MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/05/2016

Destaque do blog: BILLY BUDD, MARINHEIRO, de Herman Melville

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Herman Melville 2

Herman Melville ´- Billy Budd, mariheiro

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, vinte e quatro de maio de 2016)

 

Durante muito tempo, Herman Melville foi apenas o autor de Moby Dick; atualmente, porém, duas outras narrativas, bem mais curtas, foram tornando-se emblemáticas de sua obra. Na semana passada, comentei Bartleby, o escrevente; nesta, BILLY BUDD, seu último escrito (o manuscrito tem como data de conclusão abril de 1891), e só viria a ser publicado em 1924, quando começou a “reabilitação” melvilliana, após décadas ignorado.

BILLY BUDD, é uma alegoria inequívoca da era revolucionária. Senão vejamos: Billy é o Belo Marujo (é adorado por todos os companheiros, é o centro das atenções e, segundo o capitão do navio, o pacificador dos conflitos—não entrarão aqui as possíveis ilações homoeróticas da história, mesmo porque, na minha opinião, é uma coisa óbvia em se tratando de homens confinados juntos por muito tempo, em qualquer época ou latitude, e a beleza extrema é sempre algo perturbador), cujo passado—embora ele tenha traços nitidamente aristocráticos— é ignorado por ele mesmo, um enjeitado, e que serve num navio chamado “Direitos do Homem”. Quer coisa mais rousseauniana? É quase o “bom selvagem” num disfarce europeu.

Ora, o Belo Marujo é alistado à força num navio da marinha inglesa (o ano é de 1797, e a história ocorre na esteira de graves motins a bordo de navios da frota real). Ali, levaria a mesma existência que levava no “Direitos do Homem”—uma vida meio inconsciente, analfabeta, “pura”—não fosse pela inveja que consome o chefe de armas, Claggart, cujo passado também é envolvido em brumas, contudo brumas bem menos benignas que as de Billy: talvez ele tenha cometido um crime ou um ato desonroso. Claggart é a beleza sombria, a beleza que deixa os outros incomodados, é o cara pálido, que nunca pega sol, que parece ficar nos desvãos escuros do navio; enquanto Billy e a tez bronzeada, o saudável, o que reflete o mar em seus olhos.

Para chegar ao conflito entre os dois (conflito de que Billy, em sua “pureza”, mal tem consciência, ainda que receba a advertência de um dos veteranos a bordo, que logo percebe o jogo, mas que tem o péssimo hábito de falar em termos oraculares), Melville parece que vai à deriva, iniciando, mas interrompendo, prosseguindo um pouco, mas abrindo um novo parêntese, até realmente cerrar-se na narrativa, já mar alto, lá pelo meio do texto. Só que todas essas digressões e interrupções são todas estratégicas e deliberadas, preparam muito bem o leitor para a primordialidade e essencialidade do que acontece a bordo do “Indômito”, Claggart, após tentar prejudicar de mil comezinhas maneiras a tranquilidade do Belo Marujo, acaba optando por uma atitude radical: denuncia o gajeiro como fomentador de um motim (assunto dos mais delicados naquele momento). O capitão, que, como Arendt demonstrou, exercerá o papel da virtude e não das qualidades inatas, não acredita no relato de Claggart, e resolve fazer um acareamento. Nesse momento, ao saber da acusação, vem à tona o calcanhar-de-aquiles de Billy: ele tartamudeia quando fica sob pressão. Não podendo dar uma resposta verbal, articulada, ele parte para a violência e abate Claggart com um único golpe. Nunca um golpe mereceu tanto o epíteto de fulminante!

Apesar da simpatia que inspira a todos (e a ninguém mais do que ao capitão Vere), a corte marcial só pode pronunciar um único veredicto: o assassino do delator mentiroso deve ser enforcado, para bem da disciplina e da moral da marinha inglesa, nesse período conturbado e perigoso. Apesar de todos os protestos, Vere é firme em tomar o julgamento em suas mãos, no intuito de levá-lo a essa conclusão: Billy é bom, foi caluniado infamemente, porém se voltou contra um oficial superior, quebrou a espinha dorsal da hierarquia, abriu a porta do caos, da desordem, da semente de revolta e transformação:

“Suas firmes convicções serviam de dique contra as águas invasoras das novas ideias políticas e sociais que, de outra forma, levavam naqueles dias tantas cabeças de roldão—cabeças de natureza não inferior à sua. Enquanto outros membros da aristocracia, à qual por natureza pertencia, exasperavam-se com os renovadores porque suas teorias eram hostis às classes privilegiadas, o Capitão Vere opunha-se a elas com isenção, não apenas porque não lhe parecerem suscetíveis de tomar corpo em instituições duradouras, mas ainda por serem contrárias à paz entre os homens e ao verdadeiro bem-estar da espécie humana”.

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VER TAMBÉM NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2011/12/14/quando-abel-mata-caim-os-valores-absolutos-e-as-instituicoes-duradouras-em-billy-budd/

Billy Budd, o marinheiro - Jornal

19/05/2016

O HOMEM QUE PREFERIA NÃO FAZER

Herman Melville Bartleby, o escrevente

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em dezessete de maio de 2016)

 

“Preferiria não fazer (I would prefer not to) ”, uma das afirmações mais célebres da literatura ganha tradução de Tomaz Tadeu, pela editora Autêntica: Já houve muitas outras; até agora, a minha favorita era a de Luís de Lima (Rocco); Pinheiro de Lemos traduz de maneira bem eficaz: “Preferia não fazê-lo” José Olympio; Confesso que não gosto da solução de Irene Hirsch: “Acho melhor não” (Cosac Naify), sem graça e no fundo pouco poética.
Estou falando da desconcertante recusa do personagem – título de Bartleby, o escrevente (1853), em cumprir as tarefas designadas a ele pelo patrão, o narrador, dono de um escritório em Wall Street. A situação se complica porque mesmo demitido, Bartleby se recusa a deixar o local de emprego (o qual transformou-se em moradia: “De pronto senti todo o drama: Que solidão e desamparo terríveis estão sendo revelados aqui! A sua pobreza é grande, mas a sua solidão… que horror! Pensem nisso. Num domingo, Wall Street é tão deserta quanto Petra, e todas as noites de todos os dias são um imenso vazio. E até este edifício, que nos dias de semana fervilha com vida e labor, à noite ecoa de tão absoluta inatividade e durante todo o dia dominical jaz abandonado. E é daqui que Bartleby faz seu lar…”). Apesar da irritação e dos problemas que o estranho individuo lhe acarretam, esse patrão acaba sentindo-se responsável pelo seu destino. Na verdade, é como se no mundo capitalista se infiltrasse um vírus de não-produtividade que colocasse em xeque todas as regras da economia e da hierarquia social.
Herman Melville escreveu uma obra prima muito adiante do seu tempo. Bartleby é um personagem que antecipa todos os anti-heróis do século seguinte, e até do nosso.  O autor de Moby Dick era realmente um visionário e poeta da prosa.
Por isso não apreciei a solução de Irene Hirsch para a emblemática declaração do bizarro escrevente. Há poesia na recusa de Bartleby, pois é uma recusa dentro de uma formulação da Possibilidade: “prefiro”, “preferia” ou “preferiria” não fazer, ou seja, há a possibilidade de fazer, mas abriu-se um pequeno e decisivo lapso: a “preferência”. Não é uma recusa propriamente dita: não vou fazer. É uma preferência que, manifesta, abole a possibilidade de fazer o que é solicitado. É minha opinião que tudo isso se perde no “acho melhor não”.
A superioridade indulgente do patrão sofre um profundo arranhão: “Pela primeira vez em minha vida, fui tomado por um sentimento de opressiva e doída melancolia. Eu não conhecera até então senão uma leve e nada desagradável tristeza. O laço comum da humanidade fez com que eu fosse golpeado por um irresistível desalento… Pois tanto eu quanto Bartleby éramos filhos de Adão”.
              Mas como todo texto em que o narrador nos fala de outro individuo, ele – mesmo sem o saber – termina por se revelar tanto quanto o seu objeto de estudo o interesse. Um dos mistérios de Bartleby, o escrevente é o mal-estar e a má consciência do patrão. Tente, caro leitor, descobrir o porquê mergulhando em páginas inesquecíveis. É mais ou menos como descobrir se Capitu traiu Bentinho.

VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2011/09/27/parede-e-muro-o-medico-e-o-mutismo-do-monstro/

Bartleby, o escrevente - Jornal

14/12/2011

QUANDO ABEL MATA CAIM: os valores absolutos e as “instituições duradouras” em BILLY BUDD

  Nos títulos lançados em “Prosa do Mundo” da Cosac & Naify, os idealizadores da coleção cultivaram o elogiável vezo de colocar, no final de cada volume, “sugestões de leituras”, indicando textos indispensáveis, célebres ou simplesmente curiosos, que trataram da obra em questão.

    Me causou surpresa, por isso, ao ler BILLY BUDD dentro da coleção (em tradução de  Alexandre Hubner), não encontrar nas “sugestões de leitura” a informação de que Hannah Arendt havia abordado o maravilhoso romance de Herman Melville em Sobre a Revolução (1963), em páginas que—a meu ver—são clássicas, não fosse a pensadora alemã uma voraz leitora de literatura (também escreveu poemas, principalmente na juventude). Não consigo conceber uma fortuna crítica de BILLY BUDD em que não constem as considerações de Arendt.

