MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/03/2014

SERGIPANA SOFREDORA NÃO É PÁREO PARA MEXICANAS

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(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 18 de fevereiro de 1997; as notas de rodapé são todas de março de 2014)

Às vezes, um leitor assíduo acaba sentindo-se uma caçamba de Disque-Entulho tal a quantidade de escombros criativos e ruínas estilísticas nele arremessados.  Dessa vez foi o veterano romancista Herberto Sales, autor do ótimo Os pareceres do tempo (1984), que, alô entulho, resolveu soterrar o incauto leitor com o cascalho das suas gavetas e da sua mente.

Seu último romance[1] tem o mesmo título que ganhou aqui no Brasil um filme chatíssimo de Ken Russell: A prostituta [2], onde tínhamos de aguentar o papo-cabeça de uma puta existencialista (Theresa Russell), que mostrava mais o incansável poder das suas cordas vocais do que seus favores sexuais. No livro de Sales, a prostituta[3] está mais para Marimar Perez, a heroína da deliciosa telenovela mexicana que está tornando-se referência obrigatória para quem curte o kitsch.

No entanto, Maria Corumba também tem seus momentos de elucubrações (infelizmente, muito longe das hamletianas): “Mas, meu Deus, será que eu, depois de tanta coisa má que me aconteceu, e que tão cruelmente me machucou a alma, num momento em que cheia de sonhos eu despertava para a vida, será possível que eu, depois de tudo isso, conserve ainda no coração alguma sobra de amor? Não, meu coração secou de todo, como de todo seca no sertão, sem a chuva, a terra do Nordeste, minha terra. Fui esvaziada de todo o amor que tinha no coração, pronta para dar um dia a alguém (como o anel lúdico da infância), que em troca me desse também o seu amor: como uma generosa chuva sobre a mente do meu amor, amor chovendo em outro amor.”!!!!!?????? Nossa, é uma prostituta com retórica da ABL.

Como Miramar, Maria Corumba quer vingança: “…seco de amor, ficou no meu coração somente o ódio. E a vingança, que é o fruto que nasce do ódio nas plantações do ser humano”!!!!??? Por que essa fúria vingativa? Porque ele era uma pacata moça sergipana, protestante e tecelã, até ser desvirginada e engravidada por um sargento (diga-se de passagem, é a única parte suportável do romance). Depois, é expulsa de casa pelo pai e vai morar na Paraíba com a madrinha. Através de um caixeiro-viajante, admirador platônico, Maria Corumba resolve “cair na vida” em Salvador, tornando-se, ao longo do tempo, o “michê mais caro da Bahia”. E ela ainda reclama? Pois reclama, meu bom leitor. Mesmo amealhando um considerável pé-de-meia, com homens apaixonados por ela a vida toda, e com a proteção de um magnata, ela reclama.

O problema é o ódio no seu coração. Ela precisará aplacá-lo para conseguir ser feliz. E ela consegue. Aplaca o ódio, levanta, sacode a poeira, enxuga as lágrimas e torce as mágoas da vida, casa-se, vivendo feliz para sempre com o admirador platônico. No final, o amor mostra-se mais forte do que a desdita e o rancor.

E haja Disque-Entulho!

No início do relato, Sales parecia ter adotado uma postura neo-naturalista, mostrando de maneira praticamente fatalística a facilidade. Ao mesmo tempo, havia trechos e parênteses de conversa com o leitor, num tom quase machadiano (guardadas as devidíssimas proporções com o autor de Quincas Borba), o que suavizava o pesado tributo naturalista da sua fábula.

O leitor chegava a pensar: se A prostituta tivesse sido escrito com esse estilo irônico nos anos 1930 ou 1940 seria um grande livro. Parecia que o estilo tinha chegado tarde demais para a história contada. Ainda mais que hoje a prostituição atingiu patamares mais perversos, com a exploração da pedofilia e do turismo sexual[4].

