MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/03/2015

A QUESTÃO É ESTA, NÃO HÁ OUTRA: GONÇALO M. TAVARES E A TRAGÉDIA DA SOBREVIVÊNCIA

2014-684079362-2014012951626.jpg_20140129b48f0ed1-8211-4d6a-a1c3-44e549d6eba3

«Os acontecimentos que o céu nos proporciona manifestam-se sob as mais diversas formas; e muita coisa acontece, para além de nossos temores e suposições; muita vez o que se espera, nunca sucede; e o que nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses» (Eurípides, Alceste)

«Não se trata já de intervir no destino,

esse sentido abstrato para onde antigamente

                  [caminhavam as coisas

(como se fosse um plano inclinadíssimo).

Trata-se, sim, de algo bem mais concreto

                  [e ofensivo:

uma tentativa de intromissão no normal

                  [funcionamento

dos órgãos humanos (…)

Que intervenham no vago destino mas não

                  [em vísceras vivas… »

(Gonçalo M. Tavares, Os velhos também querem viver)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de março de 2015)

Era de se esperar que um autor tão prolífico como Gonçalo M. Tavares mostrasse sinais de arrefecimento. No entanto, Os velhos também querem viver (Editora Foz) prova que sua inventividade continua afiada: trata-se de um poema narrativo, em cinco partes (além de prólogo e epílogo) que segue os acontecimentos de Alceste —a mais antiga (encenada pela primeira vez em 438 a.C.) entre as tragédias preservadas de Eurípides—, ambientando-os em Sarajevo durante o cerco pelo exército sérvio (1992-96), guerra recente que pulverizou a Iugoslávia[1].

O protagonista, Admeto, é atingido por uma bala, nos azares da refrega, e deve morrer[2]. O deus Apolo, não concordando com o «nobre noivado entre causa-efeito» exige da morte exceção para seu protegido. Seu desejo será atendido se alguém se oferecer a substituir o morto. Todos, inclusive os pais de Admeto, se recusam, mas sua esposa, Alceste, aceita o sacrifício. Moribunda, faz com que ele prometa nunca colocar outra mulher dentro de casa.

Por essa altura, Hércules chega a Sarajevo. Admeto é conhecido por sua hospitalidade e esconde o luto que há na casa por Alceste, o que escandaliza servos e cidadãos (há um Coro, composto de gente mutilada pela guerra), ainda mais que o famoso herói se revela um fanfarrão, bebendo e festejando à larga. Um dos servos, num momento de revolta, revela o ocorrido e ele, envergonhado, se propõe a resgatar Alceste da morte. Acontece que ele a traz de volta sob um véu, sem se dar a conhecer, e pede que Admeto a receba, em flagrante quebra da promessa solenemente feita. Hércules o admoesta: «Qual o sentido do sacrifício de Alceste?/Qual o sentido de ela te dar a sua vida se depois tu/vivo/ficas a lamentar-te de o estar?» Ou seja, mais que sobreviver, “viver” é trair os mortos.

É nessa linha, também, o embate—durante os funerais de Alceste—entre Admeto e o pai, Feres. O filho acusa o pai de covardia por não ter se oferecido em seu lugar, o pai não entende por que não deveria continuar a viver, mesmo velho, com poucos anos pela frente. Heroísmo, códigos de honra, afetos e laços entre as gerações ficam em xeque diante do apego à sobrevivência (ainda mais numa cidade em ruínas, onde a morte é presença diária): «Aos mortais Apolo, o deus, pergunta/um a um, como num mero interrogatório policial:/Queres viver?/Sim, todos respondem, Sim, queremos viver!//E a questão é esta, não há outra… » Diga-se, de passagem, que o final “feliz” a diferenciar Alceste de outras tragédias (tornando sua reputação canônica um tanto quanto problemática) ganha um cunho impiedosamente irônico em sua nova versão (para ser franco, nem o final da peça de Eurípides, «a volta feliz de Alceste»–estas as últimas palavras da peça[3]—, apesar do reencontro dos esposos proporcionado por Hércules, me parece tão auspicioso assim, ainda que se furte à mortandade habitual nas obras do gênero—não dá para apagar os acontecimentos anteriores, e principalmente a quebra da promessa em nome da hospitalidade, para não falar da própria situação inicial[4]).

O entrelaçamento de um poderoso mito grego (com importantes desdobramentos éticos), daqueles que fundamentaram a civilização europeia (e ocidental, por extensão), com um episódio histórico (Sarajevo, em plena consolidação da União Europeia) cuja maior consequência foi desvelar as fraturas (para não dizer a falência) desse projeto civilizatório, que não resolveu dilemas recorrentes, em particular a guerra e as distinções de classe e de gênero (no caso de Admeto, até o privilégio de ter alguém para morrer em seu lugar[5]), é um grande trunfo de Os velhos também querem viver.

Entretanto, o que impressiona fortemente é a exatidão milimétrica da linguagem, que recria Eurípides num compasso à João Cabral de Melo Neto, desde a «bala inequívoca» que atinge Admeto e se aloja «na casa mais casa que um homem tem/a sua cabeça, o seu cérebro»[6]: «Os velhos, note-se, sempre pareceram formas/humanas/de, em plena vida, se publicitar a morte;/formas experientes de anunciar algo que/se aproxima/por baixo, por cima, por todos os lados».

Deuses e semideuses estão presentes na Sarajevo do genial autor português (nascido em Angola). Nem eram necessários: a vida nua e o arbítrio do destino e dos homens são o que há de mais constante na existência.

____________

[o texto acima foi publicado no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 25 de março de 2015, VER:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/03/a-questao-e-esta-nao-ha-outra-goncalo-m.html]

welcome-to-sarajevo

alceste

TRECHO SELECIONADO

«De fato, se existissem instrumentos técnicos

capazes de transformar a tensão do cortejo

                      [em energia explosiva,

toda a cidade de Sarajevo iria pelos ares,

e Sarajevo assim não precisaria de inimigos,

bombas ou cerco: bastaria um sacrifício,

e a insatisfeita perplexidade que nos outros

                     [daí resulta,

para a cidade colapsar e se render.

 

O tremor não vem, pois, do cansaço ou da carga

                     [física

de quem carrega o caixão;

um morto pesa, estranhamente, na direção oposta,

fenômeno que vai contra os preconceitos da  velha

                    [Física

e muitos outros.

Um morto pesa para cima, faz força no sentido

                    [do solo para o céu;

como se imóvel saltasse, ou quisesse saltar,

dali para o que está no topo do nada, esse nada

                    [que existe,

mas no lugar mais afastado.

A sensação, pois, de que o transporte de um morto

                    [tem limites simbólicos

e não apenas de linhas traçadas no chão:

é necessário descanso, mesmo para os que

                   [passaram para aquele lado

onde não há cansaço».

i853morte de alceste

ANEXO

Abaixo vão alguns trechos marcantes de Alceste: quando Admeto fala de sua situação ao coro; quando o seu pai, Feres, contesta suas recriminações; e, por fim, aquele belo recurso do teatro clássico, em que uma personagem secundária (e mais “comum”) narra para nós as ações de um protagonista.

