MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/10/2013

A bênção da leitura: MAIS VIDA, EM UM TEMPO ILIMITADO

Livrar a mente da presunção. Não tentar melhorar o caráter do vizinho. Centrar-se no auto-aperfeiçoamento, isto é, na luz interior, de forma a tornar-se um “portador da luz” também para outras pessoas. Desenvolver a auto-confiança, que não é um dom, mas um renascimento da mente. E, por fim, resgatar a ironia.

Esses são os princípios que fundamentam COMO E POR QUE LER [traduzido por José Roberto O´Shea para a editora Objetiva]. Já na segunda página, Harold Bloom enuncia/anuncia sua fórmula ideal de leitura: “Encontrar algo que nos diga respeito, que possa ser utilizado como base para avaliar, refletir, que pareça ser fruto de uma natureza semelhante à nossa, e que seja livre da tirania do tempo”. Para ele, só a leitura intensa, constante, “é capaz de construir e desenvolver um eu autônomo. E enquanto não nos tornarmos nós mesmos, que benefício poderemos trazer para os outros?”

Após um ensaio inicial fascinante, Bloom parte para exemplos práticos: primeiro analisa contos, centrando-se numa dicotomia possível entre duas vertentes que para ele dominam essa forma literária: a tchekhoviana e a borgiana. O impressionista Tchekhov, apesar de não pretender simplesmente contar uma história, espera que o leitor aceite “a fidelidade com que seus contos retratam a vida”; Borges, por sua vez, mergulhar-nos-ia em fantasmagorias.

Logo a seguir, temos a seção mais peculiar e idiossincrática de COMO E POR QUE LER, pois Bloom nos inunda de poemas da língua inglesa, perseguindo uma tradição que denomina de desespero visionário, ao mesmo tempo em que defende a memorização e leitura em voz alta como meios cognitivos poderosos para a apreensão da poesia.

Os romances ganham duas seções: na primeira, Bloom contrasta romances que teriam uma filiação shakesperiana ( que chega ao auge na obra de Proust, Em busca do Tempo Perdido), seguindo o método da auto-escuta (melhor dizendo, auto-centramento) no desenvolvimento dos personagens; e uma filiação cervantina (cujo ápice é A montanha mágica, de Mann), seguindo o método de confrontar idéias e personalidades para a formação do indivíduo. Na segunda, ele analisa a tradição melvilliana (Hermann Melville é o autor do atordoantemente belo Moby Dick) no romance norte-americano, tradição que delineia uma espécie de apocalipse moral dos EUA (não seria ainda o desespero visionário?) e que chega ao máximo em Enquanto agonizo, de Faulkner, “a maior obra da ficção norte-americana do século XX” e, mais recentemente, num livro muito admirado por Bloom (mas não por mim, se me é permitida tal impertinência), Meridiano de sangue, de Cormac MacCarthy: “Os Estados Unidos, já faz dois séculos, estão obcecados por Deus e por armas, e esse fascínio não parece decrescer. Vemos à nossa volta descendentes dos piratas de Glanton [uma milícia assassina que executa massacres horripilantes em Merediano de sangue], milícias armadas, atiradores que atacam jardins de infância e escolas, que explodem repartições públicas”.

Ao teatro é reservada a seção mais pobre: repisam-se argumentos sobre Hamlet, já bastante explorados por ele em O cânone ocidental (centrado em Shakespeare) e sobretudo no maravilhoso A invenção do humano (no qual há um ensaio de 50 páginas sobre a peça). Apenas duas outras são analisadas: Hedda Gabler, de Ibsen, e (!!??) A importância de ser prudente, de Oscar Wilde.

COMO LER o livro de Bloom? Com certeza não esperando algo cômodo e fácil, algo assim como O mundo de Sofia da literatura. Já o li inteiro, mas não é a maneira mais eficaz, o melhor é pegá-lo de vez em quando e se deter numa análise, porque do contrário ele chega a causar ansiedade, ao instigar a vontade de ler ou reler tantas obras, incitando a uma voracidade que deve ser disciplinada (e leitura disciplinada é uma das pedras-de-toque  de COMO E POR QUE LER), para melhor fruição do prazer difícil que é a convivência com certas grandes obras.

POR QUE LER o livro de Bloom? Idiossincrático e exagerado, o grande crítico norte-americano é um daqueles espécimes raros: mesmo não concordando com suas opiniões (o leitor deve desculpar a minha pretensão, medindo-me com alguém de uma erudição e uma estatura intelectual que dificilmente alcançarei), sempre se ganha com elas. Nesta minha coluna comentei com reservas A canção de Solomon, de Toni Morrison, e Merediano de Sangue, e Bloom os exalta. Mas e daí? O que ele escreve sobre ambos é sempre interessante e coloca em xeque minha própria opinião.

Além disso, Harold Bloom é um lúcido antídoto (embora afirme, cabotinamente,  que “não deseja polemizar dessa vez”) contra os gurus da análise cultural contemporânea, que pouco ligam para as obras e querem descobrir contextos, muitas vezes significando pêlo em ovo. Quem ficou espantado ao ler as bobagens que Edward Said escreveu sobre Mansfield Park, de Jane Austen, no cultuado e superestimado Cultura e Imperialismo (o que não impede que Said tenha livros mais felizes, como Orientalismo)—há uma passagem particularmente hilária: Mansfield Park sublima as agonias da existência caribenha numa meia dúzia de referências passageiras a Antígua”—ficará  aliviado em ver  como Bloom as extermina sem choro nem vela: “Austen é por demais pragmática para se deter nas origens dúbias das fortunas pessoais” dos futuros maridos de suas heroínas. E acrescenta: “O pragmatismo da autora não deixa de ser louvável, pois que diferença faria se os recursos fossem limpos, expurgados, por exemplo, da exploração dos escravos do Caribe?… para ela, a ordem social é um fato, um dado a ser aceito, algo que lhe possibilita contar suas histórias”.

Contra a presunção dos Edward Said da vida, contra o inútil propósito de reforma da natureza humana (melhorar o caráter do vizinho), a tecla é sempre a mesma: auto-aperfeiçoamento e auto-confiança. E,é claro, a ironia: “a morte da ironia é a morte da leitura e do que havia de civilizado em nossa natureza. Se isso nos remete à solidão, também nos proporciona a Bênção suprema da leitura, pelos Mandamentos de Bloom: “MAIS VIDA, EM UM TEMPO ILIMITADO”. Melhor descrição do que é ler, impossível.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em  22 de maio de 2001)

nota- Passados alguns anos, eu matizaria meu julgamente sobre Edward W. Said. Ainda me incomoda seu uso da contextualização, mas aprendi muito com Orientalismo, por exemplo.

12/03/2013

“Bem-vindos, sangue, destruição e morte!”: Ricardo III e a patologia do poder

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“A quem temo? A mim mesmo? Estou sozinho.

Ricardo ama Ricardo. Eu sou eu mesmo.

Há um assassino aqui? Não—sim, sou eu:

Devo fugir? De quem? Fugir de mim?

Qual a razão? Vingança? De mim mesmo?

Não, eu me amo. E por quê”  (Shakespeare, Ricardo III)[1]

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(uma versão da resenha abaixo  foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de março de 2013)

No mês passado foi anunciada a descoberta dos restos mortais (embaixo de um estacionamento) de Ricardo III, reacendendo as discussões sobre como seria o caráter “exato” do mal afamado rei (de 1483 a 1485) da Inglaterra, cuja derrocada marcou a liquidação da dinastia Plantageneta, inaugurando a mítica era Tudor. Evidentemente, todo mundo associa-o a Shakespeare, pois Ricardo III é a mais famosa e palatável entre as suas chamadas “peças históricas”, que compõem a porção menos popular do cânone do bardo, ao contrário das tragédias e comédias. Poucos têm ainda a paciência de ler, por exemplo, as três partes de Henrique VI ou Rei João.[2]

Cá entre nós, confesso que me perco um pouco na sucessão de monarcas dessas peças, e não foram poucas as vezes em que confundi Ricardos, Eduardos e Henriques—se fosse pego de supetão, era capaz de pagar o maior mico, misturando alhos com bugalhos; e mesmo apreciando Ricardo III, acho muito difícil deslindar totalmente os eventos históricos ali dramatizados (principalmente no primeiro ato), em razão de haver dezenas de personagens em cena.

O que salva a peça (escrita em 1592 ou 1593) para os dias de hoje é mesmo o protagonista. Imagine-se um Iago com poder. A patologia do futuro governante reflete-se, dentro de uma concepção bastante eficaz no palco, em seu aspecto físico, o que já fica claro na inesquecível fala de abertura: “Eu, que não tenho belas proporções/Errado de feições pela malícia/Da vida; inacabado, vindo ao mundo/Antes do tempo, quase pelo meio/E tão fora de moda, meio coxo/Que os cães ladram, se deles me aproximo (…) Determinei tornar-me um malfeitor/E odiar os prazeres destes tempos./Armei conspirações, graves perigos…” [3]

É como se ele já nascesse com a sina da deformação pelo poder. Há poucos dias, aqui mesmo em A TRIBUNA, o cientista político Alcindo Gonçalves, refletindo a respeito do tema, relembrava alguns princípios do Príncipe de Maquiavel: “É necessário a um príncipe, para ser manter, que aprenda a ser mau (…) É muito mais seguro ser temido que amado.

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Aa maldade de Ricardo opera em surdina, de início: dissimulado, intrigante, ele coloca uns contra os outros (também raras vezes se viu uma constelação de ruthless people, incluindo as crianças[4]), e pouco a pouco vai se aproximando do trono, ao eliminar os herdeiros diretos (embora seu crime mais perverso seja o assassinato do irmão, Clarence[5]). Ele engana, burla, faz promessas vãs, recruta asseclas cada vez mais sórdidos. Praticamente há uma morte brutal em cada página lida[6].

Boa parte do efeito dramático (apesar da confusão com relação aos fatos) se deve à grandiosidade da maldição lançada pela usurpada rainha Margaret, líder dos Lancaster contra os York de Eduardo IV, o qual se encontra no poder no momento em que Ricardo começa a executar seus ambiciosos planos[7]. É a célebre Guerra das Rosas, com 30 anos de duração.  Como há várias facções e alianças (às vezes as mais inusitadas), e pequenos interesses, ela anatematiza a todos, sem exceção, de sorte que, traídos e executados pelo sanguinário rei, cada um se lembra das terríveis pragas da viúva de Henrique VI.