    Portanto, antes de eu mesmo fazer algumas observações sobre o texto e algumas de suas traduções brasileiras, transcrevo o (longo) trecho de Sobre a Revolução onde são abordadas as questões principais do romance. Pensei, a princípio, em parafrasear, mas achei preferível deixar a própria Arendt (na impecável tradução de Denise Bottmann) “falar”.

    Estamos no capítulo  2 de Sobre a Revolução, A questão social, e além de BILLY BUDD, a autora também aborda (mais brevemente) “O Grande Inquisidor”, a famosa passagem de Os Irmãos Karamázov.

  Abaixo o texto, em negrito:

Era talvez inevitável que o problema do bem e do mal, com o impacto de ambos sobre os destinos humanos, posto em sua simplicidade franca e direta, perseguisse o espírito dos homens no exato momento em que eles estavam afirmando ou reafirmando a dignidade humana, sem qualquer recurso à religião institucionalizada. Mas a profundidade desse problema dificilmente poderia ser captada por quem confundia bondade com a “repugnância inata do homem em ver o semelhante sofrer” (Rousseau) e por quem achava que o egoísmo e a hipocrisia eram o suprassumo da maldade. E, ainda mais importante, nem se poderia colocar a pavorosa questão do bem e do mal, não pelo menos no quadro das tradições ocidentais sem levar em conta a única experiência realmente válida, realmente convincente do amor ativo pela bondade como princípio inspirador de todas as ações que a humanidade ocidental teve ocasião de conhecer, isto é, sem levar em conta a figura de Jesus de Nazaré. Esse aspecto veio a surgir na esteira da revelação, e, embora seja verdade que Rousseau e Robespierre não estiveram à altura das questões que a doutrina de um e a ação do outro trouxeram à pauta das gerações seguintes, talvez também seja a verdade que, sem eles e sem a Revolução Francesa, Melville e Dostoiévski não se atreveriam a trazê-lo de volta ao mundo humano—um em Billy Budd, o outro em O Grande Inquisidor—e a mostrar abertamente, concretamente, embora de maneira poética e metafórica, é claro, a que empreendimento trágico é fado à ruína haviam se lançado os homens da Revolução Francesa, quase sem o saber. Se quisermos entender o que significa a bondade absoluta para o curso dos assuntos humanos (enquanto esfera distinta dos assuntos divinos), mais vale recorrermos aos poetas, o que podemos fazer com bastante segurança desde que lembremos as palavras de Melville: “O poeta apenas coloca em versos aquelas exaltações do sentimento que uma natureza como a de Nelson, tendo a oportunidade, encarna em ações.” Pelo menos podemos aprender com eles que a bondade absoluta é quase tão perigosa quanto o mal absoluto[1], e que ela não consiste no altruísmo, pois certamente o grande inquisidor  é bastante altruísta, e está além da virtude, mesmo da virtude do capitão Vere. Nem Rousseau nem Robespierre eram capazes de sonhar com um bondade além da virtude, assim como eram incapazes  de imaginar que o mal radical “nada tem de sórdido ou de sensual” (Melville), e que pode existir maldade para além do vício.

   Na verdade, o fato de que o homem da Revolução Francesa não fossem capazes de pensar nesses termos, e portanto nunca tenham realmente chegado ao cerne do problema que surgiu em decorrência de suas próprias ações, era praticamente esperado. Evidentemente, eles conheciam muito bem os princípios que inspiravam suas ações, mas não o significado da história que viria a resultar delas. Sem dúvida, Melville e Dostoiévski, mesmo que não tivessem sido os grandes escritores e pensadores que de fato foram, estavam numa posição melhor para saber do que se tratava. Melville, em especial, pois podia recorrer a um leque muito mais amplo de experiência política do que Dostoiévski; ele sabia como falar diretamente com os homens da Revolução Francesa e com seu conceito de que o homem é bom no estado de natureza e se torna mau em sociedade. Foi o que ele fez em Billy Budd, é como se dissesse: vamos supor que vocês estejam certos e que o  “homem natural”, nascido fora da sociedade, um “enjeitado” dotados apenas de bondade e inocência “bárbara”, voltasse  à terra—pois certamente, seria uma volta, uma segunda vinda sem dúvida, vocês lembram que isso já aconteceu uma vez não podem  ter esquecido a história que ele se tornou a lenda de fundação da civilização cristã. Mas,caso tenham esquecido, deixem-me contá-la de novo, no contexto em que vocês vivem e inclusive na terminologia que vocês usam.

     A compaixão e a bondade podem ser fenômenos relacionados, mas não são iguais. A compaixão desempenha um papel, e até importante, em Billy Budd, mas seu tema é a bondade além da virtude o mal além do vício, e o enredo da história consiste no confronto de ambos.A bondade além da virtude é a bondade natural e a maldade além do vício é “uma depravação de acordo com a natureza” que “nada tem de sórdido ou sensual”. Ambas estão fora da sociedade, e os dois homens que as encarnam não vêm de lugar nenhum, falando socialmente. Billy Budd é um enjeitado;Claggart, o antagonista, também é de origem desconhecida. Não há nada de trágico no confronto em si; a bondade natural, embora “tartamudeie”  e não se consiga fazer ouvir e entender, é mais forte do que a maldade porque a maldade é depravação da natureza, e a natureza “natural” é mais forte do que a natureza depravada e pervertida. Essa parte da história é grandiosa porque a bondade, por ser parte da “natureza”, não age com brandura, mas se afirma com força e até com violência, de maneira que ficamos convencidos: apenas o ato de violência com que Billy Budd golpeia até a morte o homem que levantou falso testemunho contra ela é cabível, eliminando a “depravação” da natureza. Mas este não é o final, e sim o começo da história. Ela se desenrola depois que a “natureza” seguiu seu curso, com o resultado de que o mau está morto e o bom prevalece. O problema agora é que o homem bom, por ter se deparado com o mal, também se tornou um malfeitor; e isso mesmo que suponhamos que Billy Budd tenha conservado sua inocência, que tenha continuado a ser “um anjo de Deus”. É neste ponto que a “virtude” na pessoa do capitão Vere se introduz no conflito entre o bem absoluto e o mal absoluto, e aqui começa a tragédia. A virtude—que é menos, talvez, do que a bondade, mas ainda assim a única capaz “de se encarnar em instituições duradouras”—deve prevalecer em detrimento também do homem bom; a inocência natural e absoluta, na medida em que só consegue agir com violência, está “em guerra com a paz do mundo e o verdadeiro bem-estar da humanidade”, de maneira que a virtude finalmente intervém não para impedir o crime do mal, e sim para punir a violência da inocência absoluta. Claggart foi “golpeado por um anjo de Deus!Todavia o anjo deve ser enforcado!”. A tragédia é que a lei foi feita para os homens, e não para anjos ou demônios. As leis e todas as “instituições duradouras” desmoronam não só sob o assalto do mal elementar como também sob o impacto da inocência absoluta. A lei, movendo-se entre o crime e a virtude, não pode reconhecer o que está além de si, e, embora não disponha de nenhuma punição cabível para o mal elementar, ela não pode deixar de punir a bondade elementar, mesmo que o homem virtuoso, o capitão Vere, reconheça que apenas a violência dessa bondade é adequada ao poder depravado do mal. O absoluto—e, para Melville, os Direitos do Homem haviam incorporado um absoluto—quando é introduzido na esfera pública, traz a ruína a todos.

   Notamos acima que a  paixão da compaixão estava curiosamente ausente das reflexões e sentimentos dos homens que fizeram a Revolução Americana. Ninguém duvidaria de que John Adams estava certo ao escrever que “a inveja e rancor da multidão contra os ricos é universal e reprimida apenas pelo medo ou pela necessidade. Um mendigo nunca há de compreender a razão pela qual um outro anda de carruagem enquanto ele não tem pão”, e mesmo assim ninguém que conheça a miséria deixará de se chocar com a peculiar frieza e “objetividade” indiferente desse seu juízo. Por ser americano, Melville sabia debater melhor a proposição teórica dos homens da Revolução Francesa—o homem é bom por natureza—do que avaliar a preocupação apaixonada e crucial por trás das suas teorias, a preocupação com a multidão sofredora. Não à toa, a inveja em Billy Budd não é a inveja do rico pelo pobre, e sim da integridade natural pela “natureza depravada”—é Claggart quem inveja Billy Budd—e a compaixão não é o sofrimento  do homem poupado à visão do homem ferido na carne; pelo contrário, é Billy Budd, a vítima, quem sente compaixão pelo capitão Vere, o homem que o envia a seu destino […]

   Como a compaixão abole a distância, o espaço terreno entre os homens onde se situam os assuntos políticos, ou seja, toda a esfera dos assuntos humanos, ela não tem pertinência nem importância em termos políticos. Nas palavras de Melville, a compaixão é incapaz de estabelecer “instituições duradouras”. O silêncio de Jesus em “O grande Inquisidor” e o tartamudeio de Billy Budd indicam a mesma coisa, a saber, a falta de capacidade (ou de disposição) de ambos para qualquer espécie de discurso predicativo ou argumentativo, em que alguém fala a alguém sobre alguma coisa que é de interesse para ambos, porque é inter-esse, é algo entre ambos. Esse interesse discursivo e argumentativo no mundo è inteiramente alheio à compaixão, que se dirige exclusivamente, e com intensidade apaixonada, ao próprio sofredor; a compaixão fala apenas na medida em que tem de responder diretamente aos meros sons e gestos de expressão por meio dos quais o sofrimento se faz audível e visível no mundo. Como regra, não é a compaixão que se lança a transformar as condições terrenas e mitigar o sofrimento humano, mas, se o faz, ela evitará os longos e cansativos processos de persuasão, negociação e acordo, que são os processos da lei e da política, e emprestará sua voz ao próprio sofrer, que deve reivindicar uma ação rápida e direta, ou seja, a ação por meio da violência.

