MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/10/2011

Graciliano: o experimentador que não precisou das vanguardas literárias

(aproveitando o lançamento de uma edição comemorativa dos 75 anos de Angústia, reproduzo abaixo uma resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de março de 2003)

Dos cinco maiores autores brasileiros de ficção (Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos e Lima Barreto), o único que nunca tinha sido comentado nesta coluna era o criador de Vidas Secas. O cinqüentenário da sua morte (ocorrida em 20 de março de 1953) é propício para reparar essa falta.

Graciliano demorou a publicar. Apesar de trabalhar desde meados da década de 20 em Caetés, só deixou que o lançassem em 1933, já quarentão. Esse primeiro romance está longe de ser desinteressante (e ainda aguarda uma revisão), mas é aquele tipo de livro que aqui sempre chamo de “mal amado”, que geralmente só é lido e estudado em função do conjunto da obra.

Tudo muda (e como muda!) com São Bernardo, publicado no ano seguinte. Talvez seja o seu melhor livro (pelo menos, para mim, é o meu favorito) e já mostra que ele seria um dos grandes experimentadores da técnica narrativa (o que nada tem a ver com mero formalismo) no Brasil. Fôssemos menos periféricos, teria o mesma influência e impacto da obra de um Faulkner, por exemplo.

Narrado em primeira pessoa, é um exercício em que o vivido e o narrado se amalgamam e se contradizem de uma forma que só comporta comparação com Dom Casmurro, com o qual compartilha o tema do ciúme: o impulso açambarcador do protagonista, Paulo Honório, que o faz apossar-se da propriedade que dá titulo ao romance, arrefece diante da resistência (para ele, enigmática) de sua esposa, Madalena, cujo suicídio o arrasta para a inércia e o desamparo existencial, que fazem o latifundiário, ao se tornar narrador, tentar atar os fios da sua vida.

Apesar de, em aparência, perseverar no uso da primeira pessoa em seu romance seguinte, Angústia (1936), o gênio de Graciliano se radicaliza e faz uma experiência assombrosa com o fluxo de consciência através do protagonista, Luís da Silva, o qual assassina co uma corda o sujeito que engravidara sua vizinha (e por um tempo noiva), Marina. É um livro difícil, pois no discurso do narrador passado, presente, percepção da realidade (uma realidade muito sombria, a do Estado Novo) e alucinação expressionista se misturam. Poucas vezes se usou o chamado tempo psicológico (para diferenciar do tempo cronológico) de forma tão incrível e espessa.

Há em Angústia uma visão mutilada do ser humano: os personagens sempre aparecem com um aspecto físico hipertrofiado, como se fossem constituídos de fragmentos enormes e ameaçadores, como a mulher grávida que Luís da Silva encontra na rua e cujo ventre parece metamorfosear-se num monstro que engole toda a cidade de Maceió.

Nós encontraremos as raízes dessa visão no relato autobiográfico Infância (1945), uma obra-prima e que, em seu gênero, só encontra similar em As palavras (1964), de Jean-Paul Sartre. Trata-se de um texto terrível, e suas conseqüências mais óbvias aparecem na história de Luís da Silva, que aproveita vários episódios e figuras da infância real de Graciliano.

Depois de São Bernardo e Angústia, e antes de Infância (o resto da obra do extraordinário escritor alagoano não chega a esse nível de realização literária, mesmo o pungente e severo relato da sua prisão, Memórias do cárcere, que o autor deste artigo confessa nunca ter chegado a ler inteiro), mais uma obra-prima, provavelmente a mais perfeita entre as escritas no Brasil: Vidas Secas (1938).