Um dos melhores momentos da peça acontece no quarto ato, quando Ricardo, o “embaixador do inferno, vai enfrentar a sua derradeira batalha contra o que restou de seus inimigos e três das mulheres cujos entes queridos foram mortos por suas armações, se reúnem diante do palácio: Margaret, Elizabeth (esposa de Eduardo IV) e a mãe de Ricardo, a Duquesa de York (que sempre enxergara sua maldade, a despeito da opinião geral), para a qual Shakespeare reservou algumas das falas mais poéticas, lindas e memoráveis dessa peça de juventude: “Eu chorei um marido bom e honrado/E vivi de mirar suas imagens/Mas hoje dois espelhos que o mostravam/Foram quebrados pela morte ignara./E eu, por consolo, tenho um falso espelho/Que fere refletindo-me a vergonha (aqui ela se refere a filho e aos dois irmãos dos quais ele deu cabo); ou ainda: “Ventre maldito o meu, berço da morte/Que trouxe a este mundo o basilisco/Que mata com o veneno do olhar”.[8]

   O desalentador é pensar que a natureza do poder não mudou nada. Não há decerto tanta sanguinolência explícita para que homens do naipe do Ricardo imaginado por Shakespeare, os quais viram as costas para a sociedade e os interesses gerais, possam ascender ao poder (executivo ou legislativo); nem por isso o caos, a desmoralização e os resultados brutais são menores: pois seus efeitos aparecerão nas filas lotadas de hospitais públicos (cujas verbas foram subtraídas em esquemas ominosos), na educação precária (regada à retórica inflada), na infra-estrutura totalmente comprometida[9]. Como não pensar, testemunhando as infinitas vezes em que a governança e a legislação passam a mãos corruptas e desprezíveis, no lamento apocalíptico da viúva de Eduardo IV: “Bem-vindos, sangue, destruição e morte!”?

“Que mundo é o nosso! Quem será tão tolo

Que não veja um palpável artifício?

Mas quem terá coragem pra dizê-lo?

O mundo é mau; e tudo está perdido

Se dizer a verdade é proibido.”[10]

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[1] Utilizo a tradução de Ana Amélia Carneiro de Mendonça, publicada pela Nova Fronteira, em 1993 (num volume reunindo Ricardo III/Henrique V; este última traduzida por Bárbara Heliodora, filha da primeira).

Carlos Alberto Nunes traduz assim o trecho:

“Medo de quê? Não há ninguém por perto.

Ricardo ama Ricardo; eu sou eu mesmo.

Haverá aqui dentro um criminoso?

Não… Sim: eu próprio. Então, foge depressa.

Mas, fugir de mim mesmo? Justifica-se:

Poderia vingar-me. Como! Eu próprio

De mim tomar vingança? Amo-me muito.

Por quê?…”  (tenho em mãos A tragédia do Rei Ricardo III, volume XX da Coleção Shakespeare da Melhoramentos, s/d; mas atualmente essa tradução da peça está num dos três volumes reunindo a mesma coleção, editado pela Agir).

Beatriz Viégas-Faria traduz em prosa:

“Tenho medo do quê? De mim mesmo? Não tem mais ninguém aqui? Não. Sim, sou eu! Então fuja. Mas, o quê, de mim mesmo? É um bom motivo para que eu não me vingue? Mas, o quê, vingar-me eu de mim mesmo? Ai de mim, eu me amo. Mas, por quê?…” (há uma edição em separado dessa tradução, na coleção Pocket da L&PM, mas uso –da mesma editora—o volume William Shakespeare-Obras escolhidas. 2008).

Um dos maiores entusiastas shakesperianos, Harold Bloom, detesta essa passagem: para ele é uma tentativa canhestra, com péssimos versos, de introspecção, mostrando como o bardo ainda era imaturo na época em que os escreveu (“Não consigo me lembrar de qualquer outro trecho, nem mesmo no clamor entediante que predomina em Henrique VI, em que Shakespeare seja tão inepto”; no seu entender, Ricardo é mais uma hábil caricatura, com apelo peculiar ao público, daí o fracasso na tentativa de transformá-lo em “personagem dotado de introspecção psicológica”; ao fim e ao cabo, “A grande originalidade de Ricardo III, que resgata essa peça tão pesada e tão longa, não é bem o personagem de Ricardo em si mesmo, mas a surpreendente intimidade que o herói-vilão consegue firmar com o público”; cf. Shakespeare- A invenção do humano, em tradução de José Roberto O´Shea, Objetiva, 2000).

Concordo plenamente que a peça é pesada e longa, e que os personagens chegam a tagarelar demais. Penso, todavia, que há algo de muito intrigante (se levarmos em conta Freud) nesse esboço de introspecção exercitado em Ricardo, que antecipa em séculos as agonias experimentadas pelo William Wilson de Poe, no desdobramento da sua personalidade em consciência e impulso (e todo o narcisismo: “Ricardo ama Ricardo”). Pode ser canhestro. Também é fecundo. São passos da “invenção do humano”

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[2] E mesmo Henrique IV, que Bloom adora, especialmente por causa do personagem Falstaff, é um tanto quanto chata.

[3] “(…) eu, que me acho/falto de proporção, logrado em tudo/ por uma natureza enganadora/ deformado, incompleto, antes do tempo/lançado ao mundo vivo, apenas feito/ pela metade, tão monstruoso e feio/ que os cães me ladram, se por eles passo (…)/determino/conduzir-me qual biltre rematado/e odiar os vãos prazeres de nossa época. Por meio de conjuras, arriscadas/insinuações…” (Carlos Alberto Nunes).

“(…) eu, que fui deserdado de belas proporções, roubado de uma forma exterior por natureza dissimuladora, foi com deformidades, inacabado e antes do tempo que me puseram neste mundo que respira, feito mal-e-mal pela metade, e esta metade tão imperfeita, informe e tosca que os cachorros começam a latir para mim se me paro ao lado deles (…) estou decidido a agir como um canalha e detestar os prazeres fáceis dos dias de hoje. Divisei planos e armei perigosos preparativos…” (Beatriz Viégas-Faria)

De passagem, note-se que, na tradução de Ana Amélia Carneiro de Mendonça, o já proverbial “the winter of our discontent”, na abertura da fala e da peça, tradicionalmente traduzido como “o inverno do nosso descontentamento” ou “o inverno da nossa desesperança”, foi vertido como “inverno de nosso desgosto”.

[4] Como prova, leitor, as falas dos filhos de Clarence—o irmão assassinado de uma forma grotesca a mando de Ricardo—, dirigindo-se à tia, rainha Elizabeth:

FILHO- Minha tia, não chorastes nosso pai.

              Como podemos chorar convosco.

FILHA- Nossa orfandade não vos trouxe prantos.

            Seja vossa viuvez também sem lágrimas.

[5] O personagem menos antipático da peça, e cujo sonho, antes de morrer, é, para Bloom, um ponto alto da peça, no sentido poético. Eu, de minha parte, exaltaria mais o humor negro que envolve a figura dos dois assassinos, cujo diálogo antes do crime é burlesco e sinistro (e em estilo prosaico):

PRIMEIRO ASSASSINO- O que é isso, está com medo?

SEGUNDO ASSASSINO- Não de matá-lo, pois tenho aqui a ordem para fazê-lo; mas de ser condenado aos infernos por fazê-lo, contra o que não há ordem que me defenda.

PRIMEIRO ASSASSINO- Pensei que já estava resolvido

SEGUNDO ASSASSINO- E estou, mas a deixá-lo viver.

PRIMEIRO ASSASSINO- Então eu volto para contar ao duque de Gloster [Ricardo]

SEGUNDO ASSASSINO- Espere um pouco; tenho esperança de que esse acesso de emoção desapareça logo. Em geral só agüenta até eu contar vinte.

PRIMEIRO ASSASSINO- Como é que está se sentindo agora?

SEGUNDO ASSASSINO- Ainda estou sentindo uns restinhos de consciência dentro de mim.

PRIMEIRO ASSASSINO-Lembre-se da recompensa depois do serviço.

SEGUNDO ASSASSINO- Raios! Ele morre. Eu tinha esquecido a recompensa.

PRIMEIRO ASSASSINO- Onde é que está sua consciência?

SEGUNDO ASSASSINO- Na bolsa do duque de Gloucester.”

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[6] Gosto muito da retórica de perfídia de Ricardo (e a sua manipulação da cumplicidade), como no momento em que ele sugere o assassinato dos filhos do rei a Buckingham:

RICARDO- Ai, Buckingham, agora vou pedir-te

                      A prova de que és mesmo ouro de lei;

                       O pequenino Eduardo inda está vivo.

                       Pensa agora o que eu quero te dizer.

BUCKINGHAM-  Diga-o, senhor.

RICARDO- Eu quero ser o rei.

BUCKINGHAM- Mas já o é, meu glorioso amo.

RICARDO- Sou, é verdade. Mas Eduardo vive.

BUCKINGHAM- Certo, meu nobre príncipe.

RICARDO- Ó desgraça

                      Que Eduardo esteja vivo! É a verdade!

                      Meu primo, tu não eras tão opaco:

                      Devo ser claro?—Eu quero que os bastardos

                      Morram; e quero tudo bem depressa.

                      Que dizes tu? Fala depressa e claro.

BUCKINGHAM- Sua Alteza fará o que quiser.

RICARDO- Vejo que está gelado o teu afeto.

                      Diz: tu consentes que eles sejam mortos?

BUCKINGHAM- Um momento, senhor, dê-me uma pausa

                               Antes que eu manifeste a minha ideia:

                               Eu lhe darei depressa uma resposta. (SAI)

CATESBY (à parte, a um outro) O rei está zangado, morde os lábios.

RICARDO- Quero falar com loucos e rapazes

                     De cabeça de ferro: não me agradam

                     Os que me dão olhares ponderados.