«Amigos, a sorte de minha mulher é, em minha opinião, mais feliz do
que a minha, embora pareça o contrário. Nenhuma dor a atingirá jamais e
de muitos sofrimentos saiu gloriosa. Eu, porém, que já devia ter morrido,
escapei ao destino para arrastar uma vida miserável; compreendo-o agora.
Como poderei eu transpor a entrada desta casa? A quem dirigirei a palavra
ou quem me saudará, que possa alegrar a minha chegada? Para onde me
voltar? A solidão da minha expulsar-me-á, quando diante dos olhos eu
tiver o leito vazio da minha mulher e as cadeiras em que se sentava, e sob o
teto um solo coberto de pó. E os meus filhos, lançando-se sobre os meus
joelhos, hão de chorar a mãe, enquanto os servos lamentarão a boa senhora
que a casa perdeu. Eis o que se passará no interior da minha casa. Mas, no
exterior, os esponsais dos Tessálios e as reuniões de mulheres hão de
impelir-me de novo para o palácio; não suportarei ver as companheiras de
minha mulher. E qualquer inimigo meu poderá dizer estas palavras: “Vede
como ele vive na vergonha, ele que não ousou morrer, dando em troca
aquela que desposou para escapar cobardemente ao Hades. Julgará ele,
depois disto, que é um homem? E ainda odeia os pais, por não ter querido
morrer.” Esta a fama que há de somar-se à minha desgraça. Que vantagem
terei eu em viver, amigos, prejudicado na reputação e mergulhado na
infelicidade?»

image001

«Ó filho, quem julgas tu, na tua insolência, que estás a atacar com as
tuas injúrias? Um Lídio ou um Frígio comprados com o teu dinheiro? Não
sabes que sou tessálio, filho de pai tessálio e livre por nascimento?
Abandonas-te a muitos excessos, mas, depois de lançares contra mim os
teus juvenis sarcasmos, não vais partir assim. Gerei-te a criei-te para seres
senhor deste palácio, mas não tenho obrigação de morrer por ti. Não recebi
dos antepassados, nem é grega essa lei de que os pais devem morrer pelos
filhos. Feliz ou infeliz, é para ti que nasceste. O que devias receber de mim
já o possuis. És chefe de muitos homens e deixar-te-ei terras de muitas
jeiras que recebi de meu pai. Em quê, pois, te causei dano? De que te privo
eu? Não morras por mim, que eu não morrerei por ti. Regozijas-te de ver a
luz? E pensas que o teu pai não tem o mesmo direito? Imagino como será
longo o tempo debaixo da terra, e a vida é breve, mas agradável.
Entretanto, tu, sem pudor, lutaste para não morrer e estás vivo: escapaste à
sorte imposta pelo destino, matando-a a ela. E falas da minha cobardia, ó
celerado, quando afinal tu te deixaste vencer por uma mulher que morreu
por ti, por um jovem lindo como tu? Descobriste uma boa maneira de
nunca morrer, se persuadires sempre a mulher que tiveres na ocasião a
morrer por ti. E vens agora insultar os teus por não quererem fazer isso,
quando tu próprio não passas de um cobarde? Cala-te e pensa que, se tens
amor à vida, os outros também têm; e se continuas a dirigir-me palavras
desagradáveis, vais ouvir muitas do mesmo gênero, e merecidas.»

image001

«CORO
Então que ela saiba que, morrendo em glória, é de longe a mais
nobre mulher debaixo do sol.

CRIADA
Como não há de ser a melhor? Quem o contradirá? Que terá de ser a
mulher capaz de exceder? E como pode alguém demonstrar mais amor por
um esposo do que oferecendo a vida por ele? A cidade inteira conhece
esses fatos; e as coisas que fez em casa, ouvi-las-ás com admiração.
Quando se apercebeu de que chegava o dia marcado, banhou o alvo corpo
em água do rio e, tirando de uma câmara de cedro um veste e adereço,
vestiu-se como lhe competia. Depois, colocando-se em frente ao altar de
Héstia, orou assim: “Senhora, visto que vou para debaixo da terra, tens-me
aqui a teus pés, pedindo-te pela última vez, que veles pelos meus filhos
órfãos: une um em casamento com uma esposa querida, a outra dá-a a um
nobre esposo. Que os meus filhos não morram novos como sua mãe que já
sucumbe, mas felizes, na terra de seus pais, terminem uma vida aprazível.”
Aproximou-se de todos os altares que estão na casa de Admeto,
coroou-se e fez preces, ao mesmo tempo que cortava folhagem de ramos de
mirto., sem chorar, sem gemer, sem que o mal próximo lhe alterasse a
beleza natural da face. E depois, lançando-se para o quarto nupcial e
caindo sobre o leito, aí chorou e disse: “Ó leito, onde desatei o meu cinto
virginal com aquele homem por quem morro, adeus! Não te odeio: só a
mim perdeste. Morro por não ter querido trair a meu esposo e a ti. Outra
mulher te possuirá, não mais leal, mas talvez mais feliz.”
Caindo de joelhos, beija o leito e inunda-o de lágrimas, afasta-se de
cabeça baixa, arrancando-se para fora da câmara nupcial, mas, depois,
retrocedendo muitas vezes, volta de novo para o leito. Os filhos, agarrados
às vestes da mãe, choravam; e ela, tomando-os nos braços, acariciava ora
um ora outro, como quem ia morrer. Em casa, todos os criados choravam,
lamentando a sua senhora. E ela estendia a mão direita cada um, e ninguém
era tão vil que não recebesse a sua palavra e que não lhe correspondesse.
São estes os males que há na casa de Admeto. Atingido pela morte, ele
teria perecido, mas foi salvo e, no entanto, suporta tal dor que jamais
esquecerá.»

Goncalo-M.-Tavaresimages

11069907_442997892531198_8960314560228548837_n

_____________

NOTAS

[1] Aliás, Sarajevo aparece em pontos nevrálgicos da história europeia contemporânea, basta lembrar de que um atentado ali ocorrido foi o estopim da Primeira Guerra.

