MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/03/2013

Os estrangeiros no território da condição humana: “O poder e a glória”

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https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/globalizacao-literaria-a-obra-de-graham-greene/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/os-esgotos-do-pos-guerra-e-os-escombros-da-camaradagem-masculina/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/20/personagem-a-procura-de-um-autor/

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de fevereiro de 2000

Comentei nesta coluna, na semana passada, Fim de Caso https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/o-abismo-das-impossiveis-reconstituicoes-e-os-resignados-habitantes-do-inferno/ sem fazer alusão a nenhuma das outras narrativas do mesmo cacife que o autor, Graham Greene (1904-1991), publicou em sua carreira de muitas décadas (ele publicou seu primeiro romance em 1928), por exemplo, O americano tranqüilo, Um caso liquidado, Viagens com minha tia, O cônsul honorário, O fator humano, Monsenhor Quixote. Mesmo com a alta qualidade de todas elas (e de outras mais), ainda assim perdem longe para um genial trio produzido ao longo de dez anos: Brighton Rock- O Condenado (1938); O poder e a glória (1940); The heart of the matter- O cerne da questão (1948).

No final da década de 30, Greene—que se convertera ao catolicismo—recebeu a incumbência de noticiar as perseguições religiosas do México revolucionário. Ele, então, escreveu um livro-reportagem, The lawless roads. Ninguém podia imaginar (apesar dos seus primeiros trabalhos serem muito bonitos —é o caso de Expresso do Oriente, Um Campo de Batalha, England made me-Bela e Querida Inglaterra, Assassino de aluguel, cuja leitura foi  uma das consequências da apaixonada e prolongada convivência com  Ways of escape-Pontos de fuga— e de ele já ter publicado uma obra-prima como Brighton Rock) que dessa pesquisa factual surgisse um dos livros de ficção essenciais e obrigatórios do século: O poder e a glória.

Ele se passa numa província onde os bananais e a expectativa da estação chuvosa, que torna os caminhos intransitáveis, dão o tom, além dos abutres que sobrevoam o tempo todo os acontecimentos. As igrejas foram fechadas ou destruídas, vários padres fugiram ou foram fuzilados como “traidores da Revolução”. Restaram dois: um, padre José, abjurou de sua fé e casou-se, sendo constantemente ridicularizado. Um outro, que não ganha nome na narrativa, é um bêbado que consegue manter-se em liberdade, e que teve uma filha.

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Um fanático tenente deseja “limpar” o país das superstições e da corrupção clerical e persiste na perseguição ao padre fugitivo. Este, por sua vez, em meio à degradação material e psicológica, “toca” a vida para a frente, conhecendo cada vez mais a Humanidade, muito mais do que no seu encastelamento como sacerdote, cargo que usava para sua própria ascensão social.

É muito espinhoso para quem não tem fé fazer um comentário imparcial ou simpático com relação aos problemas católicos levantados pelo livro. Prefiro abordar outro ponto essencial, mais afim com o existencialismo do que com a religiosidade: todos os personagens de O poder e a glória são ou se sentem estrangeiros na aldeia, na cidade, na província, no mundo. Seja o padre perseguido, seja o tenente fanático pelo dever revolucionário, seja o dentista (sr. Tench) que não consegue juntar dinheiro para sair do país e voltar à Inglaterra, seja a menina inglesa (Coral) que, exilada da infância, tem de tomar decisões de adulta devido à inutilidade e infantilização dos pais (o casal Fellows), seja o “gringo” assassino que vem encontrar seu fim no México, seja o mestiço que acabará por trair o padre, seja o menino que não consegue se convencer da baboseira católica com a qual a mão doutrina a todos na sua casa, ninguém que venha a primeiro plano deixa de demonstrar o mesmo desconforto com a vida. Todos apresentam o mesmo “olhar de estrangeiro” com que o sr. Tench abre a narrativa, olhar compartilhado que impede essa obra-prima de ser a visão eurocêntrica de um escritor sobre o Terceiro Mundo. Greene conseguiu um feito enorme evitando a armadilha de focalizar personagens de um país dependente. A fissura que existiria entre o narrador e o mundo retratado já está nos personagens, já está no absurdo do homem e do mundo coexistirem.

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Além disso, poucos romances podem se gabar de ter a quantidade de cenas admiráveis de O poder e a glória. Entre as que nunca saíram da memória, mesmo anos depois da leitura do romance (primeiro, numa excelente tradução portuguesa, quem diria, de Antônio Gonçalves Rodrigues; depois, na clássica versão de Mário Quintana; atualmente se publica a de Lea Viveiros de Castro), estão a cena em que o tenente reúne todos os habitantes de uma aldeia onde o padre acabou de rezar uma missa furtiva e este fica esperando alguém delatá-lo; a longa cena da noite na prisão (por bebedeira!), que termina com a demonstração da generosidade paternalista do tenente, o qual dá ao padre uns trocados para prosseguir a vida, sem suspeitar que ele é o homem a quem persegue; a cena terrível em que o tenente procura padre José para que ele seja o confessor do outro padre, antes de sua execução; e, mais que todas, a cena em que o padre chega faminto ao local onde a família de Coral habitava e o encontra desabitado, acabando por disputar um osso com alguma carne com uma cachorra moribunda. É um dos dois ou três momentos mais impressionantes da ficção no século XX.

    Infelizmente, não há espaço para falar do estilo de O poder e a glória. Graham Greene criou para si mesmo o folclore de que escrevia diariamente 500 palavras e parava, independentemente de estar no meio de uma frase. O que ele nunca explicou e ninguém talvez explique é como conseguia encontrar 500 palavras iluminadas todos os dias para dar vida à sua obra suprema.