Se a desgraça de Maria Corumba já não tem muito impacto, apesar do bom começo (para o livro, não para ela), o desenrolar da narrativa parece recuar do estilo naturalista para um romantismo que lembra José de Alencar e seu Lucíola. Se ficasse por aí, tudo bem, A prostituta seria um livro decerto antiquado, anacrônico, contudo ainda dentro de um patamar respeitável (sobretudo se pensarmos que o autor baiano publica romances desde 1944).

Aí começa a verdadeira desgraça. A partir do momento em que Maria Corumba cai na vida, aprende tango e apresenta-se num cassino, A prostituta avizinha-se aos mais reles best sellers que circulam por aí, de Sidney Sheldon a Judith Krantz. Nema analogia proposta pelo autor da situação de Maria e de seu protetor com a da cortesã Actea e do imperador Claudius, na Roma Antiga, salvam o livro de ser uma versão made in Brazil de coisas como A ira dos anjos ou Se houver amanhã.

Olhe só, leitor, o estilo: “Era na igreja que Maria encontrava refúgio para a sua malferida alma”; “Oh, o poder das palavras, ditas na ocasião certa, dirigidas ao alvo certo, em circunstâncias de submissa e confiante súplica, do coração de uma filha para o coração de uma mãe” (essa última citação poderia estar na boca de Lana Turner, num de seus inúmeros papéis como mãe sofredora); “O futuro ela carregava ciosamente consigo, com o filho que ia nascer, amorável fardo de sonhos e esperanças”; “esse incendiado olhar é próprio da maternidade, uma particularidade comum às mulheres, na floração de período sublime”; “O leite de minha filha não podia se misturar com os gozos da cama” (esta é forte, não?); “alma magoada e ressentida, que fizera do exercício da solidão uma defesa intolerante contra a reincidência do amor no seu coração”  (esta última, Marimar assinaria embaixo); “Maria, aflorando à meia luz, refulgia por um momento no seu vestido amarelo-ouro, como uma labareda em flor”; “Quando a conheci, você era um diamante em estado natural. Agora, você já é um brilhante lapidado” (talvez um tributo de Sales às suas origens na Chapada Diamantífera); “Não, não devia ter levado Maria para a cama reservada às suas núpcias com Luciana, a noiva morta”; “Maria logo se aninhou como uma pomba que arrulhando se entrega”: “ainda havia nele uns restos de pudor. Pudor que como uma saudade não abandona de todo a prostituta. Enfim, em toda a prostituta há no fundo uma mulher pudica” (como psicólogo de almas, Sales morreria à míngua);  “o champanhe não os embriagava. Estavam embriagados de si mesmos”!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!??????????????????

Chega, né leitor? Fiquemos por aqui, recolhamos a caçamba com o entulho e vamos aguardar Maria do Bairro. Kitsch por kitsch, fiquemos com as mexicanas.

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[1] Em edição da Civilização Brasileira. São 361 páginas!!!???

[2] No original, Whore (1991)

[3] Cuja família é personagem do livro de Amado Fontes, Os corumbas, que só li alguns anos depois de ter escrito a resenha acima, quando foi relançado em 2003 pela José Olympio.

[4] Essa afirmação merece um esclarecimento: antes, era terrível, mas os costumes e a desigualdade social (e sexual) tinham a sua parte. Hoje, com as leis que temos, e ainda assim essa realidade predatória do mercado sexual, tudo fica mais chocante.

11/03/2014

Os “sinais particulares” de Herberto Sales: CASCALHO, 70 anos

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“Tudo que fará de ti um escritor estará no teu livro de estreia. Pelo resto da vida não farás outra coisa senão repetir o que disseste em teu livro de estreia, embora o dizendo de forma aprimorada.” (Jules Renard)

“__ Falando sério, a verdade é que a vida está é dura mesmo—ponderou Juvenal Bosta-Voa.

   Sinhá do Ouro abanou a cabeça ironicamente:

__ Vocês ainda não viram nada. Vida dura foi em 99. Vocês não são capazes de avaliar. Vi muito pai de família ganhando 400 réis por dia. Nesse tempo garimpeiro e cachorro eram a mesma coisa. Diamante foi vendido até a 2 tostões o grão. Basta eu dizer isto: vi muita menina virgem, de dezesseis anos, trocada por um quarto de rapadura. Era uma miséria horrível.

