MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/10/2014

“Garota Exemplar” e a dificuldade para ser um homem ou uma mulher (quanto mais uma pessoa) real

USA - Portraiture - Gillian Flynn   garota exemplar

  Era verdade que eu também sentira isso durante o último mês, quando não queria machucar Amy. Isso me ocorria em momentos estranhos—no meio da noite, dando uma mijada, ou pela manhã, servindo uma tigela de cereal–, identificava uma ponta de admiração e, mais que isso, afeto por minha esposa, bem no fundo de mim, nas entranhas. Saber exatamente o que eu queria ler naqueles bilhetes, me reconquistar, até mesmo prever todos os meus erros… A mulher me conhecia a fundo. O tempo todo eu pensara que éramos estranhos um para o outro, e na verdade nos conhecíamos intuitivamente, em nossos ossos, nosso sangue.

    Era meio romântico…” (trecho de Garota Exemplar)

“Se ela puniu uma amiga de alguns meses se jogando de uma escada, o que faria com um homem burro o bastante para se casar com ela?” (idem)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de outubro de 2014)

Amy Exemplar é heroína de uma popular série de livros juvenis. Sempre faz as escolhas corretas e seu comportamento é impecável. Rand e Marybeth Elliott, os autores, têm uma filha chamada Amy, a quintessência da nova-iorquina sofisticada, linda e inteligente, que no entanto passou por experiências desagradáveis por causa de seu alter ego fictício: além de esperaram dela a perfeição (“o eu que eu deveria ser”), é constante a perseguição de pessoas obcecadas.

Sua vida começa a desmoronar mesmo quando ela e Nick Dunne, o marido, perdem o emprego, e os pais quase entram em falência (a série ficou fora de moda e eles fizeram investimentos ruins), tudo na esteira da recessão americana de anos recentes. Nick propõe uma mudança para sua cidade natal, Carthage (Missouri), com seus “derrotados satisfeitos”, corroída pelo desemprego endêmico e pela falta de perspectivas. Ali, a mãe dele está morrendo de câncer, o pai misógino e truculento sucumbindo ao Alzheimer. Amy investe o resto do seu dilapidado pecúlio num bar que Nick resolve montar com a irmã gêmea.

No dia do aniversário de cinco anos de casamento, ela desaparece, com fortes indícios de violência. Como dirá o advogado de Nick, problemas financeiros+ casal em crise e esposa grávida+ a existência de uma amante= suspeito número um.

Garota Exemplar [Gone Girl, 2012—que eu comento na tradução de Alexandre Martins] é dividido em três partes. Na primeira, com brilhantismo e uma prosa fantástica[1], Gillian Flynn alterna os pontos de vista de Nick e Amy, ele narrando os acontecimentos a partir da constatação do sumiço de Amy; ela, através de um diário, descrevendo o processo de transformação do casamento numa ratoeira de empobrecimento, hostilidade mútua e medo: “Nick se casou comigo quando eu era uma mulher jovem, rica e bonita, e agora sou pobre, desempregada, mais perto dos quarenta que dos trinta; não sou mais só bonita, sou bonita ´para a minha idade´. É a verdade: meu valor diminuiu. Posso dizer pelo modo como Nick olha para mim. Mas não é o olhar de um sujeito que se deu mal em uma aposta honesta. É o olhar de um homem que se sente enganado. Logo poderá ser o olhar de um homem preso em uma armadilha”.

GONE_GIRL

Após esse tour de force, na segunda parte descobrimos que a vitimização de Amy era um engodo meticulosamente planejado como uma vingança contra Nick, por ter sido infiel e por não corresponder à ideia de “marido exemplar”. Curiosamente, nem assim o leitor chega a simpatizar com esse homem fraco, manipulador de um charme “viril-vulnerável” (eterno filhinho da mamãe), o qual, se não chega às raias do ódio contra as mulheres do pai (e de toda uma faixa de machos emasculada pela crise econômica, tal como o Meio-Oeste é soturnamente retratado, apesar das fortes ligações comunitárias), começa a acreditar numa espécie de conspiração global das mulheres contra ele (é alvo de ataques constantes na mídia, muitos deles comandados por apresentadoras de programas sensacionalistas): “Andie tinha me sacaneado, Marybeth se virara contra mim, Go perdera uma dose crucial de fé, Boney preparara uma armadilha para mim, Amy me destruíra. Servi-me de uma bebida. Tomei um gole, apertei os dedos ao redor do copo e o arremessei contra a parede, vi o vidro explodir como fogos de artifício, ouvi o barulho tremendo, senti o cheiro da nuvem de Bourbon. Fúria em todos os cinco sentidos. Aquelas piranhas desgraçadas…”[2]

     Garota Exemplar é, então, uma reflexão ficcional sobre os EUA mergulhado numa regressividade tanto econômica quanto no plano das relações (“É uma época muito difícil para ser uma pessoa, apenas uma pessoa real, de verdade, em vez de uma coleção de traços de personalidade recolhidos de uma interminável máquina automática de personagens”). E, sobretudo, sobre impasses sexistas, em que os indivíduos têm consciência aguda das suas identidades de gênero, numa polarização quase alegórica. Nesse sentido, o romance está longe de ser um mero thriller, e dá para entender o interesse em filmá-lo de David Fincher[3], que já explorara o perturbador avesso misógino e brutal da sempre dita avançada sociedade sueca, em Os homens que não amavam as mulheres (usando um material literário bem inferior, pois Stieg Larsson é medíocre e sua trama foi até melhorada, dentro do possível na adaptação cinematográfica do diretor de Zodíaco, mesmo assim pouco empolgante[4]).

