes egocentrado em demasia, agora parece simplesmente individualista[4]. No melhor sentido da palavra. Num mundo uniformizado, onde todos querem se nivelar pelo denominador comum do consumo e da facilidade, ler o processo de constituição de uma individualidade verdadeira e poderosa é algo eletrizante. O próprio texto encarrega-se, por sua vez, de investir contra o rebanho, a submissão à massa:

«Os filhos de Caim, marcados com o “sinal”, atemorizavam os demais, e aquele sinal passou a ser explicado não como a distinção que realmente era, mas exatamente como o contrário. Passaram a dizer que os homens assim marcados eram pessoas suspeitas e ímpias, o que, na verdade, ocorria. Pois os homens corajosos, as pessoas de caráter, sempre inquietaram os demais. Tornava-se, portanto, francamente incômoda a existência de uma raça especial de homens sem medo e capazes de infundir medo aos demais, e então lhes atribuíram um apodo e uma lenda amarga para se vingarem daquela raça e justificarem de certo modo os temores sofridos…. Entendes?

 — Acho que sim… Mas… nesse caso, Caim não era mau e toda a narração da Bíblia está errada.

 — Está e não está…. Essas histórias da remota antiguidade são sempre em essência verdadeiras, mas nem sempre foram recolhidas e explicadas com toda a garantia de exatidão. Para resumir, minha opinião é que Caim era um verdadeiro homem, e lhe arranjaram essa história porque o temiam. A origem do assunto não passou de um murmúrio, como tantas dessas coisas que se contam por aí; mas a fábula tinha cunho de verdade no que diz respeito a Caim e seus filhos trazerem um sinal e se diferençarem dos demais homens… ».

 

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                                                   2

Em Autobiographical writings, traduzido no Brasil como Minha vida, Theodore Ziolkowski reuniu doze textos autobiográficos de diversas épocas, feições e níveis de qualidade. Nenhum deles é desperdício de tempo, três são especialmente lindos.

O meu favorito, de longe, é Hóspede do Balneário (1924); como esquecer, contudo, A infância do mágico (1923) ou Autobiografia resumida (1925)? Este último é muito curioso e instigante: até certo ponto, Hesse parece estar nos contando de uma forma poética e concentrada os caminhos da sua vida, mas em determinado ponto, assim como fez com seus personagens nos romances, ele inventa um destino biográfico para si, fazendo um exercício de biografia conjetural. Assim, por exemplo, a persona, ou eu lírico, que nos narra sua autobiografia mostra como anelou por ser poeta desde a adolescência («A questão era a seguinte: a partir do meu décimo terceiro ano de idade tornou-se claro que eu queria ser poeta ou nada»). Vocação assumida e até bem-sucedida enquanto carreira profissional, por incrível que pareça, de repente uma terrível cisão interna, que a Primeira Guerra acarretou, fez com que abraçasse um pacifismo revoltante para seus concidadãos e amigos, amargando um terrível isolamento («vi-me denunciado como traidor»).

O sofrimento e os conflitos, tanto externos quanto interiores (faz um severo exame de consciência, «obrigado a procurar a causa de meus sofrimentos não externamente, mas dentro de mim») desemboca numa radical transformação pessoal. Nós sabemos, por Demian, que isso aconteceu de fato com Hermann Hesse.  Mas ele transforma seu poeta num pintor, envolvido também com magia, que acaba sendo preso («Com mais de setenta anos de idade, logo após ter sido escolhido por duas universidades para receber graus honorários, fui levado a julgamento por ter seduzido uma jovem usando mágica»). Na prisão, ele pinta uma paisagem (atravessada por um trem) na parede da cela e a fantasia biográfica vai se encaminhando para um fim digno de Borges:

«Foi diante desse quadro em minha cela que eu me achava um dia, quando os guardas chegaram mais uma vez, com seu chamamento tedioso e tentaram arrancar-me de minha atividade feliz. Nesse momento senti cansaço e algo como uma revolta contra toda aquela azáfama, aquela realidade brutal e sem espírito. Se não me permitiam ficar com meu inocente jogo de artista, sem ser perturbado, nesse caso devia recorrer àquelas artes mais severas a que havia dedicado tantos anos da vida. Sem a mágica, aquele mundo era intolerável.

   Chamei ao espírito a fórmula chinesa, mantive-me por um minuto com a respiração suspensa e me libertei da ilusão da realidade. Depois solicitei afavelmente aos guardas que fossem pacientes por mais um momento, já que tinha de entrar em meu quadro e procurar alguma coisa no trem. Eles riram como costumavam fazer, pois me consideravam mentalmente desequilibrado.

   Foi quando me tornei pequeno e entrei em meu quadro, embarquei no trenzinho e segui nele para o túnel pequenino e negro. Por algum tempo a fumaça de fuligem continuou a ser visível, saindo do buraco redondo, depois se dispersou e desapareceu, e com ela todo o quadro e eu com ele.

   Os guardas ficaram para trás, tomados de grande embaraço».

Esse texto fantasioso e notável prolonga a vivência descrita em Infância do Mágico, onde são acrescentados aos detalhes reais (ele evoca os pais, o avô de uma forma extraordinária) elementos “fantásticos” que, na verdade, reproduzem as percepções de qualquer criança imaginativa: «Duradouro foi o meu sonho infantil de que o mundo me pertencia, que somente o presente existia, que tudo se achava arrumado em volta de mim para tornar-se um belo brinquedo… Tudo era prenhe de realidade e tudo era prenhe de mágica, os dois cresciam conscientemente lado a lado, ambos me pertenciam… Como era diferente o aspecto da nossa porta dianteira, o barracão do jardim e da rua em uma noite de domingo, confrontado com a manhã de segunda-feira! Que semblante inteiramente diverso o relógio da parede e a imagem de Cristo na sala de visitas apresentavam no dia em que o espírito do vovô dominava, em confronto com aqueles dias quando dominava o espírito de meu pai, e como tudo isto mudava outra vez e por completo naquelas horas quando não havia mais o espírito de pessoa alguma, senão o meu próprio, dando às coisas sua assinatura, quando minha alma brincava com as coisas e lhes conferia nomes e significados novos… Como era pouco o que se mostrava fixo, estável, duradouro…».

Em 1924, o futuro amigo íntimo (a essa altura, longe disso; apesar de se conhecerem há muitos e muitos anos) Thomas Mann lançava A montanha mágica. Hesse, por sua vez, sofrendo com a ciática, passou algumas semanas na estação de águas de Baden. Escreveu então uma longa e apaixonante crônica da sua estadia, que parece ser a contrapartida miniatural do enciclopédico e ciclópico livro do colega. Uma joia rara, desde o momento em que ele desce na estação, reconhecendo seus “companheiros” e “concidadãos” no universo da ciática, ao mesmo tempo sentindo-se superior por poder andar um pouco mais desembaraçadamente, sem tantos indícios de invalidez: «Via-me cercado de longe e de perto por colegas sofredores, competidores junto aos quais eu era vastamente sofredor. Que sorte a minha ter vindo a tempo, ainda na primeira etapa de uma ciática camarada, ainda com os primeiros sintomas débeis de artritismo inicial! Fazendo a volta e apoiado na bengala fiquei olhando o leão-marinho por algum tempo, com aquela sensação conhecida de satisfação, provando que a língua não pode ainda exprimir os processos psicológicos, pois os opostos linguísticos, maldade e solidariedade, aqui se encontram unidos com a maior profundeza».

A partir daí não há uma página em que o leitor não tenha um trecho deslumbrante em sua percepção da natureza humana, dos próprios processos íntimos neuróticos (a insônia e seus tormentos, e a premente, mas quimérica necessidade de encontrar um quarto de hotel “tranquilo”). Enfim, uma obra-prima de um mágico que tirava existências da cartola.

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ANEXO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de dezembro de 2015)

Não deixa de ser um fato inusitado, apesar de auspicioso, a Record publicar uma edição comemorativa dos cinquenta anos da clássica tradução de Ivo Barroso para Demian. Mas se trata de uma obra que fez a cabeça de gente sem conta. Hermann Hesse publicou-o em 1919, sob pseudônimo, e houve muita especulação na época sobre a verdadeira identidade do autor. Quando foi descoberta, o livro passou a ser considerado uma espécie de divisor de águas, e um grande salto mortal, na sua trajetória artística.

Recapitulemos o fio do enredo: Emil Sinclair, aos dez anos, oriundo de uma família extremamente religiosa, fica à mercê de Kromer, que faz chantagem com ele. Um terceiro garoto, Max Demian, forasteiro, aproxima-se dele e consegue repelir o colega assediador.

A experiência com Kromer faz Sinclair entrar em contato com o que ele chama de mundo sombrio, subjacente ao mundo luminoso representado pela família. Demian revela, através da reinterpretação da história de Caim, que tal dicotomia não se sustenta: o mundo é luz e sombra. Sinclair, contudo, ainda não está preparado para aceitar essa verdade, e através de suas experiências como adolescente mantém uma visão dualista: ora cai na esbórnia, na dissipação; ora cultua a pureza e a santidade.

Durante essa trajetória, Demian manteve-se afastado da vida de Sinclair e este teve como único amigo o organista (e sacerdote frustrado) Pistórius, que lhe ensina tudo sobre Abraxas, divindade da Antiguidade, a um só tempo Deus e Demônio.

A aproximação da guerra é o paralelo coletivo da busca de Sinclair: ele tem de sair da casca, isto é, destruir um mundo, para nascer um novo homem; e o mundo carcomido da Europa talvez tenha de passar pela destruição para renascer como fênix: «A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir o mundo». Aliás, tudo isso está representado no texto pela mudança de significado de outro símbolo importante: o umbral (soleira) que a princípio servia para delimitar o mundo luminoso e o mundo sombrio, e depois é retomado como símbolo de passagem, que faz tudo convergir e congrega todos os dados do existir, inclusive as contradições e dilaceramentos.

Demian foi escrito por um poeta que se exprime num relato lírico, projeção cifrada de experiências pessoais, que não demanda qualquer verossimilhança, pois se fundamenta numa simbologia muito particular. Que se aceita ou não. Vencido certo pé-atrás literário, é fascinante observar, numa releitura, como Hesse trabalha com vários elementos do imaginário cristão (Caim, Eva, os dois ladrões crucificados com Jesus, a luta de Jacó com o anjo) para lançá-los de encontro a conceitos do pensamento místico oriental  que se baseiam na impermanência de todas as coisas, mesmo as que amamos; e, além do orientalismo (que daria origem ao seu belíssimo livro seguinte, Sidarta, de 1922), a presença da psicanálise de feição junguiana, com o uso insistente dos sonhos e do inconsciente coletivo.

Um livro individualista. No melhor sentido da palavra. Num mundo uniformizado, onde todos querem se nivelar pelo denominador comum do consumo e da facilidade, ler o processo de constituição de uma individualidade verdadeira e poderosa é algo eletrizante. Enfim, uma obra-prima de um mágico (figura artística muito prezada pelo Nobel de 1946) que tirava existências da cartola, em inesquecíveis biografias imaginárias

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NOTAS

[1] Publicada primeiramente pela Civilização Brasileira.

[2] Essa polarização reaparecerá nas trajetórias dos protagonistas de um grande romance da maturidade de Hesse, Narciso e Goldmund (1930).

[3] Traduzido no Brasil por Herbert Caro, também em 1965.

[4] Bom lembrar que a “individuação” é o objetivo da psicanálise junguiana.

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25/01/2013

“O triste hábito de ser alguém”: a poesia do último (ou penúltimo) Borges

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INTRÓITO (30.06.09)

Num dos poemas do espólio de Joseph Knecht (knecht= servo, em contraposição ao Wilhelm Meister, de Goethe; meister= patrão), protagonista de O jogo das contas de vidro (1943), “Um sonho”, vemos um visitante de um convento nas montanhas, o qual, enquanto todos estão rezando, vai à biblioteca, que possui “livros aos milhares”, pergaminhos “com inscrições maravilhosas”:

“Tomei de um livro e li:

Último passo para se encontar

A quadratura do círculo.

Este livro, pensei. levo comigo!

num outro livro, um in-quarto de couro dourado,

Em letras minúsculas se lia:

De como Adão também comeu da outra árvore…

Da outra árvore? De qual: da vida?

Nesse caso, imortal seria Adão?

Não era em vão, eu percebi, que eu me encontava ali…”

     E assim ele vai de maravilha em maravilha:

“… E comecei a pressentir,

O que cada livro que eu pegava

Vinha comprovar:

Nessa sala se achava a biblioteca

Do Paraíso; todas as perguntas

Que jamais me atormentaram,

Toda a sede de conhecimento

Que me havia queimado,

Encontrava ali sua resposta,

E toda a fome o pão do espírito.

Porque por onde quer que eu lançasse

Um rápido olhar a um volume,

Encontrava nele um título

Cheio de promessas; havia ali resposta

Para todas as necessidades, e podia-se

Partir toda a espécie de frutos

Que um discípulo jamais imaginou e desejou a medo,

A que jamais um mestre estendeu ousado a mão.

O sentido mais oculto e mais puro das coisas,

Toda espécie de sabedoria,

Poesia, ciência, a força mágica

De toda espécie de investigação,

Com sua chave e seu vocabulário,

A mais fina essência do espírito,

Conservavam-se ali em obras magistrais,

Misteriosas, inauditas,

Havia ali respostas a todas as questões

E todos os mistérios, cuja posse era o dom

Que o favores da hora de magia ofereciam…

 

Nas revelações sonhadas pelos povos,

Heranças de milênios de experiência cósmica,

Unia-se em novos laços, harmoniosamente,

Em que jogo mútuo de correlações;

Surgia em revoada toda espécie

De conhecimento de outras eras,

De símbolos, e descobertas sempre novas

De questões sublimes.

E assim, ao ler, em minutos ou horas,

Eu percorri de novo

O caminho de toda humanidade.

Apreendendeo o sentido comum interior

Das mais antigas e modernas descobertas;

Eu lia e via os vultos simbólicos da escrita

Se aparelharem, se afastarem,

Circularem, separarem-se a fluir,

Derramando-se em novas formações,

Simbólicas figuras de um caleidoscópio,

Que recebiam um sentido novo, inesgotável

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Ele percebe que não é o único visitante desse espetáculo deslumbrante. Ou não será um outro visitante, mas o arquivista: trata-se de um ancião, fervorosamente dedicado a uma ocupação. É preciso chegar mais próximo a ele para ver do que se trata:

“E vi o ancião, com engelhada e branda mão,

Tomou de um livro leu

O que estava escrito na lombada,

Sussurrou com lábios pálidos o título

–Um título de entusiasmar, prometedor

De horas preciosas de leitura!–

Borrou-o com os dedos, levemente,

Escreveu sorrindo um novo título,

Completamente diferente, e em seguida

Continuou a andar, tomando aqui um livro,

E um outro acolá, o título apagando,

E escrevendo outro em seu lugar.

 

Confuso, observei-o longamente,

E então , já que minha razão

Negava-se a entender, voltei ao livro

Onde há pouco havia lido algumas linhas;

Mas a seqüência de imagens

Que me encantara não mais encontrei,

E o mundo simbólico

Apagou-se e se afastou,

Esse mundo em que eu mal penetrara

E cujo conteúdo era tão rico de sentidos cósmicos;

Vacilou, correu em círculo,

Pareceu nublar-se,

E ao se esvair, nada mais deixou de si

do que o vislumbre pardacento

De pergaminhos vazios.

 

Sobre meu ombro eu senti u´a mão,

Ergui aos olhos e vi ao meu lado

O aplicado macróbio; ergui-me. A sorrir,

Ele  pegou meu livro, enquanto um calafrio

Percorria-me, e qual esponja, seu dedo

Foi borrando o título; sobre o couro limpo

Escreveu novo título, questões e promessas,

E desenhando cuidadosamente as letras

Uma a uma, sua pena deu

A velhas questões as mais modernas refrações.

