MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/10/2013

Tijolaço biográfico pouco ajuda a conhecer George Eliot

george-eliot-a-voz-de-um-seculo-biografia-frederick-r-karl_MLB-F-4266614356_052013
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 18 de agosto de 1998)
Os leitores brasileiros puderam este ano conhecer as grandes criações de George Eliot (1819-1880), Middlemarch & Daniel Deronda, dois romances absolutamente essenciais. Tendo publicado a tradução magnífica de Leonardo Fróes para  o primeiro deles, a Record apressou-se em lançar também um tijolaço biográfico de Frederick R. Karl sobre a genial escritora inglesa:A voz de um século [1].
Karl considera Eliot a voz do século dominado pela rainha Vitória porque conseguiu exprimir as contradições e dilemas que fizeram daquele momento uma encruzilhada entre passadismo e modernidade. Eliot, que se chamava originalmente Mary Anne Evans (ela foi modificando seu nome ao longo da vida, várias vezes), ocupou uma posição dúbia na estratégia social vitoriana, uma mulher que viveu 24 anos com um homem casado, George Lewes, agindo como se fosse a verdadeira esposa dele e intitulando-se sra. Lewes. Isso fez dela a “mulher escarlate”, anatematizada pela moral pública. Por outro lado, a partir do momento em que começou a escrever, tornou-se um ídolo literário, um monumento da intelectualidade britânica (quase todos que a conheceram ficaram impressionados com sua inteligência). Tornou-se o único rival possível para Charles Dickens, o maior vendedor de livros da época (e, diga-se de passagem, um gênio literário também). A grande ironia é que, embora nunca deixasse de ser um sucesso de público (morreu deixando uma grande fortuna, por causa de problemas renais, logo após ter casado, oficialmente dessa vez, aos 60 anos, com John Cross, 20 anos mais novo), Eliot foi escrevendo uma obra cada vez mais difícil, densa, revolucionária, principalmente os dois livros tão tardiamente traduzidos no Brasil.
Psicologicamente, como afirma Frederick Karl, ela vivia a dicotomia da realização e da auto-destruição: “Eliot se dividia entre a personalidade que se alimenta de derrotas, resignação, sentido de mortalidade e o fim do próprio eu e a personalidade que produz, se desenvolve, amadurece, emerge e procura atingir o público como autora e ser social”.
O trabalho de Karl é minucioso, sério, procura equilibrar o relato da vida com a análise da obra (o que é raro), porém é de uma monumental chatice. Deslumbrado, talvez, por  ser “o primeiro biógrafo a ter acesso a todo o material” sobre Eliot, ele exorbita e massacra o leitor com pormenores. Há páginas e páginas em que se tem de aguentar uma lengalenga do tipo: dia 8 de setembro—visita de amigos, chá, bolo, passeios no bosque, quarenta páginas escritas; dia 9 de setembro—dores de cabeça, queixas de dispepsia, cartas para amigos,cartas de amigos, prestação de contas do editor (800 exemplares vendidos, 200 libras de direitos autorais), sessenta páginas escritas; dia 10 de setembro—dores nas costas, inflamação nas gengivas, cartas para amigos, visita de amigos, passeios no bosque, compra de um xale, trinta páginas escritas… e assim por diante.
É lógico que estou caricaturando um pouco o método de A voz de um século, mas a enumeração de detalhes do cotidiano (que poderiam ter sido sintetizados, não há dúvida), de datas, de números de exemplares vendidos e de quantias entrando no cofrinho, vão dando uma impressão amorfa, tornando a vida de Eliot indistinta e opaca para o leitor em geral.
Para o leitor brasileiro especificamente o livro ainda tem um senão mais grave (e é por isso que foi usado o verbo apressar com relação à iniciativa da editora). São tantas as obras de George Eliot que ainda não estão traduzidas por aqui que boa parte do livro escorrega no vácuo do desconhecimento. O que adianta ler sobre Cenas da vida clerical, Romola, Silas Marner, Felix Holt—o radical, A  cigana espanhola ou diversos outros textos se eles permanecem inéditos? Isso só serve para os adeptos da cultura de orelhada. Mais uma vez colocou-se o carro adiante dos bois. Era melhor deixar A voz de um século para depois, quando se tiver uma visão mais ampla da trajetória de George Eliot, que ainda permanece, entre os escritores maiores, um dos mais ignorados no Brasil. O melhor que o leitor tem a fazer é procurar conhecer O triste noivado de Adam Bede, O moinho sobre o rio, Middlemarch Daniel Deronda. Ou conhecer as outras obras de ficção da época vitoriana, como as de Dickens (bastante traduzido por aqui, ainda que não nos últimos anos), A feira de vaidades, de Thackeray (já traduzido pela Civilização Brasileira;  aliás, Thackeray é autor de Barry Lyndon, que originou uma das obras-primas de Stanley Kubrick), algumas obras de Anthony Trollope (que agora estão sendo publicadas pela Ediouro)…
Só assim um livro como o de Frederick R. Karl pode fazer sentido.
VER AQUI NO BLOG:

[1] George Eliot: voice of a century (EUA, 1995), traduzido por Luís Lira.
main_01462

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.