    Filó não pôde fugir a este raciocínio: Veja como são as coisas! Em 99, o camarada que tivesse um quarto de rapadura estava com uma virgem no papo. Hoje, eu com os meus 3 mil-réis, com os meus três centenários, ando atrás da negra Vitalina parecendo que estou pedindo esmola.

   Mas comentou em outros termos:

__ Andaraí é assim mesmo. Nunca passou disso. É uma terra rica de gente pobre.”

(Herberto Sales, Cascalho)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de março de 2014)

Na linha de obras reformuladas pelo autor de uma edição a outra, um caso digno de nota é o de Cascalho. Ao lançá-lo em 1944, Herberto Sales (nascido em 1917) nem chegara aos 30 anos. Não obstante seu livro de estreia ter sido bem recebido, o jovem escritor concentrou-se mais nas falhas apontadas por resenhistas de peso da época, entre eles Sérgio Milliet[1]. Como nos conta em Subsidiário I[2], só permitiu a 2ª.edição, após longo intervalo, quando conseguiu retrabalhá-lo radicalmente. E só lançou outro romance em 1961: o admirado Além dos Marimbus.

O autor baiano não parou por aí nas revisões. E mesmo com o tempo decorrido desde sua morte (em 1999), nem por isso a mais recente edição deixa de incorporar alterações —as quais deixara indicadas no seu referido volume de “confissões & memórias” (“Os textos que eu pessoalmente limpei serão os meus textos—com perdão da palavra—oficiais. Os das outras edições não me interessam), publicado em 1988[3].

Cascalho é fruto tardio da ficção nordestina levada a cabo pela chamada geração de 30, vinculando o enredo romanesco a uma atividade econômica regional. Se em Jorge Amado havia o universo do cacau, e em José Lins do Rego, o da cana-de-açúcar, em Sales temos a extração de pedras preciosas na Chapada Diamantífera (as Lavras), em especial em Andaraí e arredores.

O romance se inicia com uma enchente que destrói paióis de cascalho, causando a morte de um garimpeiro e atrapalhando os negócios do todo-poderoso coronel Germano (senhor da região), que além disso é afrontado por um de seus jagunços, o terrível (mete medo em todos, até nos “patrões”) Zé de Peixoto, num momento de embriaguez. Aparentemente perdoando-o, o coronel ordena, à socapa, sua execução. No entanto, o Dr. Marcolino[4], que junto com o irmão de Germano (este gosta mais de viver na sua fazenda), Quelezinho, defende os seus interesses na cidade, tem secreta participação numa empreitada garimpeira de Zé de Peixoto, e em razão desse acordo comercial procura mantê-lo vivo até que ele extraia algum diamante ou carbonatos.

A participação de dois forasteiros na trama ajuda o leitor a entender essa peculiar geografia física e humana: o retirante Silvério (cujo maior temor é cair no visgo do garimpo, espécie de vício, como todos à sua volta, e nunca sair dali) trabalhará para Zé de Peixoto, e, acusado de roubo, sofrerá uma pavorosa humilhação; o promotor Oscar de Soure terá de sair fugido da cidade[5].

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Mesmo que esses personagens ganhem relevo na narrativa, Cascalho é um romance de coletividade, um estudo do meio. Percorrendo vários dramas e cenas individuais, é a comunidade de Andaraí, principalmente a banda dos garimpeiros menos favorecidos, e todos aqueles que se agregam às suas trajetórias, o dínamo do romance, bem como a sua forte evocação do preço pago pela natureza em função da contínua ação predatória e gananciosa do homem[6]. Pois, como aconteceu em quase todos os nomes da época desse veio nordestino, Herberto Sales surpreende um ciclo econômico já em seu declínio.

