MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/08/2015

Uma personagem inesquecível, um grande romance e um escritor para ser descoberto: Mila, “Os olhos da treva” e Gilvan Lemos (1928-2015)

lemos, gilvanolhos da treva

«__ Não, não esqueço nada, meu rapaz. Entende o que quero dizer?

__ Acho que sim. E só agora sei: também eu»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de agosto de 2015)

   «Foi não existe, apenas é. Se foi existisse, não haveria dor ou tristeza». O célebre dito de William Faulkner ajuda a entender a tensão que percorre a narrativa de Os Olhos da Treva. Quarenta anos após a sua publicação original[1], continua sendo um dos mais vigorosos e bem urdidos romances da nossa ficção, e é incompreensível o quase absoluto silêncio em torno de seu autor, o pernambucano Gilvan Lemos (falecido no início do mês, aos 86 anos). Ele mesmo reconhecia não ter “grandes sucessos” em sua carreira, mas que vivia «exclusivamente para ler e escrever. O que eu sempre quis de fato foi ser escritor, escritor e escritor».

    Vou imitar Harold Bloom, crítico que costuma extravasar sua admiração por determinadas personagens, e dizer de saída: que mulher incrível Mila, a protagonista de Os Olhos da Treva, que inteligência afiada, alternando cálculo e desatino passional[2]!  Ela aparece em Santa Cruz (povoado que cresce em função de Paraúna, latifúndio de Leonardo Velho, dono daquele mundo e emprenhador de quase todas as mulheres) nos braços do capataz Jacinto (figura trágica e inesquecível), recém-nascida, única sobrevivente de uma área de isolamento forçado para atingidos pela epidemia de varíola[3]. Por causa das marcas bexiguentas no rosto, ela e sua família de adoção (o pai, descendente de índios) são obrigados a viver num ermo:  «Vê donde venho, donde me origino? Ah! como gosto que tenha sido assim,  Jomo. Isto me deu todo o direito de ser ruim». Mais tarde, trazida para a casa-grande, alça aos poucos o posto de principal amante de Leonardo, ganhando autoridade na região. Mesmo assim, sempre se sentirá estigmatizada, e resumirá sua tragédia pessoal da seguinte forma: «Meu querido Jomo, desencontrei-me dos homens que verdadeiramente amei na vida. Um velho demais para mim; o outro, jovem demais».

    Mesmo se dando a outros homens (manipuladora consumada), Mila é louca por Leonardo, do qual décadas a separam (o relato da sedução do fazendeiro é antológico, e o carinho e intimidade para além do sexo entre uma mulher mais jovem e um idoso também aparecem no belo texto que dá título à coletânea A Era dos Besouros, de 2006)[4], e quer ter um filho dele, antes que mergulhe na senilidade. Descobrindo-se estéril, concebe o plano de fazê-lo engravidar uma retirante, apossando-se da criança, Jomo.  A desgraça é que ele se vai se tornar a paixão obsessiva da sua existência: «Amei-o deveras como um filho, Jomo. Durante certo tempo, sim. Depois, Leonardo se acabando, revivendo em você. Com que firmeza, com que afirmação isso se verificava! Não tanto no físico, mas no temperamento, no modo de falar, nos silêncios, no jeito de agradar a todo mundo. Porque você, Jomo, é como Leonardo: as coisas boas ou más vêm para você sem que você faça nenhum esforço para ganhá-las ou evitá-las».

   Jomo é, de certa forma, um herói passivo[5]. O eixo do romance é a sua volta, após vários anos como foragido (por causa do assassinato da amante, esposa de um dos herdeiros de Leonardo—ele era motorista da família), sobrevivendo em subempregos em Recife, participando de incidentes sórdidos e patéticos, para enfim confrontar sua “protetora”, Mila, a qual, já entrada em anos, vive sozinha, tendo perdido a visão. Ela é um dos quatro de quem Jomo suspeita como verdadeiro autor do crime.

   Numa longa jornada noite adentro, realmente é com um olhar de trevas (oriundas da cegueira, da casa sem luz elétrica[6], dos tormentos da alma e das culpas) que ambos constatarão as dores e tristezas do passado, do foi sobre o é, o elo que os liga e separa. E o leitor terá o prazer de um romance de mistério (quem matou?) aliado à densidade da mais alta ficção, aquela que desdobra perspectivas e versões (usando muito o discurso indireto livre, no qual o narrador se cola à visão dos personagens, e parênteses em que eles comentam, retificam, debatem, acrescentam,  enfatizam, exageram, deformam—VER TRECHO SELECIONADO) ao longo de um colóquio entre personagens, a um só tempo equívoco e esclarecedor [7]. É a linhagem de um Absalão, Absalão!, de Faulkner, ou de um Conversa no Catedral, de Vargas Llosa, junto dos quais Os Olhos da Treva certamente não faz feio. Só falta o leitor descobri-lo.

