MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/07/2018

Destaque do Blog: “BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS” – PARTE 2

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 24 de julho de 2018)

Não podia ser mais feliz o título “BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS” para a coletânea traduzida por Marcelo Backes. O conto-título vai ao cerne do universo de Kafka, cuja “solteirice” eterna constituiu uma maldição, uma falta de autonomia, que ele tentou quebrar com quatro noivados malogrados.

Há poucos pais protagonistas na obra kafkiana. Temos o pai de “Onze filhos” e temos as “A preocupação do pai de família”, o qual tem de lidar com um ser estranhíssimo chamado Odradrek: “Ele permanece, mudando sempre de lugar, no sótão, nas escadarias, nos corredores e no saguão. Às vezes, não pode ser visto durante meses; é quando por certo se mudou para outras casas; mas depois acaba voltando inescapavelmente à nossa casa. Às vezes, quando saímos pela porta e ele se encontra apoiado ao corrimão, lá embaixo, até temos vontade de dirigir a palavra a ele. É claro que não fazemos nenhuma pergunta complicada a ele, mas o tratamos – e já seu tamanho diminuto seduz a isso – como uma criança.
– Como é que tu te chamas? – pergunta-se a ele.
– Odradek – diz ele.
– E onde tu moras?
– Moradia indeterminada – diz ele e ri; mas é apenas uma gargalhada conforme se pode produzi-la sem ter pulmões. Soa mais ou menos como o farfalhar de folhas caídas”. O próprio solteirão blumfeld era perseguido em seu quarto por duas bolas vivas.

Avultam profissionais dedicados e escrupulosos que são desmoralizados e humilhados. O exemplo mais gritante é “um médico rural”.

Kafka escreveu muitos relatos longos, principalmente nos seus anos finais. O mais enigmático é “Investigações de um cão”. Tenho pra mim (sem nenhuma corroboração) que é uma alegoria de sua aproximação com o judaísmo (ele tinha planos de se mudar para a Palestina e trabalhar num Kibutz), mas permaneceu no círculo vicioso de suas obsessões como escritor e suas neuroses: “Como a minha vida mudou e como, ainda assim, ela não mudou nada, no fundo! Quando penso retroativamente e invoco os tempos em que eu ainda vivia em meio à comunidade canina, participando de tudo o que lhe importava, cão entre cães, considero que, olhando as coisas mais de perto, desde sempre havia algo que não andava bem, uma pequena ruptura à espreita, um leve mal-estar em meio aos mais veneráveis e populares eventos tomava conta de mim, sim, e até mesmo quando estava em círculos dos mais íntimos, às vezes, não, não apenas às vezes, mas de fato em muitas ocasiões, quando a simples visão de um cãopanheiro que me era querido, sua simples visão, de algum modo um novo olhar, acaba me constrangendo, me assustava, desamparando-me e até fazendo-me desesperar”.

17/07/2018

Destaque do Blog: BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS – PARTE UM

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA em 17 de julho de 2018)

“Estou parado na plataforma do bonde e completamente inseguro no que diz respeito à minha posição neste mundo, nesta cidade, em minha família. Nem mesmo de passagem eu seria capaz de indicar quais as exigências que eu poderia fazer com algum direito em uma direção qualquer. Não consigo sequer defender o fato de estar parado nesta plataforma, me segurar nesta alça, me deixar levar por este vagão, o fato de as pessoas desviarem dele ou caminharem em silêncio ou descansarem diante das vitrines… Ninguém o exige de mim, ademais, isso pouco importa”, (trecho de “O Passageiro”).

Sou apaixonado por Kafka. De quando em quando mergulho em sua obra. A portentosa antologia “BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS”, a mais ampla, salvo engano, já lançada no Brasil, traduzida por Marcelo Backes, reavivou essa paixão.

Um prazer estranho. O mais original dos escritores joga o cotidiano e a razão lógica no absurdo, naturalizando o insólito, desmascarando as imposturas que chamamos leis: “ ‘Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra. ’ Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. ‘Caro senhor’, digo amistosamente, ‘um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostra-lo a mim? Eu lhe imploro. ’ E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: ‘Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez. ’ ‘Um morto? ’, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. ‘Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente. ’ Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: ‘Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vendo volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo’”, (Trecho de “Conversa com um Devoto”).

Presente na coletânea, o texto mais perturbador que já li. Eis um trecho de “O Abutre”: “O abutre ficou ouvindo em silêncio durante a conversa, deixando seu olhar passear entre mim e o homem. Agora eu via que ele compreendera tudo, levantou voo, recuou bastante para conseguir impulso suficiente e em seguida golpeou com o bico como um lançador de dardos através de minha boca bem fundo dentro de mim. Caindo para trás, senti, liberto, como ele se afogava de modo irremediável no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens”. (Continua na próxima semana).

 

26/11/2012

COMO CHEGAR AO CASTELO?

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna”  de Santos em 26 de dezembro de 2000)

Era  muito aguardada a tradução de O CASTELO, a única inédita entre as realizadas até agora por Modesto Carone e editada pela Companhia das Letras. Antes dela, tinhamos a versão de Torrieri Guimarães, com forte sabor lusitano, e a do obscuro D. P. Skroski, cujo nome já tem um sabor kafkiano, feita a partir da versão americana (o título original aparece como The Castle!!??) e com um texto truncado, cheio de erros de revisão, embora não faltem soluções interessantes.

Quando propus na minha coluna uma lista dos 100 maiores romances do século XX, O CASTELO (escrito por volta de 1922, mas só publicado postumamente em 1926) veio em terceiro lugar (vindo depois de A montanha mágica, de Mann, e de Luz em agosto, de Faulkner). Poderia vir em primeiro.  Junto da “classificação” havia o seguinte comentário: “Extraordinária alegoria da condição humana, ao mesmo tempo terrível e cômica. Não é à toa que kafkiano se tornou um vocábulo corrente, usual”.

