MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/07/2013

Destaque do Blog: SÚPLICAS ATENDIDAS

Mas agora, disse ela, como quem volta ao que interessa, me diga o que você espera da vida, além de fama e fortuna, que são o óbvio. Eu respondi: Não sei o que espero. Sei o que eu gostaria. Eu gostaria de ser adulto.”  (Truman Capote, Monstros Imaculados)

 CAPOTE CAPOTOU?

      No Brasil existem algumas lacunas editoriais difíceis de explicar (Henry James que o diga). Mesmo com o sucesso  de A sangue frio & Breakfeast at Tiffany´s- Bonequinha de Luxo (por sinal, grandes obras literárias, antes de qualquer coisa), e com o pequeno volume do conjunto da obra de Truman Capote (1924-1964), há livros dele que nunca foram traduzidos por aqui, salvo engano: os seus dois primeiros romances, Others voices, others rooms (em Portugal, Outras vozes, outros lugares, mas também poderia ser “Outras terras, outras gentes”, aproveitando o verso proverbial), de 1948, e o encantador A harpa de ervas, de 1951. Pelo menos, agora temos uma edição (pela L&PM) de seu romance inacabado, ANSWERED PRAYERS-SÚPLICAS ATENDIDAS (não seria melhor  “Preces atendidas”, mesmo porque existe um livro de Danielle Steel com o título escolhido?), na tradução cheia de escorregões e soluções ruins de Guilherme da Silva Braga (a L&PM faz um trabalho fantástico de divulgação de um leque amplo de títulos para o leitor de qualquer nível aquisitivo, contudo não se pode dizer que exija muito capricho dos seus tradutores, como já pude comprovar muitas e muitas vezes)

´Capote começou a pensar em SÚPLICAS ATENDIDAS  logo após atingir o auge do sucesso com A sangue frio (nós sabemos o que lhe custaram esses anos envolvido com o livro devido às produções biográficas que trataram exautisvamente do assunto, o sonolento Capote & o ótimo Confidencial). Ele pretendia um vasto painel das mazelas e do avesso dos ricos e famosos com os quais convivia e que se aproximasse do microcosmo proustiano de Em busca do tempo perdido. Contrariando seus editores, ele publicou alguns capítulos do livro na revista “Esquire”, em meados dos anos 70 (apos anos adiando a publicação do livro, sempre negociando novos prazos) e foi execrado e transformado em inimigo público número um daquela gente toda. Por quê? Ele nem se deu ao trabalho de fazer o chamado “roman a clef”, o romance com pessoas reais aparecendo sob nomes que as disfarçassem, não, ele deu nome aos bois, contando as fofocas, os disse-me-disse, o que corria à boca pequena e à socapa E usou um tom venenoso, deletério, transformando todo aquele mundo numa espécie de caverna de monstros (não à toa, o primeiro capítulo tem o título de Monstros imaculados).

No final, quando ele morreu, em  1984, todo o material prometido reduzia-se a três capítulos (a edição da L&PM tem 173 páginas). Nada mais foi encontrado (as hipóteses a respeito do assunto podem ser encontradas no Prefácio de Joseph M. Fox, para a edição póstuma de 1987, essa mesma que levou vinte e dois anos para chegar até nós).

Portanto, qualquer avaliação de SÚPLICAS ATENDIDAS tem de levar em conta o seu inacabamento. Todavia, é quase impossível não comparar o resultado com outros que ficaram inacabados, como A morte feliz, de Camus, Um sopro de vida, de Clarice Lispector, Entre os atos, de Virginia Woolf, para não falar das grandes obras inacabadas que fazem parte da nossa imaginação (a de Kafka, a de Musil, O livro do desassossego, de Pessoa, até mesmo Em busca do tempo perdido, que nunca teve uma última demão). Como, apesar da ligação entre eles, Capote parece ter trabalhado em cada capitulo como um bloco separado, independente, pronto para publicação, não dá para evitar a sensação de que ele não se preocupou com o acabamento  de cada um deles, o que é mais preocupante do que a falta do conjunto. Cada um por si tem altos e baixos gritantes, que causam espanto ao leitor habitual do autor de Música para camaleões (meu livro favorito dele, para mim uma das maiores obras do século XX; aliás, Capote é o mais perfeito dos autores norte-americanos da 2a metade do século passado).

O  tecto é uma narrativa de P.B. Jones, que está de volta a Nova York após anos de aventuras oportunistas na Europa e que escreve seu relato instalado na ACM  (“os corredores murmuram com as passadas abafadas de cristãos libidinosos; se você deixa a porta aberta, isso em geral é entendido omo um convite…”), aos 35 ou 36 anos (a imprecisão é devida às circunstâncias obscuras do seu nascimento).

Com o sonho de ser escritor, logo cedo Jonesy começou a se prostituir, já quando trabalhava como massagista, e continuou na sua condição de michê , mesmo depois de publicar o primeiro (e único) romance, queimando-se no meio editorial nova-iorquino por abandonar a mulher (mais velha) com a qual passara a viver, uma personalidade marcante daquele meio. Na Europa, após inúmeras peripécias (e “quatorze mil dólares” de capital acumulado), ele conhece a (segundo o texto, porque o leitor não sente nada disso) Kate McCloud. É esse relacionamento e as conseqüências (ao que tudo indica, criminais) que deveria constituir o centro anedótico da narrativa de Jonesy, só que nunca saberemos, já que ele não existe, apenas a cena em que os dois se conhecem, e as inúmeras referências a ela. Portanto, falta a espinha dorsal do enredo de SÚPLICAS ATENDIDAS.

Em Nova York, Jonesy volta a trabalhar como michê para a cafetina Victoria Self. Um dos seus clientes, embora não nomeado, é visivelmente Tennessee Williams, descrito de uma forma aniquiladora. No último capítulo “sobrevivente”, Jonesy acompanha uma amiga da alta sociedade ao La Côte Basque, lugar chiquíssimo de Nova York, onde os clientes são passados em revista, com todos os seus podres. Mas para o brasileiro de classe média de 2009, todas as fofocas malévolas e podres e lados b que avultam no texto não causam nenhum terremoto,  e boa parte do que se revela ali se mostra datado, letra morta, já que nenhuma personagem ganha relevo suficiente.