[2] Em Alceste, Apolo toma a palavra logo no início para explicar o contexto da sentença de morte de Admeto:

«Ó casa de Admeto, na qual eu me resignei aceitar a mesa de mercenário, eu que sou um deus! De tudo foi Zeus o causador, ao destruir meu filho Asclépio, lançando-lhe o fogo ao peito. Por este motivo, enfurecendo-me, mato os Ciclopes, artífices do fogo de Zeus; e o meu pai impôs-me, como expiação, ficar a serviço de um homem mortal. Vindo para esta terra, apascentei os bois do meu hospedeiro e guardei a sua casa até este momento. Sendo eu justo, encontrava um homem justo no filho de Feres, que livrei da morte, enganando as Parcas; e as deusas prometeram-me que Admeto escaparia à morte iminente se entregasse em troca outro morto aos senhores dos Infernos. »

Mas é bom lembrar que o mito grego tem outras variantes: Admeto ganhou a mão de Alceste ao aparecer diante do pai dela num carro puxado por leões e javalis, façanha que realizou com a ajuda de Apolo. Porém, durante o sacrifício da festa de casamento, Admeto se esquece de honrar a deusa Ártemis, e encontra seu quarto cheio de cobras. E nesse momento que o deus que serve e protege negocia com as Parcas o acordo com que redundará no sacrifício da esposa.

[3] Pelo menos na tradução de J. B. de Mello e Souza, publicada nos Clássicos Jackson, volume XXII (e que pode ser lida em www.ebooksbrasil.org/eLibris/alceste.html). Na versão sem indicação de autoria, em http://arnobiorocha.com.br/wp-content/uploads/2011/04/alceste1.pdf, o Coro encerra a peça assim:

«Muitas são as formas do divino e muitas as ações imprevistas dos deuses. O que esperávamos não se realizou; para o inesperado o deus achou caminho. Assim terminou este drama».

[4] Admeto, na peça de Eurípides, despede-se de Hércules: «Sê feliz, Hércules! Possas tu retornar mui breve a nosso lar! Que os cidadãos de Feres e todos os habitantes da Tessália celebrem este ditoso acontecimento por festas e danças; que em todos os altares a chama do holocausto se erga, em meio de preces de gratidão! Porque uma vida melhor se vai seguir a dias tão funestos! »

Em outra tradução: «Boa sorte e oxalá tenhas certo o regresso! Aos cidadãos e a toda a tetrarquia ordeno que festejem com danças estes felizes acontecimentos e que os altares fumeguem com a carne propiciatória dos bois. Trocamos agora o passado por uma vida melhor; não negarei que sou feliz.».

Invertendo a frase de Albert Camus sobre Sísifo, para que nós, modernos, tenhamos um mínimo de empatia com o herói euripidiano, “é preciso imaginar Admeto infeliz”, o que talvez  Gonçalo M. Tavares indique na passagem derradeira de seu Os velhos também querem viver:

«Admeto espera, mas Hércules não se faz demorar:

com a mão direita tira o véu da frente do rosto

                        [daquela mulher.

Admeto estremece: é Alceste;

                         está viva. »

[5] «Em tempo de guerra quem faz mais falta:

o homem que fora de casa combate

ou a mulher que dentro de casa protege os filhos

que mais tarde sairão de casa para combater?

Não há resposta e nunca houve resposta,

dentro ou fora de Sarajevo».

[6] «E sim, agora, neste instante: Admeto, o esposo
da nossa heroína,
atingido por uma bala inequívoca, uma
bala de cima,
cai à porta de casa como se o corpo recebesse
encomenda maligna
deixado por carteiro de nome: morte certa,
morte exata,
morte de resto zero.
Uma bala má ali está, então, alojada
na casa mais casa que um homem tem
-a sua cabeça, o seu cérebro-
e Admeto, no centro de Sarajevo,
não tem outra opção senão deixar-se morrer (…)

Porém o Deus Apolo tem ideias distintas,
não concorda com esse sistema antigo-
o nobre noivado entre causa/efeito;
não apoia essa necessidade que um corpo
moribundo tem
de solo, descanso,e nada..»

03-05-06/51

maxresdefault

01/10/2013

AULAS DE PARADOXOS: as “Canções Mexicanas” de Gonçalo M. Tavares

gtavaresPV Rio de Janeiro (RJ) 27/08/2013 Capa de livro. Foto Reprodução

“Tem um plano de viagem?, pergunta-me ela mal acabo de entrar no quarto e largar os pesos acordados, como?, pergunto, estamos aqui para fornicar e ela pede-me um plano de viagem, que exótica e inteligente, penso, aqui vai o programa, digo, e começo a aproximar-me dela, a tocar-lhe nas mamas, e ela afasta-se e diz no, no, primeiro—e depois aponta lá para cima, para a cruz. Uma cruz de madeira pendurada na parede. Que quer ela, não entendo? Primeiro o quê,pergunto. Primeiro, besito, diz ela, e aponta para a cruz. Estamos no México e é preciso dizer que sim aos malucos…” (trecho de Um Plano)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de outubro de 2013)

   “Pensa nisto: um pescador em frente ao rio, com a cana mergulhada na água, espera pacientemente que um peixe apareça. Entretanto, enquanto espera, com uma arma aponta para os coelhos que tentam velozmente escapar, e dispara. Quando acerta (…) vira-se para a cana de pesca para confirmar se existiu alguma alteração nas águas. Não sai do sítio, não vai buscar o coelho. É um pescador, não um caçador. A anedota é do livro Roland Barthes e Robert Musil (publicado junto com A Perna Esquerda de Paris) e ajuda a entender a toada inclassificável dos 27 relatos que compõem Canções Mexicanas, um dos maiores destaques de 2013.

A profusão de títulos, a confusão cronológica e editorial de lançamentos aqui no Brasil, podem dar a falsa ideia de uma certa gratuidade no projeto literário de Gonçalo M. Tavares, ainda mais que suas obras têm como “cenário” países germânicos, a Índia, Paris. No fundo, todas dizem respeito a uma geografia bastante peculiar, que existe apenas na mente e nas palavras do desconcertante autor português (nascido em Angola, em 1970).

Sem embargo, como acontece nos casos da mais alta inventividade e descolamento do “verossímil”, os lugares acabam ganhando uma fisionomia mais verdadeira do que a da realidade: “… aqui estou eu, no meio da Cidade do México, a tentar encontrar a casa de Frida Kahlo, depois de estar uma manhã a olhar para os murais de Rivera...”, lemos em Concentração, um dos pontos altos do livro (há outros: Os Meus Amigos; Os Belos Nomes das CasasA  corrida; Mapas, Mapas). O narrador das estórias é o indefectível turista europeu, fadado a um olhar estrangeiro e pós-colonial, a quem é dado conhecer além do lado mais exótico e folclórico da capital mexicana.

   “E que sei eu do México?”. O que ele saberá estará inteiramente fora do limite de qualquer city tour.  No encontro com uma prostituta,  a qual impõe aos clientes beijar os pés da imagem de Cristo num crucifixo antes da função, lhe é perguntado: “Tem um plano de viagem?” Mesmo que o tivesse, os protagonistas de Tavares compartilham o extravio ontológico fundamental da heroína de A Perna Esquerda de Paris: “Maria Bloom tinha aulas de paradoxos, duas vezes por semana, das seis às cinco da tarde Nunca chegava a tempo porque chegava sempre adiantada.”