Ao se pensar em alegoria, se pensa imediatamente na sua decodificação inequívoca: alegoria de quê? Infelizmente, as coisas não são tão fáceis com Kafka, e temos de fazer eco ao lamento de vários comentadores das suas obras: como interpretá-las? Como penetrar no seu mistério, no seu fascínio, na sua junção do terrítel e do cômico? Que interpretação dar para a história de K., que chega à aldeia dominada pelo Castelo do Conde Westwest e se apresenta como agrimensor contratado? Como se sae, houve um erro nos trâmites administrativos e essa contratação era desnecessária. Oferecem a K. emprego como zelador da escola da aldeia,em meio à confusão que ele arranja não só por suas tentativas malogradas de entrar em contato com o alto escalão do Castelo (especialmente Herr Klamm), como também por se tornar amante de Frieda (a quem todos no lugarejo atribuem uma ligação com Klamm), encarregada do bar na Estalagem dos Senhores, isto é, utilizada pelo pessoal administrativo do Castelo quando ele se encontra na aldeia, fazendo com que ela abandone seu posto.

Como se não bastasse, ele também se torna íntimo de uma família proscrita na aldeia, cuja história ocupará boa parte do romance e espelhará a de K.

K. é isso: um erro administrativo. Sua individualidade é o elo mais frágil e fantasmagórico de uma incessante tramitação burocrática de memorandos, dossiês e processos. Ele, com teimosa paciência, tenta afirmar-se enquanto indivíduo, entretanto malogra porque ninguém consegue compreendê-lo, é sempre aceito ou rejeitado pelo cargo que ocupa ou não ocupa (agrimensor ou zelador) ou pela situação de seu processo no Castelo (que se parece muito com um julgamento).

Quando encontra um interlocutor, como Amália e Olga, as irmãs proscritas, ou Pepi, substituta de Frieda no bar da Estalagem dos Senhores, esse interlocutor é quem toma a palavra e monologa interminavelmente sobre suas próprias desventuras.

Foram citadas, neste meu texto, as mulheres da história (embora haja várias personagens masculinas): Amália, Olga, Frieda, Pepi. Pois há uma atmosfera difusa e viscosa de sexualidade em O CASTELO, a qual parece ir minando a força do herói, ou melhor, parece ser a única dimensão em que se permite a ele alguma ação, ainda que leve a diversos equívocos. Esse clima promíscuo liga-se à opressão do Castelo na medida em que se anula o que é privado e o que é público no romance: quando K. e Frieda transam no bar da Estalagem dos Senhores pela primeira vez, o ato é assistido pelos ajudantes de K. recrutados pelo Castelo, os quais testemunham igualmente toda a intimidade do casal quando passam a morar juntos, e não apenas os ajudantes como também  criadas, professores, alunos. Dificilmente há um momento na narrativa em que K.  consiga ficar sozinho e geralmente nesses parcos momentos ele está perdido ou desorientado.

O grande autor de Praga escreveu alguns textos sobre filhos oprimidos (O veredicto, A metamorfose), numa clave mais evidentemente autobiográfica. Em seus dois grandes romances (O processo é o outro) tudo se complica: filhos sem pais se lançam no mundo, literalmente perdendo-se e desorientando-se, o que demonstra como ele reelaborou ao extremo os resíduos biográficos na sua obra, tornando a interpretação mais complexa e tortuosa.

O fator mais insólito do texto é a maneira côica, quase à moda de um pastelão do cinema mudo, com que Kafka vai estabelecendo situações intoleráveis: “No albergue foi logo para o quarto e deitou-se na cama. Frieda instalou-se num leito ao lado, no chão, os ajudantes haviam se enfiado ali, foram expulsos, mas voltaram de novo pela janela….volta e meia entravam também as criadas fazendo barulho com suas botas de homem, para trazer ou pegar algo.Se precisavam de alguma coisa entre as várias que entupiam a cama, puxavam-na sem nenhuma consideração por debaixo de K.”.

É preciso dizer que a versão de Modesto Carone deixa a desejar em alguns aspectos. Já foi uma opção infeliz, a meu ver indefensável, dividir os enormes parágrafos a que estamos acostumados, toda vez que um personagem toma a palavra, diluindo a densidade opressiva e “fechada” da obra-prima máxima de Kafka (quem se der ao trabalho de comparar com as versões anteriores pode constatar o que se perdeu em atmosfera). Além disso,  entre outros detalhes,  é difícil acreditar que, estando K. e Frieda nus na cama, uma criada atire sobre eles uma toalha (para Torrieri Guimarães, ela atira uma coberta e para o misterioso sr. Skroski um cobertor,o que é mais lógico, convenhamos).  Trechos inteiros ficam mais compreensíveis nas outras traduções. Há também erros gritantes, como na página 307 (mas há aí parece ser mais um caso de problemas com a revisão): “Ora, vocês são muito parecidas, mas o que distingue Amália de vocês duas é totalmente desfavorável a  ela” . Na verdade,  as duas irmãs, Amália e Olga, são parecidas entre si, e com o irmão, Barnabás,  suposto mensageiro entre Klamm e K., não há três irmãs mulheres.

