MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/04/2015

O gênio de George Eliot e a arte da novela: O VÉU ERGUIDO

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de abril de 2015)

A Grua vem editando a coleção Arte da Novela, e entre títulos excessivamente traduzidos (Bartleby, de Melville; Os Mortos, de Joyce; Um Coração Simples, de Flaubert), conquanto fundamentais, desponta uma grata surpresa: a versão de Lilian Jenkino para O Véu Erguido (“The Lifted Veil”, 1859), uma das primeiras obras de George Eliot (1819-1880), autora de primeira grandeza, mas de escassa fama (e insuficientes traduções) no Brasil, ao contrário de  Dickens e Jane Austen, por exemplo.

Por conta disso, o relato de Latimer, filho caçula de um grande capitalista, desdenhado pelo pai por sua constituição frágil e sua psique sensível demais, e que após longa enfermida passa a ter vislumbres do futuro e a capacidade de “ouvir” a mente das pessoas à sua volta, para além dos véus do decoro social e da hipocrisia (tão típica da era vitoriana)[1], não se transformou numa daquelas narrativas paradigmáticas e onipresentes, valendo-se do sobrenatural para desvelar o fracionamento da identidade humana, posteriormente diagnosticado por Freud, como O Médico e o Monstro, O Retrato de Dorian Gray, Frankenstein, A Volta do Parafuso,  ou certos contos de Poe, para ficar na esfera anglo-saxã[2].

«Minha adivinhação enferma das consciências alheias continuou a me atormentar». Há, entretanto, uma exceção a essa «intromissão involuntária nas almas alheias»[3]: Bertha, jovem destinada ao casamento com o irmão dele e seu oposto em temperamento e traquejo social, Alfred. A não ser em certo momento aterrador: após contemplar um quadro clássico de Giorgione representando Lucrécia Bórgia (o que já é bem  sintomático), sua clarividência lhe traz uma cena de ódio —emanado por uma Bertha madura, casada com ele:

«E se eu tivesse enxergado dentro do coração de Bertha, aquela mulher madura—Bertha, minha esposa? Mas Bertha, a moça, continuava a ser um segredo fascinante (…) O medo do veneno não pode contra a sensação da sede (…)

   É história antiga ver os homens se venderem ao tentador, firmando pacto com sangue, já que o resultado só se vê em dia distante; e então ver esses mesmos homens buscando avidamente o copo que aplaca a sede da alma com um impulso não menos selvagem na companhia de uma sombra ainda mais negra. Não existe atalho, nenhum trilho patente, para a sabedoria: mesmo com séculos de invenções, o caminho da alma deita pelo ermo espinhento que precisa ser trilhado em solidão, com pés sangrentos, com soluços implorando ajuda, uma vez que foi trilhado por eles em tempos idos… »[4]

Com esse sutil toque fantástico (amiúde exercitado por seu maior discípulo, Henry James), a romancista de O moinho sobre o rio[5] nos faz refletir sobre o medo do futuro[6], encarar como como nossas inclinações moldam nosso destino, tornando-o fatalístico, desmontando ilusões românticas, o autoengano (também uma seara explorada por James—quem pode esquecer A fera na selva?), além de trazer à baila a estreiteza da mentalidade pragmática e positivista do mundo burguês, confrontando ciência e senso moral[7]. De fato, a história de Latimer nos ajuda a entender a seguinte afirmação de Frederick R. Karl, alentada biografia A Voz de um Século: «Eliot se dividia entre a personalidade que se alimenta de derrotas, resignação, sentido de mortalidade e o fim do próprio eu e a personalidade que produz, se desenvolve, amadurece, emerge e procura atingir o público como autora e ser social»[8].