O que mais me surpreende em Capote é o seu moralismo. Eu já afirmei, no meu post em que destacava algumas efemérides literárias ligadas ao século XX, que a mãe dele, Nina (que abominava ter um filho gay e tinha vergonha explícita do seu afeminamento), fez um ótimo trabalho para incutir culpa e automortificação em Capote. Em SÚPLICAS ATENDIDAS, ele parece se comprazer em se mostrar (e mostrar os conhecidos, e principalmente os gays) em contornos sórdidos: todos chafurdam na lama, todos são explorados ou exploradores, e a lealdade é pra lá de duvidosa… Não há dúvida de que esse ingrediente maldoso e essa psique tortuosa fazem parte do chamado mundo gay, todos nós conhecemos esse aspecto. O que espanta é que parece ser a única coisa que emergiu das vivências de Capote, toda aquele outro lado tão lírico e tão peculiar, que faz a delicia do leitor das histórias curtas (e quem esquece Breakfast at Tiffany´s?) e de A harpa de ervas, só não desapareceu porque há lampejos, lampejos lindos, que atravessam o livro (e não se pode deixar de lado que há coisas engraçadas e bacanas no meio das maldades, dos retratos derrisórios, nas anedotas engafarradas por anos na adega Capote prontas a serem servidas). No fundo, o estilo do romance manqué de Capote me parece de um discípulo de Louis-Ferdinand Céline, aquele terrível autor francês, que nas suas obras-primas Viagem ao fim da noite, de 1932, e Morte a Crédito, de 1934, descrevem a existência como um fardo de sordidez e canalhice, num estilo vulcânico, aos borbotões: “contra a abominação de ser pobre, é preciso, vamos confessar, é um dever, experimentar tudo”, lemos em Viagem ao fim da noite, ou ainda: “nus. É assim que a gente deve se habituar a imaginar desde o primeiro contato os homens que vêm nos visitar; os compreendemos bem mais depressa depois disso, distinguimos de imediato em qualquer criatura sua realidade de gigantesco e ávido verme. É um bom truque de imaginação. Seu imundo prestígio se dissipa, se evapora. Nu em pêlo, só resta em resumo diante de nós um pobre saco vazio despretensioso e cheio de si que se esforça em tartamudear num gênero ou noutro” ou ainda: “Indiscutivelmente haveria que fechar o mundo por duas ou três gerações pelo menos se não existissem mais mentiras para contar. Não teríamos mais nada a nos dizer, ou quase. Na literatura norte-americana, houve um discípulo de Céline, Norman Mailer. E o que sentia, lendo SÚPLICAS ATENDIDAS,é quse uma paródia do estilo de Mailer, ou então um Mailer que escrevesse parodiando o universo e o imaginário de Capote. O resultado saiu muito estranho.

Não obstante, nenhum característica do livró é mais discutível ou mal solucionada do que seu próprio narrador-protagonista.  Capote fez dele ao mesmo tempo um alter ego e um catalisador de experiências, por meio da michetagem, que é mais ou menos correspondente ao pícaro (sem trocadilhos)  dos romances do tipo, que atravessam vários escalões da sociedade em suas aventuras. Mas, por alguma estranha razão, o autor (Capote) se esquece do physique de role básico do seu herói, que é essencialmente gay, e faz surgir diante de nós um hetero, apaixonado por Kate McCloud, um michê garanhão ativo, o que não convence ninguém, e falseia completamente os rumos da narrativa . Que Jonesy seja fascinado pelo mundo das mulheres (e que não o é?), tudo bem, mas que ele nos venha com ereções, tesões incontroláveis, disposições de cavaleiro andante,etc, nos faz rir e debochar.

Diálogo em torno de uma tradução

 

No meu post sobre Súplicas Atendidas, de Truman Capote,  (VER  https://armonte.wordpress.com/2013/07/28/destaque-do-blog-suplicas-atendidas/)

eu afirmava que a tradução de Guilherme da Silva Braga  era “cheia de escorregões e soluções ruins” (estendendo o reproche a uma parte dos tradutores da L&PM). Com toda a razão, o referido tradutor se referiu ao tom genérico e vago do meu comentário. pedindo que eu apontasse exemplos:

“Olá, Alfredo!

Não nos conhecemos, mas achei no seu blog uma referência à minha tradução “cheia de escorregões e soluções ruins” do livro Súplicas atendidas, do Truman Capote.

Como a crítica foi feita nos termos mais genéricos possíveis (sem um único exemplo) e é dirigida não só a mim mas todos os tradutores da editora, gostaria se possível que você me apontasse alguns desses deslizes para que eu possa analisá-los e comunicar à L&PM qualquer mudança pertinente. “(26.01.10)

Não me fiz de rogado, é claro, e logo enviei uma lista de trechos, expressões e soluções que me desagradaram ou me pareciam estranhos:

… em alguns casos, talvez a revisão tenha falhado também, acredito que você também não é responsável pelo título: “Preces atendidas” seria mais exato, por causa da esfera religiosa da citação e porque todo o mundanismo  do livro se contrapõe a ela, num sentido muito moralista;

 
na pág. 25 aparece “Hadrian”, quando o correto já que é o costume seria “Adriano”.
    Aliás, a questão de títulos e nomes de  logradouros também é muito espinhosa, poderia ter sido unificada, e unas notas de rodapé, ou esclarecendo o título ou o significado que teriam em português, ou traduzindo, e em notas, colocando o original.  Por que deixar, na mesma pág. 25, em inglês os títulos dos contos de P.B.Jones? (“Suntan” e “Massage”; e na pág. 28, “Many Thoughts of Morton”)?, por que manter “upper Eighties” (p. 28) ?
na pág.30- Nuriêv não seria Nureyev ?;
 
há sempre uma preguiça em não traduzir trocadilhos e jogos de linguagem- na pág. 32, por exemplo, o jogo com Billy, o nome do reverendo sedutor e o “billy” para o pênis, foi muito mal resolvido.
 