Com sua mirada na ambiência física e social mais do que nos lances individuais (um garimpeiro, Filó, cuja vida acompanhávamos desde sua associação com Zé de Peixoto, morre numa gruna que se inunda e lemos: “Talvez que, no fim de contas, ele nada mais fosse que um estorvo à passagem da água), prossegue com honra o tipo de romance à Zola (como Germinal), aqui em nosso país pouco e mal praticado (apesar do paradigma representado por Aluísio Azevedo, aliás autor da admiração de Sales, e seu O cortiço), talvez por ser tão desprezado pelo mainstream da crítica, e não porque haja algum problema com esse modelo de ficção.

E até por conta da soda cáustica estilística a que submeteu seu texto para privá-lo de juvenilidades e rebarbas, realçou-se em Cascalho um aspecto  raro no naturalismo: assim como Rachel de Queiroz em seus melhores momentos, Sales tem uma visão muito pragmática dos eventos e das relações sociais, e não se permite (pelo menos nessa sua versão “oficial”) os proselitismos que enfraqueciam os romances de seu conterrâneo Jorge Amado, até mesmo nas suas melhores realizações (e esse defeito também se estende ao próprio Zola e ao seu discípulo Azevedo).

Ainda assim, mesmo considerando essas qualidades, a fixação de um léxico regional ímpar, e mesmo considerando todo o investimento de reescritura, não creio que Cascalho, todas as contas feitas, impressione como pedra preciosa de primeira grandeza em estilo e linguagem. Trata-se de um bom romance, e não mais que isso.

O obsessivo Sales faria extrações de melhor quilate em Dados biográficos do finado Marcelino e Os pareceres do tempo[7], por exemplo. Curiosamente, no final da vida, regrediria ao acabamento precário que imputava à versão original de Cascalho, em romances lamentáveis como A prostituta, de 1996.

Mas, 70 anos após o lançamento original, ainda é para o leitor do século XXI uma  vívida experiência de leitura (o que talvez explique por que alguém nascido em Andaraí se tornou um escritor tão maníaco) essa recriação naturalista de um pedaço do mundo, ou tranche de vie, como se queira, onde a expectativa do diamante perpassa toda uma sociedade, de forma que até os já aquinhoados de posses e riquezas são literalmente possuídos pela ideia de descoberta de alguma pedra de valor[8]. Uma forma de igualdade entre os homens patética e dolorosa. O naturalismo indo ao encontro do teatro do absurdo.

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TRECHO SELECIONADO

“__ Se alguém quer defender as Lavras, o que me parece uma bobagem, tem de começar forçosamente por atacar os trustistas de Londres e os lapidários de Amsterdam. Eles é que são os responsáveis diretos pela instabilidade econômica das Lavras. São os forjadores das baixas, os donos do mercado, os estipuladores dos preços. Lá é que é o centro de toda a bandalheira—na Europa.

   Dr. Oscar, para quem a discussão não tinha legitimamente maior interesse, acabou convindo:

__ Você em princípio tem razão… Mas… isso é tarefa que compete exclusivamente ao governo.

__ O governo não vale nada—interrompeu-o Nascimento.—O governo sabe mais do que ninguém que os diamantes das Lavras são os melhores que existem, como também não ignora que esta região é a única que produz carbonatos no mundo. Entretanto, cruza os braços e deixa os gringos agirem à vontade, abrirem seus escritores e açambarcarem tudo. De lá da Europa eles manobram com o mercado inteiro aqui dentro (…)

__ Você está hoje um nacionalista feroz… Lembre-se destes pobres homens que são explorados pelos capangueiros e donos de serras…

   O telegrafista respondeu distraidamente:

__ Que homens?

__ Os garimpeiros…

__ Ora, não confunda alhos com bugalhos!—e Nascimento deu de ombros.—Não vá atrás de conversa de jornal. Quando alguém escreve contra qualquer coisa, como é o caso deste sujeito, é porque tem alguma cavação em vista ou está despeitado.  A verdade é que se não existissem os ricos, tachados de ´nababos privilegiados´ aí  neste artigo, simplesmente porque eles e suas mulheres se enfeitam de diamantes dos pés à cabeça, a situação dos garimpeiros era muito pior, posso lhe garantir. O menos que acontecia era não haver garimpos… Ou você acha que eles iam comer os diamantes que pegassem?