O mundo nos arredores do Castelo já é labiríntico e opressivo sem tais falhas e erros, ocultos pela fanfarra das “traduções definitivas”. Sendo o mundo kafkiano o que é, sabemos aonde podem levar falhas e erros…

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/09/25/fascinio-de-kafka-nao-se-esgota/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-processo-e-a-peste-a-culpa-e-a-inocencia-da-humanidade/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/25/o-terror-nas-dobras-do-pastelao-o-desaparecido-de-kafka/

https://armonte.wordpress.com/2010/04/07/a-morte-do-caixeiro-viajante/

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https://armonte.wordpress.com/2010/06/29/um-verdadeiro-exercicio-de-parodia/

25/11/2012

O TERROR NAS DOBRAS DO PASTELÃO: “O Desaparecido” de Kafka

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de outubro de 2003)

O acontecimento editorial do ano, a tradução de O DESAPARECIDO (Der Verschollene)de Kafka, resgatando o título original pretendido pelo autor (pois seu amigo Max Brod o publicou postumamente como Amerika, em 1927, pelo qual ainda é conhecido[1]) e baseando-se numa edição crítica histórica, acabou  sendo uma grande surpresa. Esperava-se a versão de Modesto Carone, que vem sistematicamente traduzindo a obra de Kafka , mas a editora 34 e  Susana Kampf Lages adiantaram-se. O resultado é excepcional.

Iniciado em 1912, antes de seus companheiros mais célebres (O processo & O castelo), O DESAPARECIDO  pertence à fase “filhos” de Kafka, que inclui também O veredicto e A metamorfose. Em todos, filhos são punidos e banidos pelos pais. A diferença é que, enquanto os outros dois permanecem no âmbito da casa paterna, numa concentração claustrofóbica, a história de Klaus Rossmann, enviado a uma América totalmente recriada pela imaginação de Kafka (ou seja, uma Amérika), após ter sido seduzido pela criada, já aciona o mecanismo  de “lançar no mundo” o filho pródigo, cuja maior realização ocorrerá em O castelo.

Curiosamente, mesmo lançado no mundo, Rossmann viverá a experiência do banimento repetidas vezes (pelo tio, pelo camareiro-mor do hotel onde se emprega) e só encontrará guarida em ambientes desabonadores, sórdidos e permeados pela sexualidade. O sexo é a grande ameaça aos “esforços” dos personagens kafkianos e representa um ímã, um visgo que os prende a uma situação degradada. O clímax do romance (que permaneceu inacabado, como se tivesse chegado a um ponto insustentável) e a submissão de Karl a Brunelda, uma mulher imensa, uma espécie de Grande Prostituta, que transforma os homem em seus criados; uma Circe cõmica, portanto, que os mantém a todos numa Ogígia vaudevillesca, um apartamento minúsculo e entulhado (espaço típico do universo kafkiano).

Entretanto, já a sedução pela criado apresenta essa advertência quanto ao lado dissolvente da sexualidade (‘…apertou a barriga nua contra o corpo dele, procurou com a mão de uma maneira tão repulsiva entre as suas partes que Karl esticou a cabeça e o pescoço para fora dos travesseiros; ela então empurrou algumas vezes sua barriga contra ele— ele teve a sensação de que ela fosse parte de si mesmo, e talvez por esse motivo foi tomado por uma terrível sensação de desamparo”).

Apesar desses aspectos sombrios, é preciso dizer que O DESAPARECIDO exercita a alta comédia, é um livro muito engraçado. Aliás, é a obra longa de Kafka onde mais acontecem coisas. Não é à toa que ele se inspirou no romance à Dickens. Pode-se dizer igualmente que ele livra o romance das amarras da verossimilhança e instala uma relação do personagem com o espaço que resgata a disponibilidade de Dom Quixote e Sancho Pança ou  Jacques, o fatalista, e seu amo, ou mesmo de Wilhelm Meister: o mundo está  à nossa frente e tudo pode nos acontecer.

É por isso que até a parte em que Rossmann se rende à autoridade de Brunelda (e de seu amante Delamarche), após ser banido pelas autoridades masculinas (e com o fracasso de outra autoridade feminina, a cozinheira-mor, no sentido de mantê-lo na “trilha certa”,  seja lá o que for que isso signifique), O DESAPARECIDO mantém uma notável coesão (há ainda alguns capítulos fragmentários, inclusie aquele famoso em que Rossmann, abdicando do seu nome, adere à trupe do Teatro Natural de Oklahama—é isso aí, leitor, o nome vem errado mesmo)]— um evento que parece se confundir com o mundo todo).

O que diferencia O DESAPARECIDO de Dom Quixote, de Jacques, o fatalista ou de Wilhelm Meister (no qual um rapaz também ‘cai no mundo” ao contrariar a vontade paterna)  e dos livros de Dickens, é que não há nexo de causalidade entre as aventuras do herói ou entre suas descobertas psicológicas. Não há romance de formação, aqui, tudo contribui para o absurdo (há um capítulo em que Karl vai visitar um amigo do tio, entra numa hilária luta corporal com a filha dele, e ao pensar em encontrá-la novamente: ‘se ao menos ele tivesse consigo a barra de ferro que  tio tinha lhe dado de presente para servir de peso para papéis! O quarto de Klara podia ser uma toca bem perigosa), para o divórcio entre a ação e um possível significado.

A comédia pastelão de Kafka (há cenas inesquecíveis que lembram as comédias do cinema mudo, como a perseguição pela policia, na chegada ao edifício de Brunelda) esconde em suas sobras o filme de terror.