As palavras garoto e menino, em várias passagens (p.34 ou p.37, por exemplo)´ficam muito aquém do significado sexual que lhes é conferido. No Brasil, temos o termo “bofe”, que cairia muito melhor. Aliás, esse termo, “bofe” é utilizado de maneira singularmente inadequada para um cliente de Jonesy na pág. 101 (um cliente de michês jamais seria um “bofe” na nossa cultura gay);
 
há os trechos que ficaram esquisitos ou meio sem sentido (ou eu fui muito burro e não consegui captar o sentido).: É estranho o “venho existindo” da pág. 19 (“na ACM de Manhattan onde venho existindo há um mês”);  na página seguinte: “Meu nome é P.B. Jones e estou com dois corações” (?).
   A caracterização do escritório de Boatwright (p. 24):  “O escritório tinha uma atmosfera  meio de negócios (!?).; parecia um salão vitoriano”. “Meio de negócios”?
 
 na pág. 29, “Faulkner, aficcionado em Lolitas”, a preposição está muito esquisita, não? e mesmo o termo “aficcionado”
 
na pág. 34- “depois de exagerar no vinho tinto e no amarelo”- não consegui entender esse “amarelo”.
na pág. 39 e em várias outras o termo “cafetão” não é muito exato, já que se trata do “bancador” do michê.
 
na pág. 40, um trecho estranhíssimo, que me parece truncado: “Denny prestava-se a um único papel, o de Amado, pois era tudo o que ele jamais tiinha sido [ já essa formulação de saída é muito estranha; a gente entende, mas é estranha]. Assim, exceto pelos  eventuais flertes com o comércio marítimo, o Amado tinha sido Watson” (!?).
 
na pág. 41, o que seria exatamente “o jeito bondoso e BIOLÓGICO”  de Jean Connoly?
    E na mesma página, que raios é um “cenografista”, função de Christopher Isherwood em Hollywood?
 
na pág. 47, mais um jogo de palavras perdido, que ficou forçado, porque “bastardo” não é um xingamento comum em português, mas sim em inglês:  “sabia que eu era um bastardo mas e me perdoava porque afinal de contas eu tinha nascido bastardo”. O primeiro bastardo tem, na verdade, acepção de canalha, filho-da-puta, como você bem sabe, e o trecho empastelou isso.
 
na pág. 52 eu não consegui entender o que significa “mas eu senti que ela tinha se juntado  à maioria”.
 
tudo bem que Capote cite em inglês um título de Colette, mas o tradutor brasileiro poderia procurar o título em francês de “My Mother´s house” ou indicá-lo em nota. (pág. 55)
 
na pág.61, há o seguinte trecho descuidado: “ele me deu um MURRO na cara, um GOLPE DE CARATÊ que deu a impressão…” etc etc. Não entende de caratê, mas creio que “murro” não seria o termo exato.
 
Não consigo imaginar ninguém falando (pág. 65): “Eu não levo. Posso meter. Mas não levo”. O cara diria “Eu não dou” ou algo similar, mas “não levo”, parece legenda de filme pornô, nas quais em vez de “me chupe” colocam “sugue meu pau”, coisa que ninguém fala na vida real.
 
Na pág. 76- Outra preposição e regência estranhas: “Por muitos anos fui parcial a Veneza” (e na página seguinte outro título de Jonesy que foi mantido em inglês).
 
         Em conversas com amigos que leram sua tradução, alguns estranharam outras coisas, que eu não tinha sacado, por exemplo  o termo “lambedora de carpetes” (pág. 79), que soa estranho em português.
      Espero, assim, ter escapado dos ´termos mais genéricos possíveis`, e sempre sublinhando que se trata apenas de opiniões”. (28.01.10)
       Fiquei impressionado com a presteza, a conscienciosidade e o brio profissional com que Guilherme me respondeu, quase ponto a ponto, e me envergonhei de não ter sido mais preciso no meu comentário sobre a tradução. Sua resposta também mostra como se pode discordar civilizada, porém incisivamente, de outrem:

“Agradeço muito os comentários mais detalhados enviados por email. Acho que tem um pouco de tudo: críticas em que você tem razão, críticas em que se trata de simples gosto pessoal (onde “gosto pessoal” é equiparado a “bom” e “gosto alheio” a “ruim”) e críticas relativas a trechos não há erro algum ou impropriedade alguma.

Alguns esclarecimentos gerais sobre opções tradutórias: não traduzo nomes de logradouros e não ponho notas de rodapé. Há quem goste e há quem não goste, mas são opções tão válidas e defensáveis quanto traduzir logradouros ou pôr as famigeradas (e na minha modesta opinião execrandas) notas de rodapé.

Quanto a “Hadrian”, você tem toda a razão — foi um deslize e vou avisar a editora.

“Nureyev” e “Nuriêv” estão ambos corretos e dependem apenas da norma usada para se transliterar do russo, mas as formas com Y em geral são meras cópias da transliteração inglesa, enquanto as versões com I seguem uma grafia mais de acordo com a nossa língua.Compare “Dostoevsky” com “Dostoiévski” ou “Tolstoy” com “Tolstói”, por exemplo.

A suposta preguiça na resolução do trocadilho Billy/billy explica-se simplesmente porque não há trocadilho: “billy” não é gíria para “pênis” em inglês. O personagem simplesmente chama o pênis do cliente pelo nome deste, da mesma forma que se poderia chamar o pênis de um sujeito chamado João de “joãozinho” ou algo assim.

Observação de Alfredo Monte (também em função dos comentários gerados pelo post)- Na verdade, nunca pensei que “billy” fosse gíria para pênis, só achava que poderia haver uma adaptação para o português da brincadeira.