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TRECHO SELECIONADO

«__Lá vem você, Jõberto! Não pode deixar a vida daquele homem em paz? Que importa o passado? Ele está velho, no fim da vida…

__ No fim da vida? Aquele vai passar dos cem. Ainda tem ruindade pra muito tempo.

__ Só você é quem conhece essas ruindades. Nunca ouvi ninguém mais falar mal de Leonardo Velho.

­­__ É minha mentira, então? Olha, Morena, falo mal dele porque eu é que fui o prejudicado. Eu e meu pai, nós. O Velho sempre foi um homem dissimulado, estradeiro.  Suas andanças com Jacinto pelo mato, sua amizade com meu avô… Já estava tudo de caso pensado. Leonardo começou a ficar rico na seca de 77, e só prosperou de tudo depois que meu avô morreu. Na seca de 77 só havia água na Fazenda Pará. Leonardo aproveitou-se disso, explorou os necessitados ao máximo. De cinco reses que bebiam lá, uma ficava como pagamento.

__ Era um direito que lhe assistia. Quem teve a ideia de construir o açude?

__ Não me fale nisso por Nossa Senhora! Construiu o açude com dinheiro do governo, e a nascente da água com a qual encheu o açude não ficava em terras da Pará. Conhecedor como era de toda a região, para isso tinha furado mundo, fingindo que caçava. Leonardo, depois de ter comprado a conivência do tabelião, falsificou a escritura da Pará e a da fazenda vizinha, pertencente ao meu avô. Nessa manobra a nascente do rio ficou situada na Fazenda Pará.

­­__ Tinha alcance.

__ Com essa honestidade toda… Também pouco adiantava que a nascente estivesse na fazenda do meu avô ou na Pará; quando morreu, meu avô deixou suas terras, de mão beijada, para Leonardo I, o Procriador […]

__ Ouvi dizer que eram muito amigos.

__ Eram! Falavam até dos dois. Não sei se meu avô era fresco ou se Leonardo era gilete, não sei. Mas o certo é que Leonardo, não sei como mas ele sabe, pois tinha prática nesses assuntos, falsificou o testamento do meu avô. Quando meu avô morreu, leu-se o testamento e todo mundo ficou de boca aberta: Leonardo I, o Herdador, era herdeiro universal de Jerônimo, o Besta… »

RESENHA

NOTAS

[1] Pela Civilização Brasileira. A edição mais recente foi pela CEPE (2012). Li-o pela primeira vez numa edição do Círculo do Livro (1983).

[2] Há outras figuras femininas marcantes (e com dizeres marcantes) nas ramificações da trama, como Alzira, dona de uma modesta hospedaria: «A gente vive mesmo é esperando o que é da gente. Às vezes nem sabe que está esperando, chega a passar pela vida sem que o que é da gente apareça. E nem sabe, nem nota. Só quando aparece é que sabe…».

[3] Uma estória dentro da estória digna de nota é a tragédia do casal Salvino e Ana. Ele, mesmo são, é mandado para o isolamento devido à obsessão sexual da cunhada, Minerva (já contaminada pela varíola). Parece episódio do Velho Testamento, Minerva  jurando em falso ter deitado com ele.

[4] «Eu, de minha parte, tirava-o por completo. Tirava-o de seu corpo decrépito, de sua marca de homem, de seu passado de macho».

[5] E bem faulkneriano: «Sou um homem preso ao passado, Mila»; numa passagem anterior: «Mesmo agora, se ela calasse, ele não dormiria. Dormir? Nunca mais. Dormir significava apagar tudo da memória, limpar a mente com uma esponja umedecida, recomeçar do começo, do nada. E ele podia?».

Não sei se Gilvan Lemos foi leitor de Nikos Kazantzákis, todavia há também um quê de kazantzakiano na atmosfera do livro, nas especulações de Mila sobre Deus, o Inimigo Secreto, além do campo simbólico envolvido por luz e trevas: «…o mal existe, inegavelmente o mal existe. Foi Deus quem o inventou?»

[6] «Ali, naquela casa tão pequena, em companhia apenas de uma pessoa, e um mundo tão grande       se reabrindo…».

[7] Sem falar da força da linguagem. Veja-se esta descrição de anatomia masculina, tão expressiva: «Suas nádegas se destacavam, bipartidas, altas e claras, como um pássaro que ensaiasse as asas para voar».

Gilvan_Lemos (Foto - Tom Cabral)-741180

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