                      O duque está ficando ponderado…”

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[7] E aqui,como mais adiante, mais uma vez minha percepção da peça contrasta sensivelmente com a de Harold Bloom:

“Outro ponto fraco de Ricardo III é Margaret, viúva de Henrique VI, para quem Shakespeare foi incapaz de escrever um único verso decente. Uma vez que Ricardo III é exageradamente longa, Shakespeare teria se saído bem melhor caso dispensasse a tagarela Margaret, que só faz praguejar.”

   Como explico na minha resenha, acho o “praguejar” de Margaret um princípio estruturador e coesivo de uma trama que, sem ele, seria muito mais dispersa e inextricável.

[8]DUQUESA DE YORK- O embuste pode usar formas amáveis

                           E a face da virtude esconde o vício!

                           É meu filho, aí ´stá minha vergonha,

                           Embora de meu peito não herdasse

                           Tanta maldade.

Meu ilustre companheiro de travessia por Ricardo III, Harold Bloom acha as falas, o carpir todo dessa mulherada, algo sentencioso e reprovável do ponto de vista poético e dramático: “Na verdade, a peça é um pesadelo para qualquer atriz, pois nenhum dos papéis femininos é encenável, seja o da pobre Anne, seduzida por Ricardo através do terror; o de Elizabeth, viúva de Eduardo IV, ou o da Duquesa de York, mãe de Ricardo. O máximo que Shakespeare permite a tais personagens é declamar versos, como se as falas bombásticas de Margaret houvessem estabelecido um novo estilo dramático…” A meu ver, sem essa participação das mulheres, a peça seria muito mais desinteressante (como bem diz a Duquesa de York: “Por que é que a dor é rica de palavras?”), embora seja difícil realmente imaginar o “tom” a ser adotado no palco, sem cair no histrionismo excessivo ou no ridículo.

[9] Incidentalmente, também creio que seja útil apontar que as cenas dos cidadãos, comentando os acontecimentos “palacianos” evocam o topos do “mundo virado do avesso”, que parece ser uma sensação do senso comum, em qualquer época:

SEGUNDO CIDADÃO- Más notícias, por Deus nunca vêm boas:

                                           Tenho medo que o mundo esteja louco.

E mesmo em seu carpir, as personagens nobres ampliam essa perspectiva, como na seguinte fala da Duquesa de York: “E depois de seguros, superadas/ As domésticas rixas, eles mesmos/ Conquistadores, se guerrearam todos/ Irmão co´o próprio irmão, sangue com sangue/ Um contra o outro; ó coisa indigna e horrível:/ Cessa de vez com isso, ultraje absurdo/ Ou deixa-me morrer, fugindo à morte!”

[10] “Belo mundo, realmente! Quem seria

tão bronco que não visse tal embuste?

Mas quem tão corajoso que o declare?

Péssimo é o mundo, e acabará em nada

porque tamanha infâmia é tolerada.” (Carlos Alberto Nunes)

“Belo mundo, este em que vivemos! Quem pode ser tão obtuso a ponto de não ver artimanha assim palpável? Mas, por outro lado, quem seria peitudo a ponto de dizer que está vendo? Porcaria de mundo, e tudo vai dar em nada, já que uma falcatrua dessas somos forçados a reconhecer apenas em pensamento.” (Beatriz Viégas-Faria)

VER TAMBÉM NO NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/12/03/a-mulher-negra-o-homem-dourado-e-o-malabarista-de-palavras/

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Ricardo III

10/03/2013

NOITE DE REIS: Os “humores” humanos (sangue, bílis, linfa, fleuma) na comédia maluca de Shakespeare

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de abril de 2005)

Depois de fazer justiça ao trabalho de fôlego de Barbara Heliodora  no sábado passado, convém lembrar que outra tradutora de Shakespeare, Beatriz Viégas-Faria, já tem uma respeitável lista de títulos nos últimos anos: entre outros, Macbeth, Otelo, Romeu e Julieta, Sonho de uma noite de verão, Muito barulho por nada,  Júlio César; sendo  Noite de Reis um dos mais recentes. A versão de Heliodora, por sua vez, acaba de ser lançada pela Lacerda.

Embora um Bobo, Feste, tenha grande importância em Noite de Reis, e paire “loucura” no ar, estamos longe de Rei Lear. Trata-se de uma mascarada, de uma fantasia brincando com o amor e a identidade sexual. A Corte (de Elizabeth I e Jaime I)  tinha por hábito usar o teatro como diversão no período subseqüente ao Natal, culminando com a 12ª noite, daí o título original.

Na comédia maluca de Noite de Reis o casal de gêmeos, Sebastian e Viola, é vítima de um naufrágio e os dois chegam, separados dessa forma, à Ilíria, na qual Orsino, o Duque, corteja em vão a Condessa Olívia.  Viola disfarça-se de homem e passa a servir Orsino (por quem se apaixona), inclusive como intermediário entre ele e a esquiva Olívia (que se apaixona por Viola enquanto rapaz). Quando Sebastian aparece, uma série de confusões se estabelece porque todos o tomam pela irmã. Um dos momentos mais engraçados acontece quando  Sir Andrew Aguecheek, ridículo pretendente de Olívia, o encontra na rua e o esbofeteia. Ao revidar, Sebastian pensa: “Serão todos loucos ?”, pergunta nada exagerada, pois logo a seguir ele é levado para a Igreja por Olívia, a quem nunca vira  a fim de celebrar o noivado.

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A personagem mais famosa da peça é Malvólio, um puritano afetado, vítima de uma  trama de serviçais e parentes de Olívia: ele fica convencido de que sua patroa  está apaixonada por ele e é tido como lunático. Como bem observou Harold Bloom, o que torna interessante Malvólio (e define a atmosfera de Noite de Reis) é que ele sonha “a ponto de distorcer a sua própria noção de realidade, permitindo, assim, que Maria lhe perceba a natureza e contra ele arme uma cilada”. O mesmo Bloom  mostra que Feste, o Bobo, é o único personagem sensato nessa comédia desvairada. Todos, tocados pelo amor, ou confundindo o amor com outra coisa (mania de grandeza, interesse material) piram, saem dos eixos, traem suas naturezas e suas vontades racionais. Shakespeare também se vale comicamente de uma teoria predominante em sua época: de que o homem é escravo dos seus “humores” (sangue, bílis, linfa, fleuma) e que eles definem seu temperamento.

Apesar da sua agora já extensa intimidade com Shakespeare, Beatriz Viéga-Faria ainda se contenta em nos dar paráfrases das falas, sem arriscar vôos poéticos ou cômicos. Acostumado durante anos com as  traduções de Carlos Alberto Nunes (e  olhe que elas já foram muito criticadas), é difícil ver uma passagem como esta, por exemplo (em que Orsino se declara à Viola), “Vosso dono vos deixa, e em pagamento / dos serviços de prol que lhe prestastes / contra a disposição de vosso sexo / e a ternura que em tudo vos é própria / já que tanto tempo me chamastes / de Senhor, minha mão ora aqui tendes / de ora avante és a dona de teu dono, virar isso: “O seu amo não precisará de seus serviços. E, pelo trabalho prestado, tão contrário às aptidões de seu sexo, tão abaixo de sua criação nobre e delicada,  e dado que você me chamou de mestre por tanto tempo, eis aqui a minha mão: a partir de agora, você é a dona de seu mestre, senhora de seu senhor”. É tudo igual, mas como tudo muda! Se para melhor ou pior, depende do leitor.

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10/08/2010

O Bloomshakespeare

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[resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  11 de julho de 2000]

“Quando Shakespeare começa a ser Shakespeare? Sua primeira realização absoluta é a surpreendente Trabalhos de amor perdidos (1594)… Nenhum outro escritor jamais teve nada semelhante aos recursos de Shakespeare, tão abundantes em Trabalhos de amor perdidos que sentimos que se atingiram muitos dos limites da linguagem, de uma vez por todas. A grande originalidade de Shakespeare está na representação do personagem… ele muda todo o sentido do que é criar um homem com palavras, acrescenta à função da literatura de imaginação, que era instrução  de como falar aos outros, a lição mais dominante, se bem que mais melancólica, da poesia: como falar a nós mesmos”.

Harold Bloom desenvolveu as afirmações acima (que podem ser encontradas no seu O cânone ocidental, de 1995, a respeito do qual mantenho uma visão ambígua, de admiração com reserva) num livro de 890 páginas: Shakespeare- A invenção do humano [traduzido por José Roberto O´Shea para a editora Objetiva], um dos lançamentos memoráveis deste ano.

Como se pode depreender do trecho citado, para Bloom a invenção do humano realizada por Shakespeare consiste na interiorização do personagem, no exercício de entreouvir-se, ele debatendo consigo mesmo o tempo todo. Se ele considera Trabalhos de amor perdidos a primeira peça indiscutível do bardo, o primeiro personagem a delinear a nossa invenção é o bastardo Faulconbridge de King John- Rei João (escrita mais ou menos na mesma época, nos últimos anos do século XVI): “Faulconbridge  fala uma linguagem inteiramente individualizada, combina heroísmo e intensidade cômica e possui uma psique”. Estamos a caminho, portanto, de Hamlet, rei Lear, Iago, Macbeth…

Bloom fala muito de Hamlet, o maior personagem shakesperiano (o ensaio sobre a peça é o mais extenso do livro), mas também dá bastante espaço para Falstaff, das peças que compõem Henrique IV, e mostra um apreço especial por Rosalind, de Como gostais, que sempre imaginei como uma espécie de precursora das heroínas de Jane Austen.

Por que se interessar por um livro imenso sobre Shakespeare e ler tanto a respeito de um punhado de personagens fictícios? Pode-se argumentar que ele é o escritor-mor, pelo menos da cultura ocidental, pode-se afirmar que os argumentos de Bloom são consistentes e convincentes, ultrapassando sua passionalidade folclórica. E Shakespeare está na moda (quando, aliás, não está?): não estamos assistindo  a uma novela das seis baseada em A megera domada? Não é evidente o clima sub-shakesperiano de Gladiador, muito mais acentuado do que a sua pseudo-ambientação romana? Richard Harris, que faz Marco Aurélio, parece pronto a encarnar o fantasma do pai de Hamlet ou o rei Lear nas charnecas, e Connie Nielsen perguntando se “Roma vale a vida de um homem bom” parece aspirar à condição de uma personagem de Júlio César, Coriolano ou Antonio e Cleópatra, mas tadinha dela…

Todavia, os melhores motivos para se ler A invenção do humano encontram-se no objetivo primário de Bloom e no seu estilo.