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https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-processo-e-a-peste-a-culpa-e-a-inocencia-da-humanidade/

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https://armonte.wordpress.com/2010/06/29/um-verdadeiro-exercicio-de-parodia/


[1] O livro ocupa na obra de Kafka uma função equivalente (de tateio e busca da própria voz) de Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá  na obra de Lima Barreto. Recordações do escrivão Isaías Caminha seria  O Processo do grande escritor carioca, Clara dos Anjos (que eu não aceito como “incompleto” e sim como uma novela perfeitamente acabada) seria o seu A Metamorfose, e por fim, sua obra-prima suprema, Triste Fim de Policarpo Quaresma seria o equivalente de O Castelo. É lógico que essas aproximações só existem de fato na minha cabeça, aproximações que comecei a elaborar a partir de 2005 [nota de 2010]

25/09/2012

Fascínio de Kafka não se esgota

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de dezembro de 2005)

Esporadicamente aparecem tentativas para acostumar o leitor brasileiro ao formato do livro de bolso. Uma das boas iniciativas recentes é a Companhia de Bolso. O relançamento da celebrada tradução de O processo, feita por Modesto Carone, permite saudá-la e esperar que vingue.

O fascínio de O processo não se esgota. Kafka o escreveu entre 1914 e 1915, aos 31-32 anos, contudo foi preciso esperar que Max Brod o publicasse postumamente há 80 anos, em 1925. Persiste a polêmica a respeito da ordem dos 10 capítulos completos, estabelecida por Brod. Na 3a. edição, ele reconheceu que não parece impossível que o episódio que ocupa o capítulo V tenha sido concebido por Kafka como parte do capítulo II”. Com mais radicalidade, o crítico flamengo H. Uyttersprost sugeriu que se lesse na seguinte seqüência: I, IV, II, III, V, VI, IX, VII, VIII, X.

Fiz a experiência e o livro se beneficia até certo ponto dessa rearrumação. O nó do problema é que o capítulo IX, o qual contém um diálogo decisivo entre um capelão e o protagonista Josef K. (e que é aquele no qual está a famosa parábola “Diante da Lei”), é realmente o clímax. A sensação que se tem é que, depois, só pode vir mesmo o fim. É o momento em que K. é esmagado pela Lei, por essa mentira que se converteu em ordem universal, e que ele é obrigado a reconhecer após 30 anos de alienação (a narrativa se inicia quando ele faz aniversário e é detido por um crime que desconhece, embora aceite o processo e a culpa).

Procurador de um grande banco, K. a princípio tenta se impor como adulto, quando ainda se acha na ilusão de estar “dentro da Lei” (ele tenta mesmo pontificar como a figura patriarcal na pensão em que vive), mas em breve é reconduzido (e reduzido) à condição de “rapazinho” pelo tio, que toma a peito os trâmites da sua defesa.

Até ser executado, numa situação de patético desamparo, ele vagará pelos escalões mais subalternos e inferiores da organização burocrática que representa a Lei. Isso dá margem à veia cômica de Kafka, pois vemos cartórios e salas de audiência localizados em cortiços, funcionários sórdidos e promíscuos (um juiz de instrução ordena a um estudante de direito que traga a esposa do oficial de justiça para servi-lo sexualmente, o próprio estudante mantém relações com ela durante um inquérito). Os acusados têm de viver nos quartos de despejo dos advogados para que eles se dignem a dar informações sobre o andamento dos processos. Qualquer um pode fazer parte dos tribunais e qualquer quartinho revela entradas e saídas que se comunicam com as repartições e tribunais.

A Lei é onipresente, portanto, na casa dos pobres. Os ricos podem se movimentar num espaço privilegiado, inacessível, e só entram em contato com esse ambiente pegajoso por meio da promiscuidade da troca de favores. K. descobre que, na verdade, ele não se tornou um “fora da Lei”. É aí que ele mergulha nela, sem ilusões. E sem escapatória.

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O amor complicado dos marxistas por um cinéfilo

Há algumas semanas (nesta minha coluna de A TRIBUNA), a propósito de O Processo, eu comentava o fascínio exercido por Kafka. O lançamento nos últimos meses de, pelo menos, três livros importantes sobre sua obra não deixa de ser uma confirmação desnecessária, mas cabal: Kafka vai ao cinema, de Hanns Zischler; Lukács, Proust e Kafka, de Carlos Nelson Coutinho; Franz Kafka, Sonhador Insubmisso, de Michael Löwy.

Comecemos pelo último. Michael Löwy é um  ensaísta marxista brasileiro, embora O Sonhador Insubmisso tenha sido publicado primeiro na França, em 2004. É preciso dizer que a crítica marxista foi muito lenta, com notáveis exceções, em reconhecer o valor de Kafka. Isso se deve principalmente à equivocada interpretação efetuada pelo seu mestre, Georg Lukács (em meados dos anos 50), o qual colocou Kafka como representante principal de uma tendência “irrealista” da arte contemporânea: [A] impressão de impotência elevada ao nível de concepção do mundo, que em Kafka se transformou na angústia imanente do próprio devir do mundo, o total abandono do homem em face dum temor inexplicável, impenetrável, inelutável, faz da sua obra como que o símbolo de toda a arte moderna. Todas as tendências que, noutros artistas, assumiam uma forma literária ou filosófica, reúnem-se aqui no temor pânico, elementar, platônico, perante a realidade efetiva, eternamente estranha e hostil ao homem, e isto num grau de espanto, de confusão, de estupor, que não tem paralelo em toda a história da literatura. A experiência fundamental da angústia, tal como a viveu Kafka, resume bem a decadência moderna da arte.

Trata-se de um trecho de Realismo Crítico Hoje, que até hoje causa discussão (é preciso dizer que a argumentação do grande Lukács é ambígua e traduz um fascínio inegável por aquilo que rejeita). O resultado: admirado ou execrado, Kafka sempre foi considerado um poeta da impotência do homem diante do mundo, da inutilidade do esforço humano em face do absurdo da vida ou do silêncio da divindade.