   E esboçando um sorriso, enquanto apertava com a mão esquerda a do promotor, concluiu:

__ Arranje uns vinte quilates de diamantes para a lapidação deste cabra, que você vai ver ele parar com estes artigos bestas. Garanto que nunca mais ele chama os garimpeiros de ´operários da vaidade alheia´.”

artigo sobre herberto


[1] Também foi determinante o parecer crítico de Adonias Filho.

[2] Ambos ganharam reedições recentes pela É Realizações, numa “Coleção Herberto Sales” que não sei se terá prosseguimento. Esperemos que sim. É a 8ª. de Cascalho e a 2ª. de Subsidiário I.

[3] Essa “luta” com Cascalho ocupa considerável parte de Subsidiário I. Eu poderia esnobar, deixando no ar que fui eu mesmo quem garimpou a citação em epígrafe de Jules Renard do seu Journal, todavia o eventual leitor do volume confessional de Sales descobriria meu logro na pág. 439, mesmo porque ali ele nos diz que cita de memória (portanto, talvez imprecisamente) o trecho, e de uma versão em espanhol.

Creio não ser ocioso transcrever parte dessa “entrada”: “… esse pensamento [de Renard] me parece muito profundo. No livro de estreia já estão mesmo, de uma ou de outra forma, os nossos sinais particulares. Esses sinais equivalem aos da carteira de identidade que tiramos aos 18 anos, e que aos 80 continuam a ser os mesmos (…) Os meus romances, conquanto muito diferentes entre si, guardam entre si os meus sinais particulares, que já estavam em Cascalho. E eu, em verdade, e ao contrário do que se possa pensar, não procurei tornar diferentes entre si os meus romances só para ilusoriamente não me repetir. Eles se distanciaram aparentemente uns dos outros por mera imposição dos assuntos que lhes deram origem (…) Mas em todos eles estão os sinais particulares da minha identidade literária.”

   Quanto às alterações e correções efetuadas na edição da É Realizações de Cascalho, elas aparecem nas páginas 643 a 645. Na página 642 lemos: “Enfim, chega o exemplar tão aguardado de Cascalho, na edição da Civilização Brasileira [na época da escrita de Subsidiário I, Sales era adido cultural da embaixada brasileira em Paris, no governo Sarney]. Abro o exemplar e lá está a dedicatória que em 1975 fiz para a minha filha Heloísa e para Sérgio, marido dela. Sérgio Waichenberg. Naquele tempo eu queria que eles fossem felizes. E hoje quero mais ainda, embora Sérgio tenha abandonado aos berros Heloísa com a filha. Felicidade a gente tem de escovar pelo menos uma vez e botar no sol. Compreendi que Heitor, não tendo encontrado  Cascalho em nenhuma livraria do Rio de Janeiro e adjacências, resolveu pegar na casa da irmã o exemplar dela. Está bem. Depois eu o substituirei por outro, também da Civilização, embora com o Sérgio de fora. De toda maneira fiquei com de coração tocado com aquele exemplar que dei à minha filha e que depois de  tantos anos voltou de novo para mim sem eu em nenhum momento ter esperado isso . Peguei e risquei a dedicatória. Tive de começar por ela a preparação do volume em sua limpeza revisora. A dedicatória perdera a sua razão de ser. E vamos em frente!”

[4] “…era a ´segunda pessoa do chefe`  e exercia sobre este a maior influência.”

[5] Bem antes da desmoralizante fuga, ele já é uma “autoridade” nula na cidade, como no diálogo abaixo entre o dr. Marcolino e Quelezinho:

“__Mas como é que vocês permitem um moleque da marca de Zé de Peixoto desrespeitar Germano, seu Marcolino? (…) Aquele negro devia ter tomado bala na mesma hora!