Os termos especificamente gays parecem realmente não estar de acordo. Também vou ver se resolvo isso melhor e comunico a editora.

“Estar com dois corações” é uma expressão bastante comum — ao menos por aqui (Porto Alegre) eu ouço com certa freqüência. O Google também registra mais de onze mil usos dessa mesma construção só na primeira pessoa do presente do indicativo, com o que se pode afirmar com razoável margem de segurança que se trata de expressão conhecida. Significa mais ou menos “não conseguir escolher entre duas opções por querer a ambas” (como em “Estou com dois corações — não sei se vou para a praia ou para a serra”, dando a entender que ambas opções são tão boas que é difícil escolher).

“Meio de negócios” quer dizer “mais ou menos como de negócios”, como se costuma dizer em linguagem corriqueira. Aqui já aproveito para ressaltar que esse livro destoa completamente, em termos estilísticos, de quase tudo o que o Capote escreveu — é muito mais coloquial e talvez (não sei) isso tenha afetado sua impressão a respeito da tradução como um todo. Mesmo em inglês, a linguagem do Capote deste livro pouco lembra o Capote de Bonequinha de luxo ou dos contos, por exemplo.

“Vinha amarelo” é simplesmente um tipo específico de vinho. Se chama assim mesmo em português (o Google registra cerca de 6.000 ocorrências).

O trocadilho com “bastardo”, é verdade, fica mais fraco em português. Mas simplesmente não há como resolver de maneira muito mais satisfatória — se você conhecer algum termo que queira dizer tanto “filho ilegítimo” como “filho-da-puta” na nossa língua, por favor queira me comunicar e prontamente pedirei a alteração. Esse é um exemplo bastante característico de crítica fácil a um problema tradutório para o qual uma solução ideal é absolutamente difícil de encontrar.

Sobre o livro da Collette: não há tradução para o português. Daí a opção por não traduzir (geralmente eu só traduzo os títulos de obras para as quais existe tradução, para evitar dar ao leitor a impressão — nesse caso, falsa — de que o livro existe em português).

Quanto a “não levo”, concordo que pode não ser muito comum, mas daí a dizer que não existe ou que é tradução malfeita vai um longo caminho. Uma busca por “não levo no cu” no Google, por exemplo, dá quase cem resultados.

“Lambedora de carpete” é um termo baseado na expressão bastante comum “lamber carpete” (fazer sexo oral em uma mulher, quase sempre com a implicatura de que quem faz sexo oral é também uma mulher).

Em relação às regências apontadas, você também tem razão, embora meia dúzia de erros desse tipo em um livro de 200 páginas não me pareçam justificar o emprego do termo “desleixo” em relação ao trabalho realizado. Na verdade foi o que me incomodou na sua crítica: não o fato de estar sendo criticado — o que faz parte, embora nunca seja agradável –, mas por simplesmente ver chamado de “desleixado” um trabalho que pode ter sido feito com qualquer coisa, menos desleixo.

Como você pode ler acima, pelo menos algumas das soluções criticadas com termos tão contundentes no blog são perfeitamente defensáveis e redigidas em português cursivo. Claro que daí a agradar vai um longo caminho — a meu ver, tão longo quanto o que separa a opinião perfeitamente legítima de “não gostei da tradução” ou “eu teria traduzido diferente” da opinião questionável (em vista dos argumentos acima) segundo a qual a tradução foi feita com desleixo.

Seja como for, agradeço o tempo que dedicou a essa correspondência.” (28.01.10)

Creio também (e por isso pedi permissão a ele para divulgar nossa pequena correspondência) que as nossas observações mais detalhadas serão úteis e oportunas ao leitor do livro traduzido e do meu blog.

“Oi, Alfredo!,  Se quiser postar os esclarecimentos, fique à vontade, desde que eventuais comentários em resposta sejam feitos com respeito ao meu trabalho e também ao dos tradutores em geral. Naturalmente isso não o impede de tecer mais críticas se achar que esta é a coisa a fazer — apenas pressupõe que estas sejam redigidas com o mesmo bom-senso e a objetividade demonstrados no seu email, e não nos termos genéricos e abrangentes usados anteriormente no blog. Parece-me que críticas nos moldes dessas feitas no seu email só tem a acrescentar a essa relação tradutor-leitor (você apontou erros indiscutíveis pelo menos em relação ao nome “Hadrian” e às gírias do circuito gay — que pretendo corrigir em edições posteriores –, e acredito que pelo menos um ou dois comentários meus devam tê-lo convencido de que o que parecia ser erro não era), ao passo que menosprezar o trabalho do tradutor não contribui em nada para qualquer discussão que se pretenda minimamente séria ou útil a respeito do assunto.

Se estiver de acordo, vá em frente. Fique à vontade para corrigir quaisquer erros de digitação também (notei que comi um pedaço de uma frase logo no início do meu email e escrevi “vinha” amarelo, entre outros)”.(28.01.10);acho, por essa última observação que talvez ele pense que eu tenha uma sanha assassina andando à cata de erros e deslizes; só sou um pouco detalhista demais…

16/06/2013

OS MORTOS (The Dead), um texto-chave na obra de James Joyce

jj_bookshopos_mortos_capa

Fico sempre assombrado com a idade em que certos textos foram escritos. É o caso de Os mortos (The dead), o último e mais famoso conto de Dublinenses. James Joyce tinha  25 ou 26 anos ao escrevê-lo, naquela primeira década do século XX (nascera em 1882) em que se dedicava à criação da versão inicial do seu romance de formação, que só seria publicado, depuradíssimo em 1916, como Um retrato do artista quando jovem (dois anos antes, ele conseguira publicar, tardiamente, os quinze contos de Dublinenses, entre eles Os mortos, que fecha a coletânea).