Portanto, uma Cidade do México que parecia estar localizada na zona da anti-matéria, em que os efeitos do consumo do Mezcal se entrelaçam à descida do Maelström de Edgar Allan Poe. Ainda assim, nas fragmentárias e bizarras jornadas do narrador, e mesmo que alimentada pela paranóia e pelo medo, surge para o leitor a imagem de uma capital, delineada em traços essenciais, não muito distante daquela em que se poderia perambular: pela apreensão da violência extremada (“só me resta começar a correr e aqui vou eu mais uma vez, estou em grandes corridas na Cidade do México, de noite é isso que me aconselham a fazer, se corres muito as pessoas não vão atrás de ti, nenhum malfeitor vai se pôr a correr atrás de ti, eles não são malucos, quando apanham alguém e lhe cortam o pescoço fazem-no a passo tranquilo, a pasito, como dizem, nada de esforços, quem tem de se cansar é a lâmina”, lemos em A  corrida), subproduto da miséria, da desigualdade e da exclusão (“é bom sempre este dorso de cavalo que a mãe tem e que permite que os meninos subam às suas cavalitas e pensem que é uma brincadeira o que afinal é desespero”), claustrofobicamente superpovoada (“não há rua, tudo é gente”).

E pairando sobre toda essa desordem social, as categorias do pensamento ocidental, as dicotomias da racionalidade (e suas perversões)[1], que o autor das séries O Reino e O Bairro disseca sempre de forma tão magistral, sem perder o gosto pelo anedótico[2]: o padre pedófilo com mania de suicídio e que, numa de suas tentativas, sempre testemunhadas por uma multidão, é remunerado para gritar o nome de um estabelecimento comercial; o sujeito cuja trabalho é anunciar o fim do mundo (“explicam-me que aquele não é maluco, que é um empregado, um empregadito, dizem-me, e com essa palavra querem dizer que recebe pouco, um empregado, sim, quem é maluco é outro que não está ali e que lhe paga”); o ex-matador cuja casa vira local de devoção pelo ajuntamento de inúmeras variedades de cruzes…

No fim, cabe ao leitor decidir a verdade da seguinte máxima: “ser feliz é para os europeus, no México as coisas são mais excitantes”.

Já é hora de Gonçalo M. Tavares começar a ser considerado seriamente para o Nobel.

300_11519148

TRECHOS SELECIONADOS

“Sabes contar até quanto, pergunta-me um menino. Eu digo que sei contar até muitos.

Até quanto?, insiste o menino. Eu respondo que não sei.

Se não sabes até quanto, como podes dizer que é muito?

Eu começo a contar: 1,2,3,4,5,6, e continuo; e o menino não sai de ao pé de mim; está à espera que eu acabe, que eu vá até ao fim—mas eu paro.

   1657, basta? É tudo—digo, para fechar a conversa. Não sabes contar mais—diz ele.

   Sei contar mais, mas estou cansado—digo.

   Não sabes contar mais, diz-me o menino; não tens força para contar mais, diz o menino e cospe-me para a cara, assim, aqui mesmo, na bela Cidade do México (….) e eu sempre soube que por vezes ser humilhado faz bem, não precisava de ir à Cidade do México.” (QUE FUERZA, NIÑO!, COMO TE ADMIRO)

“(…) aproximo-me de uma máquina dos caminhos-de-ferro, abandonada, onde dois mexicanos malucos estão a grelhar umas febras, perguntam-me se quero, se tenho Pesos, e eu pergunto o que é aquilo, dizem que é carne e riem-se, mas sabem perfeitamente que o que lhes pergunto  o que é aquilo apontando para a velha estação de caminhos-de-ferro e eles explicam que está abandonada desde que as mulheres começaram a fumar no México nos sítios públicos e riem-se mais uma vez, gozam com o belo estrangeiro, e também grelhamos homens inteiros, diz-me um dos mexicanos, quanto pesas, pergunta-me o outro, e fazem de lobos maus e eu de capuchinho vermelho, perguntam-me mesmo se eu conheço a história do capuchinho vermelho, aqui no México também a conhecem, que sim, respondo, e eles passam-me um lenço que eu ponho na cabeça, entro no jogo, que mais posso fazer?, é de noite, estou na Cidade do México e dois homens com mau aspecto estão a grelhar algo numa velha máquina abandonada numa velha estação de caminhos-de-ferro e dizem que a seguir sou eu, que eles estão com fome, há muita miséria no México, dizem-me, com quem pede desculpa por me comer, e eu quase digo que não faz mal, que compreendo perfeitamente, eles são lobos, eu sou alguém que se perdeu e que só devia sair de noite na Cidade do México bem acompanhado, disseram-me eles, que fazem de lobos e de paizinho, dão conselhos (…) e ali estão eles, a desenhar no chão com um  pau os trajetos bons da cidade e onde eu me enganei, sim, perguntam-me pelo hotel e lá estão eles, um deles, com um galho a marcar o trajeto no chão, você deveria ter virado aqui, virou aqui, marca ele, no chão,e por isso nos encontrou, se tivesse virado para ali, aponta o outro como seu dedo sem se dobrar, se tivesse virado para li se calhar estava agora em frente a uma mexicana que leva vinte pesos para te sugar “el” cachimbo, e riu-se muito com esta do cachimbo, passo errado, diz eles, agora somos nós, diz ele, que queremos que nos chupes “el” cachimbo, e ri-se um  deles, enquanto desaperta a braguilha, que faz ele?, digo ou só penso, tento sorrir, um deles está atrás de mim…” ( OS MEUS AMIGOS)

“(…) há mesmo polícias que não se limitam a desenhar os contornos dos mortos, fazem também desenhos ao lado, desenhos de casas, de anjos, de diabos, de fogo a arder numa grande casa, enfim, são artistas, os polícias, e têm também de se divertir e muitos gostam disto, de fazer desenhos que continuam o contorno dos mortos, como se aquela morte permitisse que eles exercessem o seu instinto mais belo, eis a beleza ali naquele polícia risonho, curvado sobre o corpo que recebeu, vejam bem, sete tiros, sete, e está tão morto sete vezes que é quase um anjo e o esforçado do polícia é bem visível que não pensa em nada senão na sua arte, e está a fazer um desenho enorme, começou, claro, por fazer um traço em redor do corpo e já está no traço para o desenho de um quarteirão, uma casa, duas, três, e vejam, este excelente polícia, que veio cheio de instrumentos, pois sacou já de giz de cores e o malandro está a pintar uma bela cidade e dois anjos, que nunca faltam,uma cidade toda colorida, que nasce do contorno do morto, casas a laranja, casas azuis, e está tão esmerado e concentrado o polícia que em volta dele estão já dezenas e dezenas de curiosos, incluindo mulheres, a admirar o desenho pintado e o morto está quase em segundo plano, e o perigo, agora, é que a multidão de admiradores cresça tanto que comece a passar por cima do cadáver…” (OS BELOS NOMES DAS CASAS)