O grande feito de Graciliano nesse romance “desmontável” (ou seja, os capítulos podem ser lidos como contos independentes) é o uso que faz do discurso indireto livre:  ao abordar, numa narração em terceira pessoa, a introspecção de gente que, além de miserável, se debate num vácuo de linguagem, ele consegue uma convincente, exata e ainda insuperada interseção entre a narrativa culta e seus personagens rústicos. Além disso, e qualquer pessoa que leu o texto concordará, não há personagem animal mais inesquecível do que a cadelinha Baleia. O capítulo em que seu dono resigna-se a matá-la é uma das poucas coisas que legitimamente arrancam lágrimas de um verdadeiro leitor. A sua releitura sempre me nos ensina o que significa de fato a palavra comovente.

A respeito disso, Antônio Cândido resumiu de forma definitiva (para variar): [Graciliano é] “um dos raros cuja alta qualidade parece crescer à medida que o relemos. E como costumava dizer Alfredo Mesquita, a releitura é quase sempre fatal para a maioria absoluta da narrativa ficcional brasileira”.

20/02/2011

A deformação da psique masculina: o “homem” visto pelo homem

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de janeiro de 1999)

    Nick Nolte esteve entre os indicados ao Globo de Ouro e está indicado ao Oscar deste ano por sua interpretação em Temporada de caça[1], filme do grande Paul Schrader[2] baseado num romance de Russell Banks (Affliction: EUA-1989, traduzido por Geni Hirata), no qual  o narrador chamado Rolfe, um professor universitário, procura revelar a seqüência de eventos que levaram seu irmão, Wade, a assassinar o pai (esmagou o crânio dele com um rifle e depois incendiou-o) e Jack, um colega de serviço (ambos trabalhavam para uma companhia de perfuração).

      Ao contrário de Rolfe, Wade permaneceu na pequena cidade onde ambos nasceram, Lawford. Divorciado, fracassado, bêbado e violento, além do serviço que divide com Jack, ocupa o posto de único policial do lugarejo. Não que isso lhe dê qualquer prestígio ou autoridade, pois não consegue entregar sequer uma multa de trânsito ao dono de uma BMW (que coloca a multa no bolso de Wade e o manda passear).

     Três situações vão desencadear a “explosão” de Wade, ao mesmo tempo em que transcorre a temporada de caça aos veados da região: uma dor-de-dente intolerável (Wade arrancará o dente com um alicate); a luta pela custódia da filha com a ex-mulher; a possibilidade de que seu patrão na companhia perfuradora, Gordon, tenha utilizado Jack no assassinato de um importante sindicalista, morto durante uma excursão de caça.

    Mais do que uma mera historinha de fracassados e de conspirações criminosas, a Aflição de Wade e Rolfe é uma impressionante investigação ficcional a respeito da brutalidade e da boçalidade masculinas. Enquanto escrevo este artigo, vejo uma matéria sobre a rivalidade de gangues de jiu-jitsu, que levou dois idiotas a trocarem tiros numa danceteria. E toda a estrutura do livro de Banks é destinada a mostrar os estragos causados por essa cultura da porrada e da demonstração de macheza.

     Wade tem um comportamento violento e ameaçador porque, sendo costumeiramente espancado pelo pai desde criança, quando chegou à adolescência, mesmo assim não conseguiu revidar ou enfrentá-lo, como fizeram outros irmãos. Essa “covardia” inata distorceu completamente seu relacionamento com um mundo cheio de códigos truculentos (não é à toa que Temporada de caça, e nesse sentido o título brasileiro foi bem feliz, relaciona a história de Wade com a revoltante cerimônia anual dos caçadores “por esporte” chegando à região para matar o “seu” veado; aliás, qualquer sociedade que permita e tolere a caça “por esporte” jamais poderá ser chamada de civilizada e, no que me diz respeito, quem gosta de caçar está junto do estuprador, do pedófilo e do latrocida).