É contra essa visão que Löwy constrói seu livro. Para ele, o traço marcante da visão de mundo kafkiana é o antiautoritarismo, a insubmissão diante da tirania explícita e implícita.

Por isso, além de analisar as duas principais obras de Kafka, O Processo e O Castelo, sob essa perspectiva, ainda investiga as ligações entre ele e vários círculos libertários,  anarquistas ou socialistas, da sua época.

É impressionante a massa de textos que Löwy convoca para confirmar suas idéias ou polemizar com intérpretes anteriores da obra kafkiana. Isso não atrapalha a fluência do seu texto, embora  as referências em notas de rodapé cheguem às raias do atordoante, contudo acaba fazendo o leitor comum sentir uma angústia verdadeiramente digna de Kafka ao imaginar tanto papel escrito para chegar a verdades que a ele parecem tão óbvias, como na contestação à visão lukácsiana: Trata-se da criação de um universo imaginário, regrado unicamente pela lógica do maravilhoso que, de modo algum visa reproduzir ou representar a realidade, mas que não deixa de conter  uma crítica radical dela, feroz ou irônica segundo o caso. Realista ou não, a obra de Kafka, graças à sua atitude de distanciamento permanente com relação às instituições sociais, é um dos exemplos mais cativantes do podee de iluminação profana da literarura. É por isso que André Breton o considerava, pura e simplesmente, o maior vidente do século”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 14 de janeiro de 2006)

Na semana passada, comentei  Franz Kafka, Sonhador Insubmisso, no qual Michael Löwy procurava reavaliar o legado kafkiano sob o prisma do antiautoritarismo, “graças a um fio vermelho que permite ligar a revolta contra o pai, a religião de liberdade (de inspiração judaica heterodoxa) e de protesto (de inspiração libertária) contra o poder mortal dos aparelhos burocráticos”. Löwy inspirava-se em supostas palavras do genial escritor de Praga “recolhidas” num famoso livro de Gustav Janouch: “As cadeias da humanidade torturada são feitas de papel de escritório.”

Löwy alinha-se contra a opinião condenatória de Georg Lukács. Este grande pensador marxista teve um talentoso seguidor brasileiro, Carlos Nelson Coutinho. Embora seguindo os conceitos do seu mestre, Coutinho sempre apresentou um posicionamento muito próprio. Já no prefácio, há quase 40 anos, à edição brasileira de Realismo Crítico Hoje, de Lukács, ele refutava a visão negativa da obra de Kafka. Nos anos 70,escreveu um ensaio sobre o autor de O Processo e recentemente o reformulou para que constasse do livro Lukács, Proust e Kafka, no qual tenta reajustar a (no caso, míope) ótica lukácsiana sobre dois dos maiores escritores que já existiram.

Para Coutinho, Kafka é o crítico cabal do mundo reificado, onde a nossa consciência é mediada pelo mercado, onde tudo se transforma em valor-de-troca e toda relação humana se transforma numa relação entre coisas, entre possuído e possuidor. Um mundo perfeito para alguém acordar um dia transformadoem inseto.  Utilizando o conceito de reposição estética desse pressuposto social, Coutinho elege algumas obras, particularmente O Processo, A Metamorfose e A Construção como sucessos, porque a medida do talento de Kafka para fazer tal reposição estaria no âmbito da novela (nas palavras de Lukács, a novela faz um compêndio da vida da sociedade “através de um evento singular extraordinário, tomado como ponto focal. A novela não é obrigada a representar todo o conjunto de dados da vida social, como o faz o romance”). Por isso, nessa visão, ao mesmo tempo inteligente e discutível, “tentativas” de romance como O Castelo e  O Desaparecido (América)não funcionam, por seu estado fragmentário e irresolvido.

Iríamos longe na discussão de que  ater-se aos gêneros e às formas petrificadas tornou-se uma postura problemática,  de que  existe uma poética do fragmento, e principalmente de que não há nada mais poderoso literariamente do que as tentativas fragmentárias que conhecemos como O Castelo e  O Desaparecido (América). Ainda assim, “Franz Kafka, crítico do mundo reificado” é um ensaio modelar.

Em compensação, Kafka vai ao cinema, de Hanns Zischler, é um daqueles ensaios-caprichos da pós-modernidade. Faz uma montagem (auxiliado por uma bela edição) por meio de comentários biográficos, de trechos de cartas, postais e diários, de material publicitário dos filmes da época, de fotos, no intuito de perseguir uma percepção cinematográfica de Kafka, seja como espectador efetivo de cinema quanto da sua maneira de ver o mundo, dos saltos da sua mente, obsessivamente literária, da realidade comezinha para a Realidade do seu mundo escrito. É o caso da  passagem em que descreve como, ele, tão problemático com as mulheres, dividiu um táxi com uma garota (e sua imaginação relembra—errônea, mas sugestivamente—uma cena do filme A Escrava Branca). Zischler: “…a cena desliza para o puro cinema. Tal como Kafka a imaginou, ela é a pura realização de desejo que, naturalmente, não poderia ser coroado de êxito no táxi” (no filme, a escrava branca é forçada a entrar num táxi). É o “artifício de transformar a vergonha real no despudor do cinema.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 27 de janeiro de 2006)

VER TAMBÉM NO BLOG:

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17/04/2011

Kafka para conquistar amigos e influenciar pessoas

Descobri, em meados da década de 80, que os textos curtos de Kafka eram a coisa mais perfeita que existia em prosa[1]. Por isso, ao descobrir também o (foi o que me pareceu naquele momento) precioso Conversas com Kafka, resolvi, a cada noite, antes de dormir, abri-lo em qualquer página e ler o “ensinamento” do dia, como um I-Ching pessoal.