   Portanto, mesmo num texto curto, aquela que escreveu o supremo romance inglês oitocentista, Middlemarch (1872)[9], delineia as grandes linhas de força que consolidaram a alta prosa narrativa, partindo do folhetim e do gótico, e que fizeram de certos personagens peças-chave do imaginário ocidental. Não falta sequer o típico retrato da instituição do casamento, ingrediente indispensável daquela época, e que aqui ganha pinceladas sinistras, bem dentro da relutante vidência de Latimer («…pressentimentos emanados de uma previsão em pé de guerra com a paixão…»)[10], com a inclusão de uma criada-vilã, cuja jornada para a morte, em agonia, ensejará uma cena que tem não apenas o seu quê de Poe como também o seu quê de Machado de Assis (penso em A causa secreta, por exemplo): o espetáculo da mortalidade rasgando de forma definitiva os derradeiros véus das relações humanas, queiramos ou não: «As feições dela naquele momento pareciam tão sobrenaturalmente afiadas, os olhos tão ríspidos e ávidos—ela lembrava um imortal cruel  que se refestela espiritualmente  nas agonias de uma corrida mortal. Por entre tais feições ásperas surgiu um clarão quando soprava a última hora,  e todos nós sentimos que  o véu escuro havia  completamente caído. Que segredo haveria entre Bertha e aquela mulher? Tirei os olhos de Bertha por um medo horrível de ter de volta os vislumbres, com medo de ser obrigado a enxergar aquilo que fermentava  no coração entre duas mulheres não-amadas. Senti que Bertha aguardava o momento  daquela morte como se  esperasse o sepultamento de um segredo: eu agradeci ao Céu por tal segredo permanecer oculto para mim…»[11]

Mais que mero destaque de uma coleção interessante, O Véu Erguido é o ponto alto de um gênero. Merece ser mais amplamente conhecido.

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TRECHO SELECIONADO

«… não importa o quão vazio esteja o ádito, conquanto seja espesso o véu. Tão absoluta é a necessidade da alma de algo escondido e incerto visando à manutenção da dúvida, da esperança e do esforço, que são o sopro da vida, que, mesmo que todo o futuro fosse desnudado hoje, o interesse da humanidade inteira recairia nas horas intermediárias (…) Imagino a condição da mente humana se toda e qualquer proposição fosse autoexplicativa exceto uma, que se tornaria evidente ao findar de um dia de verão, mas que, enquanto isso, pode ser o objeto de questionamento, de hipótese, de debate. A arte e a filosofia, a literatura e as ciências  se tumultuariam como abelhas sobre essa única proposição repleta do mel da probabilidade, e tais artes estariam  ainda mais famintas porque seu deleite ficaria com o acaso. Nossos impulsos, as atividades espirituais, não se ajustam à ideia da nulidade futura mais do que  já fazem as batidas do coração  ou a irritabilidade dos músculos…»

«… no matter how empty the adytum, so that the veil be thick enough.  So absolute is our soul’s need of something hidden and uncertain for the maintenance of that doubt and hope and effort which are the breath of its life, that if the whole future were laid bare to us beyond to-day, the interest of all mankind would be bent on the hours that lie between (…)Conceive the condition of the human mind if all propositions whatsoever were self-evident except one, which was to become self-evident at the close of a summer’s day, but in the meantime might be the subject of question, of hypothesis, of debate.  Art and philosophy, literature and science, would fasten like bees on that one proposition which had the honey of probability in it, and be the more eager because their enjoyment would end with sunset.  Our impulses, our spiritual activities, no more adjust themselves to the idea of their future nullity, than the beating of our heart, or the irritability of our muscles…»

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NOTAS

[1] Um argumento similar foi desperdiçado por Joaquim Manuel de Macedo em seu A Luneta Mágica (1869).

[2] No clímax do relato, há algo da atmosfera tétrico-necrófila de Os fatos do caso de Mr. Valdemar, de Poe. E quem não lembraria dos diálogos de Oscar Wilde na seguinte passagem:

« “Como pode dizer isso, Bertha?”

“Ora! Sua Sabedoria crê ser necessário que eu ame o homem a quem desposarei? Seria a mais desagradável das coisas. Com ele eu duelarei… Um pouco de desprezo silencioso muito contribui para a elegância da vida…”»

No original:

« “How can you ask that, Bertha?”