Se Stephen Herói resultava informe, desagregado, frouxo enquanto narrativa, os contos daquela época mostram que Joyce poderia ficar na história como um dos grandes do gênero, independentemente da sua reputação futura, mais calcada na ruptura e na ousadia formal. São textos praticamente perfeitos, com um sopro do teatro de Ibsen neles[1], mas perfeitamente alinhados a grandes mestres “atmosféricos” (Maupassant, Turguêniev, Tchekhov) do gênero.

Caetano W. Galindo, que no ano passado causou sensação com sua tradução para Ulysses, agora traduziu para a Penguin/Companhia das Letras, dois dos contos de Dublinenses, o já referido Os mortos e “Arábias”. Com o acréscimo do monólogo de Molly Bloom, isso perfaz o pequeno volume joyceano para a coleção “Grandes Amores”.

Assim como A festa de Babette, de Isak Dinesen, Os mortos trata das pequenas ironias e truques do destino, do trançamento dos fios do cotidiano. Com seu espantoso senso do detalhe material, Joyce narra o pequeno baile tradicional na casa das tias solteironas do protagonista, Gabriel Conroy, as irmãs Morkan (e sua sobrinha, também solteirona) Mary Jane, na época do Natal. Apesar de se sentir um tanto “estrangeiro” e superior ao ambiente, por ser um intelectual mais “continental” do que arraigadamente irlandês, Gabriel tem muito carinho pelas tias, um sentimento cálido pelo pitoresco dublinense que elas representam, e no discurso obrigatório que é incitado exalta a “hospitalidade” como uma qualidade nativa que quase não encontra eco no resto da Europa.

O próprio Gabriel não se destaca de forma tão evidente na tessitura narrativa que dá conta dos eventos da festa, pois ali são muitos os centros de atração, como um microcosmo da “gente de Dublin”, não numa primeira leitura.

s_MLB_v_O_f_138451155_3267joyce dublinenses1012358-250x250

Mas, ao se reler o texto, vemos como Joyce calcula cada momento da festa de uma maneira a preparar o extraordinário clímax, centrado no casal Conroy, em que a materialidade toda aí narrada se torna insubstancial. E aí, durante a releitura, o leitor se dá conta de como o casal praticamente não é visto junto e mal interage durante a festa, tal como nos é narrada. Há um pequeno episódio de hostilidade (em que ele dá uma resposta atravessada à esposa) e há um momento de contemplação (em que ele, no andar de baixo, a vê encostada na escada, no andar de cima, enlevada com uma canção, da qual ele mal ouve a letra, cena que é reelaborada na mente dele como motivo para um quadro, ou seja, é como se a esposa e o seu momento de enlevo fossem um “motivo” artístico).

Apesar do carinho e respeito das tias e dos demais presentes, Gabriel é alvo de vários “foras” ao longo da narrativa, sempre de forma a frustrar um intento da parte dele, onde ele parece querer mostrar o melhor da sua natureza. Faz uma observação entre jocosa e paternal à jovem serviçal da festa, Lily, e dela recebe uma áspera réplica, dança uma quadrilha com a Srta. Ivors, sua contemporânea de geração, fervorosa patriota (“o grande broche que trazia preso à parte da frente de seu colarinho tinha um emblema irlandês e um lema gaélico”), que o espicaça como intelectual e escritor anglófilo, quase um traidor, colaborando com um jornal “inglês” e desconhecedor do idioma da terra natal.

Vale a pena transcrever uma parte do diálogo:

“__ E o senhor não tem de manter contato com o seu próprio idioma, o gaélico?—perguntou  a Srta. Ivors.

__ Bom, disse Gabriel, a bem da verdade, sabe, o gaélico não é a minha língua.”

A Srta. Ivors insiste, convidando-o a excursionar pelas Ilhas Aran no verão. Gabriel declina (ele, que se gabara de conhecer “não pouco da Europa” em outro momento da festividade):

“E o senhor não tem que visitar a sua própria terra—continuava a senhorita Ivors—, que o senhor mal conhece, ou o seu próprio povo, e o seu próprio país?

__ Ah, para ser sincero—retorquiu Gabriel subitamente—, eu estou cheio do meu país, cheio!

__ Por quê ?—perguntou a Srta. Ivors.

    Gabriel não respondeu, pois estava fervendo depois de sua reação.

__ Por quê?—repetiu a Srta. Ivors.”

    Ao comentar com a esposa a proposta de excursão para as Ilhas Aran e constatar o entusiasmo dela, é que ele dá a resposta atravessada que já mencionei. O ponto a se destacar aqui é que o casamento de Gabriel com a bela Gretta não acontecera sem tensões. Para a mãe de Gabriel, ela não passava de uma camponesa sonsa, que havia realizado um casamento além da sua condição social (esse desnível entre casais protagonistas é recorrente em Joyce). E essa lembrança vem à tona na festa justamente por conta dessas provocações.

Findando a festa, após contemplar Gretta ouvindo a canção e compondo uma “figura de quadro”, amortece em Gabriel a tensão entre sua “anglofilia” (que o afasta até da esposa) e sua condição de “dublinense”. E na ida para o hotel, com a magia da neve e das lembranças de momentos “encantados” do casal, desde a lua-de-mel, vai emergindo nele um furor de desejo por Gretta, tanto que ele não vê a hora em que estejam a sós.