Quanto ao objetivo, ele queria transmitir ao leitor comum, apaixonadamente, a importância do autor de Hamlet (com o exagero discutível da tese da “invenção do humano”–só se for o humano europeu e anglófilo). Por isso, escreveu um ensaio sobre cada peça, o que é maravilhoso para quem quer ter um conhecimento mais sistemático, menos fragmentário do que é a obra de Shakespeare. A palavra “manual” é um pouco incômoda, sempre parece desvalorizar um livro, entretanto considero A invenção do humano um ótimo manual introdutório, apesar de haver alguns livros esplêndidos, num nível menos panorâmico, como Sobre Shakespeare, do maior dos críticos, Northrop Frye (com o qual Bloom polemiza ao longo do seu trabalho, contestando algumas interpretações), ou Falando sobre Shakespeare, de Bárbara Heliodora, só para dar dois exemplos.

Quanto ao estilo, o calhamaço de Bloom é uma delícia, ao mesmo tempo analisa a obra e dá um testemunho de paixão, de engajamento pessoal no que está analisando. É óbvio que a maior parte dos que escreveram na imprensa sobre ele e criticaram seu lado mais extravagante e vulnerável (o fato de Bloom bater de frente contra as principais teorias críticas contemporâneas, para ele frutos de uma “escola do ressentimento”) não tem o conhecimento, a erudição, a competência, e especialmente a verve do autor de O cânone ocidental (nem eu tampouco).

Alguns leitores podem reclamar da repetição excessiva de algumas frases-chaves, de algumas afirmações que atravessam o livro inteiro. É, não obstante, uma estratégia e não atrapalha a fluência do texto. Bloom, como bom professor que é, deve ter imaginado que num tal catatau seria bom lembrar ao leitor dos objetivos gerais. Afinal, são quase quarenta peças analisadas (felizmente, ele resume o enredo de cada uma para quem não as conhece, e quem pode dizer que conhece todas as peças de Shakespeare?). E, é claro, não são quaisquer peças. Só Hamlet, Rei Lear, Macbeth, Otelo, as maiores tragédias, já ocuparam livros inteiros cada uma.

A sensação de ler A invenção do humano é a de devorar um vasto e empolgante romance.

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bloom

14/05/2010

MOTES PARA UM CURSO AMBICIONADO (e não-realizado)

RUDIMENTOS PARA ENTENDER A COSTURA BÍBLICA

 karen armstrong

“Durante o século VIII houve uma revolução literária em todo o Oriente Médio e no Mediterrâneo Oriental. Reis encomendaram documentos que glorificassem seu regime e guardaram esses textos em bibliotecas. Na Grécia, os épicos homéricos foram fixados nessa época, e, em Israel e Judá, historiadores começaram a combinar narrativas ancestrais para criar sagas nacionais, que foram preservadas nos estratos mais arcaicos do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia.

         A partir das variadas tradições de Israel e Judá, os historiadores do século VIII construíram uma narrativa coerente. Os estudiosos chamam em geral o épico sulista de Judá de J porque os autores sempre chamavam seu Deus de Jeová ou Javé, ao passo que a saga do norte é conhecida como E porque o Deus era então conhecido como Elohim.

         Mais tarde essas duas sagas distintas foram combinadas para formar uma história única que constituiu a espinha dorsal da Bíblia hebraica (e, por extensão, da Bíblia cristã).

         J e E não escreviam relatos históricos modernos. Como Homero e Heródoto, eles incluem lendas sobre personagens divinos e elementos mitológicos e condensadores que tentam explicar o sentido do que aconteceu. Suas narrativas são mais que história. Desde o princípio, não houve uma mensagem única e fidedigna sobre o que iria se tornar a Bíblia. Os autores J e E interpretaram a saga de Israel de maneiras muito diferentes e os futuros editores não fizeram qualquer tentativa de eliminar as incoerências e contradições. Em J, por exemplo, vemos imagens antropomórficas de Deus que causariam embaraço a exegetas posteriores. Jeová passeia pelo Jardim do Éden como um potentado do Oriente Médio, fecha a porta da arca de Noé, irrita-se e muda de idéia. Contudo, em E há uma concepção mais transcendente de Elohim, que mal ´fala´, preferindo enviar anjos como seus mensageiros. A religião hebraica posterior iria se tornar passionalmente monoteísta, convencida de que Jeová era o único Deus. Mas nem J nem E eram monoteístas.”

             (extraído de “A Bíblia”, de Karen Armstrong, com ligeiras adaptações da minha parte)

Livro de J é utilizado aqui como um título para o que os estudiosos concordam ser o estrato mais arcaico do Pentateuco, obra de uma autora, a Javista. Os estratos ulteriores do Gênesis, Êxodo e Números são todos revisões ou censuras a J, e seu (s) autor(es), é (são) designado(s) por E, o Eloísta (J sempre utiliza “Elohim” como um nome para seres divinos em geral, e nunca como o nome de Deus); P, da Escola Sacerdotal, o qual escreveu quase todo o Levítico; D, responsável pelo Deuteronômio; e R, de Redator, o responsável pela revisão final e homogeneização forçada.

         O Livro de J está encravado naquilo a que chamamos de Gênesis, Êxodo e Números. Presumo que J viveu na corte do filho e sucessor de Salomão, Roboão de Judá, sendo uma mulher extremamente sofisticada e bem posicionada da elite salomônica, iluminada e irônica. Na verdade, não sabemos se J era homem ou mulher, mas nossa imaginação moral pode calcular a passagem das possibilidades para o nível das probabilidades, quando comparamos J aos outros trechos dos livros citados, ou ao conjunto da literatura subsistente do antigo Oriente Médio. O que é novo em J? Onde se reúnem suas originalidades ? O que há no tom, na postura e no modo de narrar de J que foi diferente o bastante para fazer a diferença? Grande parte da resposta dirá respeito à representação da mulher se comparada à do homem; outra parte à ironia…a qual produz a curiosa questão do antropomorfismo da representação de Javé (Jeová) como humano, demasiado humano. O que J retrata com terna ironia é um judaísmo arcaico. O embaraço causado pelas traquinagens do Javé de J já começou com os primeiros revisionistas… A mais gritante postura irônica de J concerne à representação de realidades totalmente incomensuráveis se justapondo e contrapondo. Como pode Abraão discutir com Javé? Como pode Jacó ser capaz de lutar de igual para igual com um enviado? Ou, bem mais singelamente, como se pode achar convincente que Esaú troque seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas? Tudo nos leva à representação de um Javé infantil, até pueril, e ainda assim Javé, e nenhum outro, ou seja, totalmente incomensurável, incognoscível.

         A economia é, certamente, a força específica de J. O mais elíptico dos grandes escritores, ela demonstra de modo contínuo que deixar alguma coisa de fora é a melhor maneira de compelir o leitor/ouvinte a estar rigorosamente alerta.

         Mas com que autoridade, e com que propósito, pode se empreender essa busca? Que utilidade pode ter a recuperação de um hipotético Livro de J? Tenho consciência de que pode ser um esforço vão almejar uma reversão de dois mil e quinhentos anos de desleitura institucionalizada. O Eloísta, E, trabalhando cerca de duas gerações mais tarde que J combinou o texto dela com um material variado, retrabalhou o sacrifício de Isaac, a luta de Jacó com o anjo, e então deu início à tradição de reduzir a extraordinária autora a algo mais normativo… Um redator de gênio inquestionável produziu a Toráh provavelmente da forma como hoje a conhecemos. Considero esse redator, R, um homem impressionante, mas temo que ele seja o vilão do presente livro, pois estou certo de que ele é o grande mutilador de J.

         R é o autor compósito da Toráh, creditado por Robert Alter como o realizador de uma mescla altamente estético e novelística dos textos de J, E, D e P. O elogio maior feito a R veio do grande crítico Northrop Frye, para quem a pulverização das várias fontes foi tão completa que somos totalmente incapazes de reconstituir qualquer uma delas. Meu livro visa à reconstituição de J, o maior escritor judeu, pelo bem da escrita e pelo nosso bem.”

              (adaptação de trechos do LIVRO DE J, de Harold Bloom)

 haroldo de campos

“O termo javista, no qual se inclui o episodio do Éden, da criação de Adão do pó da terra e da Eva de sua costela, e da intervenção desagregadora da serpente, foi, não faz muito, reproposto polemicamente à consideração dos estudiosos como extraordinária arte verbal a ser resgatada da leitura meramente confessional. O responsável por essa proposta é Harold Bloom, o qual, em 1990, publicou O Livro de J., onde sustenta a tese de que o autor do excerto javista da Bíblia Hebraica seria uma autora, uma dama ilustrada da Corte Salomônica, e que essa porção do Toráh podia ser reconhecida como uma obra-prima, mesmo levando em conta as mutilações, revisões e rasuras.

     Nada obsta, em princípio, que se conjecture, com engenho e empenho, em torno de uma remotíssima figura de mulher e escritora, educada no áureo período salomônico (século X antes da era cristã)… Mas Robert Alter refutou minuciosamente a hipótese de Bloom, tecendo críticas cerradas, embora elogie seu convite para olhar os antigos escritos com olhos novos. Quais seriam os furos da interpretação bloominiana? Em primeiro lugar, seu escasso conhecimento de hebraico. Disso decorreria uma gravíssima conseqüência: Bloom ter se apoiado, para suas intuições críticas, avaliações estéticas e desenvolvimentos exegético-hermenêuticos, não no original, mas na versão para o inglês do suposto texto de J., feita por David Rosenberg. Para Alter, Bloom tomou uma decisão catastrófica ao atrelar seu projeto à tradução de Rosenberg, porque quando ele nos fala de J. ele está falando na verdade da versão inglesa e atual de Rosenberg. Este estaria muito longe de recriar convincentemente o original e mostraria, segundo Alter, um pendor de poetastro por clichês metafóricos. Que Bloom tenha sido capaz de tão extremado lapso de gosto, comparando o discutível estilo tradutório de Rosenberg ao deslumbrante inglês shakesperiano, isto somado a outras falhas, leva Alter a ser cético quanto à hipótese da autoria feminina levantada pelo scholar de Yale. Encara-a como o resultado, fragilmente documentado, de um fundamentalismo, não religioso, mas reivindicatório de uma personalidade autoral, por um lado, e, por outro, das virtudes de um intuitivismo crítico desvelador, capaz de captar as inflexões de uma suposta Voz feminina.

