MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/07/2011

A série Harry Potter e o quinto volume

 

 

 

PRIMEIRA PARTE

O lançamento de Harry Potter e A Ordem da Fênix traz de volta tanto a badalação por parte da mídia quanto as reações negativas de praxe. E como a série já está no quinto volume, é possível uma avaliação objetiva de suas qualidades ficcionais e literárias, que são muitas.

Antes de mais nada, é preciso dizer de saída que sou fã dos livros de J.K. Rowling. Poderia dar como razão o fato de que a literatura feita no Brasil é deprimente. Qualquer um que tenha experiência como professor percebe que os livros são mal escritos, pobres ficcionalmente, tem “toques” politicamente corretos repelentemente deliberados e óbvios, encomendados pelas editoras e ditados por parâmetros curriculares, temas transversais e o escambal, que parecem ter substituído a inteligência e o talento.

J.K. Rowling sabe exatamente como funcionam as crianças e os adolescentes e a competição acirrada entre as casas de Hogwarts (especialmente entre Grifinória e Sonserina) prova isso.

Mas é necessário mesmo qualquer razão ou desculpa? O fato é que muitos dos que discutem a série Harry Potter, a favor ou contra, estão pouco preocupados com ela enquanto leitura para jovens. É ótimo que os jovens gostem de uma coisa tão boa, tão inventiva. O interessante é que muitos leitores adultos, conquistados pelo poder fabulatório de Rowling, procuram justificar esse inesperado prazer, meio que envergonhados porque há uma mídia tão forte cercando tal prazer.

Quando surgiu o primeiro Harry Potter, o da pedra filosofal, um espaço foi preenchido: entre o infantil e o adulto nada havia, a não os clássicos e o cinema meio-efeitos especiais meio-visão debilóide da vida, pós (e por causa de) Spielberg & Lucas.

Podia ser um feliz acaso. Aí veio o segundo, o mais impressionante até agora, Harry Potter e A Câmara Secreta, que reafirmava as qualidades do anterior e criava um suspense incrível até sua solução realmente inesperada e inteligentíssima.

Esses dois primeiros volumes eram esféricos, fechados em si mesmos. A partir do terceiro, Harry Potter e O prisioneiro de Azkaban (cuja solução também é bárbara, com a revelação da identidade de Rabicho), o leque se abre, os finais se tornam inconclusivos, exigindo continuação, o que fica mais evidente ainda em Harry Potter e O cálice de fogo, no qual a Macronarrativa (a guerra ente o lado de Dumbledore e o lado de Lord Voldemort, com o Ministério da Magia no meio), que percorre a serie, se delineia claramente.

Esse quarto volume, aliás, em que se pese o seu brio narrativo, é o que mais justificaria a ácida crítica de Harold Bloom, de que a leitura de J.K. Rowling seria apenas uma preparação para a leitura de Stephen King. Tanto no início quanto no clímax (quando há ossos desenterrados de um cemitério, um braço amputado, e literalmente tira-se o sangue de Harry para que Voldemort readquira um corpo) parece que se está lendo um livro de terror (Bloom parece ter se esquecido de que o mesmo acontece com autores clássicos como Robert Louis Stevenson ou Rudyard Kipling; no fundo, é uma besteira tão grande quanto dizer que o universo criado por Rowling é derivativo, que se serve de várias fontes anteriores. Onde estão os autores “puros”, que sacam universos ficcionais do nada? Quem conhecer um, pode me indicar, por favor).

Ao mesmo tempo, a melancolia da série acentua-se e o tom torna-se soturno. Isso já podia ser sentido no terceiro volume, com a aparição de Sirius Black, o  trágico padrinho de Harry, mas é O cálice de fogo que vai impor esse clima, que predomina igualmente em Harry Potter e A ordem da fênix).

É interessante notar que a autora, desta vez, confia totalmente em que o leitor da nova aventura já conheça a série porque, ao contrário dos anteriores, não se deu ao trabalho de explicar acontecimentos passados ou quem são os personagens. Por isso, é pouco indicado para quem não tiver lido os outros. Em compensação, isso torna a leitura,para quem já os conhece e se sente em casa, mais fluente e absorvente,ao ponto de não se sentir as setecentas páginas.