“What! your wisdom thinks I must love the man I’m going to marry?  The most unpleasant thing in the world.  I should quarrel with him… A little quiet contempt contributes greatly to the elegance of life.” »

[3]  Trechos tirados da seguinte passagem: «… minha adivinhação enferma das consciências alheias continuou a me atormentar (…) Era como um sentido sobrenaturalmente elevado da audição, tornando audível como rugido o que os outros consideravam como perfeita mansidão. O cansaço e o desgosto dessa intromissão involuntária nas almas alheias eram contrabalançados apenas pela ignorância em relação a Bertha e pela crescente paixão por ela; uma paixão enormemente estimulada, senão produzida, por tal ignorância. Ela era meu oásis de mistério no deserto monótono do conhecimento… »

«…my diseased anticipation in other people’s consciousness continued to torment me (…)It was like a preternaturally heightened sense of hearing, making audible to one a roar of sound where others find perfect stillness.  The weariness and disgust of this involuntary intrusion into other souls was counteracted only by my ignorance of Bertha, and my growing passion for her; a passion enormously stimulated, if not produced, by that ignorance.  She was my oasis of mystery in the dreary desert of knowledge…»

[4] «What if I saw into the heart of Bertha, the matured woman—Bertha, my wife?  Bertha, the girl, was a fascinating secret to me still: I trembled under her touch; I felt the witchery of her presence; I yearned to be assured of her love.  The fear of poison is feeble against the sense of thirst (…)

    It is an old story, that men sell themselves to the tempter, and sign a bond with their blood, because it is only to take effect at a distant day; then rush on to snatch the cup their souls thirst after with an impulse not the less savage because there is a dark shadow beside them for evermore.  There is no short cut, no patent tram-road, to wisdom: after all the centuries of invention, the soul’s path lies through the thorny wilderness which must be still trodden in solitude, with bleeding feet, with sobs for help, as it was trodden by them of old time..

[5] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/04/20/maggie-tulliver-e-isabel-archer-o-mundo-e-um-moinho/

[6] Logo no início da narrativa em primeira pessoa:

«…eu deveria, ao menos uma vez, tentar descobrir se os sofrimentos da expectativa ilusória conseguem sobrepujar os sofrimentos da previsão verdadeira…»

«…I should for once have known whether the miseries of delusive expectation can outweigh the miseries of true provision…»

E bem mais adiante:

«Eu sentia um tipo de angústia imbuída de pena em relação ao pathos que me cabia: a sina de um ser finamente ajustado para a dor, mas com quase nenhuma fibra que respondesse ao prazer—alguém a quem a ideia do mal futuro roubava o presente de sua alegria, e para quem a ideia de uma bonança futura não acalmava a tormenta de um anseio ou de um temor presentes…»

«…I felt a sort of pitying anguish over the pathos of my own lot: the lot of a being finely organized for pain, but with hardly any fibres that responded to pleasure—to whom the idea of future evil robbed the present of its joy, and for whom the idea of future good did not still the uneasiness of a present yearning or a present dread…»

[7] Há uma cena em que um frenólogo examina o crânio de Latimer, para estabelecer suas “tendências”, e não podemos esquecer do experimento “científico” do clímax.

[8] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/14/tijolaco-biografico-pouco-ajuda-a-conhecer-george-eliot/

[9] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/11/22/mundo-imerso-no-mundo-a-maior-rival-de-tolstoi/

A respeito de outro admirável romance de Eliot, Daniel Deronda:

https://armonte.wordpress.com/2010/11/22/o-projeto-mais-ambicioso-da-voz-do-seculo-xix/

[10] «…the presentiments that spring from an insight at war with passion…»