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O abismo das impossíveis reconstituições e os resignados habitantes do Inferno

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de fevereiro de 2000)

Os freqüentadores de cinema já estão assistindo ao trailer da adaptação que Neil Jordan fez de Fim de Caso. O que está reservado a essa que é uma das melhores obras do escritor inglês só Deus sabe, após Jordan ter perpetrado o horrível In Dreams- Premonição, onde a maravilhosa Anette Benning enfrentava uma bizarra e constrangedora mistura de O sexto sentido comPsicose.

Seja qual for o resultado cinematográfico, versão ou aversão, pelo menos servirá para colocar o livro em evidência novamente.

O narrador-protagonista de Fim de Caso é o escritor Maurice Bendrix, que reencontra Henry Miles, marido de sua ex-amante, Sarah. A essa altura da narrativa, Bendrix faz questão de informar ao leitor várias vezes o ódio que sente por ela, após tê-la amado durante os anos de guerra.

Henry (que não desconfia que Sarah e Bendrix enganavam-no) confessa ter dúvidas a respeito da esposa. Pensou até em procurar uma agência de detetives, desistindo por medo de se expor. Insidiosamente, Bendrix sugere tomar seu lugar na ida à agência, “passando-se por amante de Sarah”. Henry recusa a oferta, mas o outro, tomado pelo ciúme e pelo ressentimento, resolve de fato contrata um detetive para segui-la.

Entre as muitas qualidades desse romance de 1951, o primeiro exercício de Greene com a 1ª. pessoa, seu agudo e arguto estudo do sentimento inquisitorial, para usar uma expressão de Proust, que é o ciúme, irmana-o a duas outras obras-primas supremas a respeito do tema, Dom Casmurro  e Em busca do tempo perdido. É bem de Greene transformar uma questão passional numa investigação detetivesca, um território profanando o outro. Pois Parkis, o detetive, desenvolve uma admiração romântica por Sarah, enquanto Bendrix deixa que o lado sórdido da investigação deforme o passado, para descobrir, ao fim e ao cabo, que nem de posse das palavras mais íntimas de Sarah (Parkis furta seu diário) consegue “saber tudo”: “Então ela ainda tinha segredos, pensei. Ela não colocou isto em seu diário, assim como não tinha escrito sobre sua doença. Quanta coisa mais haveria a descobrir? Essa idéia era desesperadora”.

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Nessa “corrida para o abismo das impossíveis reconstituições”, para mais uma vez usar palavras do mestre do assunto, Proust, Bendrix certamente concordaria com a seguinte passagem de A Prisioneira (quinto volume de Em busca do tempo perdido), assim como também subscreveria embaixo o seu outro colega, Bentinho Santiago: “Interminável é o ciúme, pois mesmo se o ser amado, tendo morrido, não o pode mais provocar pelos seus atos, acontece que reminiscências posteriores a qualquer fato se comportam de repente em nossa memória como outros tantos fatos, reminiscências que não havíamos esclarecido até então, que nos tinham parecido insignificantes e às quais basta que reflitamos sobre elas para lhe darmos um sentido novo e terrível… basta estarmos sós no quarto, a pensar, para que novas traições de nossa amante aconteçam, embora ela esteja morta. Por isso não se deve temer no amor tão somente o futuro, mas também o passado, o qual se realiza para nós muitas vezes depois do futuro, e não falamos apenas do passado que só se nos revela mais tarde, mas também daquele que conservamos há muito tempo em nós e que de repente aprendemos a ler”.

A originalidade de Fim de Caso é o Outro que emerge da investigação das idas e vindas de Sarah, Outro que determinou a separação entre ela e Bendrix, devido a um episódio que não convém contar. Quem é esse Outro, esse mr. X ? Greene assume o risco do ridículo e nos dá nada mais nada menos do que Deus. O descrente e ressentido Bendrix é obrigado a acompanhar, na sua corrida para o abismo das impossíveis reconstituições, passo a passo, o processo de conversão de Sarah, e obrigado, além disso, a encarar (aceitar já seria dizer muito) a possibilidade de existência do inaceitável, o milagre: após a morte de Sarah, alguns atos podem ou não configurar eventos milagrosos e Bendrix terá que se manter na corda bamba da dúvida. Se alguém tiver dúvida da intensidade a que se chega nesse triângulo em que Deus é um dos vértices, basta ler a cena inacreditavelmente (para usar um termo apropriado à trama) linda em que Bendrix encontra (e é a última vez em que a vê com vida) Sarah numa igreja.

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E haveria tanta coisa a mais a dizer sobre o livro: como Sarah é uma personagem incrível (o capítulo em que se conhece o teor do seu diário é um grande tour-de-force); como é emocionante a relação de amizade que se estabelece entre Bendrix e Henry (um dos achados de Fim de Caso é fazer com que eles, no final, acabem vivendo juntos, na esteira da “presença” de Sarah na existência de ambos); como o detetive Parkis e seu filho poderiam fazer parte do mundo de Samuel Beckett (o de Molloy, por exemplo, publicado no mesmo ano), com seu comportamento a um só tempo pateta e patético. Ou, ainda, a maneira como a trama é construída, com brilhantes ziguezagues temporais que permitem ao leitor conhecer passado (o tempo do “affair”) e presente (a partir do reencontro com Henry), ao mesmo tempo, e sem que ele quase se dê conta do deslizar de um para o outro.

