MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/05/2011

Do Algonquin à biógrafa-algoz: a enxovalhada Dorothy Parker

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 02 de dezembro de 1997)

As biografias de escritores, com as exceções de praxe, são inúteis, revelam apenas o que menos interessa e tudo o que vale a pena dilui-se na banalidade. Uma das piores realizações do gênero é, sem dúvida, A extravagante Dorothy Parker (L´Extravagante Dorothy Parker, em tradução de  Glória de Carvalho Lins), de Dominique de Saint Pern.

   Dorothy Parker (1893-1967) foi a estrela absoluta da vida intelectual novaiorquina das primeiras décadas do século e a criadora de contos inesquecíveis—por exemplo: A valsa; O telefonema; O primo Larry; Coração em creme—e de poemas igualmente admiráveis[1].

Seu maravilhoso e sofisticado estilo só encontra termo de comparação com o de Truman Capote, o genial autor de Música para camaleões e Breakfast at Tiifany´s (aqui, Bonequinha de luxo, insistentemente).

Ao contar sua vida, a biógrafa francesa parece uma psicopata desvairada que seqüestrou Parker para fazer com que ela sofra torturas e humilhações. Imagine a mordaz e inteligentíssima autora de Big loira subliterariamente chegando em casa, ainda salpicada da efervescência noturna, e chorando sobre os seus sonhos em pedaços!!!!!!!!!!!!!!

Parker pode até ter chorado muito na vida (tentou o suicídio algumas vezes), nunca porém nesse nível, como se estivesse numa novela de Manoel Carlos, interpretada por Regina Duarte, que a transformaria numa Maria do Bairro intelectual, atormentada por seu passado… incapaz de controlar a selvageria que lhe arregaça os beiços e a impele a morder a mão que a acaricia!!!!!!!!!???????

Será que Saint Pern admira Dorothy Parker? Ou no fundo a odeia? Apenas um ódio profundo e patológico faria com que ela a imaginasse como uma tipa desclassificada que faz um balanço  e constata enlouquecida que sua vida é um sórdido lamaçal entre a bebida e as agressões, temendo os dias seguintes às festas, que deixam seus desgostos a nu, reabrem feridas que ela esfrega com sal!!!!!!!!!!!!!!????????????????

Quando feliz, sua tez de neve cintila e ela abre-se como uma peônia!!!!!!!!!!!!!????????, contudo seu fracasso com o marido abalara suas convicções amorosas e ela acaba por deixar o pomar da infância e tem de aprender a viver com a amargura!!!!!!!????

A impressão que se tem é que Saint Pern escreve sempre em lágrimas, enquanto que Dorothy Parker (que riria dela), com seu humor inigualável e cruel, com certeza fecharia com Caetano Veloso: “Respeito muito minhas lágrimas/ mas ainda mais minha risada”…

Ela, entretanto, poderia cair em prantos enxovalhada como é pelo estilo inominável com que se conta sua passagem pelo mundo: O império dos sentidos a governa definitivamente… É preciso continuar a sonhar com noites suaves, invejando o destino das aves que voltam sempre ao mesmo galho. Entrega-se, então, a uma variedade de relacionamentos que infectam suas alegrias!!!!!!!!!!!!??????????????

E as inclinações políticas de Parker, como ficam na ótica “coração em creme” da biógrafa-torturadora: “Está ligada,  pelo sangue e pela educação, àqueles que aproveitam e exploram, mas há um vínculo mais forte, o do coração, que a liga àqueles que são suas vítimas!!!!!!!!!!!!!!!!!!???????????

No Brasil, pouco de Dorothy Parker foi publicado. Será que ela terá de permanecer indefinidamente refém de Dominique de Saint Pern? Será que sua iluminada lucidez não deveria ser a prioridade para os editores, com os leitores ganhando em charme e inteligência? No meio de um pacote econômico recessivo, parece um ônus a mais esse lixo parasítico que é A extravagante Dorothy Parker.


[1]Construiríamos um pequeno bangalô

se você e eu fôssemos um só.

E cuidadosamente faríamos planos

para ver o sol nascente…

 

Se você e eu fôssemos um só, meu querido,

uma vida modelo levaríamos.

Progrediríamos, ano a ano,

sem pressa alguma.

 

Ah, como é clara para mim a visão

das coisas que faríamos.

E então penso: é melhor, meu amor,

continuarmos a ser dois.”

  

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