[11] «The features at that moment seemed so preternaturally sharp, the eyes were so hard and eager—she looked like a cruel immortal, finding her spiritual feast in the agonies of a dying race.  For across those hard features there came something like a flash when the last hour had been breathed out, and we all felt that the dark veil had completely fallen.  What secret was there between Bertha and this woman?  I turned my eyes from her with a horrible dread lest my insight should return, and I should be obliged to see what had been breeding about two unloving women’s hearts.  I felt that Bertha had been watching for the moment of death as the sealing of her secret: I thanked Heaven it could remain sealed for me…»

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22/11/2010

“Mundo imerso no mundo”: A maior rival de Tolstói

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Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 02 de julho de 1998

Já tive a oportunidade de citar nesta minha coluna [de “A Tribuna”] a bela definição de romance feita por Osman Lins: “mundo imerso no mundo”. Mesmo que Guerra e Paz, de Tolstói, trate de um período específico, o das guerras napoleônicas,  mesmo que A montanha mágica, de Thomas Mann, retrate o cotidiano de um sanatório alguns anos antes da guerra de 1914, mesmo que Ulisses, de James Joyce, retrate apenas um dia na vida de moradores de Dublin, a impressão que se tem é de que eles e alguns outros poucos romances contêm a vida inteira.

É uma experiência desse tipo que o leitor tem com MIDDLEMARCH (1871-72, de George Eliot[1],  finalmente traduzido no Brasil (um admirável feito de Leonardo Fróes), num dos eventos literários desta década.

A grande escritora inglesa parece ter sido a coisa mais próxima de Tolstói que a ficção já produziu, pois ao retratar três anos (1829-1832) da pequena e corriqueira cidade de Middlemarch e seus arredores, ela aborda todos os grandes temas: o conflito entre tradição e progresso, o amor, o casamento, a maternidade, o conflito de gerações, a realização profissional, a perspectiva da morte… Curiosamente, na mesma época em que Eliot terminava Middlemarch, Tolstói começava a escrever Anna Karênina, que apresenta várias similaridades.

O impacto de Middlemarch é tal que, nas três semanas em que fiquei mergulhado na sua leitura, parecia que os habitantes da cidade eram tão reais quanto as pessoas à minha volta, e era com muita má vontade que eu largava o romance para tratar de outras coisas. Leituras assim a gente experimenta pouquíssimas vezes na vida, leituras em que a gente vive o livro quase fisicamente, mais do que meramente ler.Nem mesmo a alta qualidade de outras obras da Eliot, como O moinho sobre o rio ou Daniel Deronda, me preparara para esse “mundo imerso no mundo”.

Uma multidão de personagens aparece em Middlemarch, contudo o leitor fica ávido de saber especialmente o que vai acontecer com Dorothea Brooke e Tertius Lydgate, embora não haja envolvimento romântico entre eles (o mesmo acontece com o “casal” de Daniel Deronda,  o personagem-título e Gwendolen Harleth).

Por causa de sua ardente espiritualidade e necessidade de conhecimento, Dorothea casa-se (desastrosamente) com o clérigo Casaubon, o qual a mantém num estado de revoltante submissão e tortura psicológica, tentando perpetuar tal situação até mesmo após sua morte, quando coloca em seu testamento a interdição de que ela se case com Will Ladislaw (justamente o homem que ela ama e que foi privado de duas heranças, como ficamos sabendo ao longo do complicado enredo).

Lydgate, por sua vez, é o médico com métodos modernos que incomoda seus colegas provincianos ao seu instalar em Middlemarch. Seu erro é similar ao de Dorothea: projetar suas fantasias numa pessoa e casar com ela.  E seu matrimônio com a frívola Rosamond (que por pouco não se torna a Emma Bovary da literatura inglesa) o leva a abdicar de seus altos sonhos profissionais e reformadores e envolver-se num escândalo que remonta ao passado do  homem mais rico da região, o senhor Bulstrode, escândalo que envolve Ladislaw e  aproxima o casal Lydgate de Dorothea (há, inclusive, uma cena entre as duas que é um dos maiores momentos da história da ficção).