É sempre assim com o autor de O poder e a glória e The heart of the matter- O cerne da questão: tem-se a ilusão de que se vai ler algo simples e linear e, de repente, somos assombrados por tramas mágicas e inquietantes. Ele aprendeu muito bem os feitiços de seu mestre, Henry James, o qual já foi chamado (por Borges) de habitante resignado do Inferno. Alguém que escreveu Fim de Caso só pode estar residindo na mesma localidade. Deve ser uma área do Além extremamente valorizada.

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Os esgotos do pós-guerra e os escombros da camaradagem masculina

VER TAMBÉM:

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https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/os-estrangeiros-no-territorio-da-condicao-humana-o-poder-e-a-gloria/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/o-abismo-das-impossiveis-reconstituicoes-e-os-resignados-habitantes-do-inferno/

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(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 30 de junho de 2007)

Aos poucos, Graham Greene, um dos meus autores favoritos  (apesar do veredicto derrisório de Vargas Llosa, em A verdade das mentiras: “um escritor eficiente, tímido e funcional, que se sentia satisfeito contando uma história com acerto, que fizesse toda uma classe de leitores passar um tempo feliz e distraído.. o que se propôs foi sempre pouco e muito abaixo do seu talento”), vai reaparecendo nas livrarias.

A Globo acaba de lançar novas traduções de O americano tranqüilo e do magnífico The heart of the matter, agora com o título nacional de O cerne da questão, após ter circulado por décadas como um risível O coração da matéria. A L&PM já republicara O fator humano e adicionou O terceiro homemà série que é vendida pelo espantoso preço de seis reais (mais espantosos ainda é o rol de autores que dela constam: Rilke, Sartre, Rimbaud, Scott Fitzgerald, Dalton Trevisan…)

Basicamente o argumento para um filme (aquela curiosa obra-prima de Carol Reed, que parece ter a mão, senão a alma, de Orson Welles, já que ele e seu amigo Joseph Cotten são os astros e toda a atmosfera evoca o universo do criador de Cidadão Kane e Mr. Arkadin mais do que o do próprio Reed, sempre um diretor mais para o “eficiente, tímido, funcional”, o que pode ser uma grande injustiça), escrito em 1949, O terceiro homem representa uma peça-chave para se compreender Graham Greene, principalmente pela maneira como Rollo Martins, o protagonista, se envolve na trama (cujo cerne da questão aparenta ser o mercado negro de penicilina no após guerra), e pelo cenário (Viena ocupada pelas grandes potências, uma terra de ninguém, ora patrulhada por americanos ora por russos).

A narrativa é feita por Calloway, o oficial britânico que está à caça de Harry Lime, o “terceiro homem”, companheiro de adolescência do imaturo Rollo, para quem é um ídolo, uma amizade de fascinação e subjugação, que o mantém em Viena, mesmo quando é informado da morte de Harry. A relutância de Rollo em aceitar conhecer o “verdadeiro” Harry Lime o faz penetrar cada vez mais nos meandros do submundo e na humilhação vienense, nessa ex-capital do supra-sumo da cultura européia, transformada numa opressiva e deprimente zona de guerra e mercado negro; ao mesmo tempo, um espaço privilegiado para a intuição poderosa de um escritor como Greene, que praticamente condensou o romance noir com o thriller da Guerra Fria (o filme ainda adicionou a pitada de pesadelo expressionista: quem pode esquecer, entre outras coisas, a perseguição pelos esgotos?).

O grande autor inglês se dá ao luxo de brincar consigo mesmo: a essa altura, ele já publicara seus três maiores romances (O condenado, O poder e a glória e o recém batizado O cerne da questão; eu adicionaria ainda pelo menos mais quatro na lista de suas obras máximas: Fim de caso,  O americano tranqüilo, O cônsul honorário e Monsenhor Quixote). Não é que ele caracteriza Rollo Martins, o homem que se recusa a crescer (“A muralha uniforme da ilusão não exibira rachaduras reais ao toque de seus dedos, até então, diz Calloway), aquele que será “sempre um colegial” (para utilizar um título dado aqui no Brasil a um romance do discípulo de Greene, John Le Carré), como autor daqueles livros ordinários de faroeste, escritos sob pseudônimo (e sequer ganha dinheiro com essa produção!) –e quem leu Pontos de fuga sabe como foi angustiante, para Greene, a adoção de uma carreira profissional de escritor.

Pois bem, mal chega a Viena, Rollo é confundido com um prestigiado e aguardado romancista inglês, e se vê dando uma palestra sobre “o romance moderno”. Um dos pontos altos de O terceiro homem, a cena torna-se particularmente deliciosa ao lhe perguntarem sobre James Joyce, como “situaria” o autor de Ulisses no quadro do romance moderno: “tivera um dia cheio: bebera demais com o coronel Cooler; apaixonara-se; um homem fora assassinado, e agora tinha a impressão de que estavam mangando dele. Zane Grey era um dos seus heróis. Estavam loucos se pensavam que ia aturar disparates…

__Se quer mesmo saber, nunca ouvi falar de Joyce. O que é que ele escrevia?”

    No angustiante universo de mentiras e logros de O terceiro homem, esse é um dos raros instantes (ainda que cômico) em que se diz uma verdade.

GLOBALIZAÇÃO LITERÁRIA: A OBRA DE GRAHAM GREENE

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(aqui estão reproduzidas algumas das resenhas escritas por mim sobre obras de Graham Greene ao longo dos anos e publicadas em “A Tribuna” de Santos)

 

 Resenha publicada em  A TRIBUNA de Santos, em 18 de janeiro de 1994:

Reflexões é um daqueles constrangedores produtos da decrepitude ou pós-morte de um autor importante, quando se fuça seus rabiscos e publica-se até a caderneta da padaria e a cartilha do beabá? Sabemos o quanto de lixo isso nos trouxe de Pessoa e Drummond, por exemplo, esse culto necrófilo e/ou mercenário das sobras…

Muitos textos dessa coletânea de textos circunstanciais escritos ao longo de décadas por Graham Greene (1904-1991) ou são curtos, abruptos e vagos demais ou são francamente ruins e juvenis no pior sentido. Há lugares comuns indefensáveis, como no tributo a Jorge Luis Borges, “espantou-me a expressão daqueles olhos cegos. Não pareciam cegos. Era como se estivessem olhando para dentro de si mesmos”!!!!