       Outro estudioso, Richard Friedman ratifica, ademais, que não é possível distinguir de fato o ângulo estilístico entre J. e E., fato que relativizaria ainda mais a singularidade de J. tão decantada por Bloom.

        Tanto quanto posso julgar, a tradução de Rosenberg não tem, de fato, a categoria que lhe atribui Bloom (apesar de apresentar, aqui e ali, soluções de interesse). Para quem se deu ao trabalho de confrontar o texto original hebraico com essa versão para o inglês, como eu o fiz, minuciosamente, será fácil comprovar a procedência das restrições de Alter.

       Assim, por exemplo, no episódio de Babel, Bloom, alicerçando-se na versão de Rosenberg, dá extrema importância a um suposto jogo de palavras e de sentidos (atribuído às intenções de sua J.), em torno do verbo to bind e derivados. No hebraico, onde Rosenberg coloca unbound, desvinculados, no original aparece apenas pen-nafutz, dispersados. O mesmo se diga de bound to build, vinculados, comprometidos com; no original, asher banú, construindo (apenas no sentido de edificação, sem o vínculo moral, o comprometimento)… e assim por diante…

   Dessa forma, o sutil jogo de palavras de J., na acepção de Bloom, só existe na versão substitutiva de Rosenberg, ainda que o texto do Gênese, em outros pontos, apresente-se perpassado por efeitos relevantes de som e sentido.

     Mas Bloom não fica só no terreno da avaliação estilística, estética. Como teórico da desleitura (misreading), ironicamente enredado em sua própria percepção teórica, continua, sempre imaginoso e estimulante, a derivar conclusões de matriz lúdica que põe em relevo, ainda que dúbia, equivocada, quando conferida com o texto hebraico de origem. Assim, o conceito de boundary (derivado daquele jogo de palavras é arrolado por ele entre os grandes tropos do exílio. Citando-o: o Exílio definitivo é a confusão, a dispersão até mesmo dos limites (boundaries), a perda que não tem qualquer nome”, prolongando a Queda e a Expulsão do Éden no episódio de Babel.”

             (adaptação de trechos de Éden, um tríptico bíblico, de Haroldo de Campos)

 robert alter

“A um exame mais minucioso logo se vê que o texto bíblico é ao mesmo tempo múltiplo e fragmentário. É muito comum não se ter certeza sobre os limites de um determinado texto, sobre como ele prossegue em textos adjacentes e por que é ignorado, discutido, citado ou mesmo copiado em outros lugares da Bíblia. Um desafio ainda mais sério à integridade de muitos textos bíblicos que gostaríamos de considerar como totalidades literárias deriva da natureza delicadamente estratificada do material articulado pela tradição antiga… o que temos, na realidade, é uma costura contínua de textos anteriores, provenientes de tradições divergentes, inclusive de tradições orais, com interferências, menores ou maiores, de revisões posteriores sob a forma de glosas, costuras, fusões, e assim por diante. Os especialistas identificaram como o exemplo mais notável desse caráter compósito do texto bíblico os primeiros quatro livros do Pentateuco; análises exaustivas de estilo, consistências de dados narrativos, visões teológicas e premissas históricas demonstram que eles são uma montagem de três linhagens básicas e independentes de documentos: o documento javista (J), o documento eloísta (E) e o documento sacerdotal (P)… O que se deve fazer então quando lemos textos que os especialistas nos convidam a ver, pelo menos nos exemplos mais radicais, como uma colagem desvairada de tradições antigas?… Gostaria de propor neste capítulo que os autores e redatores bíblicos, visto que a distinção entre os dois nem sempre é clara, trabalhavam com noções de unidades bastante diferentes das nossas, e que a plenitude de expressão que procuravam obter levou-os muitas vezes a transgredir o que uma cultura e uma época posteriores inclinaram-se a diagnosticar como cânones de unidade e coerência lógica. O texto bíblico pode não ser o tecido acabado que a tradição judaico-cristã pré-moderna imaginou, mas pode ser que a miscelânea confusa forme um padrão intencional, se lida com mais minúcia.

         É claro que certas passagens da narrativa bíblica parecem resistir a toda interpretação harmonizadora, levando-nos a concluir que determinadas circunstâncias na transmissão e redação dos antigos textos hebreus provocaram uma incoerência inerente ou que a noção bíblica de seqüência narrativa pode ser às vezes inescrutável, dada a enorme distância histórica e intelectual… Não acho razoável atribuir a confusão a mera negligências dos redatores… É claro que nossos conceitos de coerência espacial dos acontecimentos, de identidade dos personagens, de coesão lógica entre ação e motivo de ação são aqui flagrantemente violados.

         Vejamos agora um exemplo conciso de narrativa compósita em que a duplicação se soma a uma suposta contradição: no fim da primeira visita dos irmãos de José ao Egito (Gênesis, 42), José, que eles ainda julgam ser apenas o vice-rei egípcio, dá ordens secretas para que o dinheiro que eles pagaram pelo trigo seja enfiado de volta nos sacos de cada um. Lembremos que os irmãos já tinham se abalado por conta da prisão temporária a que foram submetidos, sob a acusação de serem espiões, e por José ter tornado Simeão refém, insistindo que trouxessem Benjamin, o caçula, ao Egito. Esses dois últimos atos do vice-rei fizeram com que os irmãos, por uma série de associações motivadas pela culpa, lembrassem a crueldade que haviam praticado contra o jovem José e imaginassem que afinal chegara o castigo pelo crime. Pois bem, no primeiro sítio em que acamparam, um deles abriu o saco de forragem e viu o dinheiro. Os corações deles desfaleceram e disseram-se: Que é isto que Deus nos fez?

         Assim que levantam essa dúvida acerca da estranha obra do destino, pois a força da palavra Deus, no original, não fica muito distante do sentido de destino, o narrador faz com que corram à casa do pai, Jacó, para contar os problemas que tiveram com o vice-rei egípcio, inventando uma explicação para a ausência de Simeão e o pedido do egípcio que levassem Benjamin até ele. Exatamente nessa altura do texto, o dinheiro escondido nos sacos faz um estranhíssimo reaparecimento: Quando eles descarregavam os sacos, eis que a bolsa de dinheiro de cada um estava dentro do saco, e quando viram suas bolsas de dinheiro sentiram medo, eles e seu pai. Então Jacó disse: Vós me privastes de meus filhos: José se foi, Simeão se foi, e agora quereis me tomar Benjamin? É sobre mim que tudo isso recai. Em nosso modo de entender a lógica narrativa, é obviamente impossível que os irmãos tivessem descoberto duas vezes o mesmo dinheiro escondido e ficassem igualmente surpresos e amedrontados nas duas ocasiões… Geralmente, os estudos especializados sobre a Bíblia explicam essas duplicações como um descuido na redação final do texto. A hipótese aceita é a de que havia duas versões paralelas da história de José, a da tradição eloísta (E) e a da tradição javista (J), entre as quais existiam diferenças de detalhes essenciais.  O relato da tradição eloísta é a fonte principal; nessa versão, o dinheiro só é descoberto quando os irmãos chegam em casa. Na versão javista, a palavra empregada não é saq (saco, bolsa) e sim ´amtahat, que pode conter tanto forragem quanto moedas de prata. Tende-se a presumir que o redator final, seja por fidelidade equivocada à segunda fonte, seja por erro de julgamento, incluiu um fragmento de J que destoa do todo.

         A esse respeito, eu gostaria de levantar uma questão de princípio que poderá nos ajudar a entender o propósito das duplicações. A contradição entre os eventos é tão patente que parece ingenuidade supor que o redator fosse tão tolo ou incapaz a ponto de não percebê-la. Gostaria de sugerir, em vez disso, que o redator estava perfeitamente consciente da contradição, mas considerou-a superficial. Pela lógica linear, a mesma ação não poderia ocorrer duas vezes de duas maneiras diferentes, mas pela lógica narrativa com a qual ele trabalhava, fazia sentido incorporar as duas versões que tinha à mão, porque juntas elas revelavam implicações mutuamente complementares do evento narrado e lhe permitiam fazer um relato completo. A versão J, na qual os irmãos descobrem o dinheiro quando estão sozinhos na caravana entre o Egito e Canaã, acentua o espanto deles diante do acontecimento inesperado: a ênfase recai na impressão que lhes fica dos estranhos caminhos do destino. A versão J tem por isso importância crucial, porque vincula a descoberta do dinheiro ao tema do conhecimento de José dos fatos em contraste com a ignorância dos irmãos, o que é decisivo para os dois encontros no Egito e, na realidade, para a história inteira. Quando os irmãos perguntam o que Deus fizera com eles, detectamos uma ironia dramática, ligada às ironias dramáticas da cena anterior no palácio do vice-rei. A verdade é que José serve e age como agente do destino (instrumento de Deus), no grande plano da história, e até os irmãos, que tanto se escandalizaram com o sonho em que José vê o sol,  a luz e onze estrelas prostradas a seus pés, falam agora em Deus, quando nós, leitores, sabemos que estão se referindo ao que José fez (mandar esconder de volta o dinheiro do trigo).

         A versão E do mesmo acontecimento, na qual a descoberta se dá na presença de Jacó, é muito mais resumida e descreve sucintamente a reação dos irmãos à vista do dinheiro encontrado, com uma única palavra, medo, e sem um diálogo que represente sua estupefação com os caminhos escolhidos pela Providência Divina. A meu ver, essa versão sugere simplesmente medo, sem assombro, porque pretende mostrar uma ligação  direta entre a descoberta do dinheiro e o sentimento de culpa dos irmãos pelo que haviam feito a José. No estilo característico da Bíblia, o narrador não explica a culpa, limita-se a sugeri-la e volta a insinuá-la nas palavras com que José responde aos irmãos. Assim como os filhos, Jacó viu o dinheiro. E também deve ter percebido neles o medo que sentiam. Então, como que verbalizando a culpa silenciada, Jacó volta-se para eles e acusa. Não faz nenhuma acusação direta, mas agora é como se, impelido pela retórica, ele chegasse perto da verdade pura.