Pois um dos temas dominantes da obra-prima de George Eliot é a impossibilidade do heroísmo, isto é, a necessidade de ideais mais elevados, moldar uma vida nos dias atuais (se era uma impossibilidade no tempo dela, imagine hoje), tendo de atuar de maneira mais difusa e resignada: “Pois não há criatura cuja vida interior seja tão forte para não ser grandemente determinada pelo que está fora dela”. Para usar uma imagem do próprio Lydgate, é preciso tentar manter-se um ser vivo dentro da concha que se cria para a sociedade.

Essa concepção poderia levar a um determinismo que limitaria o escopo do livro, não fosse George Eliot um gênio narrativo e uma incrível criadora de personagens, diálogos, situações (é por isso que é tão difícil colher uma citação em Middlemarch). Até no quesito “enredo folhetinesco” ela se mostra extraordinária, com uma trama de mil meandros e cheia de surpresas. Mesmo quando ela se afasta de Dorothea e Lydgate, os personagens que dominam a cena por algum tempo, como Fred Vincy e seus familiares, os quais ficam na expectativa do testamento de um velho tirano moribundo, garantem o interesse.

É espantoso como as grandes autoras inglesas do século XIX (Jane Austen, Mary Shelley, Emily e Charlotte Brönte) diferem umas da outras. O que distingue George Eliot é sua vontade de pensar sobre tudo, de refletir minuciosamente sobre os sentimentos, as instituições e o lado imponderável  e indizível da vida, o que faz do seu estilo uma experiência quase impossível para o leitor atual apressado, e torna a sua obra duplamente difícil de se popularizar, ao contrário das outras escritoras citadas.  E olhe que Middlemarch está longe do estilo intrincado  que ela ousou em Daniel Deronda e que faz dele uma espécie de preâmbulo para várias experiências da mais alta literatura do século seguinte consideradas herméticas e inacessíveis.

Se o leitor tiver paciência e persistência (e puder desembolsar cinqüenta pilas, preço que a Record absurdamente colocou no livro) certamente descobrirá por si mesmo que Middlemarch é um livro supremo.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/11/22/o-projeto-mais-ambicioso-da-voz-do-seculo-xix/

https://armonte.wordpress.com/2013/10/14/tijolaco-biografico-pouco-ajuda-a-conhecer-george-eliot/


[1] Na verdade, Mary Ann Evans

O projeto mais ambicioso da “voz do século XIX”

 

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 25 de agosto de 1998)

Após a biografia de George Eliot, assunto na semana passada desta coluna [VER: https://armonte.wordpress.com/2013/10/14/tijolaco-biografico-pouco-ajuda-a-conhecer-george-eliot/], parece oportuno comentar também DANIEL DERONDA (1876), o projeto mais ambicioso da autora inglesa (para ela, seria sua obra-síntese), e que só no início deste ano apareceu em edição brasileira (pela Paz & Terra, em tradução de Marisis Aranha Camargo).

     Daniel Deronda entrelaça a história do personagem-título com a de Gwendolen Harleth. Ambos se conhecem num cassino, pouco tempo antes de Gwendolen saber que sua família está arruinada. Ela se salva da pobreza casando com Grandcourt, herdeiro do “padrinho” (e, para muita gente, pai verdadeiro) de Daniel, e o casamento é mais uma daquelas armadilhas que os autores do século XIX adoravam preparar para suas heroínas.

Se Casaubon, marido de Dorothea Brooke, a heroína de Middlemarch, era mais patético do que perverso, mesmo atormentando-a, Grandcourt é um dos maiores vilões psicológicos da literatura, antecipando um pouco Gilbert Osmond, de Retrato de uma senhora. É engraçado que Henry James tenha criticado tão duramente Daniel Deronda quando apenas quatro anos depois apresentaria uma trama tão similar, em que o marido sente prazer em tolher e aterrorizar a esposa.

Enquanto Gwendolen se debate entre as poucas opções reservadas à mulher de sua época (ao contrário das suas pueris suposições juvenis), mesmo que tocada pela “influência” de Daniel, este por sua vez vai ter de ajustar contas com seu passado misterioso.