O leitor deve dar preferência mesmo ao ficcionista extraordinário, que nos deixou contos memoráveis, um trio de romances geniais (Brighton Rock- O condenado, de 1938; O Poder e a Glória, de 1940; The heart of the matter- O cerne da questão, de 1948), além de obras como Fim de Caso, O Cônsul Honorário, Viagens com minha tia, O fator humano ou Monsenhor Quixote, para citar algumas, que aguardam uma reavaliação para se conferir se não estão no mesmo patamar. Sem falar nos dois fundamentais depoimentos autobiográficos, Quase uma vida e Pontos de fuga.

Mesmo assim, há algo de instigante em Reflexões, pela revelação que faz da ética pessoal de Greene. Escrevendo sobre a Alemanha e a França pós-Primeira Guerra (e prevendo, com acerto, aos vinte anos, a segunda), sobre a Indochina, o Haiti, Cuba, Paraguai, Chile, Conan Doyle, sebos, cinema (artigos marcantes sobre este assunto, afinal ele foi crítico cinematográfico por anos), acaba nos esclarecendo um pouco porque foi o romancista que ampliou a consciência mundial da literatura, que deu sentido à frase lapidar de Joan Didion (no seu belíssimo romance Democracia): “ninguém está isento do movimento geral”; e, ao mesmo tempo, mostrou dilemas psicológicos tão intimistas e intrincados. No seu entender, o que acontece em Phat Diem ou o que ocorreu em 1597 com católicos ingleses coloca a todos nós em questão.

Por isso, o mais perturbador de todos os textos de Reflexões é “A virtude da deslealdade”: “Sempre foi conveniente aos interesses do Estado envenenar os poços psicológicos, estimular vais, limitar a solidariedade humana. Não será tarefa do contador de histórias agir como advogado do diabo, provocar simpatia e uma certa compreensão para com aqueles que estão fora dos limites da aprovação do Estado? (…) Ele representa as vítimas, e as vítimas mudam. A lealdade nos confina às opiniões aceitas, a fidelidade nos proíbe de compreender, de maneira solidária, os nossos companheiros dissidentes; a deslealdade, porém, nos estimula a penetrar qualquer mente humana”.

    Realmente, esse é o espírito que sopra sobre as águas da obra de Greene. Não foi por acaso que ele pôde escrever Monsenhor Quixote, romance definitivo sobre a equação ideologia e individualidade (não confundir com individualismo).

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Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 9 de janeiro de 1996:

Em A última palavra, coletânea de 12 contos, há duas histórias da Segunda Guerra: “As notícias em inglês” e “O tenente morreu por último”. Em ambas, dois solitários são o pivô dos acontecimento: uma mulher cujo marido é considerado por todos (a mãe, inclusive) um traidor, e que carrega consigo o peso de saber a “verdade”; um caçador ilegal que salva um daqueles típicos povoados ingleses (eles se tornaram quase míticos, após tantos filmes e livros, está aí Mrs. Minniver-A rosa da esperança, de William Wyler, que não me deixa mentir) de uma invasão alemã.

Como são dois textos de alto nível, possuem outros aspectos que poderiam ser explorados, mas esta resenha insistirá na impressionante maneira como a solidão ecoa de uma ponta a outra, dando notável unidade e coerência a essa reunião de “filhos pródigos” do autor de The heart of the matter- O cerne da questão. São contos que ele deixou de lado e dos quais, salvo engano, apenas “O bilhete de loteria”, um dos melhores, já fora publicado no Brasil, em outra tradução, pela editora Agir (em 1959, na coletânea Contos, cujos 18 integrantes foram meu primeiro contato com o Greene contista).

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A própria história-título, que abre o livro, com um tom que parece ter saído dos versos de T.S. Eliot, aqueles do final de A terra arruinada, que nos falam do fim do mundo como evento mais melancólico que apocalíptico, mostra um solitário: o último papa, desmemoriado após um atentado e o qual, já não possuindo seguidores e não representando mais uma ameaça (ou seja, não podendo tornar-se mártir), é executado por um compadecido inimigo.

Em “O momento da verdade”, um garçom descobre-se condenado pelo câncer e deposita toda esperança de solidariedade e simpatia num casal de fregueses americanos, freqüentadores por alguns dias do restaurante.

Restaurantes também são os lugares onde passa a vida o espião de “Uma divisão do serviço”, uma das inúmeras brincadeiras de Greene com o serviço secreto britânico, para o qual trabalhou e que adorava espicaçar. Já nesse conto a solidão se reveste de um ridículo atroz, explorado também em “Assassinato pelo motivo errado”, no qual aparece um personagem freqüente na ficção greeniana, o assassino recalcado e inseguro. Basta lembrar A gun for sale- Assassino de aluguel e do inesquecível Pinkie da obra-prima Brighton Rock- O condenado.

Outros que não escapam da ironia do grande autor inglês são os turistas, basta ler “O homem que roubou a Torre Eiffel”. Na verdade, só existem dois textos realmente fracos em A última palavra: “A casa nova” e “Uma obra inacabada”.