Em seguida levou em silêncio livro e pena.”

      Num poema intitulado “Junho, 1968”, Jorge Luis Borges escreveu:

“…Ordenar bibliotecas é exercer,

de modo silencioso e modesto,

a arte da crítica…”

        Em outro poema do mesmo livro (Elogio da sombra), chamado “O guardião dos livros”, no qual  lemos:

“Ali estão os jardins, os templos e a justificação dos templos,

A música precisa, as precisas palavras,

Os sessenta e quatro hexagramas,

Os ritos que são a única sabedoria

Que o Firmamento concede aos homens…

As secrretas leis eternas,

O concerto do orbe;

Essas coisas ou sua memória estão nos livros

Que eu guardo na torre.

 

Os tártaros vieram do Norte

em crinudos potros pequenos;

Aniquilaram os exércitos…

Mataram o perverso e o justo,

Mataram o escravo acorrentado que vigia a porta,

Usaram e esqueceram as mulheres…

O pai de meu pai salvou os livros.

Aqui estão na torre em que, jazendo,

Recordo os dias que foram de outros,

Os alheios e os antigos.

 

Em meus olhos não há dias. As prateleiras

são muito altas e meus anos não podem alcançá-las.

Léguas de pó e sono circundam a torre.

Para que me enganar?

A verdade é que eu nunca soube ler,

mas me consolo pensando

que o imaginado e o passado já são o mesmo

para um home que foi

e que contempla o que foi a cidade

e agora volta a ser o deserto.

O que me impede de sonhar que um dia

eu decifrei a sabedoria

e desenhei com aplicada mãos os símbolos?

Meu nome é Hsiang.  Sou o que guarda os livros,

que talvez sejam os últimos

porque nada sabemos do Império…

Ali estão nas altas prateleiras,

ao mesmo tempo perto e distantes,

secretos e visíveis como os astros.

Ali estão os jardins, os templos.”

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ANOTAÇÕES DE LEITURA (30.06.09)

      A Companhia das Letras reuniu num único volume (singelamente intitulado Poesia)  os sete livros da maturidade poética de Borges, num período que vai de 69 a 85 (ele morreu em 86): Elogio da sombra, O ouro dos tigres, A rosa profunda,  A moeda de ferro,  História da noite, A cifra, Os conjurados.

O volume começa em esplendor, já que Elogio da sombra (69) é um dos melhores livros de Borges. Foi um dos primeiros que li (numa edição do Círculo do Livro, que o reunia a três coletâneas de ficções, no sentido borgeano da palavra), quando adolescente: uma colega de colegial, Lúcia,  me emprestou dois livros do irmão mais velho (o outro era O eu profundo e outros eus, a conhecida seleção de poemas de Fernando Pessoa editada pela Nova Fronteira; devido a esse contato precoce, ambos, Borges e Pessoa, me ficaram desde essa época, embora não tenha entendido muita coisa, quase como “pessoas da família”, e por isso logo me acostumei com as estranhezas muitas vezes irritantes das suas obras.  Aliás, só aquilo ou aquele de que se gosta muito consegue irritar).

Reli-o há alguns anos quando a Globo lançou uma nova edição (ver resenha acima), e agora mais uma vez me ocupo de suas imagens quase lapidares, de suas construções paradigmáticas do que Borges tem de mágico e ao mesmo tempo de exasperante.

Acho que o poema de Hermann Hesse, do qual eu transcrevi a maior parte, fornece uma boa idéia da atmosfera desses 31 poemas onde o que se leu é tão importante quanto o que se viveu, e no final tudo é irrisório porque transitório, mas também é recorrente a idéia de continuidade : continuidade dos antepassados no sangue, do Israel bíblico e da tradição apátrida no país que se desenvolveu no século XX, do labirinto clássico na cidade contemporânea, da memória no esquecimento, da natal Buenos Aires nas outras cidades que o poeta percorre (“New England” termina assim: “Buenos Aires eu continuo caminhando/ por tuas esquinas, sem por que nem quando”):

“Que outros se vangloriem das páginas que escreveram;

eu me orgulho das que li…

ao longo de meus anos professei

a paixão da linguagem.

Minhas noites estão repletas de Virgílio;

ter conhecido e esquecido o latim

é uma posse, porque o esquecimento

é uma das formas da memória, seu porão difuso,

a outra face secreta da moeda.

Quando em meus olhos se apagaram

as vãs aparências estimadas,

os rostos e a página,

dediquei-me ao estudo da linguagem de ferro

empregada por meus antepassados para cantar

espadas e solidões…”

Ou ainda num dos poemas a Israel:

“Quem me dirá se estás nos perdidos

Labirintos de rios seculares

Do meu sangue, Israel? Quem, os lugares

Por meu sangue o teu sangue percorridos?

Não importa. Sei que estás no sagrado

Livro que abarca o tempo e que a história

do rubro Adão resgata na memória

E agonia do Crucificado.

Nesse livro estás, que é o reflexo

De cada rosto que sobre ele se inclina

E do rosto de Deus, que, em seu complexo

E árduo cristal, terrível se adivinha…”

No seu prólogo (Borges era afeito a eles, e era uma das suas estratégias favoritas para ir retocando sua imagem) desse livro que publicou aos 70 anos, o grande escritor argentino afirma que se trata do seu quinto livro de poemas. Nas obras completas pela Emecé ,(e se não contarmos também o inclassificável e fabuloso O fazedor) encontramos Fervor de Buenos Aires; Lua defronte; Caderno San Martín; O outro, o mesmo; Para seis cordas (será que estes dois últimos foram publicados juntos?). O “quinto” (ou o sexto) livro e, como já se disse (Jorge Schwartz), sua “summa” poética:

“Somos nossa memória,

somos esse quimérico museu de formas inconstantes,

essa pilha de espelhos quebrados” (“Cambridge”)

Nessa edição que estou lendo e comentando, foram retirados três poemas (que constavam nas edições da Globo):  “Elsa” (que ficava entre os poemas “Cambridge” e “New England 1967”); “Milonga de Manuel Flores” & “Milonga de Calandria” (que ficavam entre “Acevedo” e “Invocação a Joyce”).

“Elsa”:

“Noites de longa insônia e de castigo

Que ansiavam a alba e a temiam,

Dias daquele ontem que repetiam

Outro inútil ontem. Hoje os bendigo.

Como pressentiria nesses anos

De solidão de amor, que as atrozes

Fábulas da febre e as ferozes

Auroras não eram mais que degraus

Intrincados e errantes galerias

Que me conduziriam à pura

Culminância de azul que no azul perdura

Desta tarde de um dia e de meus dias?

Elsa, em minhamão eu prendo a tua. Vemos

No ar a neve e a queremos”. (Cambridge, 67).

Acho que o motivo da exclusão é óbvio. Nada que melindre madame Kodama.

Já as duas milongas fazem parte agora (nas Obras Completas) de Para seis cordas.

O primeiro dos 31  poemas restantes, “João I, 14” (que evoca o famoso “o verbo se fez carne”) mostra um Cristo nostálgico da sua encarnação:

“Vi por Meus olhos o que nunca havia visto:

as noites e suas estrelas.

Conheci o polido, o arenoso, o díspar, o áspero,

o sabor do mel e da maçã,

a água na garganta da sede,

o peso de um metal na palma,

a voz humana, o rumor de uns passos sobre a relva,

o odor da chuva da Galiléia”

E a idéia de CONTINUIDADE nos avatares transitórios já dá o tom, dentro do jogo de imagens típico da obra borgeana:

“Amanhã serei um tigre entre os tigres

e predicarei Minha lei a sua selva,

ou uma grande árvore na Ásia.

Às vezes penso com nostalgia

no odor dessa carpintaria”.

      A impossibilidade ou o provável também são também faces da eternidade com sua promessa:

“Um pintor prometeu-nos um quadro.

Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras vezes, a tristeza de compreender que somos  como um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.

(Só os deuses podem prometer, porque são imortais).

Pensei depois se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e a ninguém vinculada.

Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.

(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal).

(02.07.09):                                    O OURO DOS TIGRES

Publicado em 1972, no seu belo título já trai a recorrente fascinação de Borges com esse que é o animal mais bonito. A imagem do ouro ligado ao animal selvagem, uma espécie de fulgor da ferocidade, também trai um dos temas centrais dessa coletânea de 48 poemas. Em ocasiões diversas (por exemplo, ao comentar Ulisses, de Joyce, ou A pedra do reino, de Ariano Suassuna), eu  levantei a questão da nostalgia do épico, e é isso que vemos em O ouro dos tigres. Borges como o fazedor de versos, descendente longínquo e pálido dos aedos e cantores de sagas, ou ainda, em termos mais pessoais e irrisórios, último representante de uma família de militares “machos”, um eco já apagado, uma sombra, do que foi grandioso, e se não foi, ficou assim  “naquele plástico ontem irrevogável”, “Essas coisas podiam não ter sido./ Quase não foram. Nós as concebemos/ em um ontem fatal e inevitável”,“O ontem ilusório é um recinto/ de imutáveis figuras de cera/ ou de reminiscências literárias/ que o tempo irá perdendo em seus espelhos” (“O passado”). Não por acaso, os dois primeiros poemas, que estabelecem o “clima”, por assim dizer, tratam de um conquistador, um homem de ação (“Tamerlão”), que protagonizou uma tragédia de Christopher Marlowe, o grande rival do jovem Shakespeare, e de espadas famosas (“Espadas”).

A ação heróica, destinada a ser literatura (e um dos elementos daquela continuidade de que eu falava nos comentários sobre Elogio da sombra), o épico que encontra o lírico e o cósmico em Whitman, presença tutelar do livro desde o prólogo (apesar de este fornecer uma imagem ambivalente, mais negativa que positiva; “Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria ser poético, já que profundamente o é. Que eu saiba, ninguém alcançou até hoje essa alta vigília. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualquer outro; Whitman a propôs, mas suas deliberadas enumerações nem sempre passam de catálogos insensíveis”):

“Roma, que impõe o numeroso hexâmetro

Ao obstinado mármore dessa língua

Que manejamos hoje, espedaçada;

Os piratas de Hengist que atravessam

A remo o temerário mar do Norte

E com fortes mãos e a coragem

Fundam um reino que será o Império;

O rei saxão que oferta ao da Noruega

Sete palmos de terra e que cumpre,

Antes que o sol decline, a promessa

Na batalha de homens; os cavaleiros

Do deserto, que cobrem o Oriente

E ameaçam as cúpulas da Rússia;

Um persa que relata a primeira

Das Mil e uma noites e não sabe

Que deu início a um livro que os séculos

Das outras gerações, ulteriores,

Não entregarão ao quieto esquecimento;

Snorri, que salva em sua perdida Tule,

Sob a luz de crepúsculos morosos

Ou na noite propícia à memória,

As letras e os deuses da Germânia;

O jovem Schopenhauer, que descobre

Um projeto geral do universo;

Whitman, que numa redação do Brooklyn,

Entre o cheiro de tinta e de tabaco,

Toma e a ninguém conta a infinita

Resolução de ser todos os homens

E de um livro escrever que seja todos…”

WaltWhitman

E o poeta Borges, ou o avatar de poeta que ele tomou para si neste livro? Vejamos o último dos  “Tankas”  (estrofe japonesa que tem um primeiro verso de cinco sílabas, o segundo de sete sílabas, o terceiro de cinco sílabas e os dos últimos de sete sílabas):

“Não ter tombado

Como outros de meu sangue,

Na batalha.

Ser na inútil noite.

O que conta sílabas.”

 

“…com o verso / devo lavrar meu insípido universo”, lemos em “O cego”; “…o resignado / exercício do verso não te salva” (“Ao triste”), enquanto se espalham as alusões ao projeto whitmaniano:. Em “On his blindness”: “Walt Whitman, esse Adão nomeador / das crianças que existem sob a lua”; em 1971 (um poema em homenagem à descida do homem na lua e seus antecedentes míticos e literários): “Esses filhos de Whitman haviam pisado/ o páramo lunar, o inviolado…”, numa paródia a sério da expressão “filhos de Adão”.

E por falar em Adão, uma das “Treze moedas” recapitula concisamente uma situação já explorada  no poema “Lenda” de Elogio da sombra:

 

“Foi no primeiro deserto.

Dois braços atiraram uma grande pedra.

Não houve um grito. Houve sangue.

Houve pela primeira vez a morte.

Já não me lembro se foi Abel ou Caim”.

No poema anterior:

“Abel e Caim se encontraram depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e se reconheciam  de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando o dia declina. No céu despontava alguma estrela, que ainda não recebera seu nome. À luz das chamas, Caim notou na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava para levar à boca e pediu que seu crime lhe fosse perdoado.

    Abel respondeu:

–Tu me mataste ou eu te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

–Agora sei que você me perdoou de verdade, disse Caim, porque esquecer é perdoar. Eu também tentarei esquecer.

      Abel disse devagar:

–Assim é. Enquanto dura o remorso, dura a culpa”.

 

    Voltando à “nostalgia do épico”, um dos elementos constituintes na mítica pessoal borgiana é a figura do “gaúcho” e seu cenário natural, o pampa:

“O beco final com seu poente.

Inauguração do pampa.

Inauguração da morte.” (“Oeste”)

“No fim de sua terceira geração

Regresso às planícies dos Acevedo,

Os meus antepassados. Vagamente

Procurei-os por esta velha casa…

Na chuva que ensombrece a varanda,

Entre o crepúsculo de seus espelhos,

Num reflexo, um eco, que foi seu

E que agora é meu, sem que eu o saiba…

Aqui foram a espada e o perigo,

As duras prescrições e os levantes;

Firmes sobre o cavalo, aqui regeram

A sem princípio e a sem fim planura…” (“A busca”)

                              “… Professaram

A antiga fé do ferro e da coragem…

Por essa fé morreram e mataram.

 

Entre os acasos de uma montonera

Pereceu  pela cor de uma divisa;

Foi quem nada pediu, nem a efêmera

Glória, feita de alarde e de brisa.”

 

Há até uma poética do épico em “Os quatro ciclos”, que afirma que “Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas”. São elas a história da Ilíada, da Odisséia, de Jasão e o velocino, e do sacrifício de um deus (Átis, Odin, Cristo).

Nessa obsessão pelo épico, que só estou pincelando, há uma homenagem a Camões (no poema “O mar”; aliás, mar e épico estão inextricavelmente ligados), embora seu nome não seja citado:

“O mar. O mar de Ulisses…

É o do tal cavaleiro que escrevia

A um só tempo a epopéia e a elegia

De sua pátria, no pântano de Goa…”

 

    E o próprio Borges, numa auto-ironia, mostra sua fidelidade aos ideais militares que, vinculada a coisas imemoriais e nada comezinhas, tiveram o efeito desastroso de propiciar desastradas declarações políticas num país sob ditadura militar. No poema “A sentinela”, e Borges- O outro determina coisas para Borges-o mesmo::

“Converteu-me ao culto idolátrico de militares mortos, com

         os quais talvez não pudesse trocar uma única palavra”.

caricatura (borges)

Acho que esse trecho esclarece bem a questão “Borges & regime militar”.

Esse mesmo poema termina de uma forma terrível:

“A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam

         que na sombra ulterior do outro reino estarei eu, me

         esperando.”

Que ecoa a fórmula de “O ameaçado”: “o horror de viver no sucessivo”, o que expressa a impotência dos seres majestosos e enjaulados (a pantera, o tigre, cuja visão o fascinou antes da cegueira):

“Em vão é vário o orbe. A jornada

Que cumpre cada qual já foi fixada” (“A pantera”)

Do ouro dos tigres só sobrou na cegueira a cor amarela:

“Agora só perduram contornos amarelos,

E só consigo ver para ver pesadelos.”

 

     Em 1970, Borges esteve em São Paulo e lá escreveu “Poema da quantidade”:

“Aqui são excessivas as estrelas.