Até salvar a judia Mirah do suicídio e começar a procurar os parentes dela (mãe e irmão) no bairro judeu, ele acreditava ser filho bastardo de sir Hugo Mallinger. Acaba descobrindo que também tem ascendência judaica, e da tentativa de ser um “cavalheiro” inglês, ele passa, por causa do seu amor por Mirah (e por causa do fascínio pela figura de Mordecai, o irmão dela) a “tornar-se um judeu” para servir sua raça.

Sempre atenta para a possibilidade de trazer o trágico e o mítico das literaturas clássicas para o mundo vitoriano, George Eliot faz da evolução pessoal de Daniel uma espécie de atualização da história de Moisés, o judeu que foi criado longe da sua raça, mas que o destino acabou encaminhando para ela no sentido de tornar-se um líder. É preciso que o leitor de hoje perceba como foi audaciosa a atitude da autora de O moinho sobre o rio em abordar o universo judaico, praticamente ignorado e desprezado na sua época.  E, como se vê, o homem tem, em Daniel Deronda, uma possibilidade de heroísmo e transcendência de si mesmo que são negadas à mulher.

Apesar da grandiosidade da concepção de Daniel Deronda e do teor enciclopédico que vai adquirindo, a partir da seção chamada Mordecai, e que o torna precursor do romance do nosso século, é preciso admitir, como tantos já fizeram antes, que há um desequilíbrio gritante entre as partes de Gwendolen e Daniel.  Até o final da seção chamada Gwendolen faz sua escolha, o livro é uma obra-prima perfeita e consumada. Depois, embora continue extraordinário e inusitado, mostra-se muito exagerado e atravancado ao narrar a amizade de Daniel e Mordecai e a conversão do primeiro ao judaísmo.

O grande problema, talvez, é que enquanto Gwendolen e Grandcourt são personagens incríveis, complexos, absorventes, Mordecai, Mirah e as mulheres da família Meyrik que a acolhem, são nobres demais, chegam às raias do insuportável de tanta boa vontade e bom caráter, além de serem “literários” demais, quase pomposos.

Acaba sendo um alívio quando Gwendolen volta à cena (para que o  leitor testemunhe a morte de seu marido, um ponto alto do romance), quando Daniel tem um terrível e cruel encontro com a mãe,  que nunca conhecera (outro ponto alto) ou quando reaparece na vida de Mirah e Mordecai seu pérfido e decaído pai (mais outro ponto alto).

Toda a sordidez, o egoísmo, a angústia e o sofrimento que um ser humano pode causar a outro garantem mais interesse e charme ao romance, por incrível que pareça, do que todo o projeto utópico e messiânico que George Eliot incute na “conversão” de Deronda à causa judaica, embora ela funcione como um contraste fascinante com a limitação do destino de Gwendolen.

Mesmo assim, com todo esse desequilíbrio, Daniel Deronda é um romance estupendo, lembrando os livros tumultuados, sobrecarregados e geniais que D.H. Lawrence viria a escrever (por exemplo, Mulheres apaixonadas) e que Doris Lessing vem escrevendo nas últimas décadas (por exemplo, Os filhos da violência).

Quando se lê no prefácio de O caderno dourado afirmações discutíveis de Lessing, tais como “George Eliot foi razoável na sua  pequena ousadia;  acho que ela pagou o preço de ser uma mulher vitoriana; ela precisava se mostrar uma boa mulher; mesmo quando não estava de acordo com as hipocrisias de sua época—há muita coisa que ela não entende porque é moralista”, só se pode crer que, assim como no caso de Henry James, trata-se da velha questão do discípulo renegando o mestre. E que mestre!

nota- o título deste post se deve à biografia de Frederick R. Karl, George Eliot, a voz de um século, publicada pela Record em 1998.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/11/22/mundo-imerso-no-mundo-a-maior-rival-de-tolstoi/


 

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