“… quando o abro percebo que é bem maior que o da Cidade do México, isso é bem evidente quando ponho os dois mapas juntos, ao lado um do outro numa mesa da cozinha. Não consigo explicar a uma criança, impossível, que  o mapa mais pequeno é da Cidade do México, e que o mapa maior, bem maior do que o dobro do outro, é o da catedral da Cidade do México, que fica na praça Zócalo (…) Tento perceber o mapa da cidade enquanto o menino me diz bruscamente que a sua mãe está muito sozinha, que não tem homem. Levanto a cabeça ligeiramente do mapa, digo que sim, distraído,e o menino interpreta o sim como o sim a um noivado qualquer imaginário e chama logo a mamã, grita que encontrou um homem.” (MAPAS, MAPAS)

“… como o SALVADOR, é este o seu verdadeiro nome, que avança pelas ruas de boba de DDT em punho (…) e há sempre mais malucos que o maluco e muitos homens da rua anseiam pela chegada do SALVADOR e, quando este vem, há alguns que ficam à espera do chuveiro e o recebem como o único momento de higiene da semana ou talvez do mês (…) e há um terrível orfanato, um nojento orfanato, que paga ao SALVADOR para ele passar por ali à segunda-feira e, quando os meninos estão no pátio, todos direitinhos, ao lado uns dos outros, como se fosse uma parada de meninos de sete anos, ali vai o belo chuveiro de DDT, que logo descompõe a parada, os meninos começam a rir como se estivessem na piscina…” (DDT)

artigo de jornal

“… no Mural de Rivera a história lê-se, mas para a entender precisamos de ser um louco que salte com uma certa ordem. Vejo-me, pois, a saltar à corda e a aprender datas ao mesmo tempo.” (TELEFONEMA)

“Viva a ciência, digo eu, Viva o México, grita o presidente na varanda do palácio no grande dia do país, e eu que penso nisto: como este país seria tão diferente, tão distinto, se em vez de Viva o México o senhor presidente gritasse de cima da varanda, no dia da revolução, Viva a ciência, sim, viva a ciência que ajuda os doentes de Parkinson a subir para cima da bicicleta e depois os deixa ir para onde quiserem…”  (EL HOMBRE FELIZ)

“Preferes andar à roda em círculos ou num quadrado, eis do que se trata, entendes? As arestas são o grande perigo…” (SEDATIVOS)

“Saio para a rua e que rua: não há rua, tudo é gente, como quando cheguei a Roma, estúpido e imberbe, e pergunto conduzindo o carro, onde é o centro? Que centro, responde-me um romano, tudo é centro, tudo é centro. Sim, tudo é centro, já tenho idade para perceber, não preciso de ir a Roma, mas agora estou aqui nas ruas do centro da Cidade do México e aqui tudo é gente, não há rua, não se vê o chão, se olhas para baixo és empurrado, se olhas para cima és empurrado, estás no México…”  (NÃO ENTENDO PORQUÊ)

“… o padre fez isto, antes de passar a lâmina pelo pescoço gritou o nome de uma loja de ferragens para cavalos, fez publicidade à loja, mesmo antes de se suicidar, entendes isto?, difícil, não? Eles sabiam que ele o ia fazer de novo e como quando o padre se suicidava juntava uma multidão, eles fizeram isso…” (O CAVALO)

“Tantos cavalos metafísicos e nenhum Quixote, digo.

Um bordel com nome de genocida, diz ele. Si? E sobes?

Subo.” (EL DESEO)

“… ser feliz é para os europeus, no México as coisas são mais excitantes. Si? Pergunto. Si, responde ela.” (O QUE MAIS IMPRESSIONA)

“…os homens recolhem uma sensação, tentam absorvê-la como um fato absorve água e a faz desaparecer e a certa altura não existe fato e água, mas apenas um fato úmido; eis o que procuram os que levam a energia que se libertou na queda de um corpo sólido para a sua velha madre que está a morrer, ou para o seus filhotes, para que cresçam grandes e fortes, e a vida é isto: um certo prazer que vem da queda dos outros.” (A QUEDA)

“… aqui estou eu, no meio da Cidade do México, a tentar encontrar a casa de Frida Kahlo, depois de estar uma manhã a olhar para os murais de Rivera: como concentrar a história em pessoas, como se a história fosse um somatório de biografias, a história de um país com o somatório de cinco milhões de vidas, ou talvez o somatório das vidas realmente relevantes—os que matam, os que torturam, os que salva, os que fazem grandes discursos, os que têm pontaria…” (CONCENTRAÇÃO)

“…e o mundo é isto, e por vezes funciona: salvar pela humilhação, já vimos, é uma metodologia possível e muito antiga.” (NÃO SE DEVE IDOLATRAR OS ANIMAIS)

“..revistam-nos para sair da catedral da Cidade do México, não levas a fé para aí num bolso da mala ou da mochila, é isso, diz o anão, não querem que os estrangeiros, os turistas, levem a fé, queremos aqui tudo, los espíritus—diz; la mierda de la geometria, diz o anão, essa podem levar, ninguém vos revista para ver se levam a porcaria da geometria convosco de volta, levem-na, diz o anão que agora está irritado, levem-na para a europa…” (O ANÃO)

“…penso que é um maluco, claro, mais um. Quantos são os malucos?, são ás centenas, mas explicam-me que aquele não é maluco, que é um empregado, um empregadito, dizem-me, e com essa palavra querem dizer que recebe pouco, um empregado, sim, quem é maluco é outro que não está ali e que lhe paga, dizem-me e explicam-me, recebe para vir aqui todo dia e dizer que está a chegar o fim do mundo…” (EL FIN DEL MUNDO)

“… fico mais calmo, mas não entendo, três meninos de dezesseis anos a violar uma máquina de filmar,pelo menos é isso que dizem estar a fazer, aquilo é uma máquina, para que fazem aquilo (…)

   A ellos no les gustan las fotografias, diz o velho…” (LOS VAIDOSOS)

“Não se mexe, a pequena Ataraxia—explica-me o guia, como se me estivesse a explicar o que é que os índios faziam antes de vir o povo branco ou como se estivesse a explicar o mural de Rivera, as datas, os nomes, mas ali não se trata de um ponto turístico, é uma niña que pede esmola, aliás não pede, não mexe nada…” (ATARAXIA)

“…nunca digas que não és daqui, és muito branco, mas diz que nasceste em México df e que acreditas no jesus negro…” (LO MÁS SEGURO)

“…é bom sempre este dorso de cavalo que a mãe tem e que permite que os meninos subam às suas cavalitas e pensem que é uma brincadeira o que afinal é desespero.” (O COALA)

“E agora aquela casa está transformada num sítio de culto, tocam à campainha para rezar, e o ANIMAL, nome por que é conhecido o dono da casa, matou tantos quando era novo e agora pôs-se a colecionar cruzes, o ANIMAL atende, deixa-os entrar, eles entram e rezam à sua cruz…” (NO ÁTRIO DA ESCOLA)

“… és uma espécie de ignorante, de estúpido que pensa que a maldade e a violência são para aparecer em momentos precisos, como se fossem um tesouro, nos momentos excepcionais da tua vida eis que tens direito à violência, eis o que pensas, e isso mostra como não percebes nada, aqui a violência surge antes de o menino calçar os sapatos…” (OS MENINOS)

“E tu conheces a maldade?