Riobaldo diz em Grande Sertão: Veredas que mocidade é tarefa pra mais tarde se desmentir. Será que é isso o que se verifica agora, quando o livro de Gustav Janouch ressurge nas livrarias?

Em 1920, Janouch era um admirador de A metamorfose, embora Kafka fosse quase desconhecido, e seu pai apresentou-o ao autor, colega seu numa companhia de seguros. O jovem de 17 anos a princípio decepciona-se com aquele indivíduo simples e bem-educado”. Prestando mais atenção, percebe que seu interlocutor tem grandes olhos cinzentos sob espessas sobrancelhas negras. Sua tez é morena e seus traços extremamente móveis. Kafka fala com seu rosto. A partir daí, visitando-o regularmente no escritório, começa a anotar seus colóquios, publicados pela metade em 1951, e depois de forma mais completa no ano de sua morte, 1968, quando o mundo estava cada vez mais interessado por tudo que se referisse ao gênio de Praga.

Nunca se trata de um mero bate papo (aliás, há sempre um clima de formalidade cordial). A não ser que um bate papo pudesse ser como o seguinte:

Kafka- Um carrasco em nossos dias é um honrado funcionário. O espírito pragmático da função pública assegura-lhe um bom tratamento. Por que não haveria um carrasco adormecido em todo funcionário honrado?

JanouchMas os funcionários não matam ninguém!

Kafka- Oh, sim! E Como! Eles pegam seres vivos e capazes de se transformar, e deles fazem matrículas de arquivos, mortos e incapazes da mínima transformação.

Janouch apresenta um memorial emaranhado da sua convivência, sem indicação precisa de datas, e nem sabemos qual o princípio ordenador ou fundamentador de uma possível autenticidade.

E talvez tenha sido o melhor caminho, ditado decerto pela urgência de anotar o que lhe pareceu importante, incisivo, iluminador. E que para mim, em meados dos anos 80, foi importante, incisivo, iluminador. E provavelmente o será para um jovem de 17 anos por aí, descobrindo a paixão pela literatura, supondo-se que ainda os haja.

De vez em quando, Janouch pondera sobre a experiência de conhecer Kafka: Aprendi a ver melhor e a ouvir melhor. Meu universo aprofundou-se e complicou-se, sem ficar mais frio ou longínquo por isso… Não era mais um insignificante filho de funcionário, mas um ser humano lutando para conquistar sua personalidade e a medida do mundo, e medindo com os homens e com Deus. Isso eu o devia ao dr. Kafka.

Isso soa um pouco como Watson falando de Sherlock Holmes. E hoje que eu tenho um conhecimento muito maior tanto da obra kafkiana quanto da sua vida e das análises e interpretações que escreveram sobre ambas (Elias Canetti, Hanns Zischler, Günther Anders, Marthe Robert, Maurice Blanchot, Erich Heller, Danillo Nunes, Ernst Pawell, entre tantos outros), é um pouco difícil me entusiasmar com esse Kafka “como fazer amigos e influenciar pessoas”. Mas há um toque comovente e inegavelmente espontâneo, que se não torna Conversas com Kafka um I-Ching para literatos afoitos pelo menos permite descobrir (ainda que circunspectamente) esse lado tão mais simpático: Minha embriaguez é oferecer. É a embriaguez mais refinada que existe.

 resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de março de 2008


[1] Por essa época Modesto Carone, no Folhetim da Folha de São Paulo, começara a divulgar suas traduções dessa parte da obra kafkiana, com o título maravilhoso de “Contos de fada para dialéticos”. Até hoje me lembro do impacto da leitura de O abutre:

Era um abutre que bicava meus pés. Ele já havia estraçalhado botas e meias e agora bicava os pés propriamente. Toda vez que atacava, voava várias vezes ao meu redor, inquieto, e depois prosseguia o trabalho. Passou por ali um senhor, olhou um pouquinho e perguntou então por que eu tolerava o abutre. “Estou indefeso”, eu disse. “Ele chegou e começou a bicar, naturalmente eu quis enxotá-lo…mas um animal desses tem muita força. Ele também queria saltar no meu rosto, aí preferi sacrificar-lhe os pés”… “Imagine, deixar-se torturar dessa maneira”, disse o senhor. “Um tiro e o abutre está liquidado.” “É mesmo?”, perguntei.”E o senhor pode cuidar disso?” “Com prazer”, disse ele. “Só preciso ir para casa pegar minha espingarda. O senhor esperaria mais uma meia-hora?” “Isso eu não sei”, disse e fiquei em pé um momento, paralisado de dor. Depois falei: “De qualquer modo tente, por favor.” “Muito bem”, disse o senhor. “Vou me apressar.” Durante a conversa o abutre escutou calmamente, deixando o olhar perambular entre mim e aquele senhor. Agora eu via que ele entendera tudo: levantou vôo, fez a curva da volta bem longe para ganhar ímpeto suficiente e depois, como um lançador de dardos, arremessou até o fundo de mim o bico pela minha boca. Ao cair para trás senti, liberto, como ele se afogava sem salvação no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens.

29/06/2010

Um verdadeiro exercício de paródia

“Desentender-se, entre o povo dos urubus, já disse, é uma atividade insistente, contínua e caprichosa. O que se deu, contudo, nos baixios infectos, foi estertor de carne viva e o sangue da veia aorta.  Nem queiram saber, os urubus, quando dispostos a dilacerar no bico a carne de seus pares… Só para se ter uma fraca idéia, o urubu é mais agressivo com os de sua espécie—tendo como vítimas preferenciais os seus irmãos doentes ou morituros—do que qualquer outro animal que sobre a Terra ande ou voe. Odeia-se, entre si, persistente, quase macabro, o povo dos urubus… Mesmo sem razão alguma, o ódio dos urubus a seus iguais é alarmante.”