    Aqui também é evidente a relação entre os fenômenos da bondade e da compaixão. Pois a bondade que está além da virtude e, portanto, além da tentação,  ignorando o raciocínio argumentativo com que o homem afasta as tentações e, durante esse processo, vem a conhecer os caminhos da maldade, também é incapaz de aprender as artes da persuasão e da argumentação. A grande máxima de todos os sistemas jurídicos civilizados—o ônus da prova sempre cabe ao acusador—deriva da percepção de que apenas a culpa pode ser provada irrefutavelmente. A inocência, ao contrário, enquanto algo mais do que o veredicto de “não culpado”, não pode ser provada e deve ser aceita em fé, e o problema é que essa fé não pode se apoiar na palavra dada,pois esta pode ser uma mentira.Billy Budd podia falar a língua dos anjos, e não seria capaz de refutar as acusações do “mal elementar” que lhe foram lançadas; a única coisa que podia fazer era erguer a mão e abater o acusador.

    Melville inverteu claramente o crime lendário primordial—Caim matou Abel—,que desempenhou um papel tão gigantesco em nossa tradição de pensamento político, mas essa inversão não foi arbitrária; ela provinha da inversão que os homens da Revolução Francesa tinham imprimido à proposição do pecado original, substituindo-a pela proposição da bondade original. O próprio Melville apresenta no prefácio a pergunta que norteia sua história: como foi possível que, depois “da retificação dos erros hereditários do Velho Mundo (…) logo a própria revolução se tornou malfeitora, mais opressiva do que os reis?” Ele encontrou a resposta—o que, aliás, é bastante surpreendente, se considerarmos a habitual equiparação da bondade com a brandura e a fraqueza—no fato de que a bondade é forte, talvez ainda mais forte do que a maldade, mas ela partilha com o “mal elementar” a violência elementar inerente a toda força, em detrimento de todas as formas de organização política. É como se ele dissesse: Suponhamos que, daqui por diante,  a pedra fundamental de nossa vida política seja que Abel matou Caim. Vocês não vêem que deste ato de violência decorrerá a mesma cadeia de erros, só que agora a humanidade não terá sequer o consolo de que a violência a que deve chamar de crime é característica apenas dos maus?

    Creio que Hannah Arendt toca em todos os pontos nevrálgicos desse romance, o último  escrito por Melville (o manuscrito tem como data de conclusão abril de 1891 e o autor de Moby Dick morreu em 28 de setembro), e só viria a ser publicado em 1924 (quando começou a “reabilitação” melvilliana, após décadas ignorado) com o título de Billy Budd, foretopman, com o subtítulo What Befell Him In The Year Of The Great Muting. Uma das traduções que possuo, de Octavio Mendes Cajado (Ediouro, mas publicada antes na Coleção Saraiva[2], é baseada nessa versão; em 1962, foi publicada uma edição mais acurada, e o título foi rebatizado para Billy Budd, sailor (as diferentes versões não discrepam só no título, mas também na divisão dos capítulos). É nessa versão que se baseiam as traduções de Hubner e de Cássia Zanon (L&PM).

   Pode parecer que Hannah Arendt extrapolou na sua interpretação da história, ao vincular os acontecimentos de BILLY BUDD à sua interpretação “negativa” dos rumos da Revolução Francesa. No entanto, o texto é uma alegoria inequívoca da era revolucionária. Senão vejamos: Billy é o Belo Marujo[3] (é adorado por todos os companheiros, é o centro das atenções e, segundo o capitão do navio, o pacificador dos conflitos—não entrarão aqui as possíveis ilações homoeróticas da história, mesmo porque, na minha opinião, é uma coisa óbvia em se tratando de homens confinados juntos por muito tempo, em qualquer época ou latitude, e a beleza extrema é sempre algo perturbador, basta assistir Tabu, de Oshima, talvez a palavra final sobre o assunto), cujo passado—embora ele tenha traços nitidamente aristocráticos— é ignorado por ele mesmo, um enjeitado, e que serve num navio chamado “Direitos do Homem”. Quer coisa mais rousseauniana? É quase o “bom selvagem” num disfarce europeu.

  Ora, o Belo Marujo é alistado à força num navio da marinha inglesa (o ano é de 1797, e a história ocorre na esteira de graves motins a bordo de navios da frota real)[4]. Ali, levaria a mesma existência que levava no “Direitos do Homem”—uma vida meio inconsciente, analfabeta, “pura”—não fosse pela inveja que consome o chefe de armas, Claggart, cujo passado também é envolvido em brumas, contudo brumas bem menos benignas que as de Billy Budd: talvez ele tenha cometido um crime ou um ato desonroso. Claggart é a beleza sombria, a beleza que deixa os outros incomodados, é o cara pálido, que nunca pega sol,  que parece ficar nos desvãos escuros do navio; enquanto Billy e a tez bronzeada, o saudável, o que reflete o mar em seus olhos.

   Para chegar ao conflito entre os dois (conflito de que Billy, em sua “pureza”, mal tem consciência[5], ainda que receba a advertência de um dos veteranos a bordo, que logo percebe o jogo, mas que tem o péssimo hábito de falar em termos oraculares[6]), Melville parece que vai à deriva, iniciando, mas interrompendo, prosseguindo um pouco, mas abrindo um novo parêntese, até realmente cerrar-se na narrativa, já mar alto, lá pelo meio do texto. Só que todas essas digressões e interrupções são todas estratégicas e deliberadas, preparam muito bem o leitor para a primordialidade e essencialidade do que acontece a bordo do “Indômito” (desculpem, mas vou dispensar o “Belipotente” hubneriano): Claggart, após tentar prejudicar de mil comezinhas maneiras a tranqüilidade do Belo Marujo, acaba optando por uma atitude radical: denuncia o gajeiro como fomentador de um motim (assunto dos mais delicados naquele momento). O capitão, que, como Arendt demonstrou, exercerá o papel da virtude e não das qualidades inatas, não acredita no relato de Claggart, e resolve fazer um acareamento. Nesse momento, ao saber da acusação, vem à tona o calcanhar-de-aquiles de Billy: ele tartamudeia quando fica sob pressão. Não podendo dar um resposta verbal, articulada, ele parte para a violência e abate Claggart com um único golpe. Nunca um golpe mereceu tanto o epíteto de fulminante!

   Apesar da simpatia que inspira a todos (e a ninguém mais do que ao capitão Vere), a corte marcial só pode pronunciar um único veredicto: o assassino do delator mentiroso deve ser enforcado, para bem da disciplina e da moral da marinha inglesa, nesse período conturbado e perigoso. Apesar de todos os protestos, Vere é firme em tomar o julgamento em suas mãos, no intuito de levá-lo a essa conclusão: Billy é bom, foi caluniado infamemente, porém se voltou contra um oficial superior, quebrou a espinha dorsal da hierarquia, abriu a porta do caos, da desordem, da semente de revolta e transformação:

“Suas firmes convicções serviam de dique contra as águas invasoras das novas idéias políticas e sociais que, de outra forma, levavam naqueles dias tantas cabeças de roldão—cabeças de natureza não inferior à sua. Enquanto outros membros da aristocracia, à qual por natureza pertencia, exasperavam-se com os renovadores porque suas teorias eram hostis às classes privilegiadas, o Capitão Vere[7] opunha-se a elas com isenção, não apenas porque não lhe parecerem suscetíveis de tomar corpo em instituições duradouras, mas ainda por serem contrárias à paz entre os homens e ao verdadeiro bem-estar da espécie humana”.

 Todo o final do livro é devotado a cenas hieráticas, em que a ordem e a disciplina são reafirmadas, e o Belo Marujo ganha um status quase sobrenatural e lendário (a não ser no relato deturpado dos fatos feito por um periódico), ainda mais por causa da benção que grita ao capitão (ecoada por todos) e pela linguagem corporal, por assim dizer, após a execução: seu corpo enforcado não fica balançando. Ele é o Belo Marujo até o fim, uma figura impossível de inserir na “vida normal” e corriqueira:

“Billy estava de frente para a popa. No penúltimo momento, suas palavras, as únicas que proferiu, palavras que saíram com pronúncia completamente desobstruída, foram estas: Deus abençoe o Capitão Vere!

   (…) Independente da volição, como se o populacho da nau não fosse mais que o veículo de uma corrente elétrica vocal, a uma só voz, vinde de baixo e de cima, um eco estrondoso e compassivo soou: Deus abençoe o Capitão Vere!

   E, contudo, naquele momento, no coração dos marinheiros, assim como em seus olhos, só deve ter havido lugar para Billy.