O homem é excessivo. As gerações

Inúmeras de aves e de insetos,

Do jaguar constelado e da serpente,

De galhos que se tecem e entretecem,

Do café, da areia e das folhas

Oprimem as manhãs e nos prodigam

Seu minucioso labirinto inútil.

Talvez cada formiga que pisamos

Seja única ante Deus, que a define

Para a execução das regulares

Leis que regem  Seu curioso mundo.

Não fosse assim, o universo inteiro

Seria um erro e um oneroso caos.

Os espelhos do ébano e da água,

O espelho inventivo de um sonho,

Os liquens e os peixes, as madréporas,

Tartarugas alinhadas no tempo,

Os vaga-lumes de uma única tarde,

As araucárias e suas dinastias,

As perfiladas letras de um volume

Que a noite não apaga são sem dúvida

Não menos pessoais e enigmática

Que eu, que as confundo. Não me atrevo

A julgar nem a lepra nem Calígula.”

Não posso me furtar a transcrever parte de  “A um gato”:

“Não são mais silenciosos os espelhos

Nem mais furtiva a aurora aventureira;

Tu és, sob a lua, essa pantera,

Que divisam ao longe nossos olhos…

Mais remoto que o Ganges e o poente,

Tua é a solidão, teu o segredo.

Teu dorso condescende à morosa

Carícia de minha mão. Sem um ruído,

Da eternidade que ora é olvido,

Aceitaste o amor dessa mão receosa.

Em outro tempo estás. Tu és o dono

De um espaço cerrado como um sonho.”

borges cugato

E para finalizar essa minha passagem pelos poemas de O ouro dos tigres, duas passagens que eu acho emocionante. Uma é o último verso de “O ameaçado”, um poema sobre o amor “com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis”):

“Dói-me uma mulher por todo o corpo” (que bom ver o corpo referido em Borges).

A outra, que considero um fecho perfeito para qualquer texto, é de “O palácio”. Apesar do horror de viver no sucessivo:

“… já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto.”

el oro de los tigres

, 

              

jorge_luis_borges[2]

(05.07.09)

Nos últimos três dias me ocupei dos livros de poemas que Borges publicou em meados dos anos 70 (em 75, 76 e 77): A rosa profunda; A moeda de ferro; História da noite. Fiquei encantado, contrariando a expectativa (sempre tive um pé atrás com essa fase tardia da poesia borgiana). E na verdade, acredito que História da noite é um dos seus grandes livros e os dois outros livros estão a ele (e à Macro-Narrativa borgiana) tão intimamente ligados, que mesmo o que ficou de repetitivo, de exasperante, faz parte de um conjunto “de ferro” (para utilizar uma locução adjetiva cara ao autor). Em A rosa profunda & A moeda de ferro não há nada particularmente genial ou excepcional nos poemas, mas quase todos têm uma distinção, uma dignidade que nada tem a ver com o acadêmico… E História da noite é um livro de mestre. Neles, perpassa o sopro das quatro metáforas que ele localiza nas Mil e uma noites:  a do rio (no sentido de Heráclito); a da trama do tapete;  a do sonho; a do mapa do Tempo:

                        “…um orbe fluido

De formas que variam como nuvens,

Sujeitas ao arbítrio do destino

Ou do acaso, que são a mesma coisa (…)

                        … a trama

De um tapete, que oferece ao olhar

Um caos de várias cores e de linhas

Irresponsáveis, acaso e vertigem.

Mas uma ordem secreta o governa.

Como aquele outro sonho, o Universo,

Esse Livro das Noites está feito

De cifras tutelares e de hábitos:

Os sete irmãos e as sete viagens.

O trio de cádis e os três desejos (…)

Como no paradoxo do eleata,

O sonho se desfaz em outro sonho

E este, em outro e em outros, que entretecem

Ociosos um ocioso labirinto.

No livro está o Livro (…)

                        … um mapa

Daquela região indefinida, o Tempo,

De quanto medem as graduais sombras

E o perpétuo desgaste de alguns mármores

E os passos de diversas gerações.

Tudo. A voz e o eco, o que miram

As duas opostas faces do Bifronte (…)

Dizem os árabes que ninguém consegue

Ler até o fim esse Livro das Noites.

As Noites são o Tempo, o que não dorme…” (“Metáforas das Mil e Uma Noites”, de História da  Noite)

A ROSA PROFUNDA

                                  “No dialeto de hoje

                                  Direi, por minha vez, coisas eternas…”

 

                                  “Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de

                                  Erigir este monumento…”

 

                                  “Que arco terá lançado esta seta

                                  que sou ? Que cume pode ser a meta?”

Em A rosa profunda, talvez o poema central (ele fica mais ou menos no meio dos  26 poemas) é “1972”:

“Temi que o porvir (que já declina)

Seria um profundo corredor de espelhos

Indistintos, ociosos e minguantes,

Um repetir sem fim de fatuidades,

E na penumbra que precede o sonho

Pedi a meus deuses, cujo nome ignoro,

Que algo ou alguém enviassem a meus dias. 

Fizeram-no. É a Pátria. Meus ancestrais

Serviram-na com longas proscrições,

Com penúrias, com fome, com batalhas,

Aqui de novo está o formoso risco.

Não sou aquelas sombras tutelares

Que honrei com versos que não esquece o tempo (…)

Mas hoje a Pátria profanada quer

Que com minha obscura pena de gramático,

Douta em  nimiedades acadêmicas

E distante dos trabalhos da espada,

Congregue o grande rumor da epopéia

E exija o meu lugar. Eu o estou fazendo.”

 

Outro poema que me parece central (e que está bem próximo ao anterior) é “All our yesterdays”:

“Quero saber de quem é meu passado.

De qual dos que já fui? Do genebrino

Que traçou algum hexâmetro latino

Pelos anos lustrais já apagado?

Édo menino que buscou na inteira

Biblioteca do pai as pontuais

Curvaturas do mapa  e as ferais

Formas que são o tigre e a pantera?

Ou daquele outro que empurrou uma porta

Atrás da qual um homem morria

Para sempre, e beijou no branco dia

A face que se vai e a face morta?

Sou os que já não são. Inutilmente

Sou em meio à tarde essa perdida gente.”

Na coletânea,  há um poema chamado “Eu” (“os caminhos de sangue que não vejo”) e um poema chamado “Sou” (“Sou, tácitos amigos, o que sabe/ Que não há outra vingança que o olvido/ Nem há outro perdão (…) Sou eco, olvido, nada”).

E os temas do rio, da trama do tecido, do sonho (“Bem no fundo do sonho estão os sonhos”, lemos em “Efialtes”; “Eu também sou um sonho fugitivo que dura/ Alguns dias mais…”, lemos em “A cerva branca”) e do mapa do Tempo continuam entretecidos nesse Boitempo (“… a morte, esse outro nome/Do incessante tempo que nos rói…”, lemos em “Elegia”) borgeano:

“O grande rio de Heráclito, o Obscuro,

Seu curso misterioso não empreendido,

Que do passado flui para o futuro,

Que do olvido flui para o olvido.” (“Cosmogonia”)

“Serei todos ou ninguém. Serei o outro

Que sem saber eu sou, o que fitou

Esse outro sonho, minha vigília. E a julga,

Resignado e sorridente…” (“O sonho”)

                        “…o humano tempo,

Cujo espelho espectral é a memória” (“O bisão”)

                        …”Cada coisa

É infinita coisas. Tu és música,

Firmamentos, palácios, rios e anjos,

Rosa profunda, ilimitada, íntima…” (“The unending rose”)

Machadianamente (pelo menos, no que se refere ao narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas), neste nosso “intolerável universo”, o suicida pode afirmar: “Lego o nada a ninguém” (“O suicida”). Mas, para compensar, há  o rouxinol, “voz repleta de mitologias”, que merece este belíssimo verso: “Keats te ouviu por todos, para sempre” (“Ao rouxinol”).

As 13 moedas de O ouro dos tigres, retomadas, foram acrescidas de mais duas. Em uma delas temos essa homenagem a Poe:

“Os sonhos que sonhei. O poço e o pêndulo.

O homem das multidões. Ligéia…

Mas também este outro.” (“Quinze moedas”)

   O tigreiro Simón Carbajal:

“Sempre estava matando o mesmo tigre

Imortal. Não te assombre demasiado

Seu destino. É o teu e é o meu,

Salvo que nosso tigre possui formas

Que mudam sem parar. Chama-se o ódio,

O amor, o acaso, cada momento.” (“Simón Carbajal”)

A cegueira:

“Não sei qual é o rosto que me mira

Quando miro o rosto do espelho;

Não sei que velho espreita em seu reflexo

Com silenciosa e já cansada ira.

Lento em minha sombra, com a mão exploro

Meus invisíveis traços. Um lampejo

Me toca. Teu cabelo entrevejo,

Se ora de cinza ou ainda de ouro, ignoro.

Repito que o perdido foi somente

A inútil superfície das coisas.” (“Um cego”)

A nostalgia do épico persiste, claro. Alguém percorre os caminhos de Ítaca e não se lembra daquele rei que partiu para Tróia, que desceu ao Hades para consultar Tirésias (“O desterrado”).

Os destinos que não são nossos; os destinos não que não nos couberam, nesse jardim de veredas que se bifurcam da existência:

“Eu, com ela, morro de infinitos

Destinos que o acaso não me depara.” (“Em memória de Angélica”) 

    Enquanto (creio que não dá para ser totalmente solipsista), “Sobre nós vai crescendo, atroz, a história” (“Em memória de Angélica”):

                       “…as vozes dos mortos

vão me dizer para sempre.”  (“Meus Livros”)

Esclarecendo que os “meus livros” são os livros que ele possui (mas não pode ler) e não aqueles que ele mesmo escreveu.

E, por fim, a visão da “cerva branca”:

“Leve criatura feita de uma certa memória

E de um pouco de olvido…” (“A cerva branca”).

             A MOEDA DE FERRO: “As perpétuas águas de Heráclito”

“…o intrincado jogo

                                  Que urdem a terra, a água, o ar, o fogo”

 

                                 “Hoje somos noite e nada”

 

                                  “Eu cometi o pior dos pecados

                                  Possíveis a um homem. Não ter sido

                                  Feliz…”

 

                                  ‘A firme trama é de incessante ferro”

     São 36 os poemas dessa coletânea de 1976, muito marcada pelo tema do “sonho” (e também pela nostalgia do épico, claro, e também pelo “remordimiento”, o remorso de não viver plenamente e o apego a “naderías”, e também pelas perpétuas águas de Heráclito, que seguem nos arrastando, através dos “hábitos do Tempo”) e pela forma soneto. Ele começa, no entanto, com uma bela elegia:

“Que não daria eu pela memória

De uma rua de terra com muros baixos,

De um alto cavaleiro invadindo a alvorada

(Longo e surrado o poncho)

Em um dia qualquer sobre a planura,

Em um dia sem data.

Que não daria eu pela memória

De minha mãe contemplando a manhã

Na estância de Santa Irene,

Sem saber que seu nome ia ser Borges.

Que não daria eu pela memória

De haver combatido em Cepeda

E de ter visto Estanilao del Campo

Cumprimentando a primeira bala

Com a alegria da coragem (…)

Que não daria eu pela memória

(Que já tive e perdi)

De uma tela de ouro de Turner,

Extensa como a música.

Que não daria eu pela memória

De ter sido um ouvinte de Sócrates

Que, na tarde da cicuta,

Examinou serenamente o problema

Da imortalidade,

Alternando os mitos e as razões (…)

Que não daria eu pela memória

De que tivesses dito que me amavas

E de não adormecer até a aurora,

Perdido e feliz.”  (“Elegia da lembrança impossível”).

Que não daria ele para ser, talvez, como o coronel Suárez, com seu “sombrio semblante de metal e melancolia” (veja-se que junção maravilhosa, essa do metal e da melancolia) ou o “antigo rei”(“Sei que me sonha e que me julga…”): “Já não há rostos assim. A firme espada/ Vem acatá-lo, como seu cão, leal”. Ou ter, talvez, o destino de Hilário Ascasubi:  “Houve um dia a felicidade. O homem/ Aceitava o amor e a batalha/ Com o mesmo regozijo…” Que não daria ele para falar como Einar Tambarskever: “Não há outra obrigação que ser valente”. E que pena que ele seja apenas aquele que diz, desse episódio da saga islandesa: “Agora eu a traslado/ Tão longe desses mares e desse ânimo”.

Que não daria ele para ser, talvez, o aedo épico da Pátria:

“Pompas do mármore, árduos monumentos,

E pompas da palavra, parlamentos,

Centenários e sesquicentenários,

São apenas a cinza, a menor flama

Dos vestígios de uma antiga chama.” (“Elegia da Pátria”)

“Tua versão da Pátria, com seus faustos brilhantes,

Entra na minha vaga sombra como se entrasse o dia

E a ode zomba da Ode. (É apenas nostalgia

–Minha própria versão –de facas ignorantes

E de velha coragem.) Já estremece o Canto,

Já, a custo contidas pela prisão do verso,

Surgem as multidões do futuro e diverso

Reino que será teu, seu júbilo e seu pranto.

Manuel Mujica Lainez, algum dia tivemos

Uma pátria—recordas?—e os dois a perdemos.”  (“A Manuel Mujica Lainez”)

Que não daria ele para escrever em outra língua que não “esse latim decaído, o castelhano”. Que não daria ele para ser aquele que fixou uma batalha memorável em 991 a.D.:  “As pessoas o seguiam com atenção. Iam recordandoos fatos que Aidan [aedo] enumerava e que pareciam compreender só agora, quando uma voz cunhava as palavras”. Que não daria ele para ser o filho de Aidan que o pai pede para renunciar à contenda e escreva versos “para que perdure o dia de hoje na memória dos homens”.

Que não daria ele para não morrer “sem ter visto minha infindável casa”, ainda que vivo, “sou uma sombra que a Sombra ameaça”.

Que não daria ele para ser um dos homens do Arquétipo do Conquistador: “Eu sou o Arquétipo. Eles, os homens…”, para dizer, ao final: “O resto não importa. Eu fui valente”.

Que daria ele para que o futuro não fosse “…tão irrevogável/ Quanto o rígido ontem…”.

Que daria ele para não ser uma “procissão de sombras”, um “homem cinza”.

Que não daria ele para ser verdadeiramente o poeta que fizesse justiça a Brahms: 

 “Quem te honre há de ser nobre e valente.

Sou um covarde. Sou um triste. Nada

Poderá justificar esta ousadia

De cantar a magnífica alegria

–Fogo e cristal—de tua alma enamorada.” (“A Johannes Brahms”)

Se ainda fosse Shakespeare:

“… alguns séculos

E o rei volta a morrer na Dinamarca

E ao mesmo tempo, curiosa magia,

Em um tablado em meio aos arrabaldes

De Londres…” (“Os ecos”)

Ou Espinosa:

                     “…O assíduo manuscrito

Aguarda, já repleto de infinito (…)

O feiticeiro insiste e lavra

Deus com geometria delicada…”  (“Baruch Espinosa”)

Mesmo que sentisse o horror de Heráclito, ao descobrir sua fórmula:

“… E então sente

Com o assombro de um horror sagrado

Que também ele é um rio e uma fuga.

Deseja recobrar essa manhã

E sua noite e a véspera. Não pode”. (“Heráclito”)

Mas resta o consolo dos espantos singelos:

                     “não há no orbe

Uma coisa que não seja outra, ou contrária, ou nenhuma.

A mim só inquietam os espantos singelos.

Assombra-me que a chave tenha uma porta aberta;

Assombra-me que minha mão seja um fato certo;

Assombra-me que do grego a eleática seta

Instantânea não alcance a inalcançável meta;

Assombra-me que a espada cruel seja formosa,

E que a rosa tenha o perfume da rosa.”  (“O ingênuo”)

Um dos poemas mais bonitos é sobre a onipresente memória do pai:

“Nós te vimos morrer risonho e cego.