 

Longe de ter a repercussão da morte de José Saramago, o assassinato de Wilson Bueno em 31 de maio[1] causou certa  comoção nos meios literários nacionais, pois  o escritor paranaense (nascido em 1949) era tido como um dos inovadores da nossa ficção das últimas décadas, principalmente por causa do livro Mar Paraguayo no qual mistura português, espanhol e guarani.

Uma das obras mais recentes de Bueno foi o espantoso A Copista de Kafka (publicado em 2007, pela Planeta), no qual ele imagina Felice Bauer, aquela mesma do irrealizado noivado de Franz Kafka (1883-1924), no seu projeto sempre procrastinado de casar-se e libertar-se do jugo familiar (como ficamos conhecendo no magistral ensaio de Elias Canetti, O Outro Processo de Kafka), escrevendo um diário no qual conta como o conheceu e passou a fazer cópias dos seus manuscritos, recebendo alguns que não eram do conhecimento nem do melhor amigo e executor literário, Max Brod (responsável pela preservação das obras kafkianas, contrariando o desejo expresso do autor; no livro de Bueno, julgando que Brod irá efetivar a vontade do amigo, Felice destrói os textos que recebera; assim como em Kafka e a boneca viajante, de Jordi Sierra i Fabra, temos mais uma hipótese de manuscritos desgarrados do grande escritor tcheco).

O diário de Felice aparece em quatro etapas, percorrendo o espectro temporal de 1912 a 1925 (um ano após a morte do “noivo”, que rompera o noivado há muito tempo, embora o diário não registre o fato), em A Copista de Kafka. Permeando-as, temos 27 textos (divididos em três grupos de nove) que se dividem entre relatos fantásticos, parábolas e aforismos, sempre recheados por um peculiar bestiário. É desconcertante  a ambição de Wilson  Bueno: ele cria textos não só no espírito, mas principalmente na letra da lei kafkiana, imitando seus modos e técnicas, tais como encontramos especialmente nas Narrativas do Espólio, mas também em livros como Contemplação, Um médico rural, Um artista da fome.

Pode-se ou não gostar de A Copista de Kafka, mas ele é um raro exemplar do que é realmente  paródia: uma imitação a sério, e não um pastiche, que é o comumente praticado na pós-modernidade. E por vezes ele consegue realmente evocar aquela coisa inquietante e avassaladora, como se um vento gelado nos perpassasse, dos textos curtos do autor de O processo, que talvez sejam a sua maior realização (e certamente são a maior realização literária do século passado, ler as Narrativas do Espólio e A construção é chegar aos confins da literatura).

Há alguns textos meio forçados (principalmente): por exemplo, no primeiro bloco,  Zbwsk, sem chegar a ser um texto fraco, parece um decalque—talentoso decerto—mais  do que uma criação legítima, do universo kafkiano; entretanto, gostei muito de As mãos, onde, no consultório de um dentista,  o narrador relata que o cliente sentado ao lado põe a mão dele sobre a sua. Dessa situação (que nada tem de erótica, veja-se o trecho seguinte: “…ameacei apanhar uma revista na mesinha do centro, o que, claro, eu deveria fazê-lo com a mão que o homem premia contra o meu próprio joelho, momento em que sofri a trágica consciência de que a protuberância, fosse o que fosse, tinha desaparecido e o que eu tocava era, acreditem, arrepiante… o que a palma de minha mão apertava era o puro osso do fêmur, esqueletizado, no exato interstício do joelho, esse engenho admirável…”), decorrem páginas admiráveis; e de “O vizinho”, que não fica nada a dever às mais climáticas criações do autor de O veredicto: ‘… em mim a melancolia dói como a uma espécie de degradação espiritual. Não há elegância nem nenhum encanto no sentimento movediço, que me desmobiliza a princípio como se fosse um leve roçar de folhas no coração até erigir  sobre o mesmo uma coroa gelada—de suplício, penúria e comiseração…”

No segundo bloco, há o aterrador O povo dos urubus (vide epígrafe) e adorei O gato de cinco patas, que faz justamente um jogo de gato-e-rato com o leitor incauto: “Há de perguntar o leitor: onde está o gato de cinco patas e a arca de ferro? E então terei me realizado por completo ante a vã curiosidade e o lascivo enfado que vos anima saber o final desta história-armadilha: gato de cinco patas, desprevenido leitor, é coisa que não existe nem nunca existiu”. O liricamente patético “Lindonéia, a bailarina” evoca Josefina, a cantora, um dos derradeiros e mais extraordinários textos kafkianos,na sua mistura de ridículo, grotesco e no entanto de afirmação de uma fome de beleza que transcende tudo: “Que aulas de dança, que nada, ou outro modo de ensino que aula não fosse, se a maior lição é a do vôo-audacioso ou temerário?”