   O outro homem ajeitou lentamente os óculos, passou a mão pelos cabelos ralos, tossiu e respondeu:

__ A ocasião não era oportuna. (…)

__ Não me diga isso, seu Marcolino! Aquele negro é um cabra lambaceiro, que já devia ter tomado bala há muito tempo.

__ Mas compreenda, Quelezinho. A cidade estava indo em paz… Além disso, com uma autoridade nova, que a gente, de certo modo, precisa impressionar bem…

__Qual é a autoridade?

__O promotor…

    Quelezinho deu um berro tão alto que fez o médico precipitar-se para a porta e fechá-la, a fim de que ninguém o ouvisse na sala de visitas. Brandia o dedo no ar:

__ Qual promotor, qual cachorro de promotor coisa nenhuma! Afinal de contas, seu Marcolino, quem é que manda nesta joça?”

Ou pela perspectiva do resignado Juiz Canuto: “Um homem vale o que tem no bolso. Como nós não temos nada, não valemos nada. Vale aqui quem compra diamante, quem tem dinheiro, quem tem força na política”.

 [6] “À medida que iam avançando por cima da serra alta, que, a distância, tinha a aparência majestática de um mundo inexplorado, encontravam a cada passo os rastros da conquista centenária, lenta e difícil da terra rica—sinais da presença obstinada do homem, do seu trabalho, do seu tenaz esforço e da sua luta pela posse das minas, desde as primitivas explorações até as mais recentes. Ao longo dos emburrados, onde as escoras de âmago de quina-de-vara, os esbirros de gameleira, sapucaia e pau-terra, eram atravancamentos de velhos serviços engrunados, erguiam-se, como ossuários da serra trabalhada, as montoeiras pardas de antigos mocororôs encartuchados—detritos acumulados do solo revolvido e golpeado nos canalões, nos talhados, nas grunas, nos rebaixos, em toda espécie de serviço a seco ou com água, desde as grupiaras às grandes bocas descidas com pontaletes de cocão.

__ Isto aqui está muito trabalhado, Peba—observou Silvério.

   À passagem deles, fugiam precipitadamente grandes batixós, sobre os lajedos ou por entre as moitas de grão-de-galo.

__ É o que você pensa—respondeu o outro.—Parece que está mas não está. Ainda tem muito serviço…

__ Pode ser. Mas eu estou vendo tudo é esbagaçado. Em todo lugar eu vejo sinal de broca.

__ Você é um curau mesmo—disse Peba.—Não entende nada de garimpo. Então você acha que se tudo isso estivesse trabalhado eu vinha meter minha enxada aqui? Você me acha com cara de besta?

   E passou a explicar:

__ Na verdade, existe muito serviço trabalhado, mas é como se não existisse. Os antigos não sabiam garimpar. Metiam o cascalho bruto nas bateias, não ralavam nem rebaixavam ele, de maneira que perdiam muito diamante. Não está vendo estas montoeiras? Chegue o ralo nelas pra você ver! É diamante na certa.

__ Será que os antigos eram tão bestas?

__ Ninguém é besta porque quer.”

[7] O primeiro livro que li dele ainda em meados dos anos 1980  (quando saiu pela Nova Fronteira) e que me parece até hoje, se a distância temporal não me engana, uma grande realização. Na verdade,  essa leitura (e a de Dados biográficos do finado Marcelino)  me fizeram considerar Sales um dos nossos melhores escritores, por aquela época. Entretanto, acabei não me enfronhando em outros títulos dele, e quando o fiz, resenhando para “A Tribuna” A Prostituta, considerei o romance tão ruim que só agora, com atraso, e com pé atrás, devido ao perfil conservador  (digamos com todas as letras: reacionário) do autor, com suas loas à Academia Brasileira de Letras e com suas relações com gente como José Sarney e Josué Montello, retomo a leitura de seus livros.

[8] O que quer dizer, trocando em miúdos, que valorizo Cascalho muito mais por ser um bom representante do romance naturalista (Flora Süssekind que me perdoe, não obstante seu Tal Brasil, qual romance? ter sido muito importante e esclarecedor, para mim, em determinado passo da vida) do que por ser o fruto de um esforço estilístico flaubertiano.

capas de herberto

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