O tom é aflitivo, pesado até, a autora investe pouco em acontecimentos aventurosos (a não ser novamente no início, com Harry sendo atacado pelos terríveis Dementadores, e no clímax, quando ele e seus companheiros de Hogwarts penetram no Ministério da Magia) e mais nos conflitos  dramáticos, ligados ao desabrochar da adolescência de Harry (aos 15 anos) e da sua conseqüente e inevitável rebeldia.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de dezembro de 2003)

 

SEGUNDA PARTE

“Os jovens são tão infernalmente convencidos de que têm absoluta razão em tudo. Será que ainda não lhe ocorreu…que pode haver uma excelente razão para o diretor de Hogwarts não contar a você cada pequeno detalhe dos planos dele? Você nunca parou, ao se sentir desprezado, a observar que a obediência às ordens de Dumbledore nunca o colocou em perigo? Não. Não, como todos os jovens, você tem certeza de que só você sente e pensa, só você reconhece o perigo, só você é bastante inteligente para perceber  o que o Lorde das Trevas está planejando…”

    Essa arenga (na pág. 406 da edição brasileira da Rocco, traduzida por Lia Wyler) do falecido diretor de Hogwarts, Fineus Nigellus, que como figura de quadro na sala de Dumbledore (como se sabe, os retratados têm vida própria e podem até abandonar os próprios quadros e percorrer os demais) conversa com Harry Potter, confirma aquilo que eu afirmava em artigo anterior (ver acima): a rebeldia adolescente fornece o colorido de Harry Potter e A Ordem da Fênix.

A própria idade a que Harry chegou já propicia as condições para esse clima (afinal a série está acompanhando seu desenvolvimento desde os 11 anos), mas ele será reforçado pela situação em Hogwarts: após uma campanha do Ministério da Magia para desacreditar Harry e Dumbledore, com o fito de impedir que a comunidade bruxa saiba que Voldemort retornou (o que ocasiona até um ataque dos apavorantes Dementadores, que evocam para mim os Espectros do Anel de Tolkien), a própria escola de magia começa a sofrer a ação invasiva por parte do Ministério, através de uma série de decretos educacionais que culminarão com o afastamento de Dumbledore como diretor em favor da tirânica, arrivista e arbitrária Dolores Umbridge, que lembra incrivelmente a nefasta e sinistre Rose Neubauer, ex-secretária da educação do estado de São Paulo, onde ela causou tanto mal quanto a Alta Inquisidora de Hogwarts (já o atual secretário, Gabriel Chalita, lembra por sua vez um dos personagens cômicos da série, Gilderoy Lockhart, um dos malfadados professores de defesa contra a Arte das Trevas, e cujos únicos talentos eram a autopromoção, a proximidade com os poderosos e a capacidade de distribuir sorrisos e autógrafos).

É preciso dizer que, embora o livro seja ótimo, há um certo exagero caricatural na caracterização de Umbridge, a qual vai criando um regime opressivo em Hogwarts e chega ao ponto de ameaçar Harry com a tortura física (com a maldição cruciatus, que consiste em fazer a pessoa sentir dor até enlouquecer). Harry também consegue ficar bem chatinho algumas vezes, como qualquer adolescente, porém isso é perdoável. É verdade que J.K. Rowling abusa da quantidade de vezes em que o faz sentir um aperto no estômago em todos os momentos em que vê ou fala com Cho Chang, sua paixãozinha. Aliás, essa é a parte mais sem-graça de uma leitura em tudo e por tudo empolgante.

E, apesar da forçada de mão na figura de Umbridge, também é preciso dizer que muito do tão falado clima de suspense do livro (que nos faz devorar centenas de páginas) é alcançado por meio da restrição do ponto-de-vista narrativa, o famoso foco, a Harry. Como só vemos os acontecimentos através dele e não sabemos o que está acontecendo fora de Hogwarts (e às vezes ele fica alienado e distante de seu próprio grupo de amigos), tudo fica mais ameaçador e asfixiante.

Outro aspecto curioso: cada vez mais o desenvolvimento dos personagens vai aproximando o mundo de Harry Potter de um premonitório roteiro escrito há quase vinte anos por Chris Columbus, Young Sherlock Holmes-O enigma da pirâmide, que virou um lindo filme de Barry Levinson (em 1985) e que tinha o internato, a rivalidade entre estudantes e um apelo a um mundo sobrenatural e mágico. Não por acaso Columbus acertou a mão (sei que  não é a opinião corrente entre a crítica) na adaptação do primeiro livro (Harry Potter e A pedra filosofal), embora fosse até covardia, com uma dupla tão maravilhosa quanto Daniel Radcliffe e Emma Watson (Harry e Hermione). De fato, foi por causa da versão cinematográfica que eu quis conhecer o livro de J.K. Rowling e, bem, chegamos aqui.

Harry Potter e A Ordem da Fênix representa uma espécie de conclusão do rito de passagem que se esboçava desde o livro anterior (Harry Potter e O cálice de fogo). Vamos ver o que resultará dele. Só sabemos que uma profecia sombria tornou sua vida um destino.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de dezembro de 2003)

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