Nada esperavas ver do outro lado,

Mas tua sombra talvez tenha avistado

Os arquétipos que Platão, o Grego,

Sonhou e que me explicavas. Ninguém sabe

De que manhã o mármore é a chave.” (“A meu pai”)

Assim como o poema a Melville:

“Sempre o cercou o mar dos ancestrais,

Os saxões, que ao mar deram o nome

De rota da baleia, em que se juntam

As duas enormes coisas (…)

Sempre foi seu o mar. Quando seus olhos

Viram em alto-mar as grandes águas,

Já o havia desejado e possuído

Naquele outro mar, que é da Escritura (…)

…o prazer, por fim, de avistar Ítaca (…)

Melville cruza nas tardes New England.

Mas o habita o mar…” (“Herman Melville”)

Ou o sonho com Kafka:

“Ela era a companheira de Kafka.

Kafka a sonhara…

Ele era o amigo de Kafka.

Kafka o sonhara…

A mulher disse ao amigo:

Quero que esta noite me queiras…

O homem lhe respondeu: Se pecarmos,

Kafka deixará de sonhar-nos…

Kafka disse a si mesmo:

Agora que os dois partiram, fiquei sozinho.

Deixarei de sonhar-me”.  (“Ein Traum”)

Duas citações bonitas poderiam ser a “summa” de angústia (“que não daria ele…”) do livro: uma, tirada de “Signos”, com aquela formulação lapidar típica: “Posso ser tudo. Deixa-me na sombra”; a outra de “Não és os outros”: “Não és os outros e te vês agora/ Centro do labirinto que tramaram/ Os teus passos”.

Mas outras duas citações bonitas são mais esperançosas, menos atadas a essa trama de incessante ferro.

De “Para uma versão do I-Ching”:

“A firme trama é de incessante ferro.

Porém em algum canto de teu encerro

Pode haver um descuido, a rachadura.

O caminho é fatal como a seta,

Mas Deus está à espreita entre a greta”.

E do poema-título:

“Aqui está a moeda de ferro. Interroguemos

As duas contrárias faces que serão a resposta

Da pertinaz pergunta que ninguém já se fez:

Por que um  homem precisa que uma mulher o queira?”

Isso me lembra “O palácio” (de O ouro dos tigres): “já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto”.

HISTÓRIA DA NOITE: O QUE A MEMÓRIA CONCEDE

          “…A memória

                             Me concede esta estampa de um livro

                             Cuja cor e cujo idioma ignoro…

                             Às vezes sinto medo da memória.”

 

                             “…no tempo repetem  uma trama

                             Eterna e frágil, misteriosa e clara”

 

                             “As coisas são seu porvir de pó.

                             É óxido o ferro. A voz, o eco”

Contrariando seu apego por prólogos, essa obra-prima que expressa o “recato da melancolia” e reúne 31 poemas começa com uma “Inscrição” dedicada a María Kodama (a quem ele fizera um poema “A lua”). Em compensação, há um “Epílogo”:

“Um volume de versos não passa de uma sucessão de exercícios mágicos. O modesto feiticeiro faz o que pode com seus modestos meios… Trabalhamos às cegas. O universo é fluido e cambiante; a linguagem é rígida.

     De todos os livros que publiquei, o mais íntimo é este. É pródigo em referências livrescas; também prodigalizou-as Montaigne, inventor da intimidade… Como certas cidades, como certas pessoas, uma parte muito grata de meu destino foram os livros. Poderei repetir que a biblioteca de meu pai foi o fato capital de minha vida? A verdade é que nunca sai dela, com nunca saiu da sua Alonso Quijano”.

 

“O algibe. Lá no fundo a tartaruga.

E sobre o pátio a vaga astronomia

Do menino. Essa herdada prataria

Que se espelha no ébano. A fuga

Do tempo, que no início nunca passa.

Um dos sabres que serviu no deserto.

Um grave rosto militar e morto.

O tímido saguão. A velha casa.

Naquele pátio que foi dos escravos

A sombra da parreira, encurvada.

Um tresnoitado assovia na calçada.

No mealheiro dormem os centavos.

Nada. É somente pobre mediania

Que procuram o olvido e a elegia.”  (“Buenos Aires, 1899)

    A palavra “noite” já aparece no primeiro verso do primeiro poema, “Alexandria 641 a.D.”: “Desde o primeiro Ada que viu a noite…” Também temos o tema da vida virtual, que segue existindo na não-existência:”Ordeno a meus soldados que destruam/ Pelo fogo essa vasta Biblioteca,/Que não perecerá…”. Nesse poema inaugural há um verso belíssimo: “o verso em que perdura a carícia”. E quem diz que o nosso poeta não era um lírico?

“Alguém” homenageia os narradores anônimos que transmitiram o nosso repertório de histórias: “Não sabe (nunca o saberá) que é nosso benfeitor”.

Em “Leões”:

“Nem o esplendor do cadencioso tigre

Nem do jaguar os signos prefixados

Nem do gato o sigilo. Dessa tribo

É o menos felino, e no entanto

Sempre os sonhos dos homens acendeu…”

Em “Endímion em Latmos”: “Inútil repetir-me que a lembrança/ de ontem e um sonho são iguais”, que nos prepara, talvez, para o lindo poema sobre Cervantos/Quijano/Quixote  (“Eu nem mesmo sou pó”):

“Não quero ser quem sou. A avara sorte

Deparou-me o século XVII,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, nos dá a véspera…

Sou um homem entrado em anos. Uma página

Casual me revelou não usadas vozes

Que me buscavam, Amadis e Urganda…

Cavaleiros cristãos iam e vinham

Pelos reinos da terra, vindicando

A honra ultrajada ou impondo

Justiça com os gumes da espada.

Queira Deus que um enviado restitua

A nosso tempo esse exercício nobre.

Meus sonhos o divisam. Já o senti

Em minha triste carne celibatária.

Não sei ainda seu nome. Eu, Quijano,

Serei esse paladino. E meu sonho.

Dentro da velha casa há uma adarga

Antiga e uma espada de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que a meu braço prometem a vitória.

A meu braço?Meu rosto (que não vi)

Não projeta nenhum rosto no espelho.

Eu nem mesmo sou pó. Sou aquele sonho

Que entretece no sono e na vigília

O meu irmão e pai, capitão Cervantes,

Que militou nos mares de Lepanto

E soube algum latim e algo de árabe…

A fim de que eu possa sonhar o outro

Cuja verde memória será parte

Da existência dos homens, eu te suplico:

Meu Deus, meu sonhador, segue a sonhar-me.”

Nessa nostalgia do épico, do “rumor de hexãmetros”, que nos traz poemas sobre a Islândia ou Gunnar Thorgilson, temos também a memória do trágico, como no poema sobre “Macbeth” (“…a grande voz de Shakespeare (na qual estão as outras)…”.

“Apenas uma coisa entre as coisas

Mas também uma arma. Foi forjada

Na Inglaterra, em 1604,

E carregada com um sonho. Encerra

Som e fúria e noites e escarlate.

Minha palma a sopesa. Quem diria

Que contém o inferno: as barbadas

Bruxas que são as parcas, os punhais

Que executam as leis da sombra…

Esse tumulto silencioso dorme

No espaço de um daqueles livros

Da sossegada estante. Dorme e espera.”  (“Um livro”)

E voltamos também aos compadritos, aos duelos de punhais dos arrabaldes, ao passional que movimenta o tango, o compadrito Ezequiel Tabares que quer se vingar, em 1890, do homem que lhe roubou a mulher: “Faz tempo que não se lembra da mulher; só pensa no outro… Sem que ele saia, Buenos Aires cresceu a seu redor como uma planta que faz barulho… As pessoas o atravessam e ele não sabe… Hoje,13 de junho de 1977, os dedos da mão direita do compadrito morto Ezequiel Tabares, condenado a certos minutos em 1890, roçam em um eterno entardecer um punhal impossível”.

No  poema “O suicida” o eu lírico afirmava terrificamente: “Lego o nada a ninguém”. Veja-se a contrapartida, ainda que com o recato da melancolia, em “Things that might have been”:

“Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram…

A história sem a tarde da Cruz e sem a tarde da cicuta.

A história sem o rosto de Helena…

O orbe sem a roda ou sem a rosa.

O juízo de John Donne sobre Shakespeare…

O filho que não tive.”

Temos um poema “À França”: “Desviaram-me outros amores/ e a erudição vagabunda, / mas não deixei nunca de estar na França/ e estarei na França quando a grata morte me chamar/ em algum lugar de Bueno Aires./Não direi a tarde e a lua; direi Verlaine. / Não direi o mar e a cosmogonia; direi o nome de Hugo./ Não a amizade, e sim Montaigne…”

Temos “Um sábado” do poeta: “Um homem cego em uma casa oca/ Fatiga certos limitados rumos/ E toca as paredes que se alongam/ E o cristal das portas interiores/ E as lombadas ásperas dos livros/ Proibidos a seu amor …/ E sente que os atos que executa/ Interminavelmente em seu crepúsculo/ Obedecem a um jogo que não entende/ E que dirige um deus indecifrável…”

Para terminar, o poema-título  (“Ao longo de diversas gerações/ os homens erigiram a noite./ Em seu começo era cegueira e sonho…/ Nunca saberemos quem forjou a palavra/ para o intervalo de sombra/ que cinde os dois crepúsculos) e dois dos melhores poemas, os quais, creio eu, fornecem as senhas e cifras para o recato da melancolia:

“Quando menino, eu temia que o espelho

Me mostrasse outro rosto ou uma cega

Máscara impessoal que ocultaria

Algo na certa atroz. Temi também

Que o silencioso tempo do espelho

Se desviasse do curso cotidiano

Dos horários do homem e hospedasse

Em seu vago extremo imaginário

Seres e formas e matizes novos.

(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)

Agora temo que o espelho encerre

O verdadeiro rosto de minha alma,

Lastimada de sombras e de culpas,

O que Deus vê e talvez vejam os homens.” (“O espelho”)

“…Sou apenas a sombra que projetam

Essas íntimas sombras intrincadas.

Sou sua memória, e sou também o outro

Que, como Dante e os homens todos,

Já esteve no raro Paraíso

E nos muitos Infernos necessários.

Sou a carne e o rosto que não vejo.

Sou no final do dia o resignado

Que dispõe de modo algo diverso

As palavras da língua castelhana

Para narrar as fábulas que esgotam

O que se chama de literatura.

Sou o que folheava enciclopédias,

O tardio escolar de fontes brancas

Ou cinza, prisioneiro de uma casa

Cheia de livros que não possuem letras,

Que na penumbra escande um temeroso

Hexâmetro aprendido junto ao Ródano…

O passado me acossa com imagens…

Sou o que não conhece outro consolo

Que recordar o tempo da ventura.

Às vezes sou a ventura imerecida.

SOU O QUE SABE NÃO PASSAR DE UM ECO,

O que anseia morrer inteiramente.

Sou talvez o que tu és no sonho.

Sou a coisa que sou. Já disse Shakespeare… “ (“The thing I am”)

(o6.07.09)

“…se a memória me devolve um verso,

repito o ritual inumeráveis

vezes em meu assinalado rumo.

Não posso executar um ato novo,

teço e torno a tecer a mesma fábula,

repito um repetido decassílabo,

torno a dizer o que outros me disseram,

as mesmas coisas sinto, sempre à mesma

hora do dia ou da abstrata noite…

Sou o cansaço de um espelho imóvel…”

 ****

“… certo homem

feito de solidão, de amor, de tempo,

acaba de chorar em Buenos Aires

todas as coisas.”

NA “DELICADA PENUMBRA DA CEGUEIRA”

 

“Oh, dias consagrados ao inútil

empenho de esquecer a biografia

de um poeta menor do hemisfério

austral, a quem o fado ou os astros

deram um corpo que não deixa um filho

e a cegueira, que é penumbra e cárcere,

e a velhice, alvorecer da morte,

e o renome, que ninguém merece,

e o hábito de tecer decassílabos

e o velho amor pelas enciclopédias

e pelos finos mapas caligráficos

e pelo marfim tênue e a nostlagia

eterna do latim…

e esse mau costume, Buenos Aires…

e que na tarde, igual a tantas outras,

resigna-se a estes versos.”

 

Passaram-se alguns anos após aquela sucessão de livros e em 1981 o agora octogenário Borges reaparece com um livro surpreendentemente ágil e intenso, A cifra, com 45 poemas. Novamente há uma “Inscrição” para María Kodama e um prólogo importante:

“Minha sina é o que se costuma chamar de poesia intelectual… Admirável exemplo de uma poesia puramente verbal é a seguinte estrofe de  Jaimes Freyre: Peregrina paloma imaginária/que avivas os últimos amores / alma de luz, de música e de flores/ peregrina paloma imaginária. Não quer dizer nada e, à maneira da música, diz tudo; exemplo de poesia intelectual é aquela silva de Luis de Leon, que Poe sabia de cor: Viver comigo quero / gozar do bem que devo ao Céu anseio / sem testemunha, austero / de amor e ciúme, alheio / de ódio, de esperança, de receio. Não há uma única imagem. Não há uma única palavra bonita, com a duvidosa exceção de testemunha, que não seja uma abstração.

     Estas páginas procuram, não sem alguma incerteza, uma via intermediária”. 

    O primeiro poema, “Ronda”, não poderia ser mais típico:

 

“O Islã, que foi espadas

que desolaram o poente e a aurora

e um fragor de exércitos na terra

e uma revelação e uma disciplina

e a aniquilação dos ídolos

e a conversão de todas as coisas

em um terrível Deus, que está só…”

 

Na minha leitura das outras cinco coletâneas, não tive dificuldade de extrair pequenas citações de cada poema. A cifra, no entanto, me deu trabalho: é difícil não transcrever cada poema inteiro.

“O ato do livro” entrelaça Cervantes e sua criação ao Islã: “Será esta fantasia mais estranha que a predestinação do Islã que postula um Deus, ou que o livre-arbítrio, que nos dá a terrível potestade de escolher o inferno?”

    “Descartes” inaugura um tipo de poema comum no volume: aquele que repete em uma seqüência de versos a palavra inicial, dando uma cadência diferente ao livro com relação aos anteriores.

“Talvez um deus tenha me condenado ao tempo, essa

         longa ilusão.

Sonho a lua e sonho meus olhos, que percebem a lua.

Sonhei a tarde e a manhã do primeiro dia.

Sonhei Cartago e as legiões que desolaram Cartago…

Sonhei a geometria.

Sonhei o ponto, a linha, o plano e o volume.

Sonhei o amarelo, o azul e o vermelho.

Sonhei minha enfermiça infância.

Sonhei os mapas e os reinos e aquele duelo ao alvorecer.

Sonhei a inconcebível cor…

Quem sabe eu sonho ter sonhado.

Sinto um pouco de frio, um pouco de medo…

Continuarei sonhando Descartes e a fé de seus pais.”

Dois poemas seguidos, “As duas catedrais” e “Beppo” aludem aos Arquétipos platônicos.

Transcrevo algo de “Beppo”:

“O gato branco e casto se contempla

no luzidio vidro do espelho

e não pode saber que essa brancura

e esses olhos de ouro nunca vistos

antes na casa são sua própria imagem.

Quem lhe dirá que o outro que o observa

é somente um sonho do espelho?

Digo-me que esses gatos harmoniosos,

o de cristal e o de sangue quente,

são simulacros que concede ao tempo

um arquétipo eterno…”

“Ao adquirir uma enciclopédia”, após falar da “dilatada miscelânea que sabe mais que qualquer homem”, ele alude a um  

 

                             “…novo hábito

deste antigo hábito, a casa,

uma gravitação e uma presença,

o amor misterioso pelas coisas

que nos ignoram e se ignoram”.