         A história de José tem um eixo moral-psicológico e um eixo teológico-histórico. Neste, o que importam são as obras misteriosas de Deus, o papel de José e o importantíssimo tema do conhecimento em oposição à ignorância. No primeiro eixo, o aspecto fundamental é o doloroso processo pelo qual os irmãos aceitam a responsabilidade pelo que fizeram e são levados a lidar com a culpa. Não tenho como verificar cabalmente minhas conclusões sobre o princípio formal que guiou o redator bíblico, mas me parece pelo menos plausível que ele se tenha disposto a incluir na narrativa o mal menor da duplicação e da aparente contradição em prol de conferir visibilidade aos dois eixos principais de sua história num momento crítico do enredo. O escritor bíblico, habituado a cortar, juntar e montar com extrema perícia materiais literários anteriores, parece ter tido a intenção de obter esse efeito de verdade multifacetada ao apresentar em seqüência duas versões diferentes, que ressaltavam duas dimensões distintas do mesmo assunto.

           (trechos adaptados de A arte da narrativa bíblica, de Robert Alter)

“As narrativas da Bíblia são afinal relatos históricos ou ficções? Há certas áreas verbais, como a do jornal diário, onde julgamos importante saber se as histórias que ali encontramos são verdadeiras ou apenas elucubrações, o tipo de importância normalmente atribuída a Bíblia aponta para a consideração de que ela também seja uma dessas áreas. Além disso, essa questão não é secundária ou anacrônica: mesmo o Velho Testamento é jovem o suficiente para que seus escritores tenham sido capazes de nos transmitir a história real, se assim o quisessem (apesar de que há partes ali que são anteriores a Heródoto). E ninguém nega que a Bíblia tenha um interesse apaixonado por questões de caráter histórico. Ainda assim a formalização da Bíblia para essa questão permanece curiosamente enigmática, tão enigmática que ficamos com a impressão de que deve haver algo de errado.

       Começa-se com histórias de criação e dilúvio, que parecem ser mitos não apenas no sentido de histórias cosmogônicas e sagradas, mas também no sentido coloquial e negativo de serem relatos de eventos que dificilmente teriam se passado daquela forma, e que são parecidíssimas com outros mitos de criação e dilúvio oriundos de outras partes do mundo.

      Já as histórias de Abraão e do Êxodo pertencem a uma área que devemos chamar de reminiscências históricas. Ou seja, sem dúvida contêm um grão de história real.  Já que base histórica há para a narrativa que chegou até nós é uma outra história. Ainda não foi possível para os egiptólogos ligar o êxodo hebreu a nenhuma outra coisa que saibam da história do Egito. Parece que os egípcios nada sabiam a respeito de um imenso êxodo, assim como o Imperador Augusto nada sabia do nascimento de Cristo.

       Quando chegamos ao que parece ser realmente histórico, onde podemos acrescentar algumas datas e provas, descobrimos que a histórica (no sentido didático) é manipulada. Os reinos do norte da Judéia e de Israel recebem uma classificação em preto e branco (branco, se promovem o culto a Javé; preto, em caso contrário).

        Chegamos a um princípio geral que pode ser expresso da seguinte maneira:  se alguma coisa na Bíblia é verdadeira do ponto de vista histórico, ela lá está por outra razão que não esta. A verdade histórica nada tem a ver com profundidade espiritual. É óbvio que o Livro de Jó, jamais visto seriamente como algo além de um drama imaginativo (um dos mais poderosos já concebidos pela humanidade), é muito mais profundo espiritualmente do que as listas que constam dos Paralipômenos, embora estas listas contenham registros históricos genuínos. Quando nos movemos do obviamente lendário para o provavelmente histórico a fronteira nunca é muito precisa. Ou seja, de que o sentido de fato histórico como tal simplesmente não é delimitado na Bíblia.

      Uma indicação do viés pelo qual a Bíblia se interessa está no Livro dos Juízes. Este livro era uma coleção de histórias sobre heróis que originalmente eram líderes tribais; ele foi editado de tal modo a ganhar a aparência de ser a história de uma Israel unida que atravessa uma série de crises muito semelhantes entre si. Israel, onde o espírito de apostasia se manifesta de modo excepcionalmente consistente, renuncia a seu Deus, é escravizada, clama ao mesmo Deus por liberdade, e então um juiz é enviada para libertá-la. Aqui se vê uma série de conteúdos diversos que acompanham uma forma narrativa ou mítica repetitiva que os contém. Há uma enorme ênfase na estrutura, devido ao interesse moral que justifica sermos submetidos ao mesmo tipo de história interminavelmente, o que indica serem as histórias individuais construídas para que se ajustem a um mesmo padrão. A distância que têm dos eventos históricos é a mesma quer tem a pintura abstrata de uma representação realista; mais: a relação é a mesma. A prioridade cai sobre a estrutura mítica, ou esboço, da história, não sobre o conteúdo histórico.”

        (trechos adaptados de The Great Code- O Código dos Códigos, de Northop Frye)

auerbach 

“Pode-se abrigar facilmente objeções histórico-críticas quanto à Guerra de Tróia e quanto às errâncias de Ulisses, e ainda assim sentir, na leitura de Homero, o efeito que ele procurava, mas quem não crê na oferenda de Abraão não pode fazer do relato bíblico o uso para o qual foi destinado. É necessário ir mais longe ainda: a pretensão de verdade da Bíblia é não só muito mais urgente que a de Homero, mas chega a ser tirânica; exclui qualquer outra pretensão. O mundo dos relatos das Sagradas Escrituras não se contenta com a pretensão de ser uma realidade historicamente verdadeira. Pretende ser o único mundo verdadeiro, destinado ao domínio exclusivo. Qualquer outro cenário, quaisquer outros desfechos ou ordens não têm direito algum a se apresentar independentemente dele, e está escrito que todos eles, a história de toda a humanidade, se integrarão e se subordinarão aos seus quadros… Na história de Isaac não é somente a intervenção de Deus no princípio e no fim do relato, mas também os elementos factuais e psicológicos no seu interior que permanecem obscuros, tocados apenas de leve, carregados de segundos planos; e é justamente por isso que não só precisam de investigação profunda e interpretação, mas até o exigem. Que Deus tente até o mais piedoso da maneira mais terrível, que a obediência incondicional seja a única atitude possível perante Ele, mas que também a sua Promessa seja inamovível, por mais que as suas decisões pareçam destinar-se a produzir a dúvida e o desespero, estes são os ensinamentos mais importantes contidos na história de Isaac e, por sua causa, o curto texto fica tão pesado, tão carregado de conteúdo, contendo em si tantas alusões acerca da essência de Deus e da atitude do homem piedoso, que o crente se vê motivado a se aprofundar uma e outra vez no texto e a procurar em todos os seus pormenores a luz que possa estar oculta. E como, de fato, há no texto tanta coisa obscura e inacabada,e como ele sabe que Deus é um Deus oculto, o seu afã interpretativo encontra sempre novo alimento. A doutrina e o zelo na procura da iluminação estão indissoluvelmente ligados ao caráter do relato (este, portanto, é mais do que mera realidade)… Se, desta forma, o texto do relato bíblico necessita tanto de interpretação a partir do seu próprio conteúdo, sua pretensão à autoridade absoluta leva-o ainda mais longe por esta senda: devemos inserir nossa própria vida no seu cosmos, sentirmo-nos partícipes da sua estrutura histórico-universal. Isto se torna cada vez mais difícil à medida que o nosso mundo vital se afasta do mundo das Escrituras, e se este mundo textual, apesar de tudo, mantém em pé a sua pretensão  à autoridade, é imperioso que ele próprio se adapte, através de uma transformação interpretativa. Isto foi relativamente fácil por muito tempo: durante a Idade Média européia era possível, ainda, representar os acontecimentos bíblicos como sucessos quotidianos contemporâneos, para o que o método exegético fornecia as bases. Quando isso se torna impraticável, pela transformação demasiado profunda do meio ambiente e pelo despertar de uma consciência crítica, a pretensão à autoridade corre perigo; o método exegético é desprezado e deixado de lado, os relatos bíblicos convertem-se em velhas lendas e a doutrina, desmembrada dos mesmos, torna-se uma forma incorpórea que não mais penetra na realidade sensível ou que se volatiliza na exaltação pessoal…

    Os poemas homéricos fornecem um complexo de acontecimentos preciso, espacial e temporalmente delimitado; independente dele, concebem-se tranqüila e facilmente outros complexos anteriores, simultâneos e posteriores. O Velho Testamento, porém, fornece História Universal; começa com  o princípio dos tempos, com a criação do mundo, e quer acabar com o fim dos tempos, com o cumprimento da promessa, com a qual o mundo deverá encontrar o seu fim. Tudo o mais que ainda acontece no mundo só pode ser apresentado como elemento dessa estrutura, como parte constitutiva do plano divino, e como isto só é possível pela interpretação do novo material afluente, a necessidade exegética se estende além dos campos primitivos da realidade judaico-israelita, por exemplo, à história assíria, babilônica, persa, romana; a interpretação torna-se um método geral de apreensão da realidade… O trabalho interpretativo de maior ressonância desta espécie ocorreu nos primeiros séculos do Cristianismo, como conseqüência da missão entre pagãos, e foi realizado por Paulo e pelos Pais da Igreja; eles re-interpretaram toda a tradição judaica numa série de figuras a prognosticar a aparição de Cristo e indicaram ao Império Romano o seu lugar dentro do plano divino da salvação. Portanto, enquanto por um lado a realidade do Velho Testamento aparece como verdade plena, com pretensões à hegemonia, as mesmas pretensões obrigam-na a uma constante modificação interpretativa do seu próprio conteúdo, ressignificando-o…

         O Velho Testamento é incomparavelmente menos unitário na sua composição do que os poemas homéricos, é mis evidentemente feito de retalhos, mas cada um deles pertence a um contexto histórico-universal e interpretativo da História da Humanidade. Ainda que tenham recebido elementos dificilmente encaixáveis, ainda assim estes são apreendidos pela interpretação; e assim o leitor sente a cada instante a perspectiva religiosa e histórico-universal que confere a cada um dos relatos o seu sentido e a sua meta globais. Quanto mais isolados e horizontalmente independentes são os relatos e os grupos de relatos, se comparados com os da Ilíada e os da Odisséia, tanto mais forte é a sua ligação vertical comum que os mantém todo juntos sob um mesmo signo, o que falta totalmente a Homero.”

