MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/03/2011

A verdadeira vida de Nietzsche: o provedor de metáforas

(resenhas publicadas originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de abril e primeiro de maio de 2001)

PRIMEIRA PARTE

     Em geral, as biografias decepcionam e irritam porque o autor fica trezentos e cinqüenta páginas contando antecedentes familiares e mínimos detalhes da infância e da juventude do biografado para, depois, ao abordar a obra propriamente dita, mostrar-se aquém da tarefa. Os fatos acumulam-se e, no entanto, o leitor tem sempre a impressão de terminar o calhamaço conhecendo muito pouco a “verdadeira vida” do fulano em questão, além de ter a nítida sensação de que a obra só existiu como mero estepe para a projeção de experiências pessoais.

     Por isso, Nietzsche em Turim- O fim do futuro (a tradução de Pedro Jorgensen Jr. para Nietzsche in Turin-The end of the future, Inglaterra-1996), de Lesley Chamberlain, é uma notável exceção, ao se concentrar no ano-chave de 1888, quando Nietzsche já está com 43 anos e chega a Turim, na Itália, para passar os difíceis (para ele) meses de primavera. Será o seu último ano “consciente”. Em janeiro de 1889, ficará irremediavelmente louco devido às complicações da sífilis, até morrer emblematicamente em 1900 na encruzilhada entre dois séculos.

      Quando salta em Turim, é um homem pobre e obscuro, vivendo com uma modesta pensão dos tempos em que fora professor em Basiléia e que descreve sua situação da seguinte forma: “… a desolação à minha volta é monstruosa: de fato, eu só consigo suportar gente completamente estranha e pessoas que encontro ao acaso; de outro lado, pessoas que conheço há muito e outros que me pertencem desde a infância. Tudo o mais desmorona ou foi rechaçado…”

     Lesley Chamberlain faz um uso impressionante da correspondência de Nietzsche com “as pessoas que conheço há muito” e “as que me pertencem desde a infância”. Além disso, seu texto entrança de tal modo os fatos com a análise da obra que só me resta dizer que, com esse trabalho de tapeçaria, ela aproveita o que há de melhor no mundo dos livros biográficos e dos ensaios interpretativos, evitando assim a banalidade habitual de uns e a aridez e abstração dos outros.

     Acompanhamos o Nietzsche de 1888 prestes a sucumbir ao colapso do ano seguinte. Sempre que é necessário, recua-se (é preciso contar a infância, a morte prematura do pai, o ambiente sufocantemente religioso e feminino no qual ele se criou; a convivência com o casal Wagner e a ruptura; o amor por Lou Salomé) ou avança-se (para mostrar como sua irmã Elizabeth, uma precursora do nazismo, procurou se apropriar do seu pensamento filosófico, inclusive compilando manuscritos avulsos num livro espúrio, apócrifo, A Vontade de Potência, que ajudou a consolidar vários mal entendidos na reputação do irmão, pois ainda hoje há quem acredite ser Nietzsche uma das bases teóricas da ideologia nacional-socialista).