    (…) Recobrando-se lentamente do balanço periódico para sotavento o casco do navio acabava de recuperar a posição horizontal quando o último sinal foi dado—um gesto mudo, conforme previamente combinado. No mesmo instante, o velo brumoso que pairava no oriente foi atravessado por um esplendor suave, como o do velo do Cordeiro de Deus entrevisto em visão mística. Simultaneamente, observado pela massa cuneiforme de faces voltadas para cima, Billy ascendendo, recebeu em cheio a luz do arrebol.

  Para assombro de todos, na figura manietada que chegou à ponta da verga. Não havia nenhum movimento aparente, exceto o provocado pelo lento balanço do casco em mar calmo, esse balanço que é tão majestoso nas naus poderosamente canhonadas.”

    Na tradução de Cássia Zanon, o trecho fica assim:

“…Billy ficou  de pé, virado em direção à popa. No penúltimo momento, suas palavras, suas únicas palavras, perfeitamente articuladas, foram as seguintes: Deus abençoe o capitão Vere!

  (…) Aparentemente sem intervenção da vontade, como se de fato o pessoal do navio fosse apenas o veículo de alguma corrente elétrica vocal, a uma só voz, de todas as partes da embarcação, ouviu-se o ressonante e compassivo eco: Deus abençoe o capitão Vere!

   No entanto, naquele momento, apenas Billy devia estar em seus corações, assim como estava em seus olhos.

   (…) O casco que se recuperava deliberadamente do giro periódico a sotavento estava começando a retomar o equilíbrio, quando foi dado o último sinal: um sinal mudo e pré-combinado. No mesmo instante, calhou que o vaporoso céu que pairava baixo a leste estava entrelaçado com uma suave glória, como a do velo do Cordeiro de Deus vislumbrado em mística visão, e simultaneamente com isso, observado pela massa compacta de corpos voltados para cima, Billy subia. E, subindo, recebeu por completo o esplendor do alvorecer.

    Para espanto de todos, na figura manietada chega à ponta da verga não se percebeu qualquer movimento, nenhum salvo aquele criado pelo balanço do navio, que com o tempo tranqüilo é tão majestoso numa grande embarcação pesadamente carregada de canhões.”

   E, finalmente, na tradução de Octavio Mendes Cajado:

“Billy, em pé, olhava para a popa. No penúltimo momento, as suas palavras, as suas últimas palavras, perfeitamente articuladas, foram estas: Deus abençoe o Capitão Vere!

   (…)Sem intervenção da vontade, por assim dizer, como se o pessoal do navio fosse o simples veículo de uma corrente elétrica vocal, a uma voz, de cima e de baixo, ouviu-se  o eco sonoro: Deus abençoe o Capitão Vere!

   E, todavia, naquele instante,  somente Billy estaria no coração como estava nos olhos de todos.

   Voltando[8] do balanço periódico para sotavento o casco recuperara a posição horizontal, quando se fez o último sinal, o sinal mudo e previamente concertado. Nesse mesmo instante, o vaporoso velo que pairava no Oriente, quase à flor das águas, foi repentinamente iluminado por uma luz suave como a do velo do Cordeiro de Deus vislumbrado em mística visão, e nisso, simultaneamente observado pela massa compacta de rostos voltados para cima, Billy subiu, e, subindo, recebeu em cheio o rubor da madrugada.

  (…) Na figura manietada, chegada à ponta da verga, para assombro geral, não se percebeu movimento nenhum senão o que produzia o lento balanço do casco, tão majestoso, quando o tempo é sereno, num grande navio carregado de canhões.”


[1]  O sublinhado é meu, assim como em todas as próximas passagens em que ocorrer.

     Quem explorou maravilhosa e ludicamente esse tema foi Italo Calvino em O visconde partido ao meio

[2]  Como em várias outras ocasiões similares, Denise Bottmann me socorreu com informações valiosas sobre o histórico das traduções, e muito de seus percalços, como vem fazendo no indispensável (nunca é demais reiterar essa afirmação) blog www.naogostodeplagio.blogspot.com. Através dela, descobri mais duas traduções de BILLY BUDD, uma delas para uma coletânea da Cultrix (feita por Eurico Dowens), a outra lançada pela Bruguera (e feita por Pedro Ramires). Agradeço a ela a ajuda, inclusive no envio das capas da Cultrix e da Saraiva, que incluí neste post.

   Não se pode deixar de lembrar a adaptação cinematográfica, um grande momento de Terence Stamp, antes de ele se despersonalizar por completo. Ela é exibida de vez em quando no TCM, e vale a pena.

[3] Na tradução de Cássia Zanon, “Belo Marinheiro” e na de Octavio Mendes Cajado um poético (mas que hoje em dia soa brega), “Guapo Marinheiro”.

[4] O navio se chama “Indômito”, que já conota um sentido de vontade humana, de estar além da natureza, simbologia muito importante no entrecho  dramático.

   Talvez tenha baixado em Alexandre Hubner o espírito de Odorico Mendes, o tradutor rococó da Odisséia, da Ilíada e da Eneida, pois ele batizou o navio com o nome pernóstico e desnecessário de “Belipotente”.

   E aqui já posso falar do que tenho contra essa tradução: é certo que Melville é um escritor “do mais”, de estilo altissonante, e particularmente em BILLY BUDD ele criou algo intrincado, sobrecarregado. As cem páginas do texto são um tecido de referências, citações, ressonâncias bíblicas, digressões, simbolismos.. É o mesmo caso de O coração das trevas, de Conrad. Por isso, traduzi-lo é um tour-de-force meritório. Mas se Cássia Zanon optou por enfraquecer o texto com uma tradução mais pedestre e corriqueira (mais palatável ao gosto médio), a versão de Hubner se ressente de um preciosismo excessivo que mais atrapalha do que ajuda. No final das contas, apesar de enormemente datada, a de Mendes Cajado talvez seja a menos discutível entre as três, e mesmo assim…

   Diga-se de passagem, há uma curiosa discrepância entre a tradução de Hubner e as demais.  No capítulo 3, após Melville comentar os motins que estão na base da história tanto quanto o período pós-Revolução, lemos: “Esse episódio da grandiosa história naval da ilha, seus historiadores naturalmente abreviam; um deles, William James  [sic] reconhece candidamente que o omitiria de bom grado…”

  Na tradução de Cássia Zanon: “Os historiadores britânicos abreviam tal episódio na grandiosa história naval da ilha. Um deles (G.P.R. James) confessa sinceramente que simplesmente o ignoraria…”

    Na tradução de Mendes Cajado: “Tal episódio, na grandiosa história naval da ilha,é naturalmente abreviado pelos seus historiadores: um deles (G.P.R. James), candidamente confessa que de bom grado o deixaria de lado…”

[5] “…os músculos de Billy nada tinham de compatíveis com o tipo de organização espiritual sensível que, em determinadas circunstâncias, adverte instintivamente a inocência ignorante, avisando-a da proximidade do maligno. Parecia-lhe às vezes que o mestre-d´armas agia de modo esquisito. Mas isso era tudo. A sinceridade de maneiras e a gentileza das palavras surtiam efeito desejado sobre o jovem marujo, que, até então, nunca ouvira falar dos ´homens de fala melíflua´’.

[6] E aqui mais uma vez temos a chance de conferir o que chamo de excessivo preciosismo de Hubner: por causa de queimaduras, esse marinheiro tem a alcunha de (na versão de Mendes Cajado), “Aborda-o na fumaça”; na de Cássia Zanon, “Abordagem na fumaça”; na de Hubner, “Balroa-pau-de-fumo”:

“… da primeira vez em que seus diminutos olhos de fuinha deram com Billy Budd, certa cruel hilaridade interior fez todas as suas vetustas rugas saltarem num esgar travesso. Teria sua excêntrica, impassível e velha sapiência, de tipo primitivo, visto ou entrevisto algo que, em contraste com o ambiente da belonave, parecesse singularmente impróprio no Belo Marujo? No entanto, depois de vez por outra estudá-lo  furtivamente, o velho Merlim do mar alterou a hilaridade equívoca; pois se agora, nas ocasiões em que a dupla se encontrava, aflorava-lhe ao rosto um olhar zombeteiro, este não senão momentâneo, e algumas vezes dava lugar a uma expressão de curiosidade, como se especulasse sobre o que por fim sucederia a uma índole como aquela, despejada num mundo a que não faltam alçapões e contra cujas sutilezas a coragem simples, desprovida de experiência, sagacidade ou qualquer traço da feiúra defensiva é de pouca utilidade, e onde, em situações de emergência moral, toda a inocência de que o homem é capaz nem sempre se presta a aguçar as faculdades ou alumiar a vontade.”

[7] Também na alcunha do capitão Vere, “Brilhante Vere”, Hubner se excedeu: no seu texto, é o Estelar Vere, que poderia fazer par com o Guapo Marinheiro.

[8] No texto  publicado pela Ediouro a ordem de parágrafos no trecho apresenta-se invertida (e não por que se baseia numa outra versão, mas por erro de revisão mesmo).