No terceiro bloco, além de O insulado[2], que lembra o argumento de um filme expressionista (“A desconfiança que tenho às mulheres ao é somente uma coisa atávica; tem, também, muito de religioso. Cedo aprendi que eram capazes de levar um homem à loucura… Por isso, digo de novo, eu sou o insulado, em permanente exílio, e toda vez que saio do meu círculo é porque o desejo foi maior que eu ou porque a raiva sobrepujou-me. Então é que as procuro—qualquer um entende por quê e para quê…”), temos Carta ao senhor M.K ou O corcunda, que parece mesmo ter saído da pena de Kafka (“Agora, contudo, nada me liga a nada. Da janela da enfermaria se insinua, ainda, o sol, muito embora já passe das sete da noite. É o verão em nossa cidade, senhor M.K. Faz esse calor aqui, já vos disse, faz bastante calor aqui, senhor M.K. … acho, depois desta missiva, passe a vigorar uma nova força em mim e então não terei mais, não terei mais, juro, pena de vós. Hoje, meu caro senhor, percebo, sem pânico nem desesperança, uma coisa exata: quem desce as escadas, agora, e claudica por corredores sabendo a iodo, de um andar para outro, quem desce com extrema dificuldade as escadas agora, senhor M.K,sou eu…”) e os textos vão se aproximando cada vez mais do escritor como personagem de si mesmo, como os notáveis Um leitor de salão e Uma alegoria doméstica, no qual Franz quebra sem querer uma xícara sacralizada pela tradição familiar, para fúria do pai.

No final da travessia, sentimos que passamos por uma experiência quase mediúnica. Um feito impressionante de um autor que deixará saudade.

resenha publicada originalmente em “A Tribuna” em 29 de junho de 2010

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[1] Ele foi morto a facadas supostamente pelo michê  Cleverson Petreceli Schmitt, a quem conheceu  numa sauna. Ou seja, no final das contas, o escritor inventivo é vítima de um clichê.

nota sobre a nota– Meu amigo Nilton Resende não gostou do teor dessa nota: “escrevo para sugerir uma coisa: retirar a nota em que você fala de como foi um clichê a morte do autor inventivo, isso pode soar cruel, saca? meio insensível; é clichê sim e todos sabemos que é, porque sempre há notícias sobre essas mortes, e todos têm de estar atentos para não ser personagem de mais uma narrativa desse teor,
no entanto,
é clichê e não é clichê, porque toda morte é novidadeira. principalmente para os familiares, amigos,
e ao mesmo tempo, toda morte é clichê.”

  Minha resposta a esse justíssimo comentário:

“Caro Nilton, acho que o problema da minha nota foi o de ser mal escrita. Na verdade, eu queria dizer que, com morte desse tipo, que traz à tona preconceitos e estereótipos, um cara como Wilson Bueno nunca mais vai ser visto como um autor talentoso e inventivo que foi morto estupidamente, mas como mais uma bicha que procurou a morte, que abriu a porta para o perigo, pois é o estilo de vida gay, etc etc, e por isso todo mundo acha tão `bonito` que os gays hoje em dia casem em cerimônias formais , que formem casais estáveis, que adotem filhos, ou seja, que fiquem iguais a todo mundo… E todo o exercicio de liberdade e disponibilidade ainda possível na ´condição´ gay, por assim dizer, se esvazia.
   Foi essa a intenção por detrás da minha nota. Mas acho que não funcionou.”
 

[2] Estou deixando de lado textos “divertidos” para ficar nos mais obviamente chamativos. Mas gostaria de chamar atenção aqui para Adestramento da mulher-tigre do circo Excelsior, por exemplo,ou a parábola da preguiçosa. A copista de Kafka é um livro para se voltar, não adianta querer esgotá-lo aqui, de pronto.

27/06/2010

TOY STORY: As exigências da infância

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de julho de 2010)

Achei tocante e delicada a idéia de KAFKA E A BONECA VIAJANTE  (Kafka y la muñeca viajera, 2006, traduzido no Brasil por Rubia Prates Goldoni para a Martins), do espanhol Jordi Sierra i Fabra: ele se inspirou numa anedota da vida de Kafka contada por sua última amante, Dora Dyamant, segundo a qual, tendo encontrado uma menininha desconsolada por ter perdido sua boneca num parque, ele começou a escrever cartas (as quais  entregava, adotando a identidade de “carteiro de bonecas”) que seriam da boneca desaparecida, com relatos de suas viagens.

Nunca foram encontradas tais cartas, nunca se soube da identidade da menina ou da veracidade do incidente, ou seja, é mais um daqueles “enigmas” e caça a textos perdidos que comprazem os especialistas e os obcecados e criam uma aura em torno dos grandes autores.

Pois Sierra i Fabra resolveu recriar ficcionalmente todo o incidente, narrando-o num romance infanto-juvenil: ele começa de maneira muito adequada e pertinente, mostrando a solidão de Kafka e sua fome de vida, de alegria, de coisas espontâneas e descomplicadas (“Quando a vida floresce, tudo são janelas e portas abertas”). Está morando em Berlim com Dora (1923), sua tuberculose agravou-se, ele está perto da morte, e adora perambular, pelas manhãs, no parque Steglitz, com sua figura magra e cavalheiresca (“Tinha quarenta anos, portanto era um velho para a menina. E, com sua saúde frágil,talvez fosse mesmo. Como não seria um velho precoce alguém que já está afastado do mundo e aposentado  havia um ano devido à tuberculose…”). Numa manhã, ele encontra a pequena Elsi debulhada em lágrimas devido ao desaparecimento de Brígida, sua boneca de estimação.

Uma das coisas mais bonitas do texto é a reação do adulto diante do desamparo infantil (“Por que a dor infantil é tão poderosa?”). Por isso, desorientado e perplexo diante desse sorvedouro emocional, Kafka diz a menina que a boneca não se perdeu, que ela “viajou”, e que ela receberá no dia seguinte uma carta explicando tudo, criando um tumulto de expectativa, uma fenda na realidade prosaica: “Por nada neste mundo, por mais criança que fosse, ela esqueceria a carta. Chegaria em casa e passaria o resto do dia pensando nela. Almoçaria, jantaria e iria dormir se tirá-la da cabeça. Não havia mais nada.  Sem Brígida, só lhe restava a carta. Um pequeno grande mundo. Franz Kafka tinha certeza de