O que sobressai do conjunto é uma visão da sociedade em que todos estão abandonados à própria sorte, uma sociedade que torna cada verdade pessoal paródia de si mesma, uma sociedade em que as pessoas dedicam-se por anos a atividades miseráveis e incompreensíveis (os espiões durante a Guerra Fria, por exemplo). Enfim, um mundo que os críticos costumam chamar de greeneland (ele brinca com isso em Ways of escape- Pontos de Fuga, depoimento sobre a feitura das suas obras) e que nada mais é do que o mundo globalizado, um mundo que ele soube intuir e retratar de maneira magistral.

Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 17 de junho de 2003

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Com relação ao centenário do nascimento de Marguerite Yourcenar comentei que seu livro Golpe de Misericórdia (1939) era apreciado até mesmo por quem não gostava muito da obra da escritora belga. Isso acontece também com Brighton Rock- O Condenado, que geralmente sai ileso das críticas mais pesadas feitas a Graham Greene (de ser um autor convencional, comercial, para consumo da classe média, etc).

Ele está sendo apresentado numa edição que se apresenta como “revista”, embora ainda utilize como base uma velha tradução de Leonel Vallandro, igualmente utilizada em Portugal (como A inocência e o pecado), e que é muito boa, só ficou anacrônica no quesito gíria, já que o romance se passa no submundo e nos meios populares. E também há o problema do aportuguesamento dos nomes próprios. Eu costumava me irritar com a aportuguesada Rosa (a personagem-chave do enredo) e fiquei feliz ao vê-la se tornar uma legítima e inglesa Rose. Mas parece a dose foi demasiada e o remédio só piorou a doença: uma sucessão de palavras incorporou o Rose reconquistado. O leitor conhece uma polícia vagaRose? Pois aparece na página 152. E há um vagaRosemente tanto na 205 quanto na 296. Temos doloRosemente (155,283,336), doloRose (190,279, 317), rancoRose (200), tenebRosemente (218), tenebRose (283, 295), indecoRosemente (291), prazeRosemente (239), temo “Roses, roses, roses, por todo o caminho” (234), ficamos sabendo que a vida não é cor-de-Rose (220), que “nem tudo são Roses” (270)!!???!!

Será que estamos diante da versão Finnegans Wake de O condenado? A revisão é tão malfeita que fica faltando uma frase num diálogo entre Pinkie, o protagonista (vivido de forma memorável no cinema pelo então ótimo ator e agora soporífero cineasta Richard Attembourough), e Spicer, o comparsa que ele acabará por assassinar (“Para ? Que está querendo insinuar?”, o leitor NÃO encontrará na página 136), além de metade da frase “Que não foi vocês sabem quem, na página 159; além disso, dividiram em dois parágrafos uma fala importantíssima de Pinkie (numa conversa com Rose, quando tenta incitá-la ao suicídio), na página 311, truncando-a e quase a tornando incompreensível. Haveria muito mais a dizer. Paremos por aqui. Edição “revista” !!! é esse o respeito que as editoras brasileiras têm pelos seus leitores (ou vítimas).

É uma pena que a obra-prima de Greene chegue aos brasileiros tão desfigurada: quando a publicou, em 1938, ele estava apenas com 34 anos e já escrevera alguns romances talentosos: o geralmente subestimado, até pelo próprio autor, Expresso do Oriente, Um campo de batalha, Bela e querida Inglaterra, Assassino de aluguel. Chegara, entretanto, a hora da genialidade na história do gangsterzinho de 17 anos, Pinkie, o Garoto, cuja quadrilha disputa com mr. Coleoni o faturamento do submundo das apostas em corridas de cavalo na cidade balneária de Brighton. Eles assassinam um jornalista, Hale, o qual (para azar deles), antes de ser apanhado, procurou refúgio nos braços de Ida Arnold, mulher de “implacável vitalidade” e que partirá para uma insólita retaliação. Dela se diz não havia lugar no mundo onde se sentisse forasteira”, “não havia nada a que se sentisse alheia”, “somente aquelas trevas em que se movia o Garoto lhe eram estranhas. Não tinha piedade com aquilo que não compreendia”.

    Para escapar da forca, o Garoto resolve se casar com a única testemunha que sobrou do caso Hale, a garçonete Rose. Tanto ele quanto ela são católicos. Como também são menores, casam-se por meio de uma artimanha legal apenas no civil, caindo no mundo do pecado mortal segundo as leis da igreja (e é bom levar a sério esse conceito de pecado mortal, leitor, pois é essencial ao romance). Começa, então, a disputa entre Pinkie e Ida (essa mulher nem sabe o que é um pecado mortal”) pela alma de Rose, que revolucionará a trama noir e transformará Brighton no palco temporário do Inferno.

ADENDO DE 2010-André de Oliveira Lima editor atual de literatura da Globo, entrou em contato comigo e gentilmente me enviou um exemplar da reimpressão de O condenado (de 2006) onde esses erros todos foram corrigidos.

Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, 24 de junho de 2003

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Depois de comentar os imperdoáveis erros da nova edição de O condenado, de Graham Greene,, é preciso falar mais a respeito do livro, obra-prima de um autor cuja popularidade não parece dar sinais de arrefecer, como mostram as contínuas adaptações cinematográficas: tivemos, há pouco tempo, uma surpreendente e brilhante versão de Neil Jordan para Fim de Caso (a qual deu ensejo para a alta inspiração de Julianne Moore e Stephen Rea como intérpretes de Sarah e seu marido Henry); no ano passado, Philip Noyce refilmou O americano tranqüilo, com o grande Michael Caine (que já havia sido um fantástico personagem-título na adaptação de O cônsul honorário).