    Em 1888,o grande pensador e escritor alemão estava começando a ficar famoso (um processo bem mais lento do que hoje em dia) e escreveria seus últimos trabalhos, após encantar-se com a “nobreza aristocrática” de Turim (“…nada tem de capital, nada de moderno, como eu temia… a cidade tem para mim um apelo indescritível… sinto-me em casa”), apesar de passar o verão nos Alpes suíços, confirmando uma existência errante (“A minha opinião é a de que a experiência de ser um sem-Deus, sem-emprego, sem-esposa e sem-lar deu a Nietzsche o conhecimento direto, imediato, da patologia dos outsiders de todas as épocas… mas que Nietzsche experimentou a condição de outsider com uma intensidade quase premeditada…”). Ao mesmo tempo, paradoxalmente, ele “apreciava os estritos limites das regras e expectativas sociais, correspondendo a elas”. Por exemplo, sua opção de moradia em Turim: “Queria morar com uma família educada, de classe média, que cultivasse as aparências, uma casa asseada e bem administrada onde houvesse tempo para ler e tocar piano”. Quem isso nos lembra? Um personagem bastante inspirado nele, que absorveu sua errância e essa necessidade de uma “casa asseada e bem administrada” para apaziguar sua perigosa vida interior: Harry Haller, o Lobo da Estepe. No romance de Hermann Hesse, a senhoria fala a respeito do inquietante inquilino: “Nossa casa cheira a limpeza, a ordem, a uma vida amistosa e decente, e isso lhe agrada muito”. Mais adiante, seu sobrinho (e narrador da história, a essa altura) afirma ter desenvolvido, após uma resistência inicial, “compaixão para com aquele profundo e permanente sofredor, cujo isolamento e cuja morte íntima eu contemplava… cada vez mais me convencia de que a enfermidade daquele paciente não provinha de qualquer deficiência de sua natureza, mas, ao contrário, tão-somente da não lograda harmonia entre a riqueza de seus dons e suas forças”. Tudo isso poderia fazer parte de uma biografia de Nietzsche e Hesse estava consciente disso, pois adiante ainda se lê: “Haller era um gênio do sofrimento; ele, no sentido de várias acepções de Nietzsche, havia forjado dentro de si uma capacidade de sofrimento genial, ilimitada e terrível”.

    Essa apropriação de dados biográficos da figura de Nietzsche para construção de um protagonista é um dos muitos elementos da curiosa afinidade entre O Lobo da Estepe e outra obra-prima, Doutor Fausto. Em Adrian Leverkühn (o próprio sobrenome é uma referência nietzschiniana, pois significa mais ou menos “viver perigosamente”, o que ecoará na narração do Riobaldo de Grande Sertão: veredas) a porção Nietzsche é muito mis marcante que as de Hugo Wolf ou Schönberg, que também inspiraram Thomas Mann na composição do personagem. Por exemplo, é através da sífilis que o diabo toma posse da alma de Adrian, e ele é infectado num bordel, numa episódio diretamente tomado da vida do autor de Assim falou Zaratustra.

    Mann “roubou”, por assim dizer, até comentários das pessoas que cercaram Nietzsche. Um exemplo: quando li, em Nietzsche em Turim, que um amigo (Erwin Rohde, uma daquelas “pessoas que conheço há muito”) disse: “É como se ele viesse de um país onde não vive mais ninguém”, senti a sensação de que já conhecia essa frase. Procurando em Doutor Fausto encontrei então: “… a atmosfera de indescritível esquivança e solidão que o circundava cada vez mais sensivelmente a essa altura e o distanciava crescentemente dos demais, provocando em nós a sensação de que Adrian vinha de um país onde, além dele, ninguém mais vivia”.

     Friedrich Nietzsche, portanto, é uma figura tão icônica que duas das maiores obras literárias do século XX inspiraram-se nele. E isso é apenas uma gota d´água com relação à sua oceânica influência na literatura e na cultura geral do século que passou.

 

SEGUNDA PARTE

“Todos sabemos que a nossa época é profundamente bárbara, embora se trate de uma barbárie ligada ao máximo de civilização”. Tais palavras, do grande Antônio Cândido, nosso maior crítico literário, são produto direto da influência de Friedrich Nietzsche (1844-1900).

    Pois numa época (o século XIX), na qual se cultuava a idéia de progresso da humanidade, Nietzsche foi uma das primeiras vozes contrárias. Ele via o avesso: um estado de decadência, capitaneado pelo cristianismo. A religião seria um dos fatores mais debilitantes, por operar a repressão (o termo que seria consagrado por Freud) dos instintos dionisíacos (leia-se irracionais) do ser humano, necessários para a nossa plenitude, como provaram a civilização grega (na Antiguidade) e o Renascimento, os dois períodos históricos mais admirados pelo grande pensador alemão,que odiava a época em que vivia.

