MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/09/2012

Madame Bêtise ou O universo flaubertiano

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de fevereiro de 2002)

“O que ele empreendeu foi num espírito que dá amplitude à idéia do realizável e do realizado em matéria literária …obter sucesso nesse mundo de aproximações é obter o mais absoluto sucesso”.

Na passagem acima, de seu centenário ensaio sobre Gustave Flaubert (em tradução de Léa Viveiros de Castro, editora 7 Letras), Henry James perde um pouco da atitude de reserva (que estranhamente parece ser praxe quando se fala do criador de Emma Bovary), mantida ao longo do texto, embora parta do princípio de que “ele seria interessante para a raça dos romancistas nem que fosse  só porque, sem contar o valor do seu trabalho, nos dá de forma tão pessoal o exemplo e a imagem da causa intelectual, de tal forma a representa. Ele nasceu romancista, cresceu, viveu e morreu romancista, respirando, sentindo, pensando, falando, executando cada operação de vida apenas como um devoto desta causa…”

A longa análise de James parece o desdobramento de uma percepção que Flaubert tinha a respeito de si mesmo, expressa numa carta de 1852 (para Louise Colet, sua amante): “…eu sei ver, e ver como só os míopes vêem, até o poro das coisas, porque eles botam o nariz bem em cima delas. Há em mim, literariamente falando, dois sujeitos distintos: um que é arrebatado por falatórios, lirismos, grandes vôos de águia, por todas as sonoridades da frase e pelas alturas da idéia; um outro que folheia e escava o verdadeiro tanto quanto pode, que gosta de captar o pequeno fato tão poderosamente quanto o grande, que gostaria de lhe fazer sentir quase materialmente as coisas que reproduz. Esse aí gosta de rir e se diverte com as animalidades do homem”.

Esse aí também é o que presidiu a escritura de Madame Bovary, um livro tão fundamental que até nos faz esquecer que ele escreveu outros igualmente fundamentais (Salambô/Bouvard & Pécuchet/ A tentação de Santo Antônio/ Três Contos e até o cansativo, irritante, mas inúmeras vezes fabuloso A educação sentimental).

A meticulosa tradução de Fúlvia M. L. Moretto , que a Nova Alexandria publicou em 1993, reapareceu nas livrarias com certo alarido e vem fazer companhia à tradução do conto juvenil Bibliomania e ao ensaio de James, o qual foi escrito como introdução a Madame Bovary (aliás, poderiam reeditar o grande ensaio de Vargas Llosa, A orgia perpétua, dedicado ao livro e à personagem).

Como se sabe, Emma se torna a senhora Bovary (esse deveria ser o título em português, mas creio que é tarde demais) ao se casar com Charles, médico rural, que lhe parece o pretendente que a libertará do tédio da vida campesina. O marido mocorongo (que, ao final do romance, se tornará um dos personagens mais pungentes da história da literatura) e a vidinha de casada na província decepcionam e desesperam Emma, no entanto.

Temos, então, a figuração do quotidiano como uma jaula onde cumprimos prisão perpétua, e na qual vemos as aventuras acontecendo do outro lado das grades. A claustrofobia existencial é um dos grandes temas de Madame Bovary.

A mistificação efetuada pelo bovarismo (termo já dicionarizado e que significa imaginar-se como algo que não se é, um auto-engano) fornece a sua contrapartida: Emma tem muitos sonhos (alimentados por leituras românticas), contudo todas as suas atitudes para vivenciá-los tomam um aspecto patético, tacanho, mesquinho.

Dentro do espírito do século XIX, ela se entrega aos amores. Ensaio com o jovem Léon, mas ainda não tem coragem de ir até o fim (mais tarde eles se reencontram e encetam o caso que a levará a afogar-se em promissórias, arruinando o marido).  É o fidalgo Rodolphe que fará dela a adúltera mais famosa da literatura, junto com Anna Karênina, esta sim uma verdadeira apaixonada. Emma, por sua vez, vive de sentimentos emprestados. Muita gente coloca-a como um D.Quixote que rompe com a realidade porque leu em excesso. Ora, ora. Os livros simplesmente alimentaram seu sentimentalismo pueril de pequena burguesa, procurando emoções no dia a dia que correspondam às da subliteratura (pois se ela leu em excesso, nem por isso deixou de ler mal): “Dizia a respeito de si mesma, tenho um amante! Um amante!, deleitando-se com essa idéia… Lembrou então as heroínas dos livros que lera e a legião empírica daquelas mulheres adúlteras pôs-se a cantar em sua memória com as vozes das irmãs que a encantavam. Ela mesmo tornava-se como uma parte real daquelas imagens e realizava o longo devaneio de sua juventude vendo-se como aquele tipo de amante que tanto desejava ser…”

    O desfecho trágico, matéria para jornalismo sensacionalista (Emma envenena-se), é a apoteose irônica dessa necessidade de se destacar da pasmaceira geral, da mediocridade triunfante. Flaubert, como mostra agudamente Henry James, “sabia mais ou menos o que estava fazendo ao seu livro ao tornar Emma uma vítima do hábito imaginativo, mas devi estar longe de planejar ou medir o efeito total que torna a obra tão geral, uma expressão tão completa dele mesmo. Suas idiossincrasias, suas sensibilidade irritada pela vida que o cercava, junto com o poder de capturá-la no ato e segurá-la com força, sua fome por estilo e história e poesia, pelo precioso e pelo raro, por grandes reverberações, grandes sombreamentos, estão todas aqui representadas de uma forma que não ocorre em suas obras posteriores (…) As aventuras insignificantes de Emma Bovary são uma tragédia exatamente porque, em um mundo sem suspeitas, sem assistência e sem consolo, ela mesma tem que extrair o rico e o raro. Ignorante, sem ajuda, sem distrações, conduzida pela própria natureza e complexidade da sua consciência, ela faz disse um enorme fracasso, um fracasso que por sua vez contribui para que Flaubert tenha o mais aguçado, o mais contado dos casos”.

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