27/09/2011

Parede e muro: O médico e o mutismo do monstro

Aproveito para colocar aqui no blog o texto-irmão de O MÉDICO E O MONSTRO LOQUAZ (https://armonte.wordpress.com/2012/03/18/autodiagnosticos-febris-o-medico-diante-do-monstro-loquaz/); escrevi ambos para a segunda aula do curso de maio-junho de 2008, AS MARGENS DERRADEIRAS– alerto que, como os demais textos que coloquei dessa safra, toda a linha argumentativa é extraída de uma interpretação freudiana da obra condutora do curso, O ESTRANHO CASO DO DR.JEKYLL  E DO SR. HYDE

 

“A burguesia, cortando-nos os laços com os nossos contemporâneos, encerra-nos no casulo da vida privada e define-nos, às tesouradas, como indivíduos. O que significa: como moléculas sem história que se arrastam de um instante para o outro. Pela contingência do nosso ancoramento na Natureza e na História, isto é, pela aventura temporal que nós somos no interior da aventura humana, descobrimo-nos singulares. Assim, a história nos faz universais na medida exata em que a fazemos particular.”

(Jean-Paul Sartre, “Merleau Ponty”, 1961)

Bartleby, o escriturário [1] foi publicado em 1856 (o ano do nascimento de Freud, em seis de maio) na coletânea The Piazza Tales. Já era a fase em que os escritos de Herman Melville não despertavam qualquer interesse, contrariando a expectativa comercial (e, para os padrões da época, artísticas) dos seus primeiros livros, enquadrados como “exóticos”, relatos aventurescos de mares distantes (tais como os  relatos similares de Robert Louis Stevenson décadas mais tarde): Typee (1846) e Omoo (1847)[2] .

Tendo como subtítulo “Uma história de Wall Street” (detalhe nem um pouco irrelevante, como veremos), Bartleby é narrado pelo patrão do personagem-título, muitos anos depois dos acontecimentos. Esse narrador, já de “certa idade, acaba de sofrer um golpe em sua carreira, que talvez tenha lhe dado o lazer e a motivação para remexer num episódio tão ínfimo, falando de um indivíduo insignificante de quem tem informações “escassas” e “vagas”: “Pouco antes da época em que esta pequena história começa, minhas ocupações haviam aumentado consideravelmente. O antigo e rendoso cargo —ora extinto no estado de Nova Iorque— de Conselheiro do Tribunal da Chancelaria, tinha-me sido conferido. Esse cargo, sem ser muito árduo, era no entanto perfeitamente compensador. Eu raramente perco a calma; muito mais raro ainda é eu me entregar a perigosas indignações perante erros e ofensas; mas permitam que aqui me deixe arrebatar declarando que considero a súbita e violenta extinção daquele cargo, decretada pela nova Constituição, como um ato…prematuro! tanto mais que eu contava com rendimentos vitalícios e, assim, só recebi proventos de uns breves anos. Mas falei disto só de passagem.”

Gostaria que não se perdesse esse trecho de vista, uma vez que ele será alavanca para nos ajudar a entender o narrador, tal como acontece com o Sr. Utterson em Jekyll & Hyde. Por enquanto, registremos apenas a matreirice do autor, “falei disto só de passagem”, como se numa narrativa curta e cerrada (não há divisão em capítulos ou segmentos) como Bartleby algo pudesse ser só de passagem.

Pois bem, o narrador tinha um escritório meio tabelionato meio advocatícioem Wall Street.Aprincípio se valia de três funcionários: dois mais graduados (Mr. Turkey ou Sr. Peru e Mr. Nippers ou Sr. Alicate) que se alternam em produtividade e atitudes extravagantes, isto é, um é sóbrio, comedido e eficiente pela manhã (Turkey) enquanto o outro parece vítima de indigestão e mau-humor, continuamente irrequieto e insatisfeito com os apetrechos e móveis  (Nippers), enquanto à tarde, um se torna falastrão e meio inconveniente, além de relaxado (Turkey), contrabalançado pela atitude mais calma e suave do colega (Nippers), mantendo-se assim o equilíbrio; também há um aprendiz e contínuo, guri, Ginger Nut, “Noz de Gengibre” (na versão de Irene Hirsch, Pão-de-Mel), o qual adquiriu tal nome devido à sua infatigável disposição de comprar para os outros funcionários bolinhos de gengibre.

Num dado momento (justamente quando o narrador é investido do cargo cuja extinção lhe é tão revoltante), é preciso contratar mais um escriturário (ou copista, é bom lembrar que é ainda uma época de cópias feitas à mão, antes mesmo das máquinas de escrever) e então… Bartleby: Em resposta a um anúncio, apareceu certa manhã no meu escritório um jovem… Ainda me parece estar vendo essa figura: um lívido perfil, tristemente respeitável, incuravelmente perdido!” Para o narrador, é um alívio contratar um jovem tão apagado, diante da fogosidade e arrebatamento alternados dos seus dois funcionários veteranos.

O escritório é dividido por portas de vaivém, patrão num cômodo, empregados no outro. Bartleby é instalado na parte do patrão, com um biombo para separá-los, ficando, como se diz no relato, “ao alcance da voz”. Isso fornece ao novo funcionário a seguinte vista: “Coloquei a sua escrivaninha junto de uma pequena janela lateral que originalmente proporcionava uma vista meio de lado para uns pátios sombrios, de tijolo, mas que agora, devido a subseqüentes construções, não dava para vista nenhuma, embora filtrasse algumas réstias de luz. A três pés das vidraças, erguia-se uma parede, e a luz descia do alto entre dois prédios altos, como de uma pequena abertura numa cúpula. Portanto, Bartleby vai se instalar  de uma forma no coração de Wall Street que parece tornar literal o significado do nome, “Rua da Parede” e que nos faz avaliar bem as perspectivas de sua existência como insignificante peça burocrática, que está ali à mão, “ao alcance do ouvido”. Justamente nessa condição, um dia o patrão o convoca para conferirem juntos um documento original e sua cópia (para verificar sua exatidão): “…sentei-me logo à escrivaninha com a cabeça inclinada para o original e estendendo impacientemente a mão direita para o lado com a cópia, de maneira que Bartleby, mal saísse do seu retiro, pudesse pegá-la e começar a tarefa sem mais demora.”  Todavia, ele ouve uma resposta inacreditável (e uma das frases mais célebres da ficção): I would prefer not to”, “Prefiro não fazer” [3]. O que impede o empregador de despedi-lo na hora; de, como diz, escorraçá-lo sem mais delongas do escritório? O fato de não sentir “inquietação, raiva, impaciência” ou, mais importante, “impertinência”: “O que fazer?  Mas o trabalho era urgente e resolvi deixar por isso mesmo o incidente, reservando-o para horas vagas”. Começa então a estranha relutância desse édipo em enfrentar o enigma da esfinge, ou pelo menos agir. Se Bartleby “prefere” não agir, o seu patrão não se decide a agir. Em poucos dias, acontece novo incidente e a mesma frase, desta vez testemunhados pelos outros três assalariados: “Com qualquer outro que não ele, eu teria ficado imediatamente irado, e, sem mais explicações o teria ignominiosamente banido da minha presença. Mas havia em Bartleby algo que na apenas me desarmava estranhamente, mas que, de certa forma, me tocava e me desconcertava. E o leitor? Creio que se o leitor contemporâneo se exaspera, imagine o da época, que nunca encontrara pela frente personagem desse tipo. Mas deixemos para depois de repassar o texto essa questão que me parece importante, a da reação do leitor. Por sua vez, o tipo de reação quase passiva de Bartleby (e nada irrita tanto uma pessoa série quanto uma resistência passiva), apesar da enormidade do seu “preferia não fazer”, é evidenciado pelo trecho seguinte:

Narrador: É como sempre se faz. Todo copista deve conferir sua cópia, não é assim? Não quer falar? Responda!

    (…) Tive a impressão de que, enquanto lhe falava, ele pesava cuidadosamente as minhas ponderações e que ele apreendia plenamente seu significado mas, ao mesmo tempo, uma soberana consideração o forçava  a responder daquele jeito.

Narrador: Então está decidido  a não fazer o que lhe peço? Mesmo sendo o meu pedido de acordo com a praxe e o bom senso?

    Em breves balbucios, ele me deu a entender que, nesse ponto, o meu raciocínio era correto. Sim: mas sua decisão era irrevogável!”

E é justamente a praxe e o bom senso que são colocados em xeque, já que a decisão irrevogável de Bartleby “desautomatiza” o quotidiano, obriga patrão e colegas a conviverem com algo completamente inusitado. E um outro efeito colateral: a atitude de Bartleby (Entrementes, permanecia sentado no seu canto, alheio a tudo que não fosse seu próprio e peculiar trabalho ali) força seu patrão a prestar atenção nele: “Sua última conduta memorável levou-me  a observar de perto sua atividade. Constatei que nunca saía para comer; que, aliás, nunca ia a parte alguma. Também não me lembro de tomar conhecimento de sua vida fora de meu escritório. Ele era uma sentinela perpétua naquele canto.” Embora se ocupe intimamente do “problema” que surgiu em sua vida, o narrador chega à conclusão provisória de que as excentricidades do empregado são involuntárias e de que ele lhe é útil, ainda assim. E sua auto-gratificação se compraz em manter Bartleby, auxiliá-lo mesmo, “agradá-lo em sua estranha obstinação”, o que custaria nada ou muito pouco: “Se eu demiti-lo, ele pode acabar com algum empregador menos indulgente, sendo tratado de forma rude, e talvez miseravelmente levado a passar fome”. Apesar dessa predisposição tão indulgente e boa para a auto-estima, a atitude de Bartleby o espicaça por dentro e ele procura criar situações, num “impulso diabólico”, um desiderato meio inexplicável, que levem o estranho funcionário a responder-lhe da mesma forma: Eu ardia por ser contrariado novamente”. Assim como o Sr. Utterson de Jekyll & Hyde, o narrador é um pouco nosso representante na trama e nos identificamos com seus sentimentos. Mas é preciso ser um leitor daquela época, ainda não treinado pela suspeita pós-nietzschiniana e freudiana, para não ver nesse ardente desejo de ser contrariado o impulso de Thânatos presente no id de ver tudo se desmantelar, de mandar às favas o edifício laboriosamente construído pelo esforço quotidiano, a meada cinzenta se desenrolando em frente a uma parede. Tudo bem que o superego afague o ego com idéias de bondade, generosidade e indulgência.