     Por algum tempo, Nietzsche vira na Arte, principalmente na música de Wagner, um antídoto para essa debilitação na fibra humana, acarretada por séculos de cristianismo, mas logo seu pensamento deu um salto: não bastava a Arte para salvar o viver, era preciso reformar o próprio viver, criar uma arte do viver, na qual o homem se superasse e se tornasse o além do homem (muitas vezes utiliza-se o termo super-homem para definir essa noção nietzschiniana de uma humanidade que supera a si mesma), uma vez que o Deus cristão morrera, vítima de sua própria fraqueza.

    Na seção anterior, enfatizei a habilidade de Lesley Chamberlain, em Nietzsche em Turim, em fazer emergir o homem Nietzsche por inteiro, embora concentrando-se num ano-chave da sua vida (1888), quando ele chega à cidade italiana do título. Faltava comentar o ângulo utilizado por ela para nos apresentar o pensamente de Nietzsche.

     Em 1888, ele está prestes a escrever sua autobiografia filosófica, Ecce homo, onde se apresenta como portador de uma “verdade difícil”: a necessidade de transvaloração de todos os valores (Chamberlain: Ecce homo mostra como o homem moderno pode se defender das forças desagregadoras que ameaçam sua personalidade e sua vida… exorta à autodeterminação, ao mesmo tempo que sublinha o caos da existência. O indivíduo tem de criar a si próprio, apesar de não ter nenhum valor individual”).

    O uso da própria vida para a criação das suas metáforas filosóficas é a grande originalidade de Nietzsche como pensador, segundo Chamberlain, e a base do fascínio da sua obra, cem anos depois da sua morte. Nietzsche seria o filósofo que faria atenção às “coisas ao alcance da mão”, um homem preocupado com o cotidiano, com a saúde do corpo (“Será que toda a filosofia não foi um entendimento equivocado do corpo” é uma das suas frases célebres).

    “Nietzsche escreveu como um apaixonado pela vida e como um homem dotado de inteligência e humildade suficientes para ver que a humanidade não era necessariamente o propósito  e o centro da vida neste pequeno e miserável planeta chamado Terra. Toda certeza fixa o enchia de desconfiança, porque o que existia eram basicamente duas sensações: prazer e dor… Nietzsche observava e analisava seus sentimentos e pensamentos pelo que eles revelavam de sua psicologia e sua fisiologia. Que diferença faz, para todos os pensamentos de um homem, se ele teve uma infância feliz ou um metabolismo apático? Muito, com certeza”. Para  a autora de Nietzsche em Turim- O fim do futuro, ele via este mundo “como essencialmente ilusório, e tinha de encontrar um modo de encarar positivamente esse estado de coisas. E o fez vendo a vida como uma forma de arte, construída sobre alguns enganos intencionais e incorporando significados provisórios. O filósofo torna-se então um provedor de metáforas”.

    Entretanto, no final, foi a fisiologia que o traiu, com a loucura acarretada pela sífilis, que tomou conta dele no início de 1889, após ter anunciado à humanidade a difícil verdade de ser necessário construir um novo ser humano a partir da morte de todos os valores cristalizados pela tradição.

    Num de seus mais belos livros, Aurora (o leitor que for leigo em filosofia, assim como eu, pode conhecer fragmentos dele, assim como de todas as obras principais de Nietzsche, no magnífico e indispensável volume dedicado a ele na coleção Os Pensadores da Abril Cultural), encontramos a seguinte reflexão sobre os limites da ousadia do pensamento: “Todos os nossos grandes mestres e precursores acabaram por se deter; e não é com o gesto mais nobre e gracioso que o cansaço se detém; também comigo e contigo será assim! Mas que importa isso a mim e a ti! Outros pássaros voarão mais longe!”

    Não foi com o gesto mais nobre e gracioso que o libertário visionário do além do homem se deteve, em seu cansaço. Mas como voou longe! Tanto que até agora ninguém foi mais além:

“Minha sabedoria já há muito se acumula; igual a uma nuvem, ela se torna mais quieta e mais escura. Assim faz toda sabedoria que um dia deve parir um relâmpago”;

“Para esses homens de hoje não quero ser luz nem chamar-me luz. Esses eu quero cegar: relâmpago da minha sabedoria” (Assim falou Zaratustra).

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