Se podemos aproximar a parte da festa do modo cinematográfico (em que tantos mortos são evocados, de uma forma nostálgica e num misto de respeito e irreverência), é evidente que Joyce teatraliza ao máximo a parte final, ao concentrar-se no casal. Gabriel dispensa até a luz da única vela que o idoso funcionário do hotel trouxe até o quarto, e temos apenas a luz que vem dos lampiões da rua na madrugada de neve intensa. Não quero entrar em mais detalhes, mas é nesse momento em que ele já ruminou vários momentos íntimos do seu casamento, e o desejo está mais forte do que nunca, em que ele calou as provocações e acicatamentos das suas posturas éticas e intelectuais, que Gretta resolve confessar que a canção ouvida na festa a fez lembrar-se de um rapaz, Michael Furey, antigo paixonite adolescente, que “morrera por ela”. Eis aí um morto para a qual não há solução respeitosa ou irreverente, quase tão insidioso quanto o amante fantasmático da esposa do Fridolin de Breve romance de Sonho, de Arthur Schnitzler. Como vencer um amante morto? Que figura de homem cunhada por Gabriel em sua trajetória de marido e intelectual tem a virtude e o ímpeto de se impor a essa figura do passado? Pois o passado não é apenas o território das perdas, no sentido de mortes pessoais, mas das perdas, no sentido de possibilidades (o casal Bloom tematizará tudo isso com muito mais nuances, mais tarde, o espantoso é Joyce levantar tais questões na idade que tinha, e ele ainda tão autocentrado, apesar de já se valer dos benefícios que Nora trará a ele no sentido de libertá-lo desse emparedamento, tão visível em Stephen Herói, em Um retrato do artista quando jovem e mesmo na primeira parte de Ulisses).

Não é à toa que uma das pedras-de-toque para Os mortos fosse uma das “Irish Melodies” de Thomas Moore (“O ye dead”):

“É verdade, é verdade, somos sombras frias e pálidas

E os belos e bravos a quem amamos na terra se foram;

       Mas mesmo assim na morte,

       Tão doce o hálito vivo

Dos campos e flores sobre os quais caminhamos na nossa juventude,

        Que embora aqui condenados vamos

        Congelar nas neves de Hecla,

Saborearíamos isso por um momento, pensando que vivemos outra vez!”

0092843

    É bom não perder de vista que esse amor da juventude de Gretta é justamente de uma região próxima àquela que despertara nela o entusiasmo em revisitar (para irritação de Gabriel)  e que ela viu pela última vez Michael Furey na neve. Ou seja, todos os elementos e leitmotivs de Os mortos se ligam e se entretecem nos mínimos detalhes da trama, um tipo de composição (embora em ponto pequeno) que nortearia toda a futura produção joyceana. Sobre essas reverberações, Richard Ellmann em sua magnífica biografia comenta: “Os Mortos começa com uma festa e acaba com um cadáver, assim misturando funferal, como na vigília de Finnegan.”  E num trecho posterior: “Na sua lírica, melancólica aceitação de tudo o que a vida e a morte oferecem, é uma chave na obra de Joyce. Existe aquela situação básica de adultério, real ou imaginário, que existe em toda ela. Há a comparação joyceana especial de detalhe específico elevado a uma intensidade rítmica. O objetivo final da história, a dependência mútua entre vivos e mortos, é algo sobre o que ele meditou bastante desde sua juventude.”

E há a célebre e considerada enigmática frase do último parágrafo: “Era chegada a hora de ele partir em sua jornada rumo oeste”. Esse “rumo oeste” seria a indicação da curva que a vida tinha dado, em direção à morte, ou à consciência da mortalidade, pelo menos, no seu sentido mais pungente? Ou da aceitação de sua pátria, da qual deveria forjar a consciência incriada? Seu retorno à Ítaca para recuperar, enfim, a mulher?

Essa belíssima anedota do destino que marca definitivamente a primeira fase da obra de Joyce tem outra coisa em comum com A festa de Babette: ambos tiveram adaptações cinematográficas bem-sucedidas. A de Os mortos marcou um último grande momento da carreira de John Huston; ao contrário dos seus filmes imediatamente anteriores (Fuga para a vitória, Annie, À sombra do vulcão, mesmo o delicioso A honra do poderoso Prizzi),não se trata de um filme menor, mas de um trabalho que pode se alinhar ao que de melhor Huston fez (O tesouro de Sierra Madre, O segredo das joias, Uma aventura na África, Freud, Cidade das Ilusões, O homem que queria ser rei)  e a única grande aproximação entre Joyce e o cinema, pelo menos aquele de apelo comercial. E o título brasileiro realçou a verdade poética da fábula: Os vivos e os mortos. Nada mais exato.

(escrito especialmente para o blog, em 16 de junho de 2013)

imageslivro-dublinenses_MLB-O-3849876707_022013

TRECHO SELECIONADO

Na tradução de Caetano W. Galindo:

__ Ele era o quê?—perguntou Gabriel, ainda ironicamente.

__ Trabalhava na usina de gás—ela disse.

    Gabriel se sentia humilhado pelo fracasso de sua ironia e pela evocação dessa figura de entre os mortos, um menino da usina de gás. Enquanto ele estava tomado de memórias de sua vida conjunta secreta, tomado de ternura e de alegria, ela o estava comparando mentalmente a um outro. Uma consciência vergonhosa de sua própria pessoa o tomou de assalto. Ele se viu como uma figura ridícula, fazendo de garoto de recados para as tias, um sentimentalista nervoso e bem-intencionado, perorando para o vulgo e idealizando suas próprias luxúrias afobadas, o sujeito fátuo e reles que entrevira no espelho. Instintivamente virou as costas mais para a luz para que ela não pudesse ver a vergonha que lhe ardia na testa.

   Ele tentou manter seu tom de fria interrogação, mas sua voz, quando falou, era humilde e indiferente.

__ Acho que você foi apaixonada por esse Michael Furey, Gretta—ele disse.

__ A gente se dava muito bem naquela época—ela disse.

  A voz dela era velada e era triste. Gabriel, sentindo agora quanto seria vão tentar levá-la aonde planejara, afagou-lhe uma das mãos e disse, triste também:

__E de que foi que ele morreu assim tão novo, Gretta? Foi de tuberculose?

__ Acho que ele morreu por mim—ela respondeu.

thedead

    Na tradução de Hamilton Trevisan (Civilização Brasileira, 11ª. edição, 2006):

__Que fazia ele?—perguntou Gabriel, ainda com sarcasmo.

__ Trabalhava na companhia de gás.

   Gabriel sentiu-se humilhado pelo fracasso de sua ironia e pela evocação da figura do morto, um garoto da companhia de gás. Enquanto vibrava com íntimas recordações, repleto de ternura, alegria e desejo, ela o comparava com outro. Uma humilhante consciência de si mesmo o assaltou. Viu-se como uma figura ridícula, fazendo de menino travesso para as tias, um sentimentalista tímido e bem-intencionado discursando para pessoas vulgares e idealizando seus cômicos desejos: o lamentável pretensioso que vira de relance no espelho. Instintivamente, voltou-se contra a luz, para a esposa não ver o rubor que se alastrava em seu rosto.