Há regras no jogo entre eles: Bartleby nunca aparece na primeira invocação do seu nome (“Como um fantasma, submetido às leis da invocação mágica, ao terceiro chamado ele apareceu à entrada de seu eremitério, lemos numa cena em que ele se recusa a ir à sala contígua chamar o colega Nippers). E o resultado do jogo: “…em pouco tempo se tornara fato concreto em meu escritório que um jovem escriturário pálido, que atendia pelo nome de Bartleby, tinha uma mesa lá; que ele fazia cópias para mim pela tarifa habitual de quatro cents por página (cem palavras), mas que ele estava permanentemente isento de conferir o trabalho feito por ele… além disso, o dito Bartleby em hipótese alguma era enviado em qualquer tipo de serviço trivial fora do escritório; e que mesmo que se lhe solicitasse fazer algo do gênero, normalmente ficava claro que ele preferia não fazer; em outras palavras, que ele simplesmente se recusava a fazer”. Vocês devem notar a ênfase constante do que é habitual (a tarifa habitualmente paga de 4 cents, conferir as cópias com o original) como argumento de qual deveria ser a atitude “normal”, isto é, ancorada no hábito, de Bartleby, e que ele contraria. Um dos encantos da narrativa é a necessidade contínua de racionalização (afinal, estamos em pleno coração de Wall Street, um lugar não muito afeito a fantasmagorias) da tolerância à peculiaridade bartlebyana: Sua constância, seu comedimento, sua produtividade incessante (exceto quando, de pé, atrás do biombo ele preferia sonhar acordado), seu absoluto silêncio e seu comportamento inalterável faziam dele uma aquisição valiosa. O mais importante de tudo era o seguinte: ele estava sempre lá.”

E é esse “ele estava sempre lá” (ou seja, era o primeiro a chegar, o último a sair), tão inocente e aparentemente tão importante no cômputo geral positivo, que levará o relato à sua próxima volta do parafuso, como se o primeiro ato tivesse terminado. Desse primeiro ato, que eu arbitrariamente delineei numa narrativa fortemente cerrada, uma palavra se destaca, em retrospecto: concessão. Foram feitas concessões inusitadas a um mero empregado. O motivo básico e inconteste: a produtividade em copiar, não importando a recusa em circunstâncias mais intermitentes. Bartleby é esquisito, porém é uma peça que funciona na engrenagem. Por ora.

Então, numa manhã de domingo as coisas mudam de figura: o narrador quer ouvir um pregador famoso na Trinity Church e, estando um pouco adiantado, resolve dar um pulo ao “seu” escritório. Anteriormente, ele nos explicara que havia algumas cópias das chaves: uma, com ele; outra, com Turkey, funcionário mais graduado; outra, com a faxineira; a quarta… ele não sabia com quem ficava. Vai descobrir: tenta colocar a sua na fechadura, notando que há resistência: “para minha consternação, uma chave girou do lado de dentro e segurando a porta entreaberta surgiu o rosto esquálido de Bartleby, o qual estava em mangas de camisa e num estranho e esfarrapado roupão, dizendo em voz baixa que sentia muito, mas estava muito ocupado naquele momento e preferia não permitir minha entrada, sugerindo-lhe que desse uma ou duas voltas pelo quarteirão, enquanto ele concluía os tais afazeres. O patrão obedece, e sua cabeça roda à procura de explicações (descartando as hipóteses mais imorais, pelo que conhece de Bartleby), até que volta ao escritório e o encontra desimpedido. Indícios revelam que o empregado se aloja ali como uma “alma penada”: “De pronto senti todo o drama: Que solidão e desamparo terríveis estão sendo revelados aqui! A sua pobreza é grande, mas a sua solidão… que horror! Pensem nisso. Num domingo, Wall Street é tão deserta quanto Petra, e todas as noites de todos os dias são um imenso vazio. E até este edifício, que nos dias de semana fervilha com vida e labor, à noite ecoa de tão absoluta inatividade e durante todo o dia dominical jaz abandonado. E é daqui que Bartleby faz seu lar…”  [4]Engraçada essa idéia de um lugar de alienação e mais valia parecer aconchegante nos dias de exploração do trabalho. Infelizmente, é um sentimento que todos nós temos: os lugares de atividade e agitação, abandonados, nos dão um sentimento intenso de desolação e de inóspito.  A superioridade indulgente do patrão sofre um profundo arranhão: “Pela primeira vez em minha vida, fui tomado por um sentimento de opressiva e doída melancolia. Eu não conhecera até então senão uma leve e nada desagradável tristeza. O laço comum da humanidade fez com que eu fosse golpeado por um irresistível desalento… Pois tanto eu quanto Bartleby éramos filhos de Adão.”

Do território da concessão, partimos agora para o reino da empatia. Ele relembra todos os indícios da pobreza (nunca o vira lendo nem um jornal, nunca ia a lugares para fazer uma refeição, nunca bebia cerveja, ou mesmo café ou chá) e da solidão (nunca soubera de um parente): “E acima de tudo, lembrei-me de uma certa expressão inconsciente de, como definir?, combalida altivez, pode-se dizer, ou uma certa reserva austera.

Só que a empatia é contraproducente e ao lembrar de todos esses indícios, instala-se (eu diria, reafirma-se) nesse outro filho de Caim o sentimento de prudência. Ele poderia ajudar Bartleby, realmente? “Eu poderia oferecer compaixão a seu corpo, mas não era seu corpo que lhe doía; era sua alma que sofria, e a sua alma eu não conseguia alcançar”. O médico está alienado de seu paciente, não há comunicação possível entre a margem de cá e a derradeira onde o outro se encontra. Um dos maiores encantos de Bartleby é a obstinada recusa de Melville em nos dar acesso à mente de seu personagem, e assim é fato: não conseguimos alcançar sua alma.

O narrador bem que tenta: faz perguntas a Bartleby a respeito de onde nasceu ou qualquer fato importante da sua vida. Prefiro não dizer, prefiro não contar, eis as respostas. Aliás, Bartleby prefere não responder. Irritado com tal ingratidão renitente, o impulso de demiti-lo é frustrado pela sensação de que seria impossível fazer mal ao mais infeliz dos seres humanos. Ele pede a Bartleby que seja razoável, pense com calma e adapte-se à rotina, como os outros. Resposta: “No momento, prefiro não ser um pouco mais razoável”. Aliás, a praga do verbo preferir pega no escritório e todos acabam  utilizando-o quase como um ato falho.

E Bartleby radicaliza (e nesse momento, creio que é a experiência comum, o leitor é levado à mesma exasperação sentida pelo narrador): No dia seguinte notei que Bartleby nada mais fez senão ficar de pé em frente de sua janela, no seu devaneio com a parede sinistra. Quando lhe perguntei por que, respondeu que decidira não escrever mais. Exclamei: O quê?! Mas o que é isso agora?! Não vai escrever mais? Ele: Não. Eu: E qual a razão? Ele: O senhor mesmo não vê a razão?” Esse trecho é importante porque se trata de um dos raros momentosem que Bartleby se manifesta diretamente. A arrepiante frase “o senhor mesmo não vê a razão?” parece levar o quotidiano a bater de cara naquela parede em frente, obsedante e determinante. É como se a razão estivesse ali materializada, à frente de ambos.

Prudentemente, o narrador deixa passar alguns dias para voltar à carga. Como Bartleby persiste em sua posição, ele lhe paga o salário, mais uma gratificação e diz: “Chegou a hora; precisa deixar este lugar. Lamento por você. Aqui tem dinheiro, mas trate de ir embora, já que é uma aberração no mundo prático e capitalista um funcionário que se recusa a trabalhar. Que preferia não trabalhar, melhor dizendo, e ao manifestar tal preferência concomitantemente a pratica. Resposta: “Prefiro não ir. O patrão insiste, lhe estende as notas de dinheiro e lhe saúda com um adeus: “Ele não retrucou sequer uma única palavra; tal como a derradeira coluna de um templo em ruínas, continuou de pé, mudo e solitário, no meio da sala deserta.”

E temos mais um jorro autocongratulatório do narrador por ter resolvido a situação com tanta elegância e discernimento: “…minha vaidade sobrepujou a minha compaixão. Não deixava de me congratular efusivamente pela forma magistral com que me livrara de Bartleby… A beleza do meu procedimento parecia consistir na sua perfeita tranqüilidade. Não houve a menor ameaça vulgar nem qualquer espécie de bravata…nem caminhadas exaltadas pela sala, berrando para Bartleby pegar seus cacarecos e ir embora com eles.” Ainda assim, ele fica apreensivo: irá realmente o escriturário embora? “Imaginei que toda a Broadway participava da minha ansiedade e discutia a questão comigo”. Ele vai mais cedo ao escritório e se depara com a presença de Bartleby, que não lhe permite a entrada, alegando estar ocupado. E o narrador mais uma vez obedece “ao poder assombroso que o inconcebível escriturário tinha sobre mim, poder do qual não conseguia escapar. É algo sem precedentes, como se o escriturário da triste figura tivesse obtido um triunfo sobre ele.