Em “Duas formas da insônia”, ficamos sabendo que a insônia é “ensaiar com inútil magia uma respiração regular, é o peso de um corpo que bruscamente muda de lado, é apertar as pálpebras, é um estado parecido com a febre e que certamente não é a vigília…é querer mergulhar no sono e não conseguir mergulhar no sono, é o horror de ser e de continuar sendo…”; mas há a insônia pior, a da longevidade, “o horror de existir em um corpo humano cujas faculdades declinam, é uma insônia que se me mede por décadas e não com ponteiros de aço… é não ignorar que estou condenado à minha carne, a minha detestada voz, a meu nome, a uma rotina de lembranças, ao castelhano, que não sei manejar, à nostalgia do latim, que não sei, a querer mergulhar na morte e não poder mergulhar na morte, a ser e continuar sendo”.

“Buenos Aires”, onipresente desde o seu primeiro livro de versos, Fervor de Buenos Aires, publicado nos anos 20:

“Nasci em outra cidade que também se chamava Buenos Aires.

Recordo o ruído dos ferros do portão gradeado.

Recordo os jasmins e o algibe, coisas da nostalgia…

Recordo o que vi e o que me contaram meus pais…

Naquela Buenos Aires, que me deixou, eu seria um estranho.

Sei que os únicos paraísos não proibidos ao homem são os

         paraísos perdidos.

Alguém quase idêntico a mim, alguém que não terá lido esta

         página,

lamentará as torres de cimento e o talado obelisco.”

Em “Hino”:

“Esta manhã

há no ar o incrível aroma

das rosas do Paraíso.

Às margens do Eufrates

Adão descobre o frescor da água,

Uma chuva de ouro cai do céu;

é o amor de Zeus….

Pitágoras revela a seus gregos

que a forma do tempo é a do círculo…

Whitman canta em Manhattan.

Homero nasce em sete cidades.

Uma donzela captura agora

o unicórnio branco.

Todo o passado volta feito onda

e essas antigas coisas reaparecem

porque uma mulher te deu um beijo.”

 

(o8.07.09)

ESPELHO E ECO

“Não passo de imagens que o acaso

Vai embaralhando e que nomeia o tédio.

Com elas, mesmo cego e alquebrado,

Hei de lavrar o verso incorruptível

E (é meu dever) salvar-me”.

Como já disse, A cifra é um livro muito “citável”. Por isso, quem ler e achar coisas lindas não fique achando que as desprezei, é que dá vontade de colocar poemas inteiros aqui (como, por exemplo, “Blake” ou “A trama”).

              “… Minha verdadeira estirpe

é a voz, que ainda ouço, de meu pai,

comemorando música de Swinburne,

e os grandes volumes que folheei,

folheei e não li, e que me bastam…”  (“Yesterdays”)

“Tem o hábito da mate, que de algum modo

povoa a solidão…

…costuma contar, sempre com as mesmas palavras, aquela longa marcha de tantas léguas de Junín a San Carlos. Talvez ele a conte com as mesmas palavras porque as saiba de cor e já tenha esquecido os fatos.” (“Andrés Armoa”.

“Realizei um ato irreparável,

estabeleci um vínculo.

Neste mundo cotidiano,

que se parece tanto

ao livro das Mil e Uma Noites,

não há um único ato que não corra o risco

de ser uma operação de magia,

não há um único fato que não possa ser o primeiro

de uma série infinita.

Pergunto-me que sombras não irão lançar

estas ociosas linhas.”  (“O terceiro homem”)

“Naquele exato momento, disse o homem a si mesmo:

Que  não daria eu pela ventura

de estar a seu lado na Islândia

sob o grande dia imóvel

e de compartilhar o agora

como se compartilha uma música

ou o gosto de uma fruta.

Naquele exato momento,

o homem estava junto dela na Islândia.” (“NOSTALGIA DO PRESENTE”)

Ele se permite inclusive repetir versos de poemas anteriores (veja-se “O ápice”); em contrapartida oferece-nos alguns dos seus melhores momentos, como o “Reverso”  do “Poema”:

“Acordar aquele que dorme

é impor a outro o interminável

cárcere do universo….

É revelar-lhe que é alguém ou algo

Que está sujeito a um nome que o divulga

E a um cúmulo de ontens…

É saturá-lo de séculos e estrelas.

É restituir ao tempo outro Lázaro

saturado de memória.

É infamar a água do Letes.” (belíssimo, não?)

“A noite nos impõe sua tarefa

mágica. Destecer o universo,

as infinitas ramificações

de efeitos e de causas, que se perdem

na vertigem sem fundo que é o tempo.

A noite quer que esta noite esqueças

teu nome, teus ancestrais e teu sangue;

cada palavra humana e cada lágrima,

o que a vigília pôde te ensinar,

o ponto ilusório dos geômetras,

a linha, o plano, o cubo, a pirâmide,

o cilindro, a esfera, o mar, as ondas,

tua face sobre a fronha, o frescor

do lençol estreado, os jardins,

os impérios, os Césares e Shakespeare

e o que é mais difícil, o que amas.

Curiosamente, uma pílula pode

riscar o cosmos e erigir o caos. (“O SONHO”)

Já “Um sonho” me trouxe à memória as histórias da Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster, todo construído nessa atmosfera:

“Em um deserto lugar do Irã há uma não muito alta torre de pedra, sem porta nem janela. No único quarto… há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem que se parece comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que em outra cela circular escreve um poema sobre um homem que em outra cela circular…” 

“Do outro lado da morte talvez saiba

se fui uma palavra ou fui alguém”. (“Correr ou ser”, um título que tem o seu quê de cômico.)

Algumas razões que embasam “A fama”, ou seja, a figura construída publicamente:

“Professar o amor ao alemão e a nostalgia do latim…

Agradecer o xadrez e o jasmim, os tigres e o hexâmetro…

Ter honrado espadas e sensatamente desejar a paz…

Ser Alonso Quijano sem me atrever a ser Dom Quixote…

Ter urdido um ou outro decassílabo.

Ter voltado a contar velhas histórias.

Ter disposto no dialeto de nosso tempo cinco ou seis metáforas…

SER DEVOTO DE CONRAD.

Ser essa coisa que ninguém pode definir: argentino.

Ser cego.

Nenhuma dessas coisas é estranha e seu conjunto me depara

uma fama que não consigo compreender.”

 

Um dos “Justos” é “o que agradece que na terra exista Stevenson”

Em “O cúmplice”: “devo justificar aquilo que me fere”.

“Antes de adentrarem o deserto

os soldados beberam longamente da água do poço.

Hérocles entornou sobre a terra

a água do seu cântaro e disse:

Se havemos de entrar no deserto,

 já estou no deserto.

Se a sede vai me abrasar,

que me abrase já…

Um homem foi deixado pela mulher.

Resolveram fingir um último encontro.

O homem disse:

Se devo entrar na solidão,

já estou só.

Se a sede vai me abrasar,

que me abrase já…

Ninguém na terra

 tem a coragem de ser aquele homem. (“O DESERTO”)

“O bastão de laca” repete o mote de “O terceiro homem” (e de “A trama”), do vínculo secreto entre todas as coisas:

“Não é impossível que Alguém tenha premeditado

este vínculo.

Não é impossível que o universo precise deste

vínculo.”

 

“A certa ilha” é uma homenagem-idealização da Inglaterra: “Não falarei de teus mares, que são o Mar/ nem do império que te impôs, ilha íntima/ o desafio dos outros”.

Há uma série de poemas “orientais”, como “Shinto”: “…por instantes nos salvam/ as aventuras ínfimas/ da atenção ou da memória…” Entre eles, dezessete haikus, dos quais transcrevo quatro:

“É ou não é

o sonho que esqueci

antes da aurora?

 

Calam as cordas.

A música sabia

tudo o que sinto.

 

A ociosa espada

 sonha com suas batalhas.

Outro é meu sonho.

 

A lua nova.

Ela também a olha

de uma outra porta.”

Esse haiku prepara o poema-título, uma homenagem à lua, esse “hábito da noite”, que vivemos  “descobrindo e esquecendo”.

Como me surpreendeu esse velho Borges. Muito mais vivo e vivaz do que eu esperava, apesar dos seus cacoetes.

O NÚMERO DA AREIA

“… triste

hábito de ser alguém…”

 

“Somos a água, não o diamante duro…”

 

“esse fato tão notório de que ninguém pode morrer… A morte é mais inverossímil que a vida…”

Não posso dizer que Os conjurados (1985) seja um livro tão bom quanto História da Noite  ou A Cifra. Mesmo assim, não é uma despedida da vida (ele morreu um ano depois) que se possa desprezar. O próprio autor, mencionando os quatro elementos, no seu prólogo, diz: “costumo sentir que sou terra, cansada terra. Continuo, entretanto, escrevendo…Seria muito improvável que esse livro, que compreende quarenta composições, não entesourasse uma única linha secreta, digna de acompanhar-se até o fim”.

Muitos poemas são repetecos (há novamente uma “Trama”, por exemplo), cansados e corretos: “Já somos o passado que seremos”. Ele chega ao cúmulo, em “A soma”, de copiar (piorar) um de seus mais famosos textos, o epílogo de O fazedor. Mas prefiro descobrir as linhas dignas de se acompanhar até o fim.

“O hemisfério austral. Sob sua álgebra

de estrelas ignoradas por Ulisses,

um homem busca e seguirá buscando

as relíquias daquela epifania

a ele concedida, há tantos anos,

de outro lado de uma numerada

porta de hotel, junto ao eterno Tamisa,

que flui como flui esse outro rio,

o tênue tempo elementar. A carne

esquece seus pesares e venturas.

O homem espera e sonha. Vagamente

resgata circunstâncias triviais.

Um nome de mulher, uma brancura,

um corpo já sem rosto, a penumbra

de uma tarde sem data, o chuvisco,

umas flores de cera sobre um mármore

e as paredes, cor-de-rosa pálido.”  (“Relíquias”)

“As lustrais águas dessa noite já me absolvem

das cores variadas, das variadas formas.

As aves e os astros no jardim já exaltam

o regresso almejado das antigas normas

do sonho e da sombra. A sombra já selou

os espelhos que imitam a ficção das coisas.

Melhor o disse Goethe: O próximo se afasta.

Essas quatro palavras cifram todo o crepúsculo…” (“A jovem noite”)

“Alguém sonha”:

“… esses dois curiosos

irmãos, o eco e o espelho…

… o livro, esse espelho

que sempre nos revela outra face…

… a enumeração que os

tratadistas chamam de caótica e que,

de fato, é cósmica, porque todas as

coisas estão unidas por vínculos secretos…”

“Alguém sonhará”:

“O que sonhará o indecifrável futuro?… Sonhará que poderemos fazer milagres e que não o faremos, porque será mais real imaginá-los.”.

E o genial verso de “Sherlock Holmes”: “Vive de modo cômodo: em terceira pessoa”. Só esse já valeria o livro, além do belo título da coletânea (pena que o poema, no qual os membros de uma confraria atemporal ,, no que ele lembra mais uma vez Hesse e seu  Viagem ao Oriente, segue a “estranha decisão de ser razoáveis”, “no centro da Europa, nas terras altas da Europa, cresce uma torre de razão e de firme fé”, nao seja grande coisa).

“Furtivo e cinza na penumbra última,

vai deixando suas pegadas na margem…

Mil anos adiante um homem velho

vai sonhar-te na América. De nada

pode servir-te esse futuro sonho.

Estás cercado de homens que seguiram

pela floresta os rastros que deixaste,

furtivo e cinza na penumbra última..” (“Um lobo”)

“Aos outros todos resta o universo;

a minha penumbra, o hábito do verso…” (“On his blindness”)

Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas, agora, são o que é meu… só e nosso o que perdemos… Todo poema, com o tempo, é uma elegia”. (“Posse do ontem”)

“A cinza é tudo que me resta. Nada.

Das máscaras que fui já absolvido,

serei na morte meu total olvido.” (“Pedras e Chile”)

“Deus permite que os homens

sonhem com coisas reais…

 

Entregaram-lhes a um só tempo

o rifle e o crucifixo….

 

Ele só queria saber

se era ou não era valente…

 

Ninguém fique admirado

de que eu sinta inveja e dó

desse homem e de seu fado.” (“Milonga do morto”)

Talvez o grande poema do livro seja “Juan López & John Ward”, alusivo à guerra das Malvinas.

“Coube-lhes por sorte uma época estranha.

    O planeta tinha sido dividido em diversos países, cada um provido de lealdades, de queridas memórias, de  um passado sem dúvida heróico, de direitos, de agravos,de uma mitologia peculiar…

     López nascera na cidade junto do rio imóvel; Ward, nos arredores da cidade pela qual caminhou Father Brown. Estudara castelhano para ler o Quixote.

      O outro professava o amor a Conrad…

    Talvez tivessem sido amigos, mas viram-se uma única  vez frente a frente, em umas ilhas muitíssimos famosas, e cada um dos dois foi Caim, e cada um, Abel.

    Foram enterrados juntos. A neve e a decomposição conhecem-nos.

     O fato que narro se passou em um tempo que não podemos entender;”

E para terminar essa minha travessia dos poemas maduros de Borges:

“Nosso belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos para perdê-lo em um ato de fé, em uma cadência, no sonho, nas palavras que se chamam filosofia ou na pura e simples felicidade.” (“O fio da fábula”)

borges carão

09/08/2012

O MÁGICO QUE TIRA EXISTÊNCIAS DA CARTOLA: Hermann Hesse (1877-1962)

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(escrito especialmente para o blog em agosto de 2012)

“As pessoas dizem que não tenho noção de realidade (…) realmente me falta o respeito à realidade (…) é aquilo com que a pessoa não deve, em circunstância alguma, ficar satisfeito, aquilo que a pessoa não devem em circunstância alguma adorar e reverenciar pois é acidental, o sobejo da vida…”

“A concepção mágica da vida sempre me foi cara ao coração…”

  Hermann Hesse morreu em 9 de agosto de 1962, aos 85 anos (nascera em 1877).

   Já que estou mencionando datas, delimitações cronológicas, vários acontecimentos seminais de 1922 estão completando 90 anos: temos a Semana de Arte Moderna, Ulysses, The waste land, só para ficar nos casos mais óbvios.

   Em 1922, Hesse publicou um romance que cristalizou a “virada” em sua obra que eclodira em Demian (1919): Sidarta. Hoje em dia quase ninguém colocaria o livro do grande escritor alemão entre os grandes eventos literários daquele célebre ano. Mas décadas depois, na efervescência libertária dos anos 1960, o livro se transformaria num ícone da procura de caminhos alternativos ao materialismo ocidental, e Hesse um guru.

   Novamente décadas depois, Sidarta parece ter seguido o mesmo caminho de O pequeno príncipe, O grande Meaulnes (O bosque das ilusões perdidas) e outros livros que “fizeram a cabeça” de inúmeras pessoas e depois são relegados a uma categoria meio embaraçosa, entre a literatura cor-de-rosa e piegas, a auto-ajuda, o esoterismo e o bicho-grilismo,  e que são colocados na mesma pacotilha de coisas mais duvidosas como Fernão Capelo Gavoita ou O profeta (Gibran). E nada mais injusto, no caso do romance de Hesse, relato límpido, profundo e perfeito, aqui no Brasil magnificamente traduzido (por Herbert Caro).

  Li pouco da produção anterior de Hesse a Demian; sem ter feito uma revisão, penso que ele não entraria para a história da alta literatura do século XX por Peter Camenzind ou Rosshalde.

   E também demorei para apreciar verdadeiramente as qualidades de Demian e Sidarta. Comecei a amar (acho que posso utilizar esse verbo sem cair na pieguice) a obra de Hermann Hesse com a leitura de O jogo das contas de vidro, um dos romances que mais li dos anos 1980 para cá, e indubitavelmente um dos livros que considera absolutos. Ajudou muito eu ter descoberto, mais ou menos na mesma época,  outro livro-chave (pelo menos, para mim), a Correspondência entre amigos, cujo interlocutor era Thomas Mann (esse sim, o livro que li mais vezes em toda a vida, ao ponto de sabê-lo quase de cor).