    Todos os personagens masculinos importantes do livro são destruídos pela mistura de frustração e violência: Wade, Rolfe, o pai deles, Jack. A esse respeito, nenhuma passagem é tão contundente em Temporada de caça quanto aquela em que Wade e Rolfe atribuem um ao outro um espancamento que teria ocorrido aos seis anos. Wade conta o episódio como se tivesse acontecido com Rolfe, este nega e diz que, na verdade, ouviu dos outros irmãos que tinha acontecido com Wade, como uma advertência do que poderia acontecer a ele. Rolfe, que está  sempre conversando com o leitor, diz então que se tornou uma criança cautelosa e depois um jovem cauteloso e, por fim, um adulto cauteloso, mutilado de qualquer espontaneidade e autenticidade na sua relação com o mundo.

   É curioso notar como Temporada de caça faz o leitor brasileiro lembrar  dos dois magistrais romances de Graciliano Ramos, São Bernardo & Angústia, que também tratam da deformação da psique masculina por causa da tradição da violência e brutalidade: tanto Wade quanto Rolfe crescem num ambiente que incita a vencer o mundo pela brutalidade (uma brutalidade que não desdenha de utilizar a astúcia), como faz Paulo Honório em São Bernardo, mas o fracasso social (de Wade) e a intelectualização da frustração (por Rolfe) lembram o Luís de Anngústia. Não por acaso ambos os livros têm como títulos distúrbios emocionais e psicológicos (angústia e aflição).

     Infelizmente, o autor de Perdidos na América fica aquém do nosso Graciliano por conta de escorregões no tom da narrativa, momentos em que ele adquire um meloso emocionalismo, um exagero da dramaticidade, que leva quase ao dramalhão, portanto ao pieguismo, lembrando muito um autor de talento que se perdeu no clima soap opera, Pat Conroy, de O príncipe das marés (que, como o leitor deve recordar, gerou um dos mais horrorosos filmes de todos os tempos, por coincidência estrelado também pelo sonolento Nick Nolte,e que também lhe rendeu uma indicação ao Oscar), no qual o narrador-protagonista também era um produto da violência e da brutalidade, que ele procura apaziguar em si mesmo ao longo da história.

     Mesmo com as imperfeições apontadas, Temporada de caça não se perde no caminho como O príncipe das marés (que, no entanto, não é de se desprezar). É  um romance marcante, forte, porque mostra que ainda temos de lutar com as forças irracionais, primitivas e desagregadoras que as pessoas geralmente se abstêm de analisar e sentimentalizam, perpetuando-as em relações familiares e amorosas.

   


[1] Mas quem acabou levando Oscar pelo filme foi o veterano James Coburn no papel do pai de Nolte, e de fato sua interpretação é muito forte.

[2] Lamentavelmente, apesar de ser uma adaptação da mais absoluta correção, não é dos filmes mais marcantes de Schrader.

27/12/2009

Em relação ao século XX: 100, 75, 50, 25 anos de obras e autores

[Juan Carlos Onetti]

{Eugene Ionesco}

[Norberto Bobbio]

[Selma Lagerlöf]

100 anos- Em 2009, a escritora alemã Herta Müller ganhou o Nobel. Exatamente cem anos atrás, a sueca Selma Lagerlöf (1858-1940) tornava-se a primeira mulher a receber o prêmio. Não conheço muito bem sua obra,  só li algumas histórias de De saga em saga, uma coletânea que aparece numa coleção dos premiados com o Nobel, porém há um ensaio excelente de Marguerite Yourcenar sobre ela em Notas à margem do tempo, e que nos faz vislumbrar um universo fascinante.

    No mesmo ano em que a autora de A saga de Gösta Berlings (seu livro mais conhecido) se tornava a pioneira de uma lista ainda muito pequena, nascia na Romênia natal de Herta Müller um dramaturgo originalíssimo, que faria parte do chamado “teatro do absurdo”: Eugene Ionesco, de A cantora careca, Os rinocerontes; A lição; e, no Uruguai, um dos prosadores que mais mereceriam o Nobel no século XX: Juan Carlos Onetti, com obras do calibre de A vida breve, O estaleiro & Junta-Cadáveres, e que forma, com o argentino Jorge Luis Borges e o mexicano Juan Rulfo a santíssima trindade da ficção hispano-americana.