O que se poderia fazer? À pergunta: Você vai ou não vai me deixar? a inevitável, nevermoriana resposta será: “Prefiro não deixá-lo e se não fosse tão estranho dizer isso de tal personagem, parece haver uma ponta de malícia. Ou seria o mais absoluto desamparo? Revolta impotente do patrão: Mas que direito se arroga você para ficar aqui? Paga aluguel? Paga meus impostos? Ou será que este lugar lhe pertence?”

E assim Bartleby passa os dias no escritório, sem fazer nada, atrás do biombo, olhando a parede. O nirvana em Wall Street.Nummomento de auto-ironia, o narrador chega a dizer pra si mesmo: “… nunca me sinto tão à vontade como quando sei que você está aí. Pelo menos, eu sinto, vejo, penetro a razão-de-ser predestinada de minha vida. E fico contente. Outros terão papéis mais relevantes a desempenhar; quanto a mim, a minha missão no mundo, Bartleby, é a de lhe proporcionar um escritório para todo o tempo que desejar.” Ora, tal situação não poderia deixar de ter repercussão e se espalhar por Wall Street, o que desmoraliza o escritório e afasta alguns clientes, impressionados com o “fantasma que morava no meu escritório”, que não dá respostas e nem aceita tarefas, o que acaba por esgarçar a empatia do narrador. A meada cinzenta quer recuperar seus direitos… que nenhum fio fique solto: “Resolvi reunir todas as minhas energias e livrar-me de uma vez por todas daquela intolerável assombração” Mas há um lado Hamlet no narrador, que se atormenta: O que fazer? O que decidir? Ele então avisa Bartleby de que passou a achar inconveniente o local do escritório e pretende mudar-se. E que Bartleby não é convidado a acompanhá-lo na mudança: “No dia marcado, contratei carroças e carregadores, fui até o escritório e, como tinha poucos móveis, tudo foi retirado em poucas horas. Do começo ao fim da mudança o escriturário permaneceu de pé atrás do biombo, que eu determinara fosse a última coisa a ser removida… assim que o biombo foi retirado…ali ficou o imóvel ocupante na sala vazia. Demorei-me alguns instantes no vestíbulo para o observar, enquanto algo dentro de mim me censurava.” Mesmo assim ele se despede, “livrando-se” do peso morto, e podemos dizer que se encerra o segundo ato.

No novo escritório, por vários dias o narrador sente a inquietude e o temor de encontrar algum dia Bartleby ali instalado, ”cada ruído de passos no corredor deixava-me sobressaltado” … “mas esses medos eram desnecessários. Bartleby nunca me procurou.

Quem o procura é o novo locatário, que lhe comunica, angustiado, a permanência absurda de Bartleby e lhe diz: “o senhor é responsável pelo homem que lá deixou. Ele se recusa a fazer qualquer cópia, recusa-se a fazer qualquer coisa…recusa-se a deixar o local”. Nosso amigo argumenta que o desanimado fantasma: “não é nada meu.. não tem comigo qualquer relação nem é meu parente” e dias depois é novamente incomodado. Bartleby foi expulso do escritório e agora se recusa a sair do edifício: de dia  senta-se no corrimão das escadas  e de noite dorme no vestíbulo.  Todos estão se queixando. Clientes estão abandonando os escritórios…” E assim cabe ao narrador tomar providências, algo que ele preferia não fazer, com certeza, horrorizado com a idéia de se confrontar com Bartleby e sua própria má consciência.

Ele vai até o edifício, leva Bartleby até o antigo escritório e lhe expõe os fatos. Reposta: No momento, prefiro não me mudar”. O narrador lhe faz ofertas de empregos. Ele recusa, embora deliciosamente acrescente: “Mas não sou exigente(outra de suas raras manifestações, além das recusas em fazer algo que todos acham ser de praxe, habitual, razoável ou de bom senso). Como última cartada (e revelando uma motivação psicológica surpreendente), o narrador o chama para ir morar na sua casa. O monstro: “Não, no momento prefiro não me mudar”.

O narrador se vai, quase fugindo, querendo se afastar daquele demônio de recusa. Chega até a viajar e, na volta, encontra uma carta com a notícia de que Bartleby foi recolhido à Prisão Municipal por vadiagem. Nosso amigo vai até lá: “Assegurei… que Bartleby era um homem perfeitamente honesto e, apesar de suas inexplicáveis excentricidades, digno da maior compaixão. Contei tudo o que sabia a seu respeito e terminei sugerindo que lhe tornassem a detenção tão branda quanto possível, até que algo menos severo se pudesse fazer—ainda que, na verdade, eu não soubesse bem o quê.” Ele pede autorização para vê-lo e o encontra “de pé, completamente só no pátio mais isolado, o rosto voltado para uma alta parede” (isto é, continuando sua existência no escritório em Wall Street). Ao ser interpelado elo antigo patrão, replica: Já o conheço, e nada tenho a lhe dizer”. É quase uma acusação, mas de quê? Será que é mesmo uma acusação? Será que o narrador é mero representante de uma humanidade da qual o escriturário se desligou, como o Homem Invisível de Wells, no veredicto do Dr. Kemp?

Bem, de todo jeito, o narrador procura mitigar a existência do antigo funcionário, dando propinas a funcionários do lugar para que protejam e alimentem o rapaz. Mas Bartleby prefere não jantar. Dias depois, ele volta e encontra Bartleby integrado definitivamente à condição que escolheu: “O pátio estava numa calmaria total… Estranhamente enroscado ao pé do muro, joelhos fletidos, deitado de lado e com a cabeça encostada às pedras frias, assim deparei com o definhado Bartleby. Não se movia. Parei, depois avancei e, debruçando-me sobre ele, vi que seus olhos nublados estavam abertos; parecia, no entanto, profundamente adormecido. Não sei o que me levou a tocá-lo. Peguei sua mão, e um calafrio agudíssimo subiu pelo meu braço, desceu-me pela espinha e estremeci da cabeça aos pés.” O homem “da bóia” da prisão se achega e reclama que Bartleby nunca come. Vive sem comer?” O narrador responde: “Vive sem comer”. O homem ainda pergunta: Ele está dormindo. Resposta do narrador: “Com reis e conselheiros.

O narrador tem ainda uma última palavra a dizer, embora um prosseguimento da história “seja desnecessário”. Trata-se de uma versão, ou de um boato que ouviu sobre a vida pregressa ao escritório do esquisito funcionário: “Bartleby teria exercido uma função subalterna na Seção de Cartas Extraviadas, em Washington, da qual fora repentinamente demitido por uma reforma administrativa. Quando penso sobre esse boato, nem sei exprimir de forma adequada as emoções que sinto. Cartas Extraviadas! Não soa a homens extraviados? Concebam um homem propenso, por natureza e sina, a uma pálida desesperança: haverá melhor posto para desesperá-lo do que o contínuo manuseio dessas cartas extraviadas, mortas, e com elas alimentar a fornalha? Porque são incineradas todos os anos, às carradas. Por vezes, dentre as folhas dobradas de uma carta, o pálido funcionário retirava uma anel, o dedo ao qual estivera destinado estava talvez apodrecendo no túmulo; uma cédula remetida com solícita caridade, e aquele a quem se destinava a socorrer já não come, já nem tem mais fome; perdão para aqueles que morreram no desespero; boas notícias para seres que morreram na desgraça. Com mensagens de vida, essas cartas corriam para a morte.”

O aspecto que mais chamou a minha atenção na releitura de Bartleby que fiz para o curso foi o de como somos, no fundo, burgueses domesticados, nós, os leitores. Afirmei mais atrás que o narrador é nosso representante como o Sr. Utterson o é na tessitura da trama e da narrativa do texto de Stevenson. Ora, por que ele nos parece tão “natural” e “humano” em contraste com o quase inumano escriturário que prefere não fazer coisas de forma cada vez mais radical? Uma parte é fruto da construção do foco narrativo, lógico: vemos os fatos através dos olhos do patrão de Bartleby; o problema, creio eu, encontra-se mais fundo: somos leitores treinados num mundo de perda de “valores”, um mundo de suspeita (fruto da psicanálise), ou seja, em que a “normalidade” é colocada em xeque, bem como a “ordem” e o “progresso” conquistados pela burguesia; nem por isso deixa de ser para nós exasperante e enervante o comportamento do pálido escriturário, ao se recusar a trabalhar, ou condescender a cumprir as tarefas mais triviais, ou depois, mais tarde, a se retirar do escritório, ou ser acolhido na casa do ex-patrão, ou alimentar-se na prisão… Não nos identificamos com isso, tal atitude nos impacienta e nos aliena dele, consegue a nossa “concessão” (por abrir uma brecha crítica no automatismo do quotidiano), todavia não a nossa adesão ou “empatia” (no sentido de dizermos, “eu também sou um Bartleby”).