  Não sou tão apaixonado por Hesse como sou por Mann, entretanto acho que chega bem perto a minha admiração por esse autor às vezes tão irritante, tão idiossincrático e que, ainda assim, cresce a cada releitura. Caso tivesse que fazer a opção da ilha deserta, levaria, claro, O jogo das contas de vidro, mas com uma pontada no coração pensando em Narciso e Goldmund, Viagem ao Oriente, Sidarta, Demian. Quanto a O Lobo da Estepe creio que é o mais arrojado e complexo de seus livros, do ponto de visto propriamente ficcional e literário, aquele onde ele mais ousou e mais está atrelado aos grandes feitos modernistas.

   Agora: entre as edições brasileiras da obra de Hesse, há uma meio espúria (já que feita a partir de uma versão em inglês) lançada nos anos 1970 pela Artenova (a tradução é de Affonso Blacheyre), editora cujos exemplares literalmente se desfazem durante a leitura, pois as páginas vão descolando. Todos os livros que eu possuo da Artenova tem de ser manuseados com muito cuidado, para que páginas não se percam ou fiquem embaralhadas.

   Dando uma folheada, (quase uma revoada de folhas), tentando abstrair a capa medonha,  no meu exemplar de MINHA VIDA [Autobiographical writings], apesar desses percalços da chinfrinzice editorial e de um texto brasileiro que é uma versão de uma versão, fiquei novamente maravilhado com a beleza de certos trechos: Theodore  Ziolkowski (também responsável pela Correspondência Hesse-Mann, lançada no Brasil pela Record, em tradução de Lya Luft) reuniu 12 textos autobiográficos de diversas épocas, feições e níveis de qualidade. Nenhum deles é desperdício de tempo, mas três são especialmente lindos.

  O meu favorito, de longe, é Hóspede do Balneário (1924). Mas como esquecer A infância do mágico (1923)ou Autobiografia resumida (1925)? Este último é muito curioso e instigante: até certo ponto, Hesse parece estar nos contando de uma forma poética e concentrada os caminhos da sua vida, mas em determinado ponto, assim como fez com seus personagens nos romances, ele inventa um destino biográfico para si, fazendo um exercício de biografia conjetural. Assim, por exemplo, a persona, ou eu lírico, que nos narra sua autobiografia mostra como anelou por ser poeta desde a adolescência (“A questão era a seguinte: a partir do meu décimo terceiro ano de idade tornou-se claro que eu queria ser poeta ou nada”). Vocação assumida e até bem sucedida enquanto carreira profissional, por incrível que pareça, de repente uma terrível cisão interna, que a Primeira Guerra acarretou,fez com que abraçasse um pacifismo revoltante para seus concidadãos e amigos, amargando um terrível isolamento (“vi-me denunciado como traidor”).

   O sofrimento e os conflitos, tanto externos quanto interiores (faz um severo exame de consciência, “obrigado a procurar a causa de meus sofrimentos não externamente, mas dentro de mim”) desemboca numa radical transformação pessoal. Nós sabemos, por Demian, que isso aconteceu de fato com Hermann Hesse.  Mas ele transforma seu poeta num pintor, envolvido também com magia, que acaba sendo preso (“Com mais de setenta anos de idade, logo após ter sido escolhido por duas universidades para receber graus honorários, fui levado a julgamento por ter seduzido uma jovem usando mágica”). Na prisão, ele pinta  uma paisagem (atravessada por um trem) na parede da cela e a fantasia biográfica vai se encaminhando para um fim digno de Borges:

“Foi diante desse quadro em minha cela que eu me achava um dia, quando os guardas chegaram mais uma vez, com seu chamamento tedioso e tentaram arrancar-me de minha atividade feliz. Nesse momento senti cansaço e algo como uma revolta contra toda aquela azáfama, aquela realidade brutal e sem espírito. Se não me permitiam ficar com meu inocento jogo de artista, sem ser perturbado, nesse caso devia recorrer àquelas artes mais severas a que havia dedicado tantos anos da vida. Sem a mágica, aquele mundo era intolerável.

   Chamei ao espírito a fórmula chinesa, mantive-me por um minuto com a respiração suspensa e me libertei da ilusão da realidade. Depois solicitei afavelmente aos guardas que fossem pacientes por mais um momento, já que tinha de entrar em meu quadro e procurar alguma coisa no trem. Eles riram como costumavam fazer, pois me  consideravam mentalmente desequilibrado.

   Foi quando me tornei pequeno e entrei em meu quadro, embarquei no trenzinho e segui nele para o túnel pequenino e negro. Por algum tempo a fumaça de fuligem continuou a ser visível, saindo do buraco redondo, depois se dispersou e desapareceu, e com ela todo o quadro e eu com ele.

   Os guardas ficaram para trás, tomados de grande embaraço”.

   Esse texto fantasioso e notável prolonga a descrição de infância de Infância do Mágico, onde são acrescentados aos detalhes reais (ele evoca os pais, o avô de uma forma extraordinária) elementos “fantásticos” que, na verdade, reproduzem as percepções de qualquer criança imaginativa (“Duradouro foi o meu sonho infantil de que o mundo me pertencia, que somente o presente existia, que tudo se achava arrumado em volta de mim para tornar-se um belo brinquedo… Tudo era prenhe de realidade e tudo era prenhe de mágica, os dois cresciam conscientemente lado a lado, ambos me pertenciam… Como era diferente o aspecto da nossa porta dianteira, o barracão do jardim e da rua em uma noite de domingo, confrontado com a manhã de segunda-feira! Que semblante inteiramente diverso o relógio da parede e a imagem de Cristo na sala de visitas apresentavam no dia em que o espírito do vovô dominava, em confronto com aqueles dias quando dominava o espírito de meu pai, e como tudo isto mudava outra vez e por completo naquelas horas quando não havia mais o espírito de pessoa alguma, senão o meu próprio, dando às coisas sua assinatura, quando minha alma brincava com as coisas e lhes conferia nomes e significados novos… Como era pouco o que se mostrava fixo, estável, duradouro…”).

  Em 1924, o futuro amigo íntimo (a essa altura, longe disso; apesar de se conhecerem há muitos e muitos anos) Thomas Mann lançava A montanha mágica. Hesse, por sua vez, sofrendo com a ciática, passou algumas semanas na estação de águas de Baden. Escreveu então uma longa e apaixonante crônica da sua estadia, que parece ser a contrapartida miniatural do enciclopédico e ciclópico livro do colega. Uma joia rara, desde o momento em que ele desce na estação, reconhecendo seus “companheiros” e “concidadãos” no universo da ciática, ao mesmo tempo sentindo-se superior por poder andar um pouco mais desembaraçadamente, sem tantos indícios de invalidez: “Via-me cercado de longe e de perto por colegas sofredores, competidores junto aos quais eu era vastamente sofredor. Que sorte a minha ter vindo a tempo, ainda na primeira etapa de uma ciática camarada, ainda com os primeiros sintomas débeis de artritismo inicial! Fazendo a volta e apoiado na bengala fiquei olhando o leão-marinho por algum tempo, com aquela sensação conhecida de satisfação, provando que a língua não pode ainda exprimir os processos psicológicos, pois os opostos linguísticos, maldade e solidariedade, aqui se encontram unidos com a maior profundeza”.

   A partir daí não há uma página em que o leitor não  tenha um trecho deslumbrante em sua percepção da natureza humana, dos próprios processos íntimos neuróticos (a insônia e seus tormentos, e a premente, mas quimérica necessidade de encontrar um quarto de hotel “tranquilo”). Enfim, uma obra-prima. O que eu posso fazer de melhor é recomendar insistentemente a leitura desses Autobiographical Writings nesse aniversário da morte de Hermann Hesse.

A(s) existência(s) de Joseph Knecht: o chamado da vida e a sabedoria

PRIMEIRA PARTE

 “O coração

A cada chamado da vida deve estar

Pronto para a partida e um novo início

Para corajosamente e sem tristeza

Entregar-se a outros, novos compromissos.

Em todo começo reside um encanto

Que nos protege e ajuda a viver…”

O trecho é de um dos poemas de Joseph Knecht (cujo sobrenome significa servidor), protagonista de O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO (Das Glasperlenspiel, 1943, traduzido pela dupla Lavínia Abranches Viotti & Flávio Vieira de Souza), de Hermann Hesse (1877-1962), que está saindo numa nova edição pela Record, aparentemente “revisada” (é o que alardeia a editora). Durante anos, eu esperei por esse acontecimento, uma vez que sendo ótima, antológica, essa tradução vinha há anos (desde sua publicação original pela Brasiliense) sendo reimpressa com vários erros, além de apresentar de cara um detalhe problemático: a transcrição dos nomes próprios: basta dizer que abrasileiraram Joseph Knecht para José Servo!

Entretanto, na nova edição a capa continuou muito feia e poluída, os nomes próprios aparecerem grafados de forma discrepante ao longo do livro (vai ver só se deram ao trabalho de revisar o começo, afinal é um livro muito extenso), e vemos Johann Sebastian Bach virar João Sebastião Bach. Knecht continua Servo. Há omissões evidentes de palavras, trocas (doença por dança, táticas por tácitas, etc) e efetuaram uma divisão de parágrafos no mínimo suspeita. Só aqui e ali se constata uma efetiva e salutar revisão, como a mudança de Livro das Metamorfoses, como antes aparecia, para o título em uso na atualidade, Livro das Mutações, para designar o I-Ching. Só que é muito pouco para um romance dessa importância e para um lançamento caro.

O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO é a obra máxima de Hesse e sintetiza sua filosofia de vida (principalmente pós-Demian): trata-se de uma apologia do que ele chama “despertar”, no sentido dos versos que abrem este artigo. No romance, por causa das guerras do século XX (chamado de era do folhetim) houve uma mudança global. Criou-se uma província pedagógica, aparentemente utópica, a Castália, para preservar os valores culturais verdadeiros! Lá são cultuadas a Matemática, a Música, a Astronomia, e também o Latim. A ciência e a arte são manipuladas através de uma prática esotérica e misteriosa, o Jogo de Avelórios.

O narrador se resolve a contar a vida de Knecht a partir de sua indicação como um dos eleitos para viver na Castália, quando menino e órfão, de origem obscura. Ele se tornará, malgrado uma certa atitude outsider (vive um tempo com um sábio especialista na língua chinesa e no I-Ching), o Magister Ludi (Mestre do Jogo), porém romperá com o mundo da Castália e preferirá tornar-se um mero preceptor no mundo secular (há, porém, um final abrupto e estranho, logo no início da sua nova vida, perto dos 50 anos): “o seu caminho tinha seguido um círculo, uma elipse ou espiral, ou uma trajetória qualquer, menos uma linha reta, pois é evidente que a linha reta pertence apenas à geometria e não à natureza ou à vida”.

Por que Knecht abandona Castália? Porque, antes de ser eleito Magister Ludi, viveu alguns anos como emissário da província num mosteiro beneditino e enfronhou-se no estudo da História (uma disciplina desprezada pelos seus confrades) com o Padre Jacobus, grande personagem que homenageia o historiador Jacob Burckhardt, assim como Thomas van der Trave, o Magister Ludi anterior à Knecht, nos reporta a Thomas Mann (nos anos em que escreveu o livro, Hesse acompanha também o desenvolvimento de José e seus irmãos, conforme podemos ver pela correspondência trocada entre os dois amigos, e por isso nada nos impede de ver no próprio nome Joseph/José, e na sua trajetória, que combina momentos de obscuridade e momentos de glória, descenso e ascensão, uma alusão ao herói bíblico da tetralogia, que foi completada com José, o provedor, publicado no mesmo ano de O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO, embora as associações na obra de Mann sejam mais procuradas noutra obra dessa fase tardia, Doutor Fausto, de 1947).

Conhecendo melhor História (“estudar História significa entregar-se ao caos, conservando a crença na ordem e no sentido”), Knecht se dá conta de que Castália está encastelada numa existência alienada. Apesar de sustentada pelo mundo secular, procura se manter longe das lutas quotidianas e das grandes questões mundiais. Hesse faz, assim, uma contundente acusação à cultura humanística do seu tempo que não soube incorporar a práxis histórica, e se transformou numa cultura de especialistas. E que, no caso alemão, deu espaço para o nazismo e foi derrotada por ele.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 29 de abril  de 2003)

SEGUNDA PARTE

  Na seção anterior comentei os pontos discutíveis da nova edição  “revisada” de O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO, e também o plano geral da obra e seu “corpo” principal, a biografia do protagonista, Joseph Knecht, o qual, após tornar-se o Magister Ludi, abandona a província pedagógica onde o jogo do título é praticado.

Em Sidarta (1922), o narrador nos diz que o herói do livro teve a percepção do que, na verdade, significa a sabedoria: “Nada era a não ser a predisposição da alma, a faculdade, a arte secreta de conhecer a cada instante em plena vida a idéia de unidade, de sentir a unidade, de encher dela os pulmões”.

Essa é a tônica das três belíssimas histórias que complementam O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO, além da história principal (que termina de um modo estranho, como se Hesse não tivesse a energia para inventar uma vida para Knecht pós-Castália) e de um conjunto de poemas.

São três possibilidades de reencarnação de Joseph Knecht, uma no período pré-civilizatório (O conjurador da chuva), outra nos primeiros tempos do Cristianismo (O confessor) e outra numa Índia atemporal (A encarnação hindu). Não é à toa que o livro se fecha com esta última, uma vez que é no pensamento oriental, com sua consciência da impermanência e transitoriedade de tudo (e mesmo assim uma noção de unidade, e não de fragmentação), que Hesse encontra saída para o impasse da razão ocidental, para sua tendência à petrificação e perpetuação.

Mais ainda, todos os caminhos para o despertar individual só podem ser experimentados, jamais ensinados ou doutrinados. Sabedoria que encontra eco num dos filmes mais importantes do nosso tempo, Matrix, no qual Morfeus diz a Neo, o Escolhido, “cedo ou tarde você vai perceber, como eu, que há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrê-lo”.

      Em O conjurador da chuva, Knecht é uma espécie de feiticeiro de uma tribo (cuja linha de poder é matriarcal). Sua função: dominar fenômenos da natureza para propiciar a colheita e a prosperidade da aldeia; caso contrário, seu destino é a imolação. É magistral a maneira como Hesse nos mostra Knecht-conjurador (apesar de guiado “mais pelos sentidos do que pelo intelecto”) como ancestral da pesquisa científica, embora algo tenha se perdido pelo caminho: “…aspiravam à mesma meta da ciência e da técnica dos milênios posteriores, ao domínio da natureza e ao manejo de suas leis”, entretanto “não se separavam da natureza nem tentavam descobrir seus segredos à força, nunca se contrapondo a ela ou lutando com ela. Continuavam parte integrante da natureza, com inteira e devota entrega de si próprios”. É assim que se pode fazer jus à condição de conjurador do tempo: “Em períodos de puríssima concordância e harmonia anímica, ele trazia no seu íntimo o tempo dos próximos dias, com exatidão e sem perigo de erro, prevendo-o como se trouxesse no sangue a partitura a ser tocada lá fora”.

O confessor, por sua vez, ao discutir o problema da alteridade, quase nos coloca no universo de Borges (assim como um os poemas de Knecht, Um sonho, no qual um bibliotecário vai desfazendo o que se lê nos livros catalogados). Dos três, é o meu favorito pessoal, e um dos supremos momentos de Hesse. Mostra como um latinizado Knecht (Joseph Flamulus), anacoreta do deserto que ouve sem julgar os pecados dos penitentes, cansa-se da sua condição e resolve procurar Dion, outro confessor, o qual age de forma oposta, anatematizando os penitentes. E é o suposto confessor rabugento que dirá para Flamulus as seguintes e inesquecíveis palavras, das quais Dostoievski teria orgulho: “Nós é que somos pecadores propriamente, nós que sabemos e pensamos, que comemos da árvore do conhecimento (…) não somos nunca inocentes, somos pecadores perpétuos, morando no pecado e no incêndio de nossa consciência (…) Nós não estamos nos ocupando deste ou daquele desvio ou prevaricação, mas continuamente com a própria culpa original. Por isso é que um de nós só pode assegurar ao outro que está a par do que se passa e que o ama como irmão”. Hesse já criara, em 1930, uma elegante e bela coincidentia oppositorum, em Narciso e Goldmund, um dos seus melhores livros. De qualquer forma, quem ler a narrativa, verá que solução genial é encontrada para o dilema de Flamulus.