    Sim, responde quem quer entrar

    Mas tu não és daqui, não conheces a maldade, estás a brincar; ao entras, eis como se selecionam os homens à entrada, por esta pergunta e pelo dinheiro

    E tu, conheces a maldade?

    E de fato no número 17- a dona do número 17 chama-se MALDADE, se isso é uma alcunha um apelido ou nome verdadeiro ninguém sabe—sempre conheceram a velha como velha e como MALDADE…”  (ISSO É IMPOSSÍVEL)

“… precisa de ir ao México para ver dois meninos para aí com 12 anos a pegarem em pedras e quando o herói vai beijar a mulher, eles atiram duas grandes pedradas, uma acerta no herói, a outra não acerta na tela, mas é bom pensar que uma foi para o herói, a outra para a mulher, e a tela não vai ser a mesma depois daquelas duas pedras (…) de qualquer maneira o filme não foi interrompido, o filme continua, o beijo entre o herói e a heroína já ficou para trás e agora o herói tem uma mancha escura no olho que resulta da pedrada que ficou marcada na tela, um sinal para não nos perdermos no filme, na narrativa…” (O HERÓI)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/03/09/o-apelo-do-pensamento-o-senhor-tavares/

A perna esquerda (1)


[1] Uma outra anedota (de A Perna Esquerda de Paris) nos ajuda a compreender essas perversões lógicas:

“Sete crianças correm em redor do boi, como se o boi fosse uma pista de atletismo grande (…)

   Mas as sete crianças decidem não correr mais em volta do boi. Começam a afastar-se e a atirar-lhe pedras, depois aproximam-se e insultam-no. Julgam que o boi é um ser estrangeiro que não entende insultos em língua rápida, no entanto pelo menos entende uma pedra que lhe acertou fortemente no dorso. As crianças prosseguem aumentando lentamente a maldade. O boi calmo, mas afiando o seu passo, mesmo parado, afiando o passo como se faz à espada.

   Sete crianças sem a sintaxe definida, mas já conhecem a maldade. Uma delas—das sete—tem uma pequena lâmina e repete:

__Um boi não morre com uma lâmina tão pequena. Vamos experimentar.

    E experimentam.

    No pescoço não, diz um, começa pelo rabo, pelas nádegas.

    O boi não tem nádegas, diz outro.

    Mas depois espeta no pescoço, quero ver.

    Deixa o pescoço para o fim.”

Em outra passagem:

“Existem limites para a bondade: se a matéria à tua frente não exercer vontade política: podes torturá-la, experimentar sobre ela maldades novas. O porco não pertence à polis: podes comê-lo.”

[2] “O mundo, felizmente, não interrompe a produção de histórias.” (A Perna Esquerda de Paris)

imagem_imagem_mg_0300_ok

01/06/2011

Destaque do blog: UMA CASA NA ESCURIDÃO, de José Luís Peixoto

“hoje para sempre. Não há nenhuma diferença entre aquilo que aconteceu mesmo e aquilo que fui distorcendo com a imaginação, repetidamente, repetidamente, ao longo dos anos. Não há nenhuma diferença entre as imagens baças que lembro e as palavras cruas, cruéis, que acredito que lembro, mas que são apenas reflexos construídos pela culpa.  O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha acontecido e com aquilo que me contaram que aconteceu. A minha memória não é minha. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio: com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento.”

(José Luis Peixoto, Cemitério de pianos, 2006)

“Há um certo pressentimento que grandes sacos de plásticos  pretos vêm a caminho, muitos poetas ainda lêem poemas com uma voz doce, mas a alguns destes já foram arrancadas as pernas. A existência, caro Joseph Walser, começa a deixar de existir… O círculo aperta-se em direcção ao centro até ficar reduzido a um ponto. Amigo Walser, não interprete o que digo como uma lição de geometria fútil, o que está a acontecer não ficará apenas registrado nos livros, em páginas bem documentadas com fotografias amplas; o que está a acontecer ficará também inscrito nos sobreviventes, porque há sempre sobreviventes, Walser, e é nestes, por mais espantoso que possa parecer, que a morte se torna mais evidente…”

                (Gonçalo M. Tavares, A máquina de Joseph Walser, 2004)

O moço das fotos acima, que parece tão metrossexual quanto o jogador Cristiano Ronaldo e é tão craque quanto (ou mais, já que até agora não deu vexame como seu conterrâneo na Copa)  em sua área, é o escritor português José Luís Peixoto.

Ele ficou  conhecido aqui no Brasil com um de seus trabalhos mais recentes, o deslumbrante Cemitério de pianos (a Agir lançara um romance dele, em 2005, Nenhum olhar, mas sem maior repercussão). Por que um adjetivo tão extremado? Porque sempre é incrível o que um grande autor pode fazer com temas batidos, no caso uma história familiar atravessando gerações. Quem não viu ou leu milhares de histórias familiares atravessando gerações? No entanto, tudo parece novo e recém-criado (como acontece em Á árvore do homem, de Patrick White, para mim o paradigma desse tipo de romance), recém-saído do éden, em Cemitério de pianos, as desavenças entre pais e filhos, maridos e esposas, a desagregação familiar (numa determinada passagem, a família vai a um piquenique e lemos: “Havia um instante em que, ao mesmo tempo, dávamos valor a estarmos juntos”). Os incidentes mais banais (um rapaz hesitando em tirar a moça por quem sente uma atração incrível, num salão, porque não sabe dançar, e por isso bebe para ganhar coragem) transformam-se em momentos mágicos.

    Uma casa na escuridão mostra que já no início deste nosso século (o romance foi publicado em Portugal em 2002), Peixoto era um talento formidável e original.

Temos um país imaginário, onde o narrador vive numa casa coberta de hera, ao pé de ma montanha, e povoada de gatos. Há escravas e senhores.  Ele é um dos senhores, um escritor que descobre dentro da própria escuridão a amada, uma mulher maravilhosa,  que vive nele através das palavras que escreve todos os dias.  De quando em quando, ele pega o carro, segue a auto-estrada e entra na cidade para visitar o seu editor no presídio, que, para opróbrio geral, recusou-se a publicar autores novos (um detalhe delicioso) e por isso está cumprindo uma longa pena até organizar um motim, no qual é morto.

Um antigo amigo do narrador, o príncipe de calicatri, que viajou pré-adolescente para conhecer todos os lugares do mundo, retorna. Pouco depois, o país sofre a invasão de um povo que só se expressa por vogais, cujos soldados utilizam armaduras de ferro e espadas, com as quais mutilam todos que encontram, inclusive o narrador (cortam-lhe as pernas e os braços) e o príncipe de calicatri (tiram-lhe o coração): “O príncipe de calicatri, sem coração, já não sabia a resposta a todas as perguntas do mundo, mas sabia que eu sofria e sabia que eu queria ver aquela que tinha desaparecido dentro de mim. Eu e ele éramos amigos para sempre. O coração do príncipe de calicatri tinha dentro de si as respostas mais importantes, as conclusões. Sem coração, o príncipe de calicatri sabia apenas os pormenores, os factos. Sabia as histórias de países distantes. Mas tinham-lhe arrancado do peito, tinham abandonado mortas e secas, entre ervas, as conclusões que se tiram dos factos, as conclusões que se tiram das histórias de países distantes. O príncipe de calicatri sabia coisas, mas tinha perdido a sabedoria… O príncipe de calicatri já não sabia o que era exactamente o amor que eu sentia, sabia como eu sentia, mas já não sabia aquilo que eu sentia…”

Os invasores se apossam da casa, após massacrar as centenas de gatos e os antigos moradores são tolerados ali (junto com outros mutilados, que viraram rebotalhos humanos), vivendo num quartinho, servindo aos novos amos de alguma forma, e todos meio que amparados pela escrava Miriam, que diariamente é estuprada por todos os soldados, pois as mulheres estrangeiras são esposas do líder.

Para desespero do narrador, inclusive como conseqüência da sua impotência para escrever, dada a sua condição física, a mulher que surgiu dentro dele desaparece e ele é o primeiro a exibir os sintomas de uma Peste que irá apodrecendo todos os corpos. Isso causa a evasão dos invasores, e aos poucos todos os que sobreviveram vão deixando a casa. Só resta o narrador, que apodrece numa cama…

      Uma casa na escuridão está longe de ser o meu tipo de livro. Se alguém me contasse o “enredo” eu jamais teria vontade de iniciar a leitura. Se fosse outro autor, provavelmente teria suspendido a leitura sem hesitação. Todavia, o estilo de Peixoto é tão próximo da genialidade, ele é um escritor tão admirável e encontrou uma tal qualidade poética (e não estou falando em prosa poética) no seu dizer que só se pode tentar uma definição aproximativa afirmando-se que ele é uma espécie de mistura muito especial de fabulador e poeta, o cruzamento inaudito de Italo Calvino com Fernando Pessoa, com aquele “quê” masoquista que permeia o imaginário de J.M. Coetzee: “Às vezes, o príncipe de calicatri aproximava-se de mim e dizia eu acho que estou a conhecer o ninguém [um sujeito a quem arrancaram a língua, os olhos e as orelhas e é chamado assim porque não se o conhece], o seu rosto é parecido com o de um homem que encontrei a vender castanhas numa estação  de comboios de um país atravessado por comboios, numa estação onde ninguém saía, num país onde ninguém parava porque o país era apenas composto por terra e linhas de comboios, um homem que vivia sozinho num país de comboios, a vender castanhas numa estação onde ninguém saía; outras vezes dizia, acho que estou a conhecer o ninguém, o seu rosto é parecido com o de um homem que encontrei na praça de uma cidade, num país onde todas as pessoas que não eram daquela cidade se tinham esquecido daquela cidade, num país de quem todas as pessoas que não eram daquele país se tinham esquecido daquele país; outras vezes dizia acho que estou a conhecer o ninguém, o seu rosto é  parecido com o de um homem que encontrei numa sala a falar com o seu filho e dizia-lhe não vá correr mundo, fique comigo, fique com a sua mãe, era uma sala grande dentro de uma casa grande dentro de um pequeno país junto ao oceano. O príncipe de calicatri conhecia muitos países distantes. Ninguém conhecia o ninguém. Eu, às vezes, achava que o ninguém era a solidão. O ninguém era o abandono. O seu corpo sem vontade, cego, surdo, mudo, parecia uma lembrança da solidão e do abandono. Como se nós, mutilados, precisássemos de saber constantemente que era possível perder sempre mais…”

Alias, diga-se de passagem, o que é o imaginário desse rapaz (na época com 28 anos e agora com 36)? Dá até medo pensar no que se passa na mente de José Luís Peixoto, com o seu pendor para o necrófilo e o decadente. Mesmo assim, ele escreve como um príncipe (já que estamos falando num livro onde os personagens têm distinções nobiliárquicas: príncipes, viscondes), com frases que já nasceram com a vocação da perfeição (e para serem copiadas à parte e citadas)  e não vejo outro candidato no cenário do seu país para ser a grande voz literária pós-Saramago e pós-Lobo Antunes.

Mesmo quando Uma casa na escuridão perde sua alta voltagem poética e ameaça resvalar para o piegas, o brega, o quase-kitsch[1], como sói acontecer num romance de 300 páginas, e com o tipo de história que ele construiu (com mulheres amadas vislumbradas no âmago do ser etc…), tudo se salva pelo talento épico que o rapaz tem também de sobra.

José Luís Peixoto construiu um mundo perfeitamente coeso, com todos os detalhes controlados de tal maneira, que quando lemos sentimos que o país imaginário onde escravas, armaduras, espadas, gente mutilada, convivem com telefones, auto-estradas e indústria editorial, se ergue em pé, sólido e firme. O clima é de pesadelo, mas a narrativa é de algo vivido na carne, no cotidiano. E talvez esse seja o lado mais inquietante desse livro belíssimo e terrível: a sensação de que tudo ali é crível.

(este texto foi publicado de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 15 de fevereiro de 2011)


[1] Isso acontece em Cemitério de pianos também. Virtuose como é, Peixoto não desdenha em se exibir, em fazer malabarismos técnicos inúteis e cafonas:  “Puxou a Maria pelo. Pulso e levou-a pelo corredor e entraram no quarto onde dormiam todas. As noites e apontou. Para a estante cheia de romances. De amor que a Maria. Guardava desde menina…”

09/03/2011

O APELO DO PENSAMENTO: o senhor Tavares

 

“O mundo era o conflito entre uma carga positiva e uma carga negativa e esse mundo terminaria quando, quer a nível geral, universal, gigantesco, quer a nível individual e microscópico, se atingisse o zero, a anulação das duas cargas fortes e opostas. Esse seria o momento do fim do mundo e do fim de cada coisa.

    Aplicado individualmente, este raciocínio permitia que ´um ser humano conseguisse perceber qual o fim da sua morte`, pois esse dia, ´qualquer que ele seja, demore muito ou pouco, será o dia em que individualmente o corpo atinge o zero, anuladas as cargas positivas e negativas recebidas e enviadas para o mundo`. Porém, apesar de quase recomendar esta espécie de profecia doméstica, Theodor Busbeck, sobre si próprio, recusava-se a fazer qualquer balanço entre sofrimentos infligidos e recebidos. Não por não acreditar seriamente na  sua teoria e na transposição do seu estudo geral e histórico para uma aplicação individual; ele não fazia cálculos sobre o seu percurso enquanto emissor-receptor de violência—recusava-se mesmo a fazer um simples diário—apenas queria ser ´surpreendido´. Havia, de fato, em Theodor Busbeck, uma convicção enorme na sua teoria: crença que tocava o místico, o não racionalizável; teoria sentida como explicação universal, ´sem exceções`.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de fevereiro de 2011)

Em 2002, em Uma casa na escuridão, José Luís Peixoto imaginava um país invadido.    Em 2004, outro talento jovem da ficção portuguesa, nascido em Angola, quatro anos mais velho que Peixoto (e que mal chegou aos quarenta[1]), Gonçalo M. Tavares, também narrava a invasão de um país alegórico em A Máquina de Joseph Walser. Fazer parte, como primo pobre e fraco, da União Européia deve ter trazido novos pesadelos ao imaginário lusitano.

     A Máquina de Joseph Walser é o segundo romance de uma ambiciosa tetralogia, O Reino (a qual corre paralela à outra série, O Bairro). Curiosamente é lançado por último aqui no Brasil, só agora, bem depois do primeiro, Um homem : Klaus Klump (2003), e dos demais: o premiadíssimo Jerusalém (2005), a notável obra de ficção da qual tirei a citação que abre este texto,  e Aprender a rezar na era da técnica (2007).

Enquanto se processa a invasão de seu país,  Joseph Walser mantém a sua rotina de homem “mediano”: opera uma maquina à qual é afeiçoado, é casado com uma mulher que o trai com Klober Muller, um de seus superiores (que gosta muito de conversar com ele), sem que isso lhe cause maior desconforto  (mais por curiosidade do que por outra coisa, investiga a identidade do amante), joga dados a dinheiro com colegas aos sábados (um dos quais se insurgirá contra os invasores) e coleciona pequenos artefatos metálicos (chegará a roubar um cadáver para acrescentar uma fivela à sua coleção): “…a sua coleção constituía a verdadeira marca individual que Joseph Walser sentia estar a deixar no mundo…”

Um acidente, porém, na utilização da sua máquina causa-lhe a amputação do dedo polegar da mão direita e ele é afastado dela: “A tristeza de Walser era, teremos de dizer de novo, lógica e racional, era aquilo que podemos expressar como melancolia infiltrada nos sentimentos da eficácia”.

Veja-se o quilate da formulação. O leitor encontrará inúmeros outros exemplos no texto.   Gonçalo M. Tavares, seguindo os passos daqueles grandes escritores modernistas austríacos, Robert Musil (em O homem sem qualidades) e, pela linguagem cortante e concisa, e sempre surpreendente (por exemplo, Walser gosta de utilizar sapatos “irresponsáveis”), sobretudo Hermann Broch (de Os sonâmbulos), traz à tona, com um sopro filosófico alimentando a fabulação, velhas dicotomias da mentalidade ocidental que deram forma à Europa: produção, mercado, eficácia, racionalidade, planejamento, lógica, contra loucura,  insubmissão, acidente, acaso, ociosidade e disponibilidade.

Outro nome pode ser lembrado aqui, também herdeiro de Musil-Broch: Milan Kundera que, num dos ensaios de A arte do romance, mostrou como esses dois mestres incorporaram os paradoxos terminais do destino europeu na vastidão das suas obras. Acredito que Kundera & Tavares prolongaram a exploração desses paradoxos terminais em sua ficção.

Kundera também aponta, no mesmo ensaio  os apelos do gênero ao qual se dedica aos quais é mais sensível. Um deles, é o apelo do pensamento: “Musil e Broch fizeram entrar no palco do romance uma inteligência soberana e radiosa. Não para transformar o romance em filosofia, mas para mobilizar sobre a base da narração  todos os meios, racionais e irracionais, narrativos e meditativos, suscetíveis de esclarecer o ser do home, de fazer do romance a suprema síntese intelectual. Sua façanha é o acabamento da história dos romances ou, antes, o convite para uma longa viagem?”

Ao longo da narrativa, Walser vai se tornando mais e mais acentuadamente um “homem sem qualidades”: “Ainda não era o verdadeiro Homem, com dizia Klober, o Homem que quando se aproxima se aproxima para matar, mas havia já nele algo de muito significativo: qualquer aproximação a outra existência, não sendo ainda para a eliminar, era já, e desde há muito, para não amar. Posso aproximar-me com segurança, pensava Walser… posso aproximar-me sem medo de qualquer pessoa porque sei que não a vou amar. Já estou preparado para não amar ninguém…”

Mas o jogo de dados (a que ele se dedicava por lazer) irá ser usado contra ele, num final delicioso e brilhante, que mostra mais uma vez o humor paradoxal desse escritor tão peculiar no cenário lusitano, e que recorre ao critério do “surpreendente” no meio da racionalidade, que aparece no raciocínio “lógico-místico” do Theodor Busbeck da minha citação de Jerusalém.

Esse apelo ao jogo (que é também um dos apelos que mobilizam o romancista Milan Kundera) está presente também no pacto quase que exclusivamente “ficcional” que Gonçalo M. Tavares estabelece com o leitor, com nomes de personagens e situações-síntese que fogem totalmente ao modelo mimético convencional, totalmente desestabilizado e desossado tanto em O Reino quanto que conheço de O Bairro[2].

É preciso ficar atento a essa nova geração portuguesa: algo de muito sério está acontecendo por ali. Não sei se a jangada de pedra vai se separar do continente europeu, mas a literatura que ali está sendo feita talvez venha a ser a melhor da atualidade.


[1] Peixoto nasceu em 1974 e Tavares em 1970.

[2] Veja-se por exemplo, esta vinheta de O senhor Valéry (os “senhores” que dão nome a cada volume são todos ligados à alta literatura), de 2001: “O senhor Valéry tinha um animal doméstico, mas nunca ninguém o tinha visto.

     O  senhor Valéry deixava o animal fechado numa caixa e nunca o tirava para o exterior. Atirava-lhe comida por um buraco na parte de cima da caixa e limpava-lhe as porcarias por um buraco da parte de baixo da caixa.

    O senhor Valéry explicava:

— É melhor evitar os afetos por animais domésticos, eles morrem muito, e depois é uma tristeza para o coração.

    E o senhor Valéry desenhou uma caixa com 2 buracos: um na parte de cima e outro na parte de baixo.

    E dizia:

__ Quem poderia ganhar afeto por uma caixa?

    O senhor Valéry, sem qualquer espécie de angústia, continuava, pois, muito contente com o animal doméstico que escolhera”.

É interessante que, pelo menos na edição brasileira, o texto vem acompanhado de uns singelos e expressivos desenhos (como o da caixa desenhada pelo senhor Valéry), o que nos leva à lembrança do Pequeno Príncipe,  de Saint-Exupéry, que também tinha essa linguagem descarnada, mas cujo apelo emocional é justamente o oposto.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.