   Procurou manter o tom de frio interrogatório, mas sua voz soou humilde e indiferente.

__ Suponho que esteve apaixonada por esse Michael Furey, Gretta.

__Queríamo-nos muito bem nesse tempo—respondeu ela.

   Sua voz era velada e triste. Percebendo como seria tolo tentar arrastá-la ao que pretendia, Gabriel começou a acariciar-lhe a mão e disse, também com tristeza:

__ E por que ele morreu tão jovem, Gretta? Tuberculose, foi?

__ Creio que morreu por minha causa.

thedead (1)

    Em 1993, José Roberto O´Shea traduziu assim (editora Siciliano):

__ O que ele fazia na vida?—perguntou Gabriel, ainda com ironia.

__ Trabalhava no gasômetro—ela disse.

   Gabriel sentiu-se diminuído pelo fracasso de sua ironia e pela evocação da figura do morto, um garoto que trabalhava no gasômetro. Enquanto ele revivia as lembranças da vida íntima do casal, cheio de carinho e felicidade e desejo, ela o comparava a um outro homem. Um grande sentimento de humilhação assaltou-o. Viu-se como uma figura ridícula, como um menino fazendo gracinhas para as tias, como um sentimental nervoso e ingênuo discursando para plebeus e idealizando seus próprios desejos ridículos: era de fato o sujeito presunçoso que vira refletido no espelho. Instintivamente, deu as costas para a luz, com receio de que Gretta percebesse a vergonha que lhe queimava o rosto.

  Procurou manter o tom frio de interrogatório, mas quando voltou a falar a voz saiu com um tom humilde e inócuo.

__Imagino que você esteve apaixonado por esse Michael Furey, Gretta—ele disse.

__Fui feliz ao lado dele, naquela época—ela disse.

   Tinha a voz velada e triste. Gabriel, dando-se conta de que seria inútil tentar levá-la na direção em que pretendera, acariciou a mão da mulher e disse, igualmente triste:

__ E ele morreu de quê, Gretta, tão jovem? Foi tuberculose?

__Acho que ele morreu por mim—ela respondeu.

   O´Shea fez pequenas modificações na sua versão de 2012 (editora Hedra):

__ O que ele fazia na vida?—perguntou Gabriel, ainda com ironia.

__ Trabalhava no gasômetro—ela disse.

   Gabriel sentiu-se diminuído pelo fracasso de sua ironia e pela evocação da figura do morto, um garoto que trabalhava no gasômetro. Enquanto ele revivia as lembranças da vida íntima do casal, cheio de ternura e alegria e desejo, ela o comparava mentalmente com um outro homem. Uma grande sensação de insegurança o assaltou. Via-se como uma figura ridícula, um menino fazendo gracinhas para as tias, um sentimental nervoso e ingênuo, discursando para plebeus e idealizando seus próprios desejos ridículos, o sujeito presunçoso que vira refletido no espelho. Instintivamente deu as costas para a luz com receio de que ela visse a vergonha que lhe queimava a fronte.

    Procurou manter o tom frio de interrogatório mas quando voltou a falar a voz soou humilde e inócua.

__ Imagino que você esteve apaixonada por esse Michael Furey, Gretta—ele disse.

__ Fui feliz ao lado dele naquela época—ela disse.

   Tinha a voz velada e triste. Gabriel, dando-se conta de que seria inútil tentar levá-la na direção em que pretendera, acariciou a mão dela e disse, igualmente triste:

__ E ele morreu de quê, Gretta, tão jovem? Foi tuberculose?

__Acho que morreu por mim—ela respondeu.

514T8A3AB7L._SL500_AA300_

Na versão de Guilherme da Silva Braga (L&PM, 2012):

__ O que ele fazia na vida?, perguntou Gabriel, ainda de maneira irônica.

__ Trabalhava no gasômetro, ela respondeu.

    Gabriel sentiu-se humilhado pelo fracasso da ironia e pela evocação dessa imagem dos mortos—um garoto no gasômetro. Enquanto sentia-se repleto de memórias da vida secreta do casal, cheio de ternura e alegria e desejo, ela o comparava com outro. Sentiu-se invadido por uma consciência vergonhosa em relação a si próprio. Viu-se como uma figura ridícula, como o estafeta das tias, como um sentimentalista nervoso e bem-intencionado que discursava para o vulgo e idealizava as próprias luxúrias farsescas, como o pobre sujeito patético que tinha vislumbrado no espelho. Instintivamente virou as costas em direção à luz para que ela não percebesse a vergonha que lhe abrasava o rosto.

   Tentou manter o tom frio de interrogação, mas quando falava a voz saía humilde e indiferente.

__ Parece que você era apaixonada por esse Michael Furey, Gretta, disse.

__ Nós éramos muito próximos naquela época, respondeu ela.

    A voz parecia velada e triste. Gabriel, percebendo que seria inútil tentar levá-la até onde pretendia, acariciou-lhe uma das mãos e disse, também com tristeza na voz:

__ E do que ele morreu tão jovem, Gretta? De tísica?

__Acho que morreu por minha causa.

dubliners

  No original, lemos:

–What was he? asked Gabriel, still ironically.

–He was in the gasworks, she said.