A encarnação hindu distingue-se de Sidarta porque o personagem não é um buscador da Verdade, dedicado à procura do sagrado e do divino. Pelo contrário, é nas fímbrias do sagrado que o personagem principal, Dasa, vai vivenciar o Maia, a vida ilusória que tomamos como realidade, antes de se tornar servidor de um sábio iogue, cuja presença permeia sua vida, a qual oscila entre a glória e a desgraça: “de súbito todos os longos anos que vivera, os tesouros que guardara, as alegrias que gozara, as dores sofridas, o medo que sentira, o desespero que atingira as raias da morte, eram-lhe tirados, apagados, transformados em nada—e no entanto não se extinguiam! Pois a recordação permanecera, as imagens haviam ficado dentro dele….”Moral: mesmo perseguindo a transcendência, não se pode desembaraçar-se da experiência.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de maio de 2003)

A era tardia do homem europeu e seu possível renascimento

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de maio de 2003)

Outro livro de Hermann Hesse reaparece nas livrarias: O último verão de Klingsor  (1920). Na narrativa-título (no original, Klingsor´s letzler Sommer)—há mais duas—pode-se ler: “Diziam: é esse o homem, ecce homo,o homem cansado, selvagem, infantil e refinado de nossa era tardia, o homem europeu moribundo e que quer morrer, retesado por todos os desejos, enfraquecido por todos os vícios, entusiasmado com a consciência do seu declínio, pronto para qualquer progresso, maduro para qualquer retrocesso, submetendo-se à dor e ao destino como um morfinômano à sua droga, ao mesmo tempo Fausto e Karamázov, animal e sábio… cheio de medo infantil da morte e de uma cansada disposição para morrer”.

     A partir de certo momento, Hesse dedicou-se a narrativas que diagnosticavam o estágio espiritual crítico da Europa pós-Primeira Guerra e que, além disso, montavam uma espécie de Teatro do Eu, projeções expressionistas do enredo em cenários fantásticos, onde os personagens enfrentam suas cisões internas, criadas por princípios dicotômicos. É o caso de Demian, de Klingsor, de Viagem ao Oriente, de O lobo da estepe. E obras que ensaiam uma tentativa de conciliação de forma mais explícita e quase didática (ou antes, pedagógica, para utilizar uma expressão goethiana), como Narciso & Goldmund  e O jogo das contas de vidro (as supremas obras de Hesse).

Para isso, ele teve de matar—num determinado sentido—o artista que havia sido, autor de romances mais tradicionais como Rosshalde (1914), cujo protagonista é um pintor, assim como Klingsor, que morrerá aos 42 anos, após um intenso verão mágico, no qual se interpenetram impasses artísticos, fantasias e aspectos pessoais deformados. Sua última obra será um auto-retrato perturbador. Klingsor tem que morrer para Hesse renascer como artista e renovar seu estilo. O texto também é uma espécie de tomada de posição modernista do grande escritor alemão diante da forma tradicional do relato. Não é à toa que Klingsor reaparecerá transfigurado num dos seus livros mais originais e arrojados, Viagem ao Oriente.

Outro texto poderoso do livro é Klein e Wagner (no original, Klein und Wagner), no qual o “teatro do Eu” que o protagonista tem de enfrentar já prefigura o Teatro Mágico (só para raros e loucos) de O lobo da estepe. Após anos de uma vida medíocre com uma esposa que não suportava, Klein comete um desfalque e foge para a Itália, o sonho romântico dos alemães. Lá se envolve com uma mulher de vida duvidosa, apaixonada pela jogatina, e confronta-se com o dilema da sua existência e dos personagens hessianos típicos: a fragmentação.

O nome Wagner que aparece no título alude tanto ao grande compositor (pelo qual Klein e seu autor mantêm sentimentos ambivalentes de reconhecimento e desprezo) quanto a um assassino famoso, que massacrou a família e que se torna uma espécie de alter ego para Klein.

O texto encaminha-se para uma das duas soluções extremas que desde o início apareciam como acordes dissonantes na libertação de Klein da mediocridade burguesa: assassinato ou suicídio? Hesse, entretanto, surpreende ao fazer do final uma versão ocidental da iluminação de Sidarta: “A única diferença que havia entre a velhice e a mocidade, entre Babilônia e Berlim, entre o bem e o mal, entre o dar e o tomar,a única coisa que enchia o mundo de diferenças, valores, paixões, contendas e guerras era o espírito humano, o jovem, impetuoso e cruel espírito humano na fase da mocidade turbulenta, ainda longe do conhecimento, ainda longe de Deus. O espírito humano inventava contradições, inventava nomes. Chamava algumas coisas de belas, outras de feias e para ele algumas coisas eram boas e outras más. Uma parte da vida era chamada de amor, outra de assassinato. Como era jovem, leviano e cômico esse espírito!”

Quanto ao terceiro texto, Alma de criança (no original, Kinderseele; como os outros, traduzido por Pinheiro de Lemos), o qual lembra uma parte de Demian, é um dos mais belos já escritos sobre a angústia, além de ser um ajuste de contas com a figura paterna, coma qual Hesse sempre teve problemas (ele dizia que sua “fonte” era materna). Nele, é narrada uma transgressão: o filho entra furtivamente no quarto paterno, de onde rouba algumas coisas, aguardando depois a sanção inevitável. Se tomarmos como verdadeira a afirmação de que “o menino é pai do homem”, então Alma de criança é o preâmbulo perfeito para se conhecer o universo de Hermann Hesse e de seus principais personagens.

08/08/2012

O Teatro Mágico do “eu” dividido: “O lobo da estepe”

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de setembro de 2000

    Falta pouco para o século terminar e naturalmente tendemos a fazer as contas. Que obras literárias ficarão? Daí a importância do reaparecimento nas livrarias, em nova edição, daquelas em cuja sobrevivência apostamos. É o caso de O LOBO DA ESTEPE (“Der Steppenwolf, 1927; a tradução é de Ivo Barroso), a mais famosa das obras-primas de Hermann Hesse (1877-1962).

   Harry Haller, o protagonista, está chegando aos 50 anos obcecado pela ideia de degolar-se com uma navalha, para fugir da angustiante divisão do seu ser em duas personalidades: uma, burguesa, que deseja calor, companhia (ele, um errante, sempre se hospeda em casas que lembam sua infância); outra, que ele denomina de “lobo da estepe”, misantropa e desadaptada, destinada à solidão e orgulhosa dessa condição. No fundo, é a velha dicotomia entre o “mundo luminoso” e o “mundo sombrio” que atormentava Emil Sinclair em Demian.

    Doris Lessing, a respeito de The golden notebook- O carnê dourado, romance que tem muitas afinidades com O LOBO DA ESTEPE, inclusive por causa da estrutura ousada e complexa, afirmou que às vezes pirar é uma forma de autocura, uma maneira de nosso eu interior eliminar falsas dicotomias e divisões. É o que acontece com Harry Haller: ele é convidado a participar de um Teatro Mágico (o qual o tradutor, Ivo Barroso, interpreta como disfarce metafórico para o uso de drogas, numa decifração meio pobre), “só para raros e loucos”.

     Esse teatro é sua própria personalidade. Hesse investe contra a pretensa unidade do eu. Na verdade, somos um feixe de eus: “Não há nenhum eu, nem mesmo o mais simples, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas.. Todo homem é uno quanto ao corpo, mas não quanto à alma (…) Nosso Lobo da Estepe crê levar também em seu peito duas almas (lobo e homem) e por isso sento o peito demasiadamente oprimido e estreito… Crê, como Fausto, que duas almas são demais para um só peito e podem arrebentar com ele. Mas, ao contrário, são demasiado poucas…”

      E Harry, ao longo do romance, irá experimentar algumas das suas outras almas, numa saudável esquizofrenia, por assim dizer, tendo como guias Hermione e Pablo. Hermione é seu duplo feminino, a cortesã que o obriga imperativamente a usufruir da vida, a dançar, a praticar intensamente o sexo (não com ela, entretanto), a se dissolver “na festa” (lembre-se, leitor, que O LOBO DA ESTEPE se passa nos anos 20 e a euforia desenfreada e desesperada que marcou essa década se insinua no romance de Hesse, embora de forma menos óbvia do que nos textos de Scott Fitzgerald; a atmosfera das experiências de Harry lembra também a dos textos de Arthur Schnitzler, o austríaco que inspirou De olhos bem fechados, de Kubrick). Aliás, a cena do baile à fantaisa é um dos grandes momentos de um livro da mais alta qualidade literária.

Pablo, por sua vez, é o belo músico aparentemente burro e tolo, mas que se revela o guia para os mais recônditos cenários do Teatro Mágico, aqueles onde Harry terá que se deparar com suas almas mais sombrias e estranhas, que paradoxalmente servirão para divertir os imortais Goethe e Mozart, os ídolos artísticos do Lobo da Estepe. Pois uma das “lições” da história de Harry Haller é que se precisa do humor, acima de tudo; para se encarar a vida a sério é necessário não se levar a sério. Como o Mozart do Teatro Mágico diz a Haller: “Aprenda a levar a sério o que merece ser levado a sério, e a rir de tudo o mais!”

    Contudo, o melhor de O LOBO DA ESTEPE é que não há soluções ou verdades definitivas, nem o personagem acaba bem, apaziguado, conciliado. Esse livro, na terceira leitura, como na primeira (e provavelmente numa quinta ou décima) é um duro e perturbador reaprendizado da sensibilidade e da percepção do mundo e, mesmo numa releitura, sempre se poderá repetir a seu respeito o comentário de Thomas Mann, numa carta de janeiro de 1928 ao amigo Hesse (essa correspondência é um dos amores da minha vida de leitor): O Lobo da Estepe conseguiu me ensinar novamente depois de muito tempo o que significa ler”. E sempre restará ao leitor a esperança de, na próxima leitura, ter aprendido a jogar melhor o jogo da existência, desejo formulado por Harry nas frases finais.

A poética do umbral: um texto-ícone do século XX

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de maio de 2000)

Além de Thomas Mann, outro grande escritor alemão está ressurgindo nas livrarias este ano: Hermann Hesse (1877-1962). A Record deu um novo e melhorado tratamento visual aos seus livros, entre os quais DemianHistória da juventude de Emil Sinclair, um texto-ícone do século XX, aquele que tem a famosa frase (bem nietzschiniana): “Quem quiser nascer tem que destruir um mundo”.

Hesse publicou-o em 1919 sob pseudônimo e houve muita especulação na época sobre a verdadeira identidade do autor. Quando foi descoberta, o livro passou a ser uma espécie de divisor de águas na sua trajetória artística. E um grande salto, constata-se hoje, embora na memória de quem escreve este artigo tenham permanecido, durante anos, após a primeira leitura, muitos detalhes irritantes e literariamente derrisórios: 1) essas pessoas (guias, como são denominadas) que aparecem do nada e que dão ao leitor a idéia de que o universo inteiro está voltado para o destino do protagonista, Emil Sinclair; 2) os símbolos (o pássaro heráldico meio gavião meio fênix, o sinal de Caim, a mãe que se chama Eva), que são exaustivamente explicados para o leitor, como se este fosse retardado; 3) a ausência absoluta de um pano de fundo mínimo para as reviravoltas íntimas do personagem, já que todos à sua volta parecem fantasmas; 4) os diálogos irreais e inverossímeis, e, se pensarmos na faixa etária dos personagens (se é que se pode chamar de personagens seres tão esquemáticos, pedantes e pomposos).

Recapitulemos o fio de enredo: Emil Sinclair, aos 10 anos, oriundo de uma família extremamente religiosa, fica à mercê de outro menino, Kromer, que faz chantagem com ele. Um outro garoto, Max Demian, forasteiro que começou a estudar no mesmo colégio de Sinclair, aproxima-se dele e consegue afastar Kromer.

A experiência com Kromer faz Sinclair entrar em contato com o que ele chama de mundo sombrio, subjacente ao mundo luminoso representado pela família. Demian revela, através de uma reinterpretação da história de Caim, que na verdade não existe tal dicotomia: o mundo é ao mesmo tempo luminoso e sombrio. Mas Sinclair ainda não está preparado para aceitar tal verdade (e “the readness is all”), e através de suas experiências como adolescente mantém uma visão dicotômica e dualista: ora cai na esbórnia, na dissipação, ora cultua a pureza e a santidade.

Durante essa trajetória, Demian manteve-se afastado da vida de Sinclair e este teve como único amigo o organista (e sacerdote frustrado) Pistórius, que lhe ensina tudo sobre Abraxas, divindade da Antiguidade a um só tempo Deus e Demônio, congregando em si o luminoso e o sombrio.

A aproximação da guerra é o paralelo coletivo da busca de Sinclair: ele tem de sair da casca, isto é, destruir um mundo, para nascer um novo homem, e o mundo carcomido da Europa talvez tenha de passar pela destruição para renascer como a ave fênix: “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir o mundo”.

As quatro objeções mencionadas só funcionam se forçarmos a barra para enquadrar convencionalmente Demian como romance ou novela. Sem essa muleta classificatória, o texto revela suas qualidades e o seu alcance. E nos damos conta de que foi escrito por um poeta que se exprime num relato lírico, projeção poética de experiências pessoais, que não demanda qualquer verossimilhança, pois se fundamenta numa simbologia particular. Que se aceita ou não.

Só mais tarde é que Hesse conseguiu se reequilibrar como narrador, conservando as conquistas de Demian. Surgiram, assim, seus grandes romances: O lobo da estepe, Narciso e Goldmund & O jogo das contas de vidro, além do especialíssimo Viagem ao Oriente.

Vencidos (parcialmente, é preciso dizer) certos preconceitos literários, é fascinante observar, numa releitura,como Hesse trabalha com vários elementos do imaginário cristão (a história de Caim, a figura de Eva, os dois ladrões crucificados com Jesus, a luta de Jacó com o anjo) para lançá-los de encontro a conceitos do pensamento religioso oriental, principalmente aqueles que são o que talvez de mais coerente e pertinente se tenha pensado sobre o mundo e a existência, isto é, aqueles que se baseiam na impermanência de todas as coisas, mesmo as que amamos; e, além do orientalismo (que daria origem ao seu belíssimo livro seguinte, Sidarta), a presença da psicanálise de feição junguiana, com o uso insistente dos sonhos e do inconsciente coletivo, sem contar uma inequívoca tendência edipiana.

Aliás, tudo isso está representado no texto pela mudança de significado de outro símbolo importante: o umbral (ou soleira) que a princípio servia para delimitar o mundo luminoso e o mundo sombrio, e depois é retomado como símbolo de passagem, mas uma passagem que faz tudo convergir e que congrega tudo, inclusive as contradições.

E se o livro parecia antes subjetivo em demasia, agora parece simplesmente individualista. No melhor sentido da palavra. Num mundo uniformizado, onde todos querem se nivelar pelo denominador comum do consumo e da facilidade, ler o processo de constituição de uma individualidade verdadeira e poderosa é algo eletrizante. O próprio texto encarrega-se, por sua vez, de investir contra o rebanho, a submissão à massa.

