MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/04/2011

Kafka para conquistar amigos e influenciar pessoas

Descobri, em meados da década de 80, que os textos curtos de Kafka eram a coisa mais perfeita que existia em prosa[1]. Por isso, ao descobrir também o (foi o que me pareceu naquele momento) precioso Conversas com Kafka, resolvi, a cada noite, antes de dormir, abri-lo em qualquer página e ler o “ensinamento” do dia, como um I-Ching pessoal.

Riobaldo diz em Grande Sertão: Veredas que mocidade é tarefa pra mais tarde se desmentir. Será que é isso o que se verifica agora, quando o livro de Gustav Janouch ressurge nas livrarias?

Em 1920, Janouch era um admirador de A metamorfose, embora Kafka fosse quase desconhecido, e seu pai apresentou-o ao autor, colega seu numa companhia de seguros. O jovem de 17 anos a princípio decepciona-se com aquele indivíduo simples e bem-educado”. Prestando mais atenção, percebe que seu interlocutor tem grandes olhos cinzentos sob espessas sobrancelhas negras. Sua tez é morena e seus traços extremamente móveis. Kafka fala com seu rosto. A partir daí, visitando-o regularmente no escritório, começa a anotar seus colóquios, publicados pela metade em 1951, e depois de forma mais completa no ano de sua morte, 1968, quando o mundo estava cada vez mais interessado por tudo que se referisse ao gênio de Praga.

Nunca se trata de um mero bate papo (aliás, há sempre um clima de formalidade cordial). A não ser que um bate papo pudesse ser como o seguinte:

Kafka- Um carrasco em nossos dias é um honrado funcionário. O espírito pragmático da função pública assegura-lhe um bom tratamento. Por que não haveria um carrasco adormecido em todo funcionário honrado?

JanouchMas os funcionários não matam ninguém!

Kafka- Oh, sim! E Como! Eles pegam seres vivos e capazes de se transformar, e deles fazem matrículas de arquivos, mortos e incapazes da mínima transformação.

Janouch apresenta um memorial emaranhado da sua convivência, sem indicação precisa de datas, e nem sabemos qual o princípio ordenador ou fundamentador de uma possível autenticidade.

E talvez tenha sido o melhor caminho, ditado decerto pela urgência de anotar o que lhe pareceu importante, incisivo, iluminador. E que para mim, em meados dos anos 80, foi importante, incisivo, iluminador. E provavelmente o será para um jovem de 17 anos por aí, descobrindo a paixão pela literatura, supondo-se que ainda os haja.

De vez em quando, Janouch pondera sobre a experiência de conhecer Kafka: Aprendi a ver melhor e a ouvir melhor. Meu universo aprofundou-se e complicou-se, sem ficar mais frio ou longínquo por isso… Não era mais um insignificante filho de funcionário, mas um ser humano lutando para conquistar sua personalidade e a medida do mundo, e medindo com os homens e com Deus. Isso eu o devia ao dr. Kafka.

Isso soa um pouco como Watson falando de Sherlock Holmes. E hoje que eu tenho um conhecimento muito maior tanto da obra kafkiana quanto da sua vida e das análises e interpretações que escreveram sobre ambas (Elias Canetti, Hanns Zischler, Günther Anders, Marthe Robert, Maurice Blanchot, Erich Heller, Danillo Nunes, Ernst Pawell, entre tantos outros), é um pouco difícil me entusiasmar com esse Kafka “como fazer amigos e influenciar pessoas”. Mas há um toque comovente e inegavelmente espontâneo, que se não torna Conversas com Kafka um I-Ching para literatos afoitos pelo menos permite descobrir (ainda que circunspectamente) esse lado tão mais simpático: Minha embriaguez é oferecer. É a embriaguez mais refinada que existe.

 resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de março de 2008


[1] Por essa época Modesto Carone, no Folhetim da Folha de São Paulo, começara a divulgar suas traduções dessa parte da obra kafkiana, com o título maravilhoso de “Contos de fada para dialéticos”. Até hoje me lembro do impacto da leitura de O abutre:

Era um abutre que bicava meus pés. Ele já havia estraçalhado botas e meias e agora bicava os pés propriamente. Toda vez que atacava, voava várias vezes ao meu redor, inquieto, e depois prosseguia o trabalho. Passou por ali um senhor, olhou um pouquinho e perguntou então por que eu tolerava o abutre. “Estou indefeso”, eu disse. “Ele chegou e começou a bicar, naturalmente eu quis enxotá-lo…mas um animal desses tem muita força. Ele também queria saltar no meu rosto, aí preferi sacrificar-lhe os pés”… “Imagine, deixar-se torturar dessa maneira”, disse o senhor. “Um tiro e o abutre está liquidado.” “É mesmo?”, perguntei.”E o senhor pode cuidar disso?” “Com prazer”, disse ele. “Só preciso ir para casa pegar minha espingarda. O senhor esperaria mais uma meia-hora?” “Isso eu não sei”, disse e fiquei em pé um momento, paralisado de dor. Depois falei: “De qualquer modo tente, por favor.” “Muito bem”, disse o senhor. “Vou me apressar.” Durante a conversa o abutre escutou calmamente, deixando o olhar perambular entre mim e aquele senhor. Agora eu via que ele entendera tudo: levantou vôo, fez a curva da volta bem longe para ganhar ímpeto suficiente e depois, como um lançador de dardos, arremessou até o fundo de mim o bico pela minha boca. Ao cair para trás senti, liberto, como ele se afogava sem salvação no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens.

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