Gabriel felt humiliated by the failure of his irony and by the evocation of this figure from the dead, a boy in the gasworks. While he had been full of memories of their secret life together, full of tenderness and joy and desire, she had been comparing him in her mind with another. A shameful consciousness of his own person assailed him. He saw himself as a ludicrous figure, acting as a penny-boy for his aunts, a nervous, well-meaning sentimentalist, orating to vulgarians and idealizing his own clownish lusts, the pitiable fatuous fellow he had caught a glimpse of in the mirror. Instinctively he turned his back more to the light lest she might see the shame that burned upon his forehead.

He tried to keep up his tone of cold interrogation, but his voice when he spoke was humble and indifferent.

–I suppose you were in love with this Michael Furey, Gretta, he said.

–I was great with him at that time, she said.

Her voice was veiled and sad. Gabriel, feeling now how vain it would be to try to lead her whither he had purposed, caressed one of her hands and said, also sadly:

–And what did he die of so young, Gretta? Consumption, was it?

–I think he died for me, she answered.

capa_dublinenses.indd

ANEXO

já o primeiro parágrafo de Os mortos mostra como a tradução de Joyce sempre é cercada de contradições e complicações. Lily, a jovem serviçal que recebe os convidados da tradicional festa das irmãs Kate e Julia (e sua sobrinha Mary Jane) Morkan, é filha de quem?

Galindo traduz assim a primeira frase do conto: “Lily, a filha do zelador, estava literalmente perdendo a cabeça”.

Também assim o entendia o primeiro tradutor de DUBLINENSES no Brasil, Hamilton Trevisan:  “Lily, a filha do zelador, estava literalmente esgotada”.

Em 1993, na sua versão de DUBLINENSES, José Roberto O´Shea, no entanto, verteu assim o início do conto mais famoso do livro: “Lily, a filha da empregada, não conseguia ficar sentada um minuto sequer”.

No ano passado, O´Shea publicou nova versão da sua tradução. E o trecho de abertura aparece ali da seguinte forma: “Lily, a filha do zelador, estava literalmente exausta”.

Então poderíamos crer que, enfim, estava assentado que Lily é mesmo a filha do zelador. Mas no mesmo ano  apareceu a versão de Guilherme da Silva Braga, onde lemos: “Lily, a filha da zeladora, não tinha literalmente um segundo de sossego”.

No original: “Lily, the caretaker’s daughter, was literally run off her feet.”

Mais adiante, ainda no primeiro parágrafo, não creio que Galindo foi muito feliz ao caracterizar o arranjo que as solteironas fizeram para as senhoras na festa:

“…tinham transformado o banheiro do primeiro andar num CAMARIM para as senhoras

Na versão de Trevisan: “…tinham pensado nisso e convertido em VESTIÁRIO o banheiro de cima”.

Na primeira versão de O´Shea: “… tinham convertido o banheiro do segundo andar numa espécie de TOALETE feminina”; na segunda versão:  “…tinham pensado nisso e convertido o banheiro do segundo andar num TOALETE feminino”.

Na versão de Braga: “…tinham pensado nisso e convertido o banheiro no andar de cima em um VESTIÁRIO feminino.”

No original: “But Miss Kate and Miss Julia had thought of that and had converted the bathroom upstairs into a ladies’ dressing-room.”

Outro detalhe da tradução. O problema do nome de um dos personagens, o sr. Browne, aludido jocosamente por ele. Galindo traduz da seguinte forma: “Bom, senhora Morkan, tomara que eu esteja bem ´marrom´ na sua opinião porque, sabe como é, eu me chamo ´brown´, não é mesmo?”—o que, convenhamos, é uma solução fraquinha, fraquinha.

Trevisan solucionou (ou não solucionou, melhor dizendo) assim a blague: “Ora,senhorita Morkan, espero  que eu pelo menos seja bem dourado para senhora, pois, como sabe, sou todo Brown.”

Em 1993, O´Shea (que, aliás, chama a atenção para o trecho em nota de rodapé), solucionou assim: “Espero, Miss Morkan, que a senhora ache que eu esteja bem dourado, pois sou ´Browne´ da cabeça aos pés”.  Em 2012: “Espero, Miss Morkan, que a senhora ache que eu esteja bem dourado, pois sou ´bronzeado´ da cabeça aos pés.”

Na versão de Braga: “Bem, sra. Morkan, espero que pelo menos eu esteja moreno o suficiente, pois como a senhora sabe eu sou moreno até no nome!”

No original: “-Well, I hope, Miss Morkan, said Mr Browne, that I’m brown enough for you because, you know, I’m all Brown…”

CONSULTAR

http://english-learners.com/wp-content/uploads/THE-DEAD.pdf

200px-StephenHero


[1] “É preciso que se diga direta e imediatamente que àquela época Stephen sofreu a influência que mais lhe marcou a vida. O espetáculo do mundo conforme apresentado por sua inteligência com todos os detalhes sórdidos e enganosos alinhado ao espetáculo do mundo apresentado pelo monstro que o habitava, agora guindado a um estágio razoavelmente heróico, também costumava levá-lo a um desespero tão súbito que só podia ser aplacado por meio da composição de versos melancólicos. Estava prestes a considerar os dois mundos alheios entre si—por mais dissimulados que fossem ou por mais que expressassem o mais completo pessimismo—, quando encontrou, valendo-se de traduções pouco procuradas, o espírito de Henrik Ibsen. Compreendeu tal espírito instantaneamente (…) as mentes do velho poeta nórdico e do jovem celta inquieto se encontravam num momento de radiante simultaneidade. Stephen foi cativado primeiramente pela nítida excelência da arte: não demorou muito para ele afirmar, mesmo com escasso conhecimento do tratado, obviamente, que Ibsen era o melhor dramaturgo do mundo (…) Ali e não em Shakespeare ou Goethe estava o sucessor do primeiro poeta dos europeus, ali, somente como em Dante, uma personalidade humana se unira a um estilo artístico que em si mesmo constituía quase um fenômeno natural: e o espírito da época promovia uma união mais imediata com o norueguês que com o florentino.” (trecho de Stephen Herói, tradução de José Roberto O´Shea, editora Hedra)

The-Dead-Gente-di-Dublino19183232.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.