E assim, de certa forma, damos nosso aval ao mundo da produtividade e da atividade, o mundo “Wall Street”, em que a vida de um Bartleby é absurda, por que uma pessoa que tivesse a atitude do escriturário como um nosso colega, um nosso assalariado, alguém que convivesse conosco, nos deixaria malucos. Ou não?  É só recapitular: até o “terceiro ato” e o dilema que a recusa de Bartleby em deixar o edifício é resolvido por seu recolhimento à prisão, sua atitude positivamente nos desconcerta, mesmo que tenha um lado comicamente sinistro, como apresentam também os textos de Kafka (não copiar mais, não deixar o patrão entrar no próprio escritório). Ainda é um teatro do absurdo. Só as páginas finais revelam, no fundo, uma atitude trágica, de uma pessoa que não tem mesmo lugar no mundo em que as cartas em que perdões, esperanças, auxílio, prendas, destinavam-se a pessoas vivas, e que, extraviadas, são como símbolos de assombração, da morte que paira sobre a existência, no (no)nada que é a vida pode ser, se olharmos muito a mesma parede, copiando (a 4 cents por palavra, cem delas por página) documentos atrozes por serem outras tantas paredes na vida: certidões, testamentos, procurações, e o mais que houver na burocracia.

Eu tenho para mim que a empatia do narrador para com seu estranho funcionário, é retrospectiva, advinda da perda do cargo importante, que também lhe deixou a sensação de ser um elemento “sem lugar” no mundo produtivo, apesar das boas opiniões a seu respeito (como o ilustre John Jacob Astor, que ele invoca). Por que não deixa de ser contraditório, para quem nos afirma que ele e Bartleby eram ambos, “filhos de Adão”[5] (e isso me lembra o Sr. Utterson, afirmando, como homem indulgente que era, sua “inclinação pela heresia de Caim”, deixando seus semelhantes procurarem sua danação pelas próprias pernas), ele nunca ter feito o menor gesto para tirar Bartleby da prisão, e, sobretudo, esse trecho esclarecedor, no qual o narrador expressa seus temores quanto à permanência do pálido escriturário em seu escritório ad aeternum: “…fui assaltado pelo pensamento de que ele poderia ter uma vida muito longa e continuar ocupando a minha sala e negando a minha autoridade, constrangendo  meus visitantes, manchando minha reputação profissional, projetando a sombra da melancolia e da desconfiança no ambiente, sendo capaz de manter a alma grudada ao corpo graças às suas economias… e no final talvez viver mais do que eu e reclamar a posse do meu escritório por direito de ocupação perpétua”. Um trecho de admirável egoísmo. Quem é o monstro, afinal? Não irei ao ponto de dizer que, no fundo, no fundo, ele queira ver Bartleby neutralizado (recolhido em casa ou na prisão) ou mesmo destruído. Mas já não temos uma visão tão bondosa assim do seu empregador. Porventura devemos compartilhar sua perplexidade, só que não podemos nos aliar a ele, que só pensou em Bartleby após perder seu precioso cargo, que parecia definir seu lugar no mundo, já que não conhecemos suas relações de espécie alguma. Será que só há vazio e desolação na infeliz vida do infortunado escriturário em meio ao deserto de Wall Street? E nunca podemos deixar de nos guiar pelos indícios, como Bartleby progressivamente vai rechaçando cada vez mais o narrador (se ele é o representante da sociedade, no sentido de uma “boa vontade” universal, ele também é de certa forma o responsável pela sua condição e destino, não?; no entanto, ele não o relega a um  vestíbulo, aos corrimãos das escadas, e no final a um muro de prisão): “Já o conheço e nada tenho a lhe dizer é a maneira como Bartleby recebe o narrador no seu destino final. O narrador se defende: “Não fui eu que o mandei para aqui… De resto, para você não pode ser aviltante um lugar destes. Nada de ultrajante lhe resultará por estar aqui. E veja, o lugar não é tão ruim como seria de esperar. Olha, lá onde está o céu e aqui a grama.”. E Bartleby tem uma resposta inesquecível, uma daquelas poucas e lacônicas que lhe cabem no relato, essa, porém, sendo de uma lucidez mortífera: Sei onde estou, respondeu ele; não falou mais nada e eu o deixei.”

         .Acho que não é preciso sublinhar a hipocrisia de consolar um homem preso como vadio, afirmando-se que ele tem o céu e a grama à disposição, e que o lugar não é tão ruim, e mais ainda que nada de ultrajante e aviltante pode se associar à sua estada ali, como se a estada ali já não fosse o aviltante e o ultrajante. É nesse sentido que Modesto Carone, no seu posfácio à edição da CosacNaify, “Bartleby, o escrivão fantasma”, inclui o nosso amigo na categoria de unrealiable narrator, “narrador não-confiável” (técnica desenvolvida por Henry James & Machado de Assis no final do século, na qual o foco narrativo nos é fornecido por um narrador cujo ponto-de-vista se revela tão restrito e parcial que começamos a duvidar de sua versão dos fatos) [6]: “É o caso deste advogado que conta uma história facciosa, na medida mesmo em que espalha as pistas para ser descoberta sua deliberada parcialidade”. Sentimos, afinal, que mesmo espalhando essas pistas, ele sempre procura conquistar a nossa boa opinião, como a que tinha o falecido John Jacob Astor.

E é por isso que fica inviável irmanar totalmente, embora ambos nasçam da mesma situação alienante, Bartleby e Akaki Akakiévitch (de O capote, de Gógol), já que a inconsciência deste último da sua condição se mantém até o fim (quando é praticamente condenado à morte pela descompostura de Sua Excelência) enquanto que, mesmo sem se manifestar abertamente, ou mesmo por causa dessa não-manifestação explícita, o personagem de Herman Melville parece ter o dom de ter a última palavra, de obrigar à lucidez de encarar que o horizonte do universo em que ele e os Akáki Akakiévitch (in)existem é uma parede.

E no final, as próprias palavras do narrador se voltam contra sua existência tanto quanto a do seu funcionário: “Com mensagens de vida, essas cartas corriam para a morte. Ah, Bartleby! Ah, humanidade! Além da melancolia e do desamparo que revelam (e olhe que ele nos afirmou, a certa altura, não ter conhecido na vida, antes da revelação dos infortúnios de Bartleby, “uma leve e nada  desagradável tristeza), projetam a sombra da melancolia e da desconfiança sobre uma existência dedicada a produzir documentos e papelório, todos correndo para a morte, enquanto fazem as transações da vida.


[1] O título original é Bartleby, the scribner. Há traduções em que aparece como Bartleby, o escrivão e temos o famoso “escrivão” da nossa literatura, Isaías Caminha, de Lima Barreto (1909). Como o escritório do narrador cumpre função de cartório não seria incorreto também o título Bartleby, o escrevente. Há magnífica versão de Luís de Lima (Rocco), mas existem várias outras. As que eu tenho:  a de Olívia Krähenbül na série “Melhores Contos” (Cultrix); a de Pinheiro de Lemos (tenho pela Record; foi, entretanto, reeditada recentemente pela José Olympio); a de Cássia Zanon (L&PM); a de Irene Hirsch (CosacNaify), que, sinceramente, não me agradou, explicarei  na discussão do texto por quê.

[2] O que torna Melville contemporâneo, em idade e carreira artística, de Dostoiévski. O norte-americano nasceu em 1819 (em primeiro de agosto); o russo, em 1821 (30 de outubro); como disse acima, Typee inicia a carreira de Melville em 1846; em 1845, Dostoiévski lança seu primeiro livro, Gente Humilde; Melville viverá até 1891 (morre em 28 de setembro); não custa lembrar que Nietzsche, o qual exerceu na Filosofia influência similar a de Dostoiévski na literatura, nasceu  na época (meados dos anos 40)  em que essas primeiras obras apareceram: em 15 de outubro de 1844; Dostoiévski morre em 28 de janeiro de 1881.

[3] Apesar de eu gostar muito da versão de Luís de Lima, Pinheiro de Lemos traduz de maneira bem eficaz: “Preferia não fazê-lo”. Confesso que não gosto da solução de Irene Hirsch: “Acho melhor não”, sem graça e no fundo pouco poética. Pois há poesia na recusa de Bartleby, pois é uma recusa dentro de uma formulação da Possibilidade: “prefiro” ou “preferia” não fazer, ou seja, há a possibilidade de fazer, mas abriu-se um pequeno e decisivo lapso: a “preferência”. Não é uma recusa propriamente dita: não vou fazer. É uma preferência que, manifesta, abole a possibilidade de fazer o que é solicitado. É minha opinião que tudo isso se perde no “acho melhor não”.

[4] Não é ocioso notar que essa é mais uma história onde há uma marcante ausência de mulheres, inclusive na vida do próspero patrão de Bartleby, sobre a qual não temos, por mínima que seja, a menor alusão a qualquer relacionamento amoroso.

[5] Contudo, ele mesmo se intitula a certa altura, de “velho Adão ressentido”.

[6] O que mostra que Bartleby, escrito por volta de 1853, é antecipador em muitos pontos. Ficou famosa a idéia de Borges (no prefácio da sua tradução ao texto, em 1944) de que ele seria um precursor de Kafka. É engraçado que Borges lança a idéia muito de leve, muito sucintamente, porém ela ganhou  amplitude e carreira na Wall Street das teorias literárias (e sem parede).

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