O erro de Gillian Flynn, sem que ela chegue a empanar o virtuosismo da sua prosa, é fazer de Amy um gênio do mal, com pormenores tão exagerados (até seu passado, quando se descobre a verdade sobre os supostos perseguidores, ganha a atmosfera irreal daqueles filmes do tipo Mulher Solteira Procura, A Mão Que Balança o Berço, A Órfã—enfim, o meu leitor poderá lembrar-se facilmente de vários exemplos) que tiram boa parte da força da história. Perde-se o tenso equilíbrio entre “a verdade, a não verdade e o que poderia ser verdade” que sustentava a alternância das narrativas. E Nick, apesar de conhecermos seu lado abjeto, se torna mais humano, em contrapartida a essa hiperbólica Amy Vilã.

A meu ver, Garota Exemplar é praticamente uma obra-prima, digna de O Colecionador, de John Fowles, e maior rival contemporâneo dos romances policiais de Kate Atkinson (Quando haverá boas notícias?; Saí cedo, levei meu cachorro), até a pág. 347 (na edição brasileira). A partir do momento em que Amy se deixa “sequestrar” por um bizarro admirador, que a manterá prisioneira numa erma mansão, e depois parte para a psicopatia explícita, o relato pode até manter o interesse por conta da habilidade ímpar da autora; contudo, parece ter se rendido às fórmulas fáceis. Mesmo o destino monstruoso que imprimirá ao casamento de Nick e Amy fica comprometido com esse ranço de suspense barato. No frigir dos ovos, os dois personagens, tão complexos e reveladores durante a maior parte do romance, reduzem-se a clichês sexistas padronizadores: ela, uma piranha psicopata; ele um banana babaca.

Há uma lista imensa de agradecimentos no final. Quem será o responsável por tê-la orientado para esse caminho inglório? 1/3 de concessões comprometendo 2/3 de puro talento.

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TRECHO SELECIONADO

“__ Sabe Noelle Hawthorne?—perguntou Boney.—A amiga de Amy que você nos mandou investigar?

__ Espere, quero falar sobre as contas, porque elas não são minhas—interrompi.—Quer dizer, por favor, falando sério, precisamos rastrear isto.

__Vamos rastrear, sem problemas—disse Boney, inexpressiva.—Noelle Hawthorne?

__ Certo. Eu disse para vocês darem uma investigada nela porque ela tem circulado por toda a cidade se lamentando por causa de Amy.

     Boney ergueu uma sobrancelha.

__ Você parece bravo com isso.

__ Não, como eu disse, ela parece um pouco abalada demais, meio que de modo falso. Ostensivo. Buscando atenção. Um pouco obsessivo.  

__ Conversamos com Noelle—explicou Boney.—Ela diz que sua esposa estava muito perturbada com o casamento, chateada com a coisa do dinheiro, com medo de que você estivesse casado com ela por causa do dinheiro. Diz que sua esposa se preocupava com seu temperamento. 

__ Não sei por que Noelle diria isso; não acho que ela e Amy tenham trocado mais de cinco palavras na vida.

__ Engraçado, porque a sala de estar dos Hawthorne está cheia de fotos de Noelle e sua esposa—disse Boney, franzindo a testa.

    Eu também franzi a testa: fotos reais dela e Amy?

    Boney continuou:

__ No zoológico de St. Louis em outubro passado, em um piquenique com os trigêmeos, em um fim de semana de junho passeando de bote. Junho, no sentido de mês passado.

__ Amy nunca pronunciou o nome de Noelle durante todo o tempo que moramos aqui, Estou falando sério.

    Revirei meu cérebro pensando em junho passado e esbarrei em um fim de semana em que viajei com Andie, dizendo a Amy que faria uma viagem com os rapazes a St. Louis. Voltei para casa e a encontrei com bochechas rosadas e com raiva, reclamando de um fim de semana de coisas ruins na TV a cabo e leituras tediosas no cais. E ela estivera em um passeio pelo rio? Não. Não podia pensar em nada que interessasse menos Amy do que o típico passeio de bote do Meio-Oeste: cerveja boiando em recipientes amarrados a canoas, música alta, jovens bêbados, acampamentos salpicados de vômito.

 __ Vocês têm certeza de que era minha esposa nas fotos?

    Eles trocaram olhares que diziam: ele está falando sério?”

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NOTAS

[1] Veja-se a seguinte passagem: “…Amy estudara em um colégio interno em Massachusetts chamado Wickshire Academy—eu vira as fotos, Amy de saia de lacrosse e faixa na cabeça, sempre com cores outonais ao fundo, como se a escola não fosse em uma cidade, mas em um mês…”; ou ainda: “Ele me conduziu a uma sala de estar severa, de uma masculinidade imaginada por um decorador”.

[2] Andie é a jovem amante (aluna no seu curso de jornalismo); Marybeth,  a sogra; Go, a irmã gêmea; Boney, a detetive que investiga o sumiço de Amy e que aparentemente simpatiza com Nick.

Por seu turno, acompanhando de longe o desenrolar do caso, Amy afirma: “Mesmo agora o babaca tem mulheres cuidando dele. Mulheres desesperadas identificando uma brecha”. Por essa visão crua de certo comportamento feminino, alguns comentadores do livro acusaram a própria Gillian Flynn de misógina.

[3] Com a maravilhosa Rosamund Pike como Amy e Ben Affleck como Nick (para o qual ele tem, a princípio, o physique du rôle). No momento em que escrevo o texto acima, ainda não assisti ao filme.

[4] Mesmo porque na parte final a protagonista feminina dá uma de “mulher fatal” internacional, uma sequência meio ridícula.

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