      Também em 1909, nascia o grande pensador italiano Norberto Bobbio, autor dos ensaios maravilhosos reunidos em Nem com Marx, nem contra Marx. E na Letônia nascia o luminoso Isaiah Berlin (que faria carreira na Inglaterra), o autor de Pensadores russos, um pensador que gostava mais de escrever ensaios do que preparar “livros”.  E naquele ano, Lima Barreto lançava seu libelo anti-racista que também, e principalmente, é um poderoso romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha.

75 anos- De 1934, gostaria de destacar dois romances essenciais: o maior livro de Graciliano Ramos, São Bernardo (ser o melhor livro de um escritor como Graciliano é um fato por si só notável; para mim, aliás, os maiores romances brasileiros do século passado são Grande sertão: veredas; A maçã no escuro; São Bernardo  & Triste fim de Policarpo Quaresma); e o terrível e avassalador Morte a crédito, de Louis-Ferdinand Céline (que talvez seja até maior do que sua obra-prima anterior, Viagem ao fim da noite). Vidas secas e cheias de angústia no Nordeste e na França. A vida lembrada, cá e lá, como memórias do cárcere

[raymond chandler]

50 anos- É difícil escolher o acontecimento literário supremo de 1959, ano em que morria o grande Raymond Chandler, pois nesse ano iniciavam suas carreiras gloriosas nomes como Günter Grass, com O tambor de lata, certamente um dos maiores romances já escritos; os outros não começaram já nesse patamar: Philip Roth (Adeus, Columbus), Vargas Llosa (Os chefes) e Dalton Trevisan (Novelas nada exemplares). O único título comparável em magnitude ao de Grass talvez seja O almoço nu, que revelou o universo muito peculiar de William Burroughs, mas cuja legibilidade maior foi possível graças à notável versão cinematográfica de David Cronemberg (a versão de O tambor nada tem de notável). Mesmo assim, um romance cinquentenário pelo qual tenho um carinho especial é Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr, merecidamente um clássico da ficção científica, mas que não se restringe a um “livro de gênero”. Na área de contos, é difícil pensar num título mais importante do que As armas secretas, de Cortázar, não só por causa da sua qualidade literária (o meu favorito é “Cartas da mamãe”, mas o mais considerado é “O perseguidor”, baseado na vida de Charlie Parker), como pela sua influência na literatura dos anos 60 e 70: basta lembrar que “As babas do diabo” foi a inspiração de Antonioni para seu Blow up (1968). Também não se pode esquecer a irreverência, a jovialidade e o trato de linguagem de Zazie no metrô, a obra-prima de Raymond Queneau.

     Em 1959, Jean-Paul Sartre dedicou-se a escrever um roteiro imenso (depois não utilizado, naquela época não existiam as produções para a tv a cabo, não existia a HBO; mesmo assim, Sartre resmungou que as pessoas tinham paciência para ver quatro horas da vida de Ben-Hur e não tinham para ver a vida do criador da psicanálise) sobre a vida de Freud para John Huston. O filme é ótimo, mas o texto de Sartre não fica atrás: Freud, além da alma; o marcante romancista português Vergílio Ferreira lançou sua obra mais famosa, o difícil porém importante Aparição; e há quem ache uma obra-prima (não é o meu caso) Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, ainda assim um livro que se deve levar em conta. Em todo caso, eu prefiro o folhetinesco Asfalto selvagem, as deliciosas desventuras em série de Engraçadinha, uma das grandes criações de Nélson Rodrigues

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion, e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras.

julio cortázar & truman capote]

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion (sempre cito uma de suas frases, “ninguém está isento do movimento geral”, e sua heroína, Inez Christian Victor, é como se fosse uma amiga pessoal), e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras, a qual justamente em 1959 havia escrito o mais belo dos roteiros em hiroshima, meu amor, dirigido por Alain Resnais.

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