MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/03/2011

MONSIEUR AROUET

“__Eu me refiro ao terremoto que sofreu Lisboa em 1755. Bem, Voltaire revoltou-se contra ele.

__Mas como ? Ele se revoltou ?

__ Pois é, rebelou-se. Não admitiu aquele fado ou fato brutal. Negou-se a abdicar perante ele. Protestou em nome do espírito e da razão contra esse escandaloso excesso da natureza que vitimou milhares de vidas. O senhor fica pasmado ? Sorri? Que pasme, mas quanto ao sorriso tomo a liberdade de censurá-lo. A atitude de Voltaire era a de um autêntico descendente daqueles antigos gauleses que atiravam suas flechas contra o céu. Olhe, engenheiro, aí vê o senhor a hostilidade do espírito em face à natureza, a orgulhosa desconfiança com que a encara, a maneira nobre pela qual se obstina no direito de criticar a ela e a seu poder maligno e insensato. Pois a natureza é poder, e aceitar o poder, conformar-se com ele, é servil!”

Um dos efeitos colaterais de um livro muito amado (A montanha mágica, de Thomas Mann) foi fazer com que eu me apaixonasse pela figura e pela obra de Voltaire (1694-1778), esse doidivanas maravilhoso que se rebelava contra a estupidez da natureza e da chamada Providência Divina. Agora, mais de 20 anos depois, a Globo oferece a oportunidade de redescobrir o prazer da leitura de seus Contos e Novelas, dessa vez numa edição que apresenta a totalidade dos seus textos ficcionais (mesmo o ótimo volume da série Obras-Primas, da Abril Cultural, só trazia parte deles) na insuperável tradução de Mário Quintana, resgatando uma iniciativa de 1951.

Como é salutar ler Voltaire e seus tratados sobre a tolice humana: Zadig e Cândido, certamente as obras-primas da literatura mundial mais deliciosas de todos os tempos, ágeis, de uma impressionante leveza, repletas de incidentes divertidos de forma a castigar a necessidade de agradar e fazer o correto (Zadig) e o otimismo renitente (Cândido) dos seus heróis, são o antídoto perfeito contra a burrice e a mistificação. Não é à toa que Voltaire influenciou Machado de Assis: ele era o Umberto Eco do século XVIII.

Além das novelas, há textos pequenos e demolidores, como Memnon, em que o herói decide ficar acima das paixões humanas e abraçar a sabedoria absoluta e, no curso de um dia, se mete numa trapalhada amorosa, é extorquido, perde um olho e a fortuna (Voltaire nada fica a dever às Mil e Uma Noites em desgraças fisiológicas).

Uma das especialidades do genial autor francês (reutilizada com proveito pelo Eça de O mandarim, por Machado e por Borges) era ambientar a história em lugares distantes (Babilônia, por exemplo) ou fantásticos (Saturno, em Micrômegas), além de pouco se lhe dar as regras de verossimilhança (seguindo a lição de Cervantes, que também será aproveitada pelo Diderot do magnífico Jacques, o fatalista, e seu amo). Por esse motivo, é fascinante um texto como Jeannot e Colin, o qual transcorre numa Paris contemporânea ao autor, e que—malgrado um final decepcionante e piegas—é uma aniquiladora e ácida visão—sem disfarces—da sociedade francesa, uma antecipação do universo que Balzac, Stendhal (em Lucien Lewen) e Proust vão explorar posteriormente. Paris, nesse caso, pode não ser uma festa, mas o universo de Voltaire (e qualquer um que leia  O mundo como está ou O branco e o preto concordará) o é. Não dá nem para citar nada, pois não se pararia mais.

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serviço: Contos e Novelas, de Voltaire. Tradução de Mário Quintana. Estudos de Roger Bastide e Gilbert Chinard. Notas de Sérgio Milliet. Coleção Clássicos Globo (coordenador: Manoel da Costa Pinto). 781 págs.

(resenha publicada em 30 de setembro de 2006)

TOLERÂNCIAS E IMPLICÃNCIAS DO VELHO VOLTAIRE

“A filosofia nos ensina que este universo deve ter sido organizado por um ser incompreensível, eterno, existente por sua própria natureza; mas, uma vez mais, a filosofia não nos ensina os atributos dessa natureza. Sabemos o que ele não é, e não o que ele é (…) De todos os males, o maior sem dúvida é a morte… O leitor realmente filósofo verá que a morte era necessária a tudo o que nasceu, que a morte não pode ser nem um erro de Deus nem um mal nem uma injustiça nem um castigo do homem.

O homem, nascido para morrer, na podia mais ser subtraído às dores senão pela morte. Para que uma substância organizada e dotada de sentimentos nunca provasse dor, seria necessário que todas as leis da natureza se modificassem… Essa sensação de dor era necessária para nos advertir a conservar-nos e para nos dar prazeres tanto quanto comportam as leis gerais às quais tudo está sujeito…

Todo desejo é uma necessidade, uma dor iniciada… A dor era, por conseguinte, tão necessária quanto a morte…

… Será que temos uma inteligência superior à dos animais irracionais? Algumas idéias a mais ou a menos num cérebro devem, podem, impedir que o fogo no queime ou que uma rocha nos esmague?

O mal, sobre o qual foram escritos tantos volumes, no fundo não é senão o mal físico. Esse mal moral é apenas um sentimento doloroso que um ser organizado causa a outro ser organizado. As rapinas, os ultrajes, etc, são um mal apenas enquanto causam outros. Ora, como certamente não podemos fazer nenhum mal a Deus, é claro, pelas luzes da razão (independentemente da fé, que é coisa totalmente diversa, que não há mal moral com relação ao Ser Supremo.

Como o maior dos males físicos é a morte, o maior dos males morais é indubitavelmente a guerra; acarreta com elas todos os crimes, calúnias nas declarações, perfídias nos tratados, a rapina, a devastação, a dor e a morte sob todas as formas.

Tudo isso é um mal físico para o homem, e no entanto é mal moral em relação a Deus como a raiva de cães que se mordem entre si… Não é senão com o homem que o homem pode ser culpado.”

É possível ler o Dicionário Filosófico (1764), que agora sai em nova versão (e uma parte dele já foi traduzida por ninguém menos do que Marilena Chauí, na coleção “Os Pensadores”) pela editora Escala, com o mesmo pique e fruição de um romance ou uma obra narrativa porque Voltaire não se contenta a definir ou esclarecer conceitos, dar exemplos edificantes ou provocativos, ou demonstrar uma erudição invejável. Se preciso for, ele mete suas próprias atribulações pessoais no meio de um verbete, com desfaçatez e naturalidade.

Dentro do projeto iluminista-pedagógico do século XVIII, Voltaire faz o que chamaríamos hoje obra de divulgação, procurando aproximar o leitor comum de temas “difíceis”, até abstrusos. Tudo em prol do Esclarecimento das massas: “Aqueles que dizem que há verdades que devem ser escondidas ao povo não devem alarmar-se; o povo não lê, trabalha seis dias por semana e, no sétimo, vai à taberna. Numa palavra as obras de filosofia são feitas somente para os filósofos e todo homem honesto deve procurar tornar-se filósofo, sem se vangloriar de sê-lo”.

É só na intenção que o projeto voltairiano lembra o que tomamos hoje por divulgação (com as exceções de praxe, uma prática pautada pela mediocridade): seu gênio vai muito além das fontes, e eu acredito que ele até inventa algumas delas, ou as deturpa e deforma, para se ajustar às suas idéias. Na verdade, não importa muito a ele (muito menos a nós) de onde tira seus verbetes (que vão de “Abade” a “Virtude”), uma vez que no final todos terão seu sinete particular: “Os livros mais úteis são aqueles dos quais os próprios leitores compõem a metade; ampliam os pensamentos dos quais lhes é apresentado o germe, corrigem o que lhes parece defeituoso e fortalecem, por suas reflexões, o que lhes parece fraco”.

O certo é que o leitor dificilmente irá consultar a maior parte das obras que “embasam” o Dicionário Filosófico (a não ser um Platão, um Virgilio, um Plutarco, um Santo Agostinho, um Maquiavel), todas já praticamente mortas e aniquiladas na história do pensamento e no imaginário humano. Por isso, sem sabermos o que é dele, o que foi pilhado diretamente de outros, o que foi citado numa tradução indevida ou ineficaz (como parece ser o caso de diversas passagens), o que foi filtrado através de uma ótica parcimoniosa (quer dizer, tendenciosa) ou satírica, todas as idéias veiculadas no volume ficam mesmo com a cara de Voltaire. Duas caras, aliás: uma risonha, que nos propõe o melhor que a inteligência e racionalidade e o humor podem nos propor; outra, não tão simpática, com a aridez e estreiteza imaginativa típica da cultura francesa (não é à toa que Voltaire foi um acerbo inimigo da influência de Shakespeare, em flagrante contraste com Goethe, que seria a figura simétrica a ele em popularidade, na Europa do seu tempo).

E, pasme-se, o pensador da tolerância, que odeia o fanatismo, revela-se francamente anti-semita, homofóbico, eurocêntrico, partidário de uma “reta razão” na qual nem acreditamos mais e que foi mais um sonho do Ocidente. Ele acredita principalmente na Virtude, vejam só! E como ele nos encanta! Sua meta principal: desconstruir os absurdos da religião, seus dogmas e superstições (Santíssima Trindade, Imortalidade da Alma), numa palavra, sua tolice extrema, que no entanto comanda legiões: “Consta num suplemento do concílio de Nicéia que os padres, vendo-se muito embaraçados para saber quais eram os livros autênticos e os apócrifos do Antigo e do Novo Testamento, colocaram-nos misturados numa grande confusão em cima de um altar. Os livros que caíram no chão naturalmente era os que deviam ser rejeitados. É de se lamentar que tão bela receita esteja atualmente em desuso.”

É preciso ler os catecismos de Voltaire (o chinês, o japonês, do padre e do quitandeiro), para ver como 244 anos depois, mesmo em plena pós-modernidade, tudo desconstruído, ele continua imprescindível.

(resenha publicada, de forma ligeiramente condensada, em 22 de novembro de 2008)

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