Quanto à edição nova, é mais do que satisfatória do ponto de vista da qualidade gráfica, além de manter a antiga e bela tradução de Ivo Barroso. Só que em algumas páginas houve troca ou supressão de palavras (isso acontece nas páginas 89, 133 e 163). Além disso, um importante parágrafo (no qual Demian explica suas restrições à história bíblica do Bom Ladrão) ficou truncado na página 78. Ali o leitor encontrará: “A história não passa de um caso devoto, alambicado e falso, untuosamente comovida e com um fundo edificante. Se tivesse de escolher hoje por amigo um dos dois ladrões ou meditar sobre qual deles poderias depositar melhor tua confiança, decerto não escolherias, sem dúvida, ao outro, que é um indivíduo de caráter…” Na parte final da passagem, deve-se ler: “Se tivesse de escolher hoje por amigo a um dos dois ladrões ou meditar sobre qual deles poderias depositar melhor tua confiança, decerto não escolherias esse choramingas converso. Escolherias, sem dúvida, ao outro, que é um indivíduo de caráter”.

Palavras velhas, legítimas, adultas, douradas, sólidas e plenas, ou o anti-trivial variado

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de junho de 2000)

Além de reimprimir obras de Hermann Hesse (1877-1962) já anteriormente editadas (como Demian), a Record colocou no mercado o inédito Felicidade (Glück, traduzido por Lya Luft), aquele tipo de coletânea que reúne o que chamamos de “trivial variado”, textos escritos à margem da obra principal de um autor, geralmente curtos e envolvendo as mais diversas intenções, com um espectro de assuntos altamente heterogêneo.

No caso das 16 peças que compõem Felicidade e que recobrem um período que vai de 1947 a 1961, temos descrições de paisagens; comentários sobre correspondência pessoal; sobre a qualidade do papel usado para se escrever; anotações cotidianas; reflexões sobre as palavras felicidade e pão; evocações da infância ou de pessoas como o grande escritor francês André Gide (autor do maravilhoso Os subterrâneos do Vaticano e da obra-prima modernista Os moedeiros falsos), o contemporâneo com quem Hesse mais se identificava; uma lenda chinesa irônica narrada sob a forma de um poema etc.

Geralmente as coletâneas do trivial variado são póstumas e eu já por várias vezes sublinhei minha antipatia por essas iniciativas editoriais que poderíamos denominar de culto necrófilo das sobras. O próprio Hermann Hesse, entretanto, nunca poupou os leitores do seu trivial variado. Quem leu sua correspondência sabe que os seus destinatários estavam sempre agradecendo a ele o envio de um novo livrinho (o termo não é pejorativo,não, leitor,  Hesse fazia uso dele).

Só que falar em trivial variado diante de uma crônica como Segredos (o ponto alto de Felicidade) é um pouco complicado. É, sem dúvida, um dos textos mais belos escritos por ele. O gatilho que o detona é uma das milhares de cartas de jovens para quem ele foi um guru, na qual aparece a clássica pergunta: a vida tem sentido: O remetente afirma confiar na resposta de Hesse por ser ele “velho” e “sábio”. A partir disso, o grande escritor alemão vai desconstruindo (ele odiaria esse termo modernoso, mas é o que ele faz) as duas palavras (velho e sábio), procurando, após dessacralizá-las, encarar de frente o dilema formulado pelo remetente (o sentido da vida), “sem estender em torno de sua cama um denso mosquiteiro de sistemas, convenções, simplificações e achatamentos”.

Pré-Clarice Lispector (que, aliás, sofreu forte impacto com a leitura de O Lobo da Estepe) e seus inquietantes textos, e muito à Heidegger, Hesse nos mostra que é impossível manter um enfrentamento direto da realidade do mundo por muito tempo, uma vez que essa experiência “na realidade nua jamais dura muito tempo, pois carrega em si a morte, sempre que ataca uma pessoa e a lança no tremendo redemoinho ela dura exatamente o tempo em que alguém a pode suportar; depois termina com a morte ou a fuga desabalada de volta para o não-real, o suportável, o ordenado, o previsível. Nessa zona suportável, morna e ordenada dos conceitos, dos sistemas, dos dogmas e alegorias, vivemos nove décimos de nossa vida”.

Segredos foi escrito em 1947, portanto em pleno pós-guerra. Nos textos dessa década percebe-se nitidamente todo o estrago psicológico causado pelo desmoronamento da Alemanha (apesar de Hesse ter se exilado na Suíça muito antes do começo da guerra) insinuando-se pelas frinchas e frestas do seu cotidiano de escritor, horas na escrivaninha, como ele mesmo diz. São preocupações sobre o destino de pessoas queridas, sobre as quais não se tem nenhuma notícia, são constatações da transformação irremediável da face da terra (no sentido sociológico, existencial e ecológico).

Em contrapartida, os pequenos fatos do cotidiano perduram e se impõem e até ínfimos percalços (que se tornam objeto de vinhetas anedóticas) nos entretêm na tessitura de Felicidade, como a descoberta de que um livrinho de sua autoria, que ele adornara com um desenho e uma dedicatória especiais para dar de presente a uma pessoa que amava, foi vendido a um sebo: “Eu preferia ter uma lembrança melhor do que a coroazinha de flores que eu pintara com afeto, que fora desdenhada e vendida ao sebo. Fato que já fora resolvido, mas, como então notei, me deixara um sentimento parecido com a mágoa”.

     Num movimento pendular oposto, a reflexão sobre determinadas palavras (“velhas palavras, legítimas, adultas, douradas, sólidas e plenas… boas palavras significativas”) como pão (“basta pronunciá-la e entregar-se ao que ela significa, e já todas as nossas forças vitais do corpo e da alma são convocadas e entram em atividade”) ou a audição de uma música (a “Marcha Fúnebre” de Chopin), por exemplo, levam a micro-exercícios proustianos, a um leque de reminiscências poéticas (sem nenhum traço de pieguice). Nessa linha, o texto-título é uma pequena obra-prima.

Portanto, o trivial variado de Hermann Hesse parece planar bem acima da trivialidade. As palavras que desabrocharam nas horas de escrivaninha poderão ser saboreadas aos poucos, sem muita pressa, ainda que ele mesmo duvidasse da sua eficácia: “ao escrever dirige-se ao leitor com a cultivada ilusão de que exista uma norma, uma língua, um sistema que lhe possibilite transmitir seus pensamentos e vivências de modo que o leitor possa partilhar relativamente delas, e apossar-se delas. Habitualmente ele faz como todo mundo, executa seu ofício tão bem quanto pode, e procura não refletir sobre a extensão do terreno no qual está plantando, e em que medida os leitores entendem seus pensamentos e vivências, sentem e partilham deles”. Elas sempre estarão aí para a felicidade do leitor. Velhas, legítimas, adultas, douradas, sólidas e plenas.

07/08/2012

Leitura em espelho: DOUTOR FAUSTO e O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO

  

                           I

(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 8 de outubro de 1996)

A tradução de Herbert Caro para Doutor Fausto talvez tenha sido o grande acontecimento literário nos anos 80, quando saiu pela Nova Fronteira[1]. Agora que o livro está para comemorar 50 anos (em 1997), não custa nada uma revisão dessa reatualização da lenda do homem que faz pacto com o Diabo. Na versão de Thomas Mann, o tentador propõe ao músico Adrian Leverkühn vinte e quatro anos de genialidade. A “apropriação” da alma de Leverkühn começou ao contrair sífilis com uma prostituta, doença que degenerará em loucura irremediável, tal como Nietzsche. Como se sabe, o grande filósofo teve suas idéias encampadas e deformadas pelo nazismo, graças à sua irmã. E o destino de Leverkühn, tão semelhante, espelhará o destino da Alemanha, que mergulha em duas guerras.

Tudo nos é contado por Serenus Zeitblom que, em meio à Segunda Guerra, propõe-se a escrever a biografia de Adrian.  Como ele mesmo afirma, “minha vida pessoal sempre se me afigurou apenas secundária, e sem que propriamente me descuidasse dela, vivia-a distraído… ao passo que minhas verdadeiras diligências, tensões e preocupações se dedicavam ao bem-estar do amigo da infância”.

Portanto, de imediato salta aos olhos o aspecto de alegoria poderosa da Alemanha rumo à loucura nazista, ainda mais pelo seu mergulho nas raízes luteranas presentes na mentalidade germânica, ao ambientar boa parte da história em cidades saturadas de passado como Halle, Leipzig e Kaisersaschern (onde tudo tem início). Mas há um lado ainda mais instigante em Dr. Fausto: a discussão do problema da arte contemporânea que, por extensão, afeta a própria forma do livro.

Leverkühn tem especial predileção pela paródia. Atualmente, todas as manifestações artísticas estão impregnadas por ela ou pelo seu primo pobre, o pastiche. Dentro da narrativa, discute-se incessantemente se a função genuína da arte não se esgotou e se ela não somente, e isso nos melhores casos, crítica e recombinação paródica das formas passadas. Além disso, discute-se o problema da arte como jogo e diversão ou como forma de conhecimento, ambição dos maiores artistas do século XX. Como romance enciclopédico que é, Dr. Fausto assume essa oscilação e, entre todo o anedotário da narrativa, o leitor passa por discussões sobre teologia, ética, física, astronomia, biologia, sociologia, economia e por aí vai.

Isso não deve assustá-lo, leitor. O próprio Mann revoltava-se contra os que acham árdua a leitura, ou mesmo ilegível a obra. Em carta ao seu editor afirmou, com razão: “O livro não é um tratado insuperavelmente difícil e sim, pelo menos em parte, um romance que entretém e até mesmo emociona. Não seria certamente desejável que o público ficasse atemorizado”.

Quem avançar no texto observará que ele vai se tornando cada vez mais “narrativo” e dinâmico na parte final, ao contar o destino das várias pessoas ligadas a Leverkühn, trazendo, aliás, muitos elementos autobiográficos (a vida das irmãs de Mann,  por exemplo).

E num romance tão extraordinariamente construído, onde um fato aludido em determinado ponto (como as formas híbridas de vida que aparecem no começo) vai ganhar pleno significado mais adiante, Mann também não deixa de espelhar sua obra. Há a decadência da burguesia e a oposição entre esta e o mundo artístico e boêmio (como em Buddenbrooks & Tônio Kröeger), o episódio italiano desagregador (como em Morte em Veneza e Mário e o mágico), aliás uma suprema ironia uma vez que é na Itália, a pátria do humanismo clássico, que Leverkühn tem sua entrevista com o Diabo e sela o pacto; há a presença da doença (como em A montanha mágica); há até a antecipação da obra posterior do genial escritor alemão: Adrian compõe uma obra utilizando a história do papa Gregório, que Mann contará em O eleito, em 1951, poucos anos antes da sua morte, em 1955).

No período anterior à Segunda Guerra, quando Thomas Mann tornou-se um famoso exilado, muita gente afligiu-se porque ele não deixava claro seu posicionamento diante da Alemanha nazista, como se ele precisasse deixar mais claro do que escrever coisas inexcedíveis como Histórias de Jacó & Lotte em Weimar (é que, verdade seja dita, na Primeira Guerra ele se destacara pelo nacionalismo fanático, quase chauvinista), os quais iam contra toda a burrice e intolerância dominantes.

Quando o fez, foi um acontecimento memorável e seu irmão, o também notável Heinrich Mann, o cumprimentou comentando que ele dissera a “palavra final”.

Os maravilhosos romances de Mann anteriores a Dr. Fausto sempre foram acusados de ter um pé no passado e não acompanhar a radicalidade formal de outros grandes romancistas do século (Joyce, Kafka, Proust, Virginia Woolf, Faulkner, Musil, Hermann Broch, Alfred Döblin, Céline). Com Dr. Fausto, o maior dos escritores de ficção, mais uma vez teve a última palavra.

                                II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de setembro de 1993)

Uma obra-prima está comemorando 50 anos: O jogo das contas de vidro (Das Glasperlenspiel, traduzido por Lavínia Abranches Viotti &  Flávio Viera de Souza), de Hermann Hesse que, publicado em plena Segunda Guerra, procura demonstrar como impossível à cultura erudita e ao individuo escaparem da marcha histórica, como tenta fazer a imaginária província de Castália, a qual, num futuro distante, separada do mundo, procura preservar os valores culturais mediante a prática de um jogo esotérico e sofisticado.[2]

Joseph Knecht (infelizmente abrasileirado para José Servo) é um dos “eleitos” para estudar na Castália e depois dos seus anos preparatórios, quando se destaca como um dos melhores jogadores, resolve levar uma existência de outsider, inclusive vivendo durante certo tempo com um sábio eremita, especialista no I-Ching. O que não impede que, com a morte de Thomas Von der Trave, o mestre dos jogos, Knecht se torne o líder de Castália e responsável por sua reaproximação com o mundo e reformulação de seu senso de utilidade. Aliás, num pequeno texto de 1925, Autobiografia resumida, Hesse toca no cerne do impasse pedagógico: “É verdade que nossos mestres  nos ensinavam, naquela divertida disciplina chamada história do mundo, que este sempre foi governado, guiado e transformado por homens que fizeram suas próprias leis e romperam as regras tradicionais, sendo-nos dito que esses homens deviam ser reverenciados. Mas isso era tão enganoso quanto todo o resto da nossa instrução, pois, quando um de nós, com boa ou má intenção, reunia coragem para protestar contra alguma ordem ou mesmo contra algum costume tolo, ou meio de fazer as coisas, não recebia reverência nem louvor como exemplo, mas era castigado, escarnecido e esmagado pela força superior, covardemente usada, dos professores”.

Nestes tempos de picaretagem mística e incapacidade literária, seria bom o leitor constatar que não há nada de novo nessa moda e conhecer um livro ao mesmo tempo profundamente espiritual e de altíssima qualidade estética, o que sempre revela o verdadeiro alquimista, que sabe usar a tradição esotérica sem diluí-la ou pastichá-la.

Mestre do jogo, Hesse brinca com a narrativa,com uma deliciosa ironia, pois o biógrafo-narrador da vida de Knecht faz um extenso elogio à impessoalidade e papel funcional dos membros da ordem castálica, e no entanto mostra a vida de um “funcionário” que era essencialmente uma grande individualidade (o que, à época, ia contra os robóticos membros da Gestapo, que sempre alegavam “estar cumprindo ordens”, executando sua função), transformadora, que percebe que o saber não pode ficar congelado em instituições, tem de fazer parte da práxis humana.

Essa concepção do funcionário zeloso de suas tarefas e de seu papel numa vasta organização, e que também é um indivíduo extraordinário, de certa forma aproxima o livro de Hesse do também magistral Memórias de Adriano (1951),de Marguerite Yourcenar.

Outro aspecto apaixonante de O jogo das contas de vidro é que ele condensa e depura os temas e preocupações de várias obras de Hesse, bem mais famosas, tais como O lobo da estepe, Sidarta & Demian; sem desmerecer esses livros, a história de Joseph Knecht o autor alemão finalmente conseguiu se livrar de um simbolismo às vezes um tanto fácil e esquemático, e de uma certa fraqueza na caracterização dos personagens, na sua relação sempre didaticamente dialética (isto é, um complementa o outro, vale lembrar aqui de Narciso & Goldmund).

As “amizades dialéticas” de Knecht são marcantes: Tegularius, o jogador brilhante e neurótico; o padre Jacobus, membro de uma ordem religiosa para onde Knecht é enviado numa importante missão…

Há também a parte final, constituída de poemas (alguns belíssimos) e da história de três encarnações anteriores de Knecht: uma, no princípio da humanidade,(O conjurador da chuva); uma passada nos tempos iniciais do cristianismo, a lindíssima O confessor, que por si só vale o livro; e uma que se passa na Índia e que lembra Sidarta. Eis, leitor, os “anos dourados” da peregrinação existencial e espiritual. Autoajude-se leitor: leia livros lindos como esse.


[1] Eu , então, li o romance (em 1985), mas a princípio não gostei, como gostara, por exemplo, de A montanha mágica, Os Buddenbrooks, O eleito, A morte em Veneza ou José e seus irmãos, apesar de achar o projeto admirável. Custei um pouco a apreciá-lo devidamente.

[2] Eu o li a primeira vez em 1984. Devo dizer que durante um bom tempo “resisti” a Hermann Hesse, que me parecia algo meio à Castañeda ou Lobsang Rampa, e não gostara de Demian nem de Sidartha (mudei de opinião depois sobre os dois).

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