         (trechos adaptados de Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach)

“Quanto à produção do Antigo Testamento como um todo, sugeriu-se que o primeiro material a ser coletado e colocado numa narrativa coerente foi a história das origens de Israel. Sugeriu-se também ue a época de Ezequias (727-698) foi uma ocasião plausível para esta atividade. A destruição do reinado do norte em 722-721 e a a migração para Jerusalém de grupos de escribas e profetas ue preservaram a tradição sobre Jacó, o ancestral do norte, assim como sobre os profetas Elias e Eliseu, foram o catalisador para o empreendimento da tarefa de construir uma grande narrativa. Como ele foi feito em Judá, as tradições sobre o ancestral judaíta, Abraão, precederam as do ancestral israelita, Jacó.      Um segundo estágio importante foi o surgimento e obra dos deuteronomistas no século VII a.C. durante o reinado de Josias. Leis provavelmente derivadas das tradições do norte formaram o grosso das seções legais do Deuteronômio. A narrativa a partir do relato de Josué em diante foi intensamente reeditada para mostrar que as tragédias que haviam assolado o povo, inclusive a perda do reino do norte, tinham acontecido por causa dos pecados do próprio povo e, em especial, de seus governantes, particularmente no reino do norte.      O estágio seguinte foi a destruição de Jerusalém, em 587. Exigiu mais reflexões sobre a narrativa em geral e também chamou a atenção para as duas outras áreas: lei e profecia.  Como os profetas tinham sempre alertado para um iminente desastre se governantes e povo não observassem a Lei, a coleção e edição dos oráculos dos profetas se tornaram uma prioridade, como se tornaram a coleção e estudo das leis. Por conseguinte, as primeiras duas seções do cânon hebraico posterior, a lei (Gênesis e Deuteronômio) e os profetas (Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel) começaram a se aproximar da sua atual forma.      Mas um estágio importante da edição, a dos círculos sacerdotais, ainda estava por vir, e é provável ue isto tenha acontecido em Jerusalém nos séculos V-IV. Essa revisão afetou particularmente Gênesis e Números, e viu não só a inclusão do ritual, leis sacerdotais e sacrificiais de Êxodo, Levítico e Números, mas também o uso da chamada história sacerdotal como a estrutura básica de toda a narrativa. Hoje ela começa com a criação do mundo e também incorporou tradições evidentemente não-sacerdotais como a história do Jardim do Éden e Caim e Abel.

     A obra foi executada em círculos sacerdotais no templo de Jerusalém, e a estes círculos também é plausível atribuir a coleção e edição dos Salmos, do Livro dos Provérbios e Lamentações. Uma geração posterior de autores sacerdotais compôs o Livro das Crônicas, com a tônica na continuidade do seu templo com a adoração da época de Davi e Salomão.

       A Jerusalém dos séculos IV-IIII viu o surgimento de uma sociedade urbana mais diversificada que a anterior, e foi nestes círculos que obras como Jó, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos foram produzidas. É também necessário supor a existência de uma biblioteca, ou bibliotecas, se levarmos em conta a preservação e disponibilidade desses textos para posterior inclusão no Antigo Testamento. A crise final que precipitou a atividade literária e editorial foi a perseguição sob Antíoco, em 169 a.C, que produziu os Livros de Daniel e Ester.

       Devemos lembrar, entretanto, que produzir livros não era uma questão de o autor completar algo que depois era aperfeiçoado. O processo de composição não tinha fim, com a obra de autores transformando-se gradualmente na dos copistas atrávés de editores.”

Cronologia da composição dos livros do Antigo Testamento e de alguns Apócrifos

séculos X e IX a.C

registros da administração do templo e da corte compilados em Jerusalém

século VIII a.C

Início da coleção de material escrito que vai ser, ou compor, o Antigo Testamento: oráculos dos profetas Oséias, Amós, Miquéias e Isaías; primeiros esboços da história de Israel e Judá desde Abraão; coleção de leis, provérbios e salmos

século VII a.C

coleção de palavras dos profetas  Jeremias, Naum, Sofonias, primeiros esboços do Deuteronômio, história geral de Israel & Judá ampliada até a época de Josias

século VI a.C

coleção de palavras dos profetas (Jeremias, Ezeuiel, Isaías, Habacuue, Ageu, Zacarias); outras demãos editoriais sobre a História de Israel e Judá, desde Abraão até a destruição de Jerusalém; e sobre o Deuteronômio. Composição de Salmos e Lamentações

século  V a.C

O Pentateuco (Gênesis + Deuteronômio) começa a assumir algo parecido com a sua forma atual. Livros de Esdras, Neemias, Jonas, Rute.

século IV a.C.

Novas composições: Livros de Crônicas, Malauias, capítulos posteriores de Zacarias, Cântico dos Cãnticos, Jó, Eclesiastes, Estes.

século III a.C.

Novas composições (Isaías, capítulos 24 ao 29), Enoque (capítulos que vem do 1 ao 36 e 72 a 92).

século II a.C.

Novas composições incluem Daniel, Macabeus, apócrifos (Jesus ben Sirac, Eclesiástico), além de outras partes de Enoque e Sabedoria de Salomão.

século I a.C

Partes complementares de Macabeus, Tobit, Judite, Baraque, Manassés.

             (extraído com ligeiras adaptações de Uma Introdução à Bíblia, de J.W. Rogerson).

 

séculos XIII-XII a.C: os israelitas se estabelecem numa região montanhosa de Efraim, Galiléia e Transjordânia. Os filisteus se estabelecem na planície costeira.

século XI a.C: os crescentes conflitos entre filisteus e israelitas levam ao surgimento de um “reinado” israelita sob o comando de Saul (c. de 1020)

séc. X a.C: Davi derrota os filisteus, faz de Jerusalém a capital e une Israel e Judá, sendo sucedido por Salomão, que edifica o Templo. Depois de sua morte, Israel se separa de Judá.

séc. IX a.C: Israel se torna uma nação dominadora na região, controlando Judá e arredores.

séc. VIII a.C: Os profetas Oséias e Amós criticam a injustiça social e o sincretismo religioso em Israel, ue é destruído pelos assírios em 722-721. Judá, sob Ezequias, assume o papel de Israel+Judá, mas é invadido em 701.

séc. VII a.C: Judá é província da Assíria, que declina como nação, enquanto a Babilônia ascende. Josias proclama a independência de Judá e faz um reforma religiosa.

séc. VI a.C: Nabucodonosor,da Babilônia, domina a região e submete Jerusalém em 597. A cidade é destruída em 587. Em 540, Ciro, rei da Pérsia, derrota os babilônios.  O Templo é reconstruído em 515.

séc. V a.C: Judá é província a Pérsia.

séc.  IV a.C: A Pérsia é derrotada por Alexandre. Inicia-se a era de influência grega em Judá.

séc. III a.C: Judá é governado pelos Ptolomeus, governantes gregos do Egito. O estabelecimento de colônias judaicas no Egito, especialmente Alexandria, faz com que parted do Antigo Testamento sejam traduzidos para o grego.

séc. II a.C.: A helenização do judaísmo, mais a profanação do templo, graças à interferência do rei Antíoco IV, levam à revolta dos macabeus.

séc. I a.C: Judá torna-se província romana, sob o governo de Herodes.

“…quanto mais fundo sondamos, quanto mais abaixo tenteamos e calcamos o mundo inferior do passado, tanto mais comprovamos que as bases mais remotas da humanidade, sua história e cultura, se revelam inescrutáveis. Por temerários que sejamos no cumprimento que dermos à nossa sonda, ela se estira ainda, aprofundando-se cada vez mais. Não é sem razão que falamos em estirar-se e aprofundar-se, porquanto aquilo que é investigável zomba dos nossos ardores inquisitivos; oferece pontos-de-apoio e metas aparentes, por trás das quais, depois que as atingimos, surgem ainda novas províncias do passado, tal como acontece a quem navega ao longo da costa sem encontrar termo para sua viagem, porque, por trás de cada promontório de duna argilosa que ele conquista, pontas de terras inesperadas e novas distâncias continuam a negaceá-lo.

         Podem assim existir origens provisórias que praticamente e de fato formam os primórdios da tradição particular mantida por uma dada comunidade, por um povo ou por uma comunhão de crença; e a memória, embora suficientemente inteirada de que na realidade não foram sondadas as profundezas, pode, contudo, do ponto de vista nacional, conformar-se com aqueles primórdios e, pessoal e historicamente falando, vir a descansar aí.

         O jovem José, por exemplo, filho de Jacó e da formosa Raquel… José, vivendo naquela região da terra de Canaã, nas tendas de seu em pai em Hebron, José que era  um jovem famoso pelo encanto que herdara de sua mãe… José, afinal e para concluir (pela quarta ou quinta vez eu digo o nome dele, e com prazer, porque há mistério nos nomes…); José, pela sua parte, considerava uma certa cidade chamada Ur, na Babilônia Meridional, como o princípio de todas as coisas, isto é, de todas as coisas que lhe diziam respeito.

         É que dali, em época já muito remota (José nunca tivera cabal certeza de quão remota ela era), um homem pensativo e interiormente inquieto, com sua mulher, a quem ele, provavelmente por ternura, costumava chamar de irmã, partira com outras pessoas de sua família, para fazer como fazia a lua, que era a divindade de Ur, vagueando sem rumo certo, porque achava isto muito adequado à sua situação insatisfeita, dúbia, tormentosa… A tradução transmitida a José variava um tanto em relação àquilo que mais particularmente molestara o desassossegado… Diz a tradição que seu Deus (aquele Deus diante de cuja imagem seu espírito trabalhava, o mais alto dentre todos, único a quem resolvera servir por orgulho e amor, o Deus para o qual ele procurara um nome e não achara nenhum conveniente e por isso lhe dera o plural, chamando-lhe provisoriamente Elohim, a Divindade), pois bem, Elohim lhe fizera promessas de imenso alcance e claramente definidas, de acordo com as quais não só ele, o homem de Ur, viria a ser um povo tão numeroso quanto as areias do mar e uma bênção para todos os povos, mas também a terra onde ele vivia como estrangeiro e aonde o conduzira Elohim, tirando-o da Caldéia, seria possessão perpétua dele e de sua descendência… Por outras palavras, Deus fadara as populações nativas à derrota e à sujeição ao interesse do homem de Ur e de sua raça. Tudo isso, porém, deve ser acolhido com restrições, ou no mínimo com critério. Estamos lidando com interpolações posteriores, feitas deliberadamente para confirmar, como intuitos primitivos da divindade, situações políticas que de começo tinham sido estabelecidas pela força. Na realidade o espírito daquele homem erradio não era talhado para receber ou provocar promessas de natureza política… O que  o pusera em movimento foi desassossego de espírito, necessidade de Deus e se lhe foram outorgados favores, tinham relação com as irradiações do seu conhecimento pessoal de Deus, que era de uma espécie inteiramente nova

         Por vezes, José tinha o homem errático na conta de seu bisavô, embora tal idéia deva ser francamente afastada dos domínios do possível… e quando o fazia era para divertir o pensamento, o que condiz admiravelmente com o seu espírito, mas não ficaria bem ao nosso, sendo-nos portanto vedado fazê-lo… entre o menino José e a peregrinação de seu suposto antepassado no espírito e na carne mediavam bem, conforme o sistema cronológico em vigor na sua idade e esfera, vinte gerações, ou, em números redondos, seiscentos anos babilônicos, lapso de tempo tão longo como o que vai do nosso século vinte ao período gótico da Idade Média; tão longo quanto ele, no entanto muito menor… Seiscentos anos naquelas eras e embaixo daquele céu não significavam o que significam na nossa história ocidental. Era um período mais igual, mais silencioso, mais mudo; o tempo era menos eficiente, sua faculdade de suscitar mudanças tinha um alcance mais fraco e mais restrito, muito embora naquelas vinte gerações ele por certo produzira mudanças e revoluções de considerável monta… e contudo, tomado em conjunto, o tempo de então fora mais conservador que o tempo de agora, o teor da vida de José, seus modos e hábitos de pensar eram muito mais chegados aos seus do que os nossos em relação aos dos cruzados. A memória, repousando na tradição oral de geração a geração, era mais direta e confiante, fluía mais livremente, o tempo apresentava uma vista mais uniforme e por isso mesmo mais fácil de abranger. Não se pode censurar a José o encurtá-lo em seus sonhos, e estando alguma vez a devanear, talvez à noite, ao luar, confundir o homem de Ur com o avô de seu pai…. o seu desejo de achar um começo para a série de acontecimentos que lhe diziam respeito ia tropeçar na mesma dificuldade que sempre se contrapõe a um tal esforço, isto é: verificar que cada qual tem um pai, que nenhuma coisa é  a primeira e nasce de si mesma, nem é causa de si própria e que toda a gente é gerada e aponta para trás, mais fundo dentro da profundidade das origens, nos abismos e sumidouros do passado… Aqui o cérebro do jovem começava a sentir vertigens, exatamente como acontece ao nosso quando nos debruçamos sobre o poço do passado; e deixando de parte umas insignificantes inexatidões que a si mesma permitia sua linda e graciosa cabecinha mas que a nós não ficam bem, podemos sentir-nos bem próximos dele, quase seus contemporâneos, quando falamos nessas remotas profundezas e abismos do tempo em que ele, tantos séculos atrás, já fitava a vista.”

“Desta maneira são formados aqueles começos, aqueles bastidores do passado, onde a memória pode deter-se e acha um ponto-de-apoio para alicerçar sua história pessoal, como fez José em relação a Ur, a cidade, e a seu antepassado que dali partira. Era uma tradição de inquietação espiritual; ele a tinha no sangue.. tudo isso passando como um legado de geração a geração, desde o homem de Ur… Desassossego e dignidade, eis o sinal do espírito… [para José o Altíssimo] seria uma réplica superior de seu pai, e estava ingenuamente convencido de ser muito amado pelo Altíssimo exatamente como o era por aquele… em contrapartida, sua com toda a sua devoção, ele absolutamente não seguia nem aceitava a forma que ela tomara no caso de seu pai: o cuidado, a ansiedade, o desassossego, expressos na invencível aversão de Jacó por uma existência fixa, mais adequada à sua dignidade, e no seu modo de vida temporário, improvisado, seminômade. Também ele, sem dúvida possível, era amado, acarinhado e preferido por seu Deus… El-Shadai fizera seu pai rico na Mesopotâmia, rico em rebanho e inúmeras posses; caminhando por entre seu bando de filhos, seu séqüito de mulheres, seus servos e seu gado, dir-se-ia um príncipe entre os príncipes da terra, e era-o de fato, não somente na aparência exterior mas também pelo poder do espírito, na qualidade de nabi, isto é, o profetizador; na qualidade de homem prudente, sagacíssimo, cheio da ciência de Deus, como um dos chefes espirituais e anciãos a quem tinha tocado a herança do caldeu e que tinham por vezes sido considerados como descendentes diretos dele…. [mas era como] se ele não pudesse parar e criar raízes com outros, como se de hora em hora tivesse de estar à espera da Palavra que o faria deitar abaixo barracas e estábulos, pôr no lombo dos camelos as estacas, cobertores e peles, e partir… José, naturalmente, sabia por quê. Tinha de ser assim porque estavam servindo a um Deus cuja natureza não era repouso e conforto permanente, mas um Deus que tinha desígnios para o futuro, em cuja vontade coisas inescrutáveis, grandes, de longo alcance, estavam na fase de vir-a-ser e que, com  a sua vontade reflexiva e seus projetos sobre o mundo, estava ele próprio ainda no processo do vir-a-ser, sendo por isso um Deus de preocupações, de inquietude, que deve ser procurado, para o qual todos têm de se conservar desimpedidos em qualquer tempo, móveis e de prontidão

         Quanto a mim, que agora levo a termo a minha narrativa para mergulhar voluntariamente numa aventura sem limite, não esconderei minha compreensão nativa do mal-estar do velho e sua aversão a qualquer habitação permanente. Não me destinaram também a mim o desassossego? Não me foi dado um coração que desconhece o repouso? O astro do contador de histórias não será a lua, senhora da estrada, a vagabunda que vai de fase em fase, libertando-se de cada uma? O narrador faz várias pausas, andando e relatando, mas só habita em tendas, aguardando novas direções, e pouco depois sente que seu coração bate forte, quer de desejo, quer também pelo medo e angústia da carne, mas sempre como sinal de que deve tomar a estrada à cata das novas aventuras, que devem ser penosamente vividas até os seus mais remotos detalhes, de acordo com a vontade do espírito infatigável… O passado não é o elemento natural do narrador de história, a que ele se apega como o peixe à água? Sem dúvida. Mas, a falar assim, nem por isso meu coração cessa de pulsar de medo e curiosidade, provavelmente porque o passado pelo qual estou habituado a deixar-me conduzir para bem longe é muito diverso do passado ao qual agora desço, a tremor… Pois a essência da vida é o presente e só num sentido mítico seu mistério aparece nas formas temporais do passado e do futuro… o mítico é apenas o vestuário do mistério. Mas o traje domingueiro do mistério é a festa, a festa periódica que lança uma ponte sobre o tempo e torna o passado e o futuro concretos para o sentido do povo. Não é pois de admirar que no dia da festa a humanidade fermente e proceda com desenfreada desenvoltura; nela, morte e vida se encontram e se reconhecem. Festa de contar histórias, és o traje festivo do mistério da vida, pois evocas a eternidade na mente do povo e o mito, para que ele possa ser revivido no tempo atual.

            (Thomas Mann, Prelúdio: Descida aos infernos, em Histórias de Jacó, 1933)

“O que em substância há é que essa disposição de Deus não era originalmente dirigida nem contra Raquel nem a favor de Lia. Era antes uma advertência e uma disciplina para Jacó, que por meio dela ficava sabendo que a branda soberania que concedia a seus sentimentos,  a arrogância com que os acalentava e anunciava não eram vistas com bons olhos por Elohim, embora essa mesma tendência para a seleção, esse entregar-se em freio a um favoritismo arbitrário, esse orgulho do sentimento que não queria submeter-se a julgamento mas antes exigia que todo o mundo o tomasse pela sua avaliação, pudessem ser atribuídos primordialmente a um protótipo mais elevado de que era, de fato, a cópia mortal. Devo dizer embora? Precisamente porque a glorificação que Jacó concedia a seus sentimentos era uma reprodução da outra é que ela foi punida. Quem quer que se aventure a tocar nesse ponto deve tomar cuidado com suas palavras. Mas ainda depois do mais escrupuloso exame, não há dúvida de que o móbil principal da medida foi o ciúme que Deus tinha de um privilégio que, como ele procurou dar a conhecer com a humilhação a que submeteu o sentimento de Jacó, reputava como sua prerrogativa exclusiva. Podem levar-me a mal esta exegese, e hão de argüir que um motivo tão mesquinho e passional como o ciúme não quadra como explicação de decretos divinos. Aqueles, porém, que se escandalizam com a minha versão têm a liberdade de considerar o decreto como uma relíquia, espiritualmente não-digerida, de estágios antigos e menos disciplinados no desenvolvimento da essência divina… O pacto de Deus com o espírito humano atuante em Abraão era um pacto que tinha em mira a santificação mútua, uma aliança em que a necessidade humana e a divina de tal forma se misturavam que não é fácil dizer-se de que lado, o humano ou o divino, partia o impulso original…”

       (Thomas Mann, As irmãs, em Histórias de Jacó, 1933)

“Pela primeira vez, uma obra literária (que não tem a intenção de ser nem apologética do ponto de vista judaica nem exegética do ponto de vista cristã, mostra-nos, em Israel, ao mesmo tempo o que o une ao vasto mundo mítico e pagão e o que o separa dele) faz-nos assistir ao nascimento quase monstruoso da noção monoteísta de Deus”.

        (Marguerite Yourcenar a respeito do texto acima, em “Humanismo e Hermetismo em Thomas Mann”, ensaio de Notas à margem do tempo)

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