Como já se comentou aqui, o protagonista de O condenado, Pinkie, vulgo o Garoto, é um gangsterzinho de 17 anos, um “pequeno ditador”, que carrega sua “cruel virgindade”, assumindo a liderança de uma quadrilha no submundo das corridas de cavalo em Brighton, especialmente após a eliminação do jornalista Hale. Para não correr riscos, Pinkie resolve casar-se com a única testemunha que pode ligá-lo a Hale, a garçonete Rose, católica e menor de idade como ele.

Casam-no civil, porém o sentimento de pecado mortal (por não se sacramentar o matrimônio na igreja) assombra o casal, “na sombria teologia em que os dois estavam absortos”.

    Uma das raras coisas boas da edição da Globo é o prefácio de Marcelo Pen, onde se fala do livro como “thriller metafísico”. De fato, é como se fosse um enredo policial ao estilo de um Borges ou de uma Clarice Lispector. Por um curioso erro de percepção, Greene achava que a base policialesca da intriga (a Primeira Parte, com a perseguição de Hale) deveria ter sido cortada quando o romance tomou sua feição final.  É o que se lê em Pontos de fuga: “As primeiras 50 páginas são tudo o que resta da história policial. Iriam irritar-me, se eu ousasse examiná-las agora, pois deveria ter tido a força de vontade suficiente para retirá-las, e começar a história outra vez, por mais difíceis que se tornassem as revisões, com a agora chamada Segunda Parte.

O problema é que a desprezada Primeira Parte é incrível: tudo está lá, todas as linhas de força do romance, a partir da inesquecível frase inicial (“Ainda não fazia três horas que Hale estava em Brighton quando compreendeu que pretendiam assassiná-lo); aliás, poucos livros podem se gabar de começar de forma tão inspirada, e terminar com uma frase mais perfeita ainda, se possível (Rose caminhava rapidamente, no leve sol de junho, ao encontro do maior de todos os horrores).

Outro inacreditável erro de avaliação de Greene é justamente com relação a Rose. Para ele, era uma de suas personagens que não conseguiram adquirir vida, que só estão ali por causa da trama. Pois bem, Rose é a grande personagem, a alma de O condenado, bem mais do que o próprio Pinkie ou sua oponente, Ida Arnold. Rose está para Graham Greene como Macabéa para Clarice Lispector: a mesma nulidade social, o mesmo desamparo existencial, a mesma qualidade patética de “ser” com tão pouco, de tirar tanto de nada. Nos momentos em que Rose está no centro do palco, o estilo de Greene chega ao auge.

E por falar em estilo, há determinadas imagens insólitas que parecem Faulkner (é só pegar Santuário). É o caso de uma caracterização do advogado, mr. Prewitt, responsável pelos arranjos para o casamento (e que tem perfeita consciência da situação de todos, ao citar Fausto: “O inferno é aqui e nós estamos dentro dele”; de passagem, há até um detalhe bobo e dispensável para indicar isso: o número do telefone da pensão de Pinkie é 666): “A expressão de simpatia não lhe assentava; tinha-se a impressão de que era possível despegá-la dos seus olhos, como etiqueta colada pelo leiloeiro num antigo instrumento de sílex. Parece Faulkner (que justamente publicava suas grandes obras por essa época), mas a semelhança é devida a uma influência comum a ambos: Joseph Conrad. Pois o coração das trevas tanto fica em Brighton quanto no Mississipi.

Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 16 de março de 2004

os farsantes

Há algum tempo, Caetano Veloso cantava que o Haiti era aqui. Em 1966, Graham Greene mostrou-se mais profético ainda ao escrever em Os farsantes o seguinte trecho: “O Haiti não era uma exceção num mundo sadio: era uma pequena fatia do dia a dia tomada ao acaso.

Quase quatro décadas depois, com o estado das coisas no Brasil e no mundo, e depois da intervenção totalitarista dos EUA exilando de forma sumária um chefe de estado, o lançamento do romance pela Globo torna-se mais relevante, embora não seja uma das obras mais citadas do grande escritor inglês, cujo centenário de nascimento se comemora este ano.

Felizmente, não temos uma edição “revisada” ao modo desastroso de O condenado. Mesmo assim, alguns problemas persistem. O título, por exemplo. Talvez fosse melhor manter a solução da antiga versão de Brenno Silveira, um literal Os comediantes (para The comedians), uma vez que as ligações entre os personagens são metaforizadas sob a forma da atuação (o que deixa indignada a protagonista feminina, que se recusa a ser vista como alguém que está “representando um papel”, como admitem cinicamente –ou seria resignadamente?—seus companheiros). O único problema no caso é que o termo comediante está associada em nossa língua aos papéis cômicos, e aqui teria de ser estendido à comédia humana que nos envolve a todos. “Farsantes” ou seu correlato “impostores” diminuem muito o alcance da metáfora.

Há lapsos na revisão: na página 37, o sr. Smith diz que nem ele nem a esposa (ambos, personagens antológicos) são pessoas “que tenham prazeres moderados” (e é justamente o oposto); na página 79, a frase “quando penso em todo aquele desperdício na Broadway é atribuída a Martha, amante do narrador e protagonista, Brown, e é a mulher que se recusa a ser uma “comedian”, comediante ou farsante (na burocrático e sonífera versão de Peter Glenville eles serviram de veículo para mais uma reunião do casal Elizabeth Taylor e Richard Burton), quando na verdade é dita pela sra. Smith (que, no filme, era a lendária Lílian Gish); na página 112, Brown afirma que tinha razão para se preocupar e deveria ser o contrário (naquele momento, ele não tinha razão nenhuma para ficar preocupado, o que será ironicamente desmentido pelos acontecimentos); enfim, volta e meia esbarramos nalgum enguiço. No geral, entretanto, a tradução é boa.

Depois de Fim de caso (1951), Greene afeiçoou-se às narrativas em primeira pessoa. Em The comedians, Brown é o cidadão de nacionalidade inglesa (embora de origem duvidosa) que mantém um hotel de luxo em Porto Príncipe, abandonado pelos turistas quando a violência da ditadura de Papa Doc e dos tontons macoutes se torna mais virulenta. Ele é mais dos estrangeiros envolvidos em situações locais no mapa da Greenelândia (no México, em O poder e a glória; na África, em O coração da matéria; bi Vietnã, em O americano tranqüilo; em Cuba, em Nosso homem em Havana; no Paraguai, em O cônsul honorário), embora talvez seja o menos ilustre, talvez porque aqui o autor se mostre um tanto cansado. Além disso, ele persiste numa certa sátira aos americanos tranqüilos, ou “inocentes”: o casal Smith chega ao Haiti no mesmo navio de Brown e Jones (este, o mais enigmático e ambíguo dos “comedians” da trama) e hospedam-se no hotel do primeiro. Sua meta: convencer o governo haitiano das vantagens do vegetarianismo, o qual consumiria as paixões humanas.

Humanitário, progressista, otimista, o casal comove Brown e o leitor, escapando do ridículo por causa da sua integridade e bravura quixotesca, ainda que ineficazes e até inconvenientes, quando se opõem às situações de arbítrio e opressão que por acaso testemunham, como o seqüestro, a caminho do velório, do corpo de um ministro que se matou (à beira da piscina do hotel de Brown) ao figurar como persona non grata do regime: “numa ditadura, as pessoas não são donas de nada, nem de um marido morto”.

    Parece que hoje em dia as coisas ficaram piores. As pessoas não são donas nem de um presidente em exercício. Ele pode ser levado a qualquer momento.


20/06/2012

Personagem à procura de um autor

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de dezembro de 2008)

Há 50 anos, Graham Greene publicou um romance maravilhoso ambientado na Cuba imediatamente anterior a Fidel Castro: Nosso Homem em Havana. Um trecho define bem a relação do protagonista, Wormold, com a capital cubana: nunca se acostumaram com a sua presença. A seus olhos, ele jamais se tornara um residente: seguia sendo um turista permanente, e, assim, lançavam-se em sua direção. Estavam certos de que, mais cedo ou mais tarde, como todos os demais, ele desejaria ver o Super-Homem em ação no bordel San Francisco”. O mítico Super-Homem, possuidor de um membro descomunal, também entra em ação no Chefão II (1974): os irmãos Corleone, Michael e Fredo, assistem a seu número numa cena-chave em que o novo chefe da família se conscientiza da traição do irmão mais velho.

Super-Homem e a atração do comércio sexual na Havana dos anos 50 reaparecem com vigor nos primeiros capítulos de Nosso GG em Havana (2004, em versão de Paulina Wacht e Ari Roitman), fazendo prever uma narrativa bem engendrada.  GG desembarca nesse paraíso tropical da desrepressão (embora um tanto úmido e quente), procura lugares com apresentações pornográficas e se envolve com o Super-Homem, o qual, após seu show viril, adota a identidade de Caridad, um travesti belíssimo que vai tirar a virgindade de mister Greene (e como todos os autores nos quais parece visível um certo culto fálico, Gutiérrez nos solta esta pérola, mesmo que banhada em distanciamento irônico: “Para GG foi a experiência mais forte da sua vida. Jamais imaginou que uma coisa tão extraordinária pudesse lhe acontecer”; alguém poderia me informar por que um ato banal como dar o rabo seria uma experiência extraordinária ou gloriosa?). Pois bem, ambos são presos, acusados de assassinato (encontra-se um cadáver no camarim de Super-Homem/Caridad).

Aí ficamos sabendo que o verdadeiro GG estava em Capri e que acabara de finalizar O Americano Tranqüilo (cuja ação transcorre na Indochina), citado algumas vezes e motivo de reflexões que percorrem Nosso GG em Havana. Ao saber do escândalo envolvendo seu nome, apesar dos conselhos do editor que quer aumentar a vendagem das suas obras e lhe recomenda que fique “na moita”, ele não hesita em ir a Cuba e investigar o caso, sendo abordado, pressionado e ameaçado pela inteligência americana, por espiões soviéticos, por uma milícia que liquida nazistas refugiados na América e, ao fim e ao cabo, por um gângster bastante persuasivo nas suas perorações e seus métodos.

Nas mãos de Greene, isso resultaria decerto numa ficção fascinante; nas mãos de Gutiérrez ela vai se transformando numa coisa morna e desalinhavada. Dá até para entender para onde se encaminha o entrecho, no sentido de mostrar que, no fundo, interesses e táticas soviéticos e americanos são idênticos (o que projeta uma longa sombra sobre o feito revolucionário na Ilha, ainda um dos resquícios do sentimentalismo de Esquerda). Quando GG é seqüestrado pelo gângster, ele descobre quem é que manda verdadeiramente em Cuba: é quem controla o business, e para quem todas as outras preocupações (ideológicas, inclusive) são insignificantes

O problema de Nosso GG em Havana é ficcional. Com traços rápidos, Gutiérrez conseguira captar, a princípio, a pobreza que havia por trás do suposto glamour que atiça os turistas, e além disso, polarizar as diferentes reações entre o suposto GG (sujeito pobre, fracassado, reprimido sexualmente) e o verdadeiro GG (a essa altura bem sucedido e famoso no mundo inteiro, só que angustiado, obcecado pelo sentimento de pecado, mesmo sendo dado às extravagâncias eróticas, ainda que heterossexuais). Dois britânicos quase da mesma idade, mas de status diferentes, deparando-se com um “paraíso sensual” (“era uma cidade pra se visitar, não para se viver nela… embarcara no grande assunto de Havana: as relações sexuais não eram apenas o principal comércio da cidade, mas a raison d´être da vida de um homem”, lemos em Nosso Homem em Havana), que também comporta violência policial, tortura; aliás, uma situação “globalizada”, por assim dizer, que o genial Graham Greene antecipou e captou muito bem em seus livros passados em diferentes lugares do mundo, e sempre com essa tônica: labirintos de escolhas sórdidas e velhacarias.

Ora, Gutiérrez deixa tudo isso de lado, e se dedica a nos entediar com os confrontos do impotente GG com a tal milícia que assassina os nazistas e com os que a espreitam. O pequeno romance, atravancado, fica parecendo aqueles filmes do gênero “noir”, nos quais nos dão um monte de elementos e nunca conseguimos estabelecer uma relação muito clara entre eles (por exemplo, a confusíssima trama de À Beira do Abismo, de Howard Hawks), embora seja muito mais pobre e tosco do ponto de vista do colorido narrativo e do charme.

O GG que se encanta com Super-Homem/Caridad mal aparece depois na história. O GG que persegue o fio da meada fica como um personagem à procura de um autor porque Gutiérrez tem pressa e quer terminar seu romance. Um vôo muito curto.

24/12/2010

“A cidade há de seguir-te(…) A esta cidade sempre chegarás”

Em Pontos de fuga, Graham Greene, ao falar sobre lugares que capturam o nosso coração, escreve: “Aos 31 anos, na Libéria, dei meu coração à África Ocidental… Meu amor pela África aprofundou-se ali, em particular pelo que é chamado, no mundo inteiro, a Costa, aquele mundo de tetos de zinco, de urubus pousando ruidosamente, de caminhos de laterita ganhando uma cor rosada à luz do entardecer.”

Há exatamente 50 anos, Lawrence Durrell (1912-1990) lançou o primeiro volume (Justine) do mais inesquecível registro ficcional do feitiço de um lugar: “Em essência, o que é essa nossa cidade? O que resume o nome Alexandria? Num relance, minha mente exibe incontáveis ruas tomadas de poeira..o doce odor da poeira dos tijolos e das calçadas quentes saciadas com água”.

É desconcertante que só agora apareça uma tradução brasileira de O quarteto de Alexandria (durante anos circulou por aqui a ótima versão portuguesa, de Daniel Gonçalves), que seria completado em 1960. Trata-se de um dos romances mais belos a destrinçar o paradoxo de se existir mais na memória do que no próprio ato de viver.

Então, temos a cidade e a memória, o labirinto e o fio de Ariadne que nos permite percorrê-lo. A cidade, em sua dimensão mitológica, onde Justine, amante do narrador “errava em busca (no meio de uma terrível solidão do espírito) do lampejo que lhe revelaria uma nova perspectiva do seu ser” (é preciso dizer que a, em geral correta, tradução brasileira, às vezes carece de graça. Veja-se como ele traduz o mesmo trecho: “buscando com uma dedicação assustadora a centelha definitiva que a elevaria até uma nova perspectiva de si mesma”). Essa busca é a tentativa de quebrar as imagens fixadas nos espelhos cuja reiterada aparição no livro acabam proporcionando-nos uma imprevisível mistura de Proust e Borges, o mundo da memória perseguindo o Ser e o mundo fantasmagórico em que o ser é apenas um reflexo e igualmente pode Não-ser: “Na hora de ir  para a cama, Justine olhava-se no espelho do primeiro patamar da escadaria e ralhava com seu reflexo: Estou cansada de você, sua judia presunçosa e histérica!”

O narrador do livro é um professor irlandês, envolvido com uma dançarina de cabaré que se prostitui, Cléa. Ele conhece Justine, esposa do milionário Nessim, discípula do místico Balthazar, descendente espiritual da sua homônima criada pelo Marquês de Sade, envolta em sensualidade, mas com um “ar de perpétuo esgotamento” (“uma verdadeira filha de Alexandria; nem grega, nem síria, nem egípcia, mas um híbrido, um complexo”). Enfim, uma mulher “que arrancava as pessoas dos seus velhos invólucros”. A cidade, a memória, a mulher, os grandes pólos enfeitiçantes, imantadores e galvanizantes da literatura, que propiciarão ao narrador o “primeiro grande desastre da idade madura”, numa ciranda amorosa alexandrina que oferecerá “uma existência que esperava de nós o impossível: que existíssemos” na “zona de atração que  Alexandria criava para aqueles que escolhera como seus símbolos”.

Cidade, memória, mulher, espelhos. E um fantasma literário vindo admoestar constantemente o Hamlet de Durrell: o poeta de Alexandria, Konstantinos Kaváfis (1863-1933), com sua poesia de momentos irrisórios impiedosamente reconstruídos:

Dizes: “Eu vou para outras terras, eu vou para outro mar.

Hão de existir outras cidades melhores do que esta.

De todo o esforço feito –estava escrito—nada resta

E sepultado qual um morto tenho o coração.

Até quando vai minha alma ficar nesta inação?(…)

Não acharás novas terras, tampouco novo mar.

A cidade há de seguir-te. As ruas por onde andares

Serão as mesmas… A esta cidade sempre chegarás…

A vida, pois, que dissipaste aqui, neste cantinho

Do mundo, no mundo inteiro é que a foste dissipar”. ( (tradução de José Paulo Paes)

(resenha publicada em três de março de 2007)

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