MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/03/2013

Destaque do Blog: A MORTE DO INIMIGO, de Hans Keilson

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/02/08/menos-e-mais-comedia-em-tom-menor-de-hans-keilson/

https://armonte.wordpress.com/2013/01/08/a-shoah-e-a-fabulacao-beatriz-virgilio-de-yann-martel/

A resenha abaixo foi publicada de forma mais condensada  no Caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, em 30 de março de 2013:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/101126-obra-sobre-holocausto-abdica-da-singularidade-tragica-dos-judeus.shtml

Em Beatriz e Virgílio, Yann Martel discute a visível resistência contra a apropriação artística da Shoah (popularizada pela indústria cultural com o termo Holocausto, principalmente depois de uma popular minissérie televisiva), evento tomado como único, e geralmente narrado em termos de testemunho, a forma “aceitável” de representação.

Se o autor de Vida de Pi apresenta a questão como um desafio em 2010, imagine-se a perplexidade em 1959, com A Morte do Inimigo [Der Tod  des Widersachers]: Hans Keilson  recusa-se a  usar termos como “judeu”, “nazista”, “Hitler”, ao longo do relato no qual seu protagonista sofre todo o conhecido processo de banimento (num  país nunca claramente identificado) até a clandestinidade final, porque o “inimigo” (que lhe fora anunciado, ainda criança pelo pai[1]), alcança o poder, utilizando a ele e a seu povo como bode expiatório.

“Contarei tudo, e nada hei de omitir no que se refere ao meu inimigo e a mim. Quando penso na sua morte, recordo a minha vida. Compreendo mais profundamente seu destino desde que ele se tornou o meu, maior do que cheguei a pensar.”

Parece um achado simples, mas que se revela de um alcance (além da ousadia) quase inescrutável: ao abdicar da singularidade reivindicada pelos judeus com relação à trágica perseguição de que foi vítima, A Morte do Inimigo mostra como qualquer um pode ser peça da engrenagem da exclusão: daí podemos pensar nos negros africanos durante o apartheid, nos gays, nas mulheres na Índia, nos muçulmanos diante da hostilidade ocidental, nos palestinos, num ativista de esquerda na ditadura; enfim, a lista é enorme e mostra que a particularidade é apenas um dos elementos de uma equação terrível (“A natureza humana vive do restrito. O espírito humano colhe suas experiências no espaço que suas mãos alcançam ativamente”). Não que Keilson, hábil ficcionista, não explore o que há de característico na sua experiência (ele mesmo teve seu momento de Anne Frank) nos fatos que levaram à Segunda Guerra e à Shoah, no entanto, ele executa um salto mortal que faz toda a originalidade do seu livro, descoberto pela crítica apenas na década passada, pouco antes de sua morte, em 2011, aos 101 anos.

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Entretanto, enquanto cada vez mais me inclino a considerar seu outro romance traduzido no Brasil (também por Luiz A. de Araújo), Comédia em Tom Menor (1947) uma obra-prima, certas passagens rebarbativas de A Morte do Inimigo me pareceram indicadoras de uma forte  tendência à lengalenga (o livro tem o dobro da extensão do outro, e metade da sua eficácia enquanto estratégia narrativa).

Não se pode esquecer, porém, da tremenda decisão já apontada, cujos efeitos se irradiam com vigor pelo livro todo, e sobretudo dos pontos altos, como o aterrador episódio em que ele, visitando a moça por quem está meio “caído”, acaba lanchando e bebendo com os amigos do irmão dela: são todos adeptos e entusiastas do “inimigo”, momento em que um deles relata a profanação de um cemitério por um grupo de assalto do qual fazia parte como neófito. Poucas vezes se mostrou de forma tão lapidar como a brutalidade de um regime vai se disseminando capilarmente, desmoralizando  todas as relações, e trazendo à tona tendências de grupos que estavam adormecidas. Tudo numa cena só, cotidiana: um lanche entre jovens.

“…retinha-me a curiosidade e a vontade de ludibriá-los, de afastar suas suspeitas assumindo outra aparência mediante uma atitude corajosa e decidida. Devo admitir que teria demonstrado mais caráter se houvesse ido embora (…) Enfim, o jogo me atraía, o mesmo que me atraíra na câmara escura e no episódio dos selos, curiosidade e também um pouco de malandragem, a vontade de me colocar do outro lado para me sentir eu mesmo, o prazer de venerar um deus e, simultaneamente, traí-lo com o bezerro de ouro.

   Decidi aguentar até o fim, a qualquer preço,  mesmo que fosse o da autonegação, a qual, confesso, não me era tão difícil assim. Vi a garota recostada no divã junto à parede, a cabeça pousada na almofada, ela notou que eu a olhava e me dirigiu um olhar firme e amável.  Se ela soubesse, pensei, será que retribuiria com tanta doçura meu olhar?”

Quando um romance tem momentos extraordinários como esse, impossível não considerá-lo grandioso.

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ANEXO

Escolhi um trecho, entre os meus favoritos do romance, em que o pai do narrador, fotógrafo não muito bem-sucedido (aliás, não o foi em nenhuma atividade profissional) conta à família a sessão de fotos em que a dona de uma gata e de uma cachorra [Bützi e Hützai] desejava que seus bichos de estimação (que “se davam muito bem”) fossem retratados juntos; no entanto, durante a sessão, os animais—desassossegados—não permitiram o tão desejado retrato idílico.

O pai conta como resolveu o problema:

“É mesmo, alegrei-me, conte como conseguiu.

 Venha. Vou lhe mostrar como foi.

Para mim, você pode mostrar depois, disse a mãe, e desapareceu.

     Nós descemos ao ateliê, onde a cadeira e o equipamento continuavam no mesmo lugar. A luz estava apagada (…)

     Venha, diz o pai, e, na suave treva, eu o vejo tirar de uma bandeja grande e cheia de líquido uma placa escura (…) Sempre que estou aqui, sozinho com ele, invade-me um temor repleto de expectativa, diferente de quando estou sozinho com ele num cômodo iluminado. Porque é no escuro que se engendra o feito de cada um, é possível levá-lo á claridade e devolvê-lo à escuridão, na escuridão ele é concebido.   

     É um cachorro, digo com voz abafada.

     É Hützi, corrige ele. E me mostra outra placa. E aqui?

     Bützi, exclamo. Quer dizer que você conseguiu fotografá-las!

   Sim, mas uma por vez.

    Elas se detestam. E agora?

    Vou pôr as duas numa placa e fazer uma prova. E, na fotografia, Hützi e Bützi estarão juntas e em paz, como é seu hábito em casa: o presente de aniversário.

    As duas placas fotográficas voltam para a bandeja grande de vidro. Eu olho para ele, tenho a impressão de que a escuridão ficou mais clara. Reconheço as suas feições carnudas, nas quais se esboça um ar de triunfo. Já não é uma sombra, voltou a ser uma forma.

   E digo: Acontece que não é verdade, pois elas não ficaram juntas aqui. Ao mesmo tempo, sinto crescer em mim uma admiração por ele, ainda que minhas palavras só contenham crítica.

   Que importa?, diz o pai, assombrado, Isso se chama montagem fotográfica.

    Mas não é verdade, teimo. Você faz isso e acha muito divertido, mas não passa de fingimento.

 

       Ora essa!, ele se irrita, Aí é que está a graça. Você ainda não entendeu…”

la morte


[1] “O inimigo entrou na minha vida, meu pai o introduziu: Deus nos acuda—e—Nós ainda vamos conhecê-lo, receio. Jamais vou esquecer essa ameaça nem o momento em que a proferiu.

   Mas, na hora, isso não teve significado para mim. Um elemento estranho me penetrou, e cá ficou imóvel, mudo, encapsulado, sem contato nem ligação nervosa com os outros órgãos. Até mesmo minha fantasia parecia ter me deixado na mão. Foi procurar outros objetos em torno dos quais pudesse fazer voltearem seus temores e esperanças pueris. Meus pensamentos o haviam relegado a um silêncio peculiar, um silêncio em que palpitavam os primeiros germes da solidão.”

Veja-se outra passagem, depois que o narrador descobre que seu melhor amigo venera o “inimigo”:

“É bom ir se acostumando, disse afinal, e olhou fixamente para mim.

    O ódio foi instantâneo. Surgiu e me acometeu tão subitamente que não tive tempo de refreá-lo. Senti raiva do meu pai, em cuja fisionomia transparecia minha dor. Acostumar-me, pensei, você diz isso como se fosse a única coisa que me resta. Não tem nada melhor para dizer? Acostumar-me, como você se acostumou, e seu pai e o pai dele e toda a série que os precedeu, como se perder um amigo fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Tive muito ódio, pois senti que ele havia me prendido com o grilhão do inevitável, tal como se acorrenta um presidiário. Tolice querer escapar. A sentença fora pronunciada, mas a culpa era dele, do meu pai. Ele mesmo a recebera um dia como uma dádiva herdada, um fardo entregue com aflição e com aflição recebido. Encarei-o. Meu pai devia ter me preparado melhor para essa dádiva…”

Hans Keilson

  

08/02/2013

MENOS É MAIS: “´Comédia em Tom Menor”, de Hans Keilson

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de fevereiro de 2013)

“Como em uma comédia em que se espera que o herói, trazendo a solução, chegue pela direita. E ele deixa os bastidores pela esquerda. Depois, os espectadores voltam para casa surpresos, contentes e um pouco mais astutos. Sentem que a peça foi meio triste no fim. Pois todos esperavam que a ator entrasse pela direita…”

O leitor que já conheça histórias como, por exemplo, a de Anne Frank (ou aquelas contadas em A Lista de Schindler), poderá torcer o nariz ao saber que Comédia em Tom Menor [Komödie in Moll, tradução de Luiz A. de Araújo] é o relato de como Wim e Marie, casal de uma cidadezinha holandesa, esconde num dos quartos de sua casa, por quase um ano, o judeu Nico.

Hans Keilson foi um alemão que viveu a maior parte da sua longa (morreu aos 101 anos, em 2011) existência na Holanda; descoberto como escritor só na década passada, teve a honra tardia de ser chamado de “gênio” pelo The New York Times. Mas  o que poderia haver na sua “história de Anne Frank de calças” (experiência realmente vivida por ele) que justificasse tal epíteto, com tantos testemunhos poderosos sobre a tragédia judaica durante o domínio nazista, como os de Primo Levi?

Comédia em Tom Menor se inicia com a morte de Nico, cuja resistência não era das melhores, não sobrevivendo a uma pneumonia. Com habilidade, Keilson alterna as providências para o descarte do corpo, em algum lugar público e não-comprometedor (há toque de recolher), com a rememoração do ano compartilhado pelos três na casa: “Por que, diabos, Nico inventou de morrer? Por que justo ele, que estava escondido em sua casa, resolveu morrer,e morrer de uma morte comum e corrente como se morre em todos os tempos, na guerra ou na paz? Quase lhes havia pregado uma peça com aquela morte….”

Comedy in a Minor Key

O que surpreende, nesse texto publicado originalmente em 1947 (ou seja, ainda bem próximo dos eventos), é a avareza de alusões à situação geral e a absoluta desdramatização do que está sendo contado. O “tom menor” utilizado confere uma veracidade, uma força, que nenhuma descrição grandiloquentemente trágica conseguiria.

Além do mais, temos alguns momentos magistrais: ao arrumar o quarto de Nico, Marie descobre que  o morto—o qual costumeiramente dividia tudo com o casal—escondia deles um maço de cigarros caros. Ela se senta e ali e começa a imaginar aquela existência emparedada: “Ele fumava sozinho! Fumava quando estava a sós—quando a solidão o devastava—,quando não agüentava mais (…)Viu-o deitado no divã, os olhos fitos no teto.  O braço esquerdo dobrado sob a cabeça no travesseiro, a mão direita na testa. Nada em seu corpo se mexe. Só quando ele inspira, um abalo e um tremor fracionam o fluxo de ar em uma infinidade de pequeninos sopros dilacerados (…) Algo nele se anima… esgueira-se rumo ao armário embutido, vasculha-o até encontrar o maço amarelo. Ainda está cheio. Tira um cigarro, recoloca o resto no esconderijo. E então, sentado na beira do divã, fuma esse cigarro tragada por tragada…”

        Só isso, nada mais. E no entanto, tudo. O fato de ser Marie quem vivencia esses momentos a sós de Nico (e depois de ele já estar morto) é que transforma tudo. A incomunicabilidade do sofrimento (e portanto ambivalência das relações) já podia ser detectada em outra passagem: “… sim, eles o ajudavam,  sim, isso não valia nada? Sim, significava muito. E não valia nada. Reduzia-o a nada. Era insuportável. Representava o se aniquilamento humano, ainda que—talvez—lhe salvasse a pele.”

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Ao longo da leitura  fiquei imaginando que interpretações maravilhosas um diretor poderia extrair se o livro fosse adaptado para o teatro ou para o cinema. E de fato, Comédia em Tom Menor vai ficando mais marcadamente teatral depois que Marie e Wim, esses dois personagens que vão muito além de uma ação “boa” (para o leitor, são seres humanos completos), têm de fugir de casa (devido a um erro que pode tê-los comprometido na remoção do corpo) e virar, eles mesmos, pessoas acoitadas.

Já não há mais acontecimentos, só uma longa espera, e aí sim, a identificação com Nico será completa. Pois a qualquer momento, todos nós podemos virar outsiders de um determinado sistema.

Então Keilson é o gênio proclamado pelo New York Times? Não saberia afirmá-lo com segurança. Inegável é que ele trouxe uma perspectiva original para um tema que se tornou um dos maiores clichês da nossa época, algo novo e que transcende qualquer particularidade. Não é pouca coisa.

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