MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/09/2015

Da pós-paternidade e do perfeccionismo da negligência: “Os Largados” e a vocação do romance

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de setembro de 2015)

«Devo ter ficado ali um bom minuto, olhando para você. Procurando um fio condutor naquele emaranhado hiperconectado. A certa altura você percebeu minha presença.  Não se voltou, manteve olhos e ouvidos em seus terminais e continuou digitando»[1]. Mais do que sobre o proverbial conflito de gerações (o narrador é um pai que, sozinho, criou o filho, agora com 18 anos), Os Largados[2] é uma reflexão sobre os rumos da civilização, a partir dos afetos e da intimidade doméstica: que tipo de ser humano, capaz de se manter sempre antenado, no entanto desatento e anômico, está sendo gestado pelas triunfantes tecnologias, pelo ideal de consumo (confundido com “estilo de vida”) e pela adolescentização de padrões e condutas?

O fio condutor do relato desse pós-pai (pois não consegue se investir, a não ser por arremedos inconvincentes, com a chamada autoridade paterna[3]; quanto ao filho, ele é definido— com suas coisas jogadas pela casa e seu desleixo geral—como um «perfeccionista da negligência») é o convite, transformado em súplica, exortação, chantagem emocional, ameaça, para que façam juntos a subida por uma colina (a Colle della Nasca), manutenção de uma tradição ancestral, um passa-tocha geracional.

Ao longo da leitura do brilhante romance do italiano Michele Serra, fiquei receoso de que a concretização narrativa dessa empreitada acabasse conduzindo pai e filho para as trilhas do sentimentalismo e das fáceis conciliações. Qual nada! A perplexidade e a apreensão (entremeadas tanto com laivos de ressentimento e ironia quanto de ternura apaixonada—e nisso Serra segue a grande e inimitável tradição da literatura e do cinema de seu país) são os fundamentos de Os Largados, já que está em jogo o futuro. Num mundo em que as pessoas estão morrendo mais velhas, como será viver num ilusoriamente eterno presente dos horizontes descartáveis, numa duradoura e hedonista condição adolescente, todas as relações esgarçadas ou voláteis, mesmo aquelas que considerávamos atávicas (o próprio narrador está escrevendo um romance distópico sobre uma Guerra Final, entre velhos e jovens)?:

«De modo que se eu, digamos, me apresentasse com os olhos espiritados e lhe dissesse que você deve partir, esta mesma noite, a fim de libertar, armas em punho, um povo oprimido… ou de repelir os impuros até além das fronteiras (para mencionar apenas algumas das típicas Causas não mais disponíveis a nós, relativistas), então, sim, eu o veria pular do sofá, tornar-se em poucos instantes ´hombre vertical´, preparar a mochila e, me abraçando, murmurar junto ao meu ouvido, finalmente, meu pai, em vez das besteiras mesquinhas com as quais me atormenta desde que nasci, você me indica uma Meta digna desse nome! Você me aponta o sol de uma fé, e não mais uma lampadazinha a apagar […]Mas talvez não… Porque em geral, para gerações de filhos antes de você, o preço dessas gloriosas iniciações,  desses heroicos empreendimentos, foi pavoroso. Simplesmente pavoroso. E não estou  falando do risco de morrer, mas da certeza de viverem sufocados por tabus sexuais, obsedados por decálogos, esmagados pelos deveres sancionados pelo Templo ou impostos pela Lei, a mão do pai erguida no alto e prestes a golpear […] Você, que vê diante de si um pós-pai hesitante e, no fundo, cúmplice, será que não compreende a sorte que tem? Bem sei que não basta, como Sentido da Vida, um vaso sanitário limpo. Não sou tão cretino assim.  Mas a emoção (inédita nos séculos) de uma relativa liberdade, será que deve gerar somente desleixo e mal-estar, preguiça e mau-humor, e não, também, o compartilhamento de um alívio, o de haver finalmente abatido, todos juntos, aquele totem desumano, feroz, castrador que é o Absoluto? »

Entre os momentos marcantes do livro, não posso deixar de aludir ao episódio em que o pai tem de passar algumas horas com Pia, amiga do filho (este não pôde chegar a tempo), numa quase total ausência de comunicação («Não sabe—não compreende—se esta parede invisível é a simples reedição do eterno conflito entre pais e filhos, adultos e jovens. Ou se algo inédito, desconhecido, mutagênico… »); ou àquele no qual, após saber que o perfeccionista da negligência ficou três horas numa fila para entrar na recém-aberta franquia de uma loja norte-americana de moletons, o pai faz uma incursão por ali, abismando-se com a beleza dos vendedores de ambos os sexos: «A estes gatíssimos e gatíssimas não se pode, ou melhor, não se deve, pedir informações, perguntar preços ou localização dos moletons e das camisetas: eles só expõem a si mesmos, suas juventudes em flor. Eu devo estar muito próximo, como arranjo psíquico, do bisavô abrutalhado que chegava de Barazante numa carroça. Porque em substância, e em poucas palavras, toda aquela fartura  de carne enxuta e de pele lisa[…] só me sugere uma espécie de impulso básico e inequívoco: trepar com todos, machos e fêmeas, até para livrá-los e a mim do embaraço de não saber bem o que estamos fazendo aqui […] Afinal deve haver, mister Polan e mister Doompy, um uso compreensível inclusive para nós, grosseirões latinos (entre os quais me incluo, sem dúvida), de toda aquela carne que resplandece no escuro, todo aquele eros continuamente sugerido, prometido, preparado e depois não concedido; mas os senhores acham, queiram desculpar,  que eu, após ter visto concentrada em poucos metros tanta beleza humana quanto bastaria para o Imperador da China, possa ir embora satisfeito por ter comprado um moletom? […] para exorcizar ulteriormente o equívoco erótico, tenho a ótima ideia de imaginá-los todos, machos e fêmeas, em seus quartos bagunçados, em meio a montanha de meias emboladas, gavetas semiabertas vomitando moletons, tudo no chão, até mesmo pratos sujos, e eles limpíssimos porque acabaram de tomar a terceira chuveirada do dia, depilados, barbeados, penteados, oxigenados, polidos, hidratados, aparados, com as unhas dos pés perfeitas, mas no meio de um merdeiro total […] vejam, meus queridos, o quanto estamos presos, nós pais e nós mães de qualquer tendência ou calibre, à ideia antiga de que a beleza do mundo também é assunto nosso. Também assunto nosso. E o é a tal ponto que eu só tomo banho, em geral, depois de me esfalfar e botar a casa em ordem, as coisas nos seus lugares; não porque o ato de cuidar de mim mesmo não me seja precioso, e agradável, mas porque o considero inseparável de cuidar  do meu ambiente[…] Nas intermináveis duchas de vocês, dez minutos, um quarto de hora, esguichos de água que seriam suficientes para irrigar um hectare de deserto, no banheiro cintilante de luz e acolchoado pelo vapor, triunfa, enquanto lhe for dado triunfar, não somente o desperdício; triunfa também a ilógica ilusão de que o corpo—o tabernáculo do Eu—pode se salvar sozinho, permanecer íntegro enquanto ao redor tudo se corrompe.»[4]

Como já afirmou Milan Kundera, «O romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral». Enquanto tantos ficcionistas ainda ficam rodeando a lâmpada como mariposas, ou seja, o ato de escrever enquanto tema (e o leitor saindo sempre com a impressão de ter comprado apenas um mero moletom), obras como Submissão, de Houellebecq, ou este Os Largados recolocam em pauta a discussão de ideias, de impasses contemporâneos que forjarão a História e o porvir. Revitalizam assim uma das vocações mais relevantes (no fundo, sua verdadeira “moralidade”) da arte do romance.

velhos

NOTAS

[1] Todas as citações são da tradução de Joana Angélica d´Avila Melo (Alfaguara, 2015).

[2] No original, Gli Sdraiati (publicado na Itália em 2013)

[3] «…reconheço que, de todas as outras tradicionais atitudes de pai (estabelecer regras, reprovar, punir,  disciplinar), não sou um intérprete convincente. As vezes em que tento organizar, sublinhar regras, sinto que meu tom é o do improvisador, e não o tom respeitável de quem está seguro do próprio papel. Sinto que pareço alguém que recordou de repente, forçado pela emergência, que teria a tarefa de governar. E não o fez.  E, como o mais hipócrita ou o mais incompetente dos políticos, simula ter um programa de governo amontoando confusamente pedaços de regras, ameaças improváveis, chantagens sentimentais,  com uma voz que oscila entre o  balbucio lúgubre  e o agudo neurastênico. No decorrer desses exaltados e, felizmente, raros comícios domésticos, duvido de pelo menos metade das coisas que lhe digo.  Desde o momento em que as pronuncio já sinto que elas pertencem a um arsenal retórico vetusto, montado mediante a colagem dos cacos de velhos códigos transgredidos, varridos por revoluções sociais ou ridicularizados por sua própria prosopopeia.

    Em termos técnicos, sou o típico relativista ético […] Indica aquela ampla faixa de adultos ocidentais que, à parte uma reduzidíssima série de preceitos sem data e sem copyright (tipo não matar e não roubar), não conseguem considerar indiscutível nenhuma disposição ética, especialmente na vida privada. Daí uma difusa incapacidade de pronunciar certos Nãos e certos Sins bem soantes, bem firmes […] Sou o tutor oscilante de  uma ordem empírica, composta e depois desfeita dia após dia,  escrita em nenhum Livro, impressa em nenhuma Tábua. Mas de bom grado a procuraria junto com você, essa ordem, nas difíceis dobras da convivência, recolhendo as meias fétidas que assinalam sua delonga numa infância decrépita, ofensiva para ambos, lavando os pratos sujos que você deixa mofar na pia, suportando sua preguiça obscena, procurando um sentido em seus horários dementes, os retornos às cinco da manhã, os despertares vespertinos, as saídas e as entradas sem uma lógica perceptível, sem a sombra de uma harmonia com os outros habitantes da casa…»


[4] Esse momento do romance é tão rico que consegue incorporar até os protestos contra a instalação da loja por conta de uma nefasta democratização do acesso a produtos que antes eram  usados apenas por “descolados”: «Por outro lado, nem sequer os pouquíssimos adversários da instalação da Polan&Doompy na Itália parecem capazes de organizar uma oposição de efetiva consistência. Porque o miolo da questão—transcrevo a argumentação de Spinky—é “q antes se o cara usava Polan&Doompy dava pra ver q ele esteve em NY mas hoje até os suburbanos podem usar”. Ou seja, o único remédio para a aviltante massificação de consumo consistiria, segundo Spinky, numa vigorosa retomada da discriminação de classe, porque os suburbanos não devem se permitir vestir-se como Spinky, que de fato esteve em Nova York (ou então, quem esteve foi Pikkio, que lhe trouxe um moletom, e dá no mesmo)».

resenha dos largados

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