MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/11/2010

CÁUCASO-COSMO

 

 

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Em 1980, quatro anos antes de morrer, quando todo mundo esperava o aparecimento do mais-que-anunciado romance, Preces atendidas, Truman Capote lançou a inesperada coletânea Música para camaleões, seu mais belo livro, em cujo prefácio afirmava que gostaria de “ser simples, claro com um riacho no campo”, e ao mesmo tempo estava perseguindo uma forma nova de texto literário, onde pudesse combinar tudo o que aprendera praticando seu ofício, como prosador, roteirista, jornalista, ensaísta: “Um escritor precisa ter todas as suas cores, toda a sua habilidade disponível na mesma paleta para misturar e aplicar simultaneamente. Mas como?”1

Sem desmerecer Capote (um grande escritor), esse seu dilema já fora solucionado no derradeiro opus de Tolstói, Khadji-Murát, na qual ele trabalhou anos a fio, levando os manuscritos para todos os lados, inclusive na fuga patética2, que ocasionou sua morte, aos 82 anos, em novembro de 1910.

Publicado postumamente, esse romance tem cerca de 200 páginas, mas foram encontrados mais de duas mil páginas de rascunho e versões preliminares. Eu o conheci durante muitos anos como Hadji Murat, na versão de Natália Nunes, no volume II da Obra Completa publicada pela Nova Aguilar, até que descobri a tradução de Boris Schnaiderman editada pela Cultrix (e agora pela CosacNaify).

Trata-se de um Guerra e Paz em ponto minúsculo e no entanto todas as cores da paleta tolstoiana foram misturadas e aplicadas simultaneamente. E ainda assim temos a impressão de um texto simples e claro, onde se parece ter atingido uma primordialidade bíblica ou de tragédia grega. Há uma atordoante referencialidade no texto, uma materialidade do mundo gritante na representação, porém há também algo descarnado, um sentimento de que tudo é simbólico, eu diria mesmo emblemático, pois se avizinha do essencial ou que entendemos como tal.

A ação se passa em 1851-52 na Chechênia, na mítica região do Cáucaso, dominada império russo, o qual tem de enfrentar a resistência e insurreição da população muçulmana, motivada, como sempre, por uma noção de “guerra santa” (no texto, khazavát). Khádji-Murát, por desavenças com o líder supremo, Chamil, que mantém sua família como refém, bandeia-se para o lado dos russos. E esse homem façanhudo, célebre pela sua valentia e engenhosidade, e pelo orgulho feroz, de repente é um aliado com o qual não se sabe muito bem o que se fazer e como utilizar.

A traição de Khadji-Murát aciona também um caleidoscópio que percorre os mais diversos estratos sociais, do czar até o mais humilde soldado, de uma forma quase inacreditável se não conhecermos a obra final de Tolstói (contos como A cédula falsa ou O acontecimento supremo) e se pensarmos também nas vastidões narrativas de Guerra e Paz & Anna Karênina. Mostra-se de forma contundente a estupidez da guerra, a maneira insensível e insensata através do qual Nicolai I (que ele desprezava3) impõe sobre os costumes e a fé de outros povos a tirania russa (o que nos faz lembrar outro império tão arrogante quanto, em nossos dias). Para isso, o czar não se detém ante o desastre ecológico, ordenando o desmatamento deliberado e contínuo da região chechena como forma de expor os focos de rebelião. As variegadas cores da paleta de Khadji-Murát também revelam o sofrimento dos animais à mercê da humanidade e de suas necessidades bélicas4.

Um dos momentos mais pungentes e reveladores do relato se dá quando Tolstói nos apresenta um dos inúmeros personagens da sua pequena narrativa, o oficial Butler, mostrando-nos sua alegria de viver (apesar de uma tendência fatal para o jogo), seu senso de camaradagem e o estímulo proporcionado pela “aventura caucasiana”. Só que a companhia do alegre Butler, sem que ele se dê conta, assola, massacra e conspurca (no sentido religioso) uma aldeia na sua passagem.

Vale a pena transcrever uma parte do texto nesse passo da narrativa:

Butler e sua companhia entraram no povoado em passo acelerado, logo após os cossacos. Os habitantes haviam partido. Os soldados receberam ordem de incendiar os depósitos de trigo, o feno e as próprias sáklias[habitação dos comaponeses]. Por toda a aldeia, pairava uma fumaça penentrante, por entre a qual se movimentavam os soldados, retirando das sáklias tudo o que encontravam e principalmente apanhando ou fuzilando as galinhas que os montanheses não tiveram tempo de levar. Os oficiais sentaram-se um pouco afastados da fumaça, almoçaram e beberam. Um sargento trouxe-lhes alguns favos de mel, sobre uma tábua. Não se ouviam os chechenos. Pouco depois do meio-dia, recebeu-se ordem de abandonar a aldeia (…)

Na companhia de Butler ninguém fora ferido, e ele voltava no mais alegre e animador estado de espírito.

Quando o destacamento vadeou de volta o riacho por que passara naquela manhã, e se estendeu pelos prados e campos de milho, os cantores formaram na frente das companhias e ressoaram canções. Não havia vento. O ar era fresco, puro e tão transparente que as montanhas nevadas, a uma distância de cem verstas, pareciam muito próximas, e, quando os cantores se calavam, ouviam-se o pisar cadenciado e o tilintar das armas, como um fundo sobre o qual começava e terminava cada canção (…)

[Butler] esqueceu a pobreza a que se reduzira e as dívidas a pagar. O Cáucaso, a guerra, os soldados, os oficiais, aquele valente, borracho e bonachão major Pietróv, tudo isso lhe pareceu tão bom que às vezes não podia crer que não estivesse mais em Petersburgo, naquelas salas cheias de fumaça de cigarro, apostando contra a banca, odiando o banqueiro e sentindo na cabeça uma dor compressora (…) A guerra consistia, a seu ver, unicamente em que ele agora se expunha ao perigo e, desse modo, ficava merecendo condecorações, bem como o respeito dos seus companheiros de regimento e dos amigos que ficaram na Rússia. Por mais estranho que isso pareça, o outro lado da guerra, a morte, os ferimentos em soldados, oficiais e montanhosos, não lhe vinha sequer à lembrança. Inconscientemente, para manter essa imagem poética da guerra, sempre evitava olhar os mortos e feridos(…)

[Na aldeia] ouvia-se o uivar das mulheres em todas as casas e na praça, aonde foram levados mais dois corpos. As crianças pequenas urravam, acompanhando as mães. Urrava também o gado faminto, que não recebia mais nada para comer. As crianças mais crescidas não brincavam, encarando os adultos com olhos assustados.

O chafariz estava emporcalhado, provavelmente deixado assim propositalmente, de modo que não se podia apanhar água nele. Igualmente emporcalhada estava a mesquita, e o muezim com os mutalinsa estava limpando. Os velhos, chefes de família, reuniram-se na praça e, de cócoras, discutiam a situação. Ninguém falava sequer do ódio aos russos. O sentimento que experimentavam aqueles chechenos era mais forte que o ódio. Não odiavam, mas simplesmente não reconheciam aqueles cães russos como gente. Era uma sensação de asco e estupefação ante a crueldade absurda daquelas criaturas, e o desejo de destruí-las, a exemplo do desejo de destruir os ratos, as aranhas venenosas e os lobos, era um sentimento natural como o instinto de conservação.5

Os habitantes não tinham alternativa: permanecer nos próprios lugares e reconstruir, com esforço tremendo, tudo o que fora conseguido com tanto trabalho e destruído tão fácil e inutilmente, esperando a qualquer momento sua repetição, ou, contrariando a lei religiosa e o sentimento de repulsa e desprezo pelos russos, submeter-se a estes…”

Assim, através de pequenos incidentes como esse e da figura grandiosa e trágica, mas basicamente ambígua de Khadji-Murát, que pode ser tomado como um traidor ou um herói, como no conto Tema do traidor e do herói, de Borges (só que este nunca teve energia e vivacidade suficientes par compor um relato como o de Tolstói, apesar de admirar esse o gênero e tenha orbitado à volta desse universo épico em vários de seus textos), o maior de todos os escritores que já existiram, na sua obra-prima final consegue um efeito mágico: o Cáucaso vira o cosmo. Nada mais nada menos.

1 “…como um escritor pode combinar com sucesso dentro de uma única forma—digamos, um conto—tudo o que ele sabe sobre todas as outras formas de escrita? Porque essa era a razão pela qual meu trabalho era sempre insuficientemente iluminado; a voltagem estava ali, mas restringindo-me às técnicas da forma em que eu trabalhava no momento eu não usava tudo o eu sabia sobre escrever—tudo o que aprendera com os roteiros para o cinema, as peças, as reportagens, a poesia, os contos, as novelas, o romance…”

2 Tolstói e a esposa viviam em estado de guerra, o que se agravou quando em 1909 ele renunciou aos direitos autorais pela sua obra. Em 25 de junho, a condessa Tolstói finge que se envenenou, comédia que interpretará ainda outras vezes, enquanto ele “sonha” em abandonar o lar e aderir á pobreza evangélica que prega.

Quando, em outubro, ela revista seus papéis, às escondidas, ele escreve uma carta despedindo-se dela e foge de casa. Entre outros incidentes melodramáticos, ela tenta se atirar no laguinho da propriedade deles (a célebre Iásnaia Poliana), sendo “salva” pelos filhos. Em compensação, na movimentação da fuga, o octogenário é acometido por um acesso de febre que o faz delirar durantes dias, até sua morte em 7 de novembro.

3 Mas o czar é a única figura em que a interferência do narrador é visível, em que sentimos o contorno explícito de uma opinião sobre o personagem, que não seja fornecido pelos outros. No mais, há a sublime equanimidade épica, em que se mergulha em cada ponto-de-vista como se fosse a vida que se desenrolasse à nossa frente.

4 “Essa comunicação foi mandada para Tiflis em 24 de dezembro. E, na véspera do ano-novo de 1852, um mensageiro, depois de extenuar uma dezena de cavalos e espancar atrozmente uns dez cocheiros, entregou-a ao ministro da guerra…” Confesso que tenho muito mais pena dos cavalos extenuados do que dos dez cocheiros espancados.

Outro exemplo:

…as balas foram assobiando e zumbindo, derrubando folhas e galhos e acertando na trincheira, sem atingir, todavia, os homens abrigados nela. Somente o cavalo de Gamzalo, que havia escapado e se distanciara, foi ferido na cabeça. Não caiu, mas, dilacerando a peia, fez estalar a moita em volta, lançou-se na direção dos demais cavalos e apertou-se contra eles, regando com seu sangue a erva recém-brotada”.

5 Para indicar a diferença das duas traduções, a de Natália Nunes e a de Boris Schnaiderman, transcrevo a versão do último parágrafo citado pela tradutora da Aguilar: “As mulheres gritavam nas casas da aldeia e na praça, para onde tinham trazido outros cadáveres. As crianças choravam. O gado, esfomeado, mugia por todo lado, mas não havia nem uma fibra de pasto.

A água da fonte estava turva, provavelmente tinham-na sujado de propósito para que os montanheses não pudessem servir-se dela. Também a mesquita estava cheia de imundícies: o sacerdote e os acólitos limpavam-na agora. Os velhos da aldeia reuniram-se na praça: sentados de cócoras, discutiam a situação. Não falavam do ódio que sentiam pelos russos. O sentimento que possuía os indígenas [sic], desde o mais novo até ao mais velho, era mais forte do que o ódio. Não imaginavam que os russos fossem pessoas e a sua repugnância e indignação perante aquela crueldade eram tais que desejavam exterminá-los como a ratazanas, a aranhas venenosas ou a lobos. Era um sentimento natural como o instinto de conservação. Os habitantes da aldeia podiam escolher entre duas alternativas: restaurar com esforços sobre-humanos aquilo que conseguiram com tanto trabalho, temendo que a cada momento sucedesse o mesmo, ou submeterem-se aos russos, contrariamente á lei religiosa e ao sentimento de repulsa e desprezo que eles lhes inspiravam”. Nas transcrições das duas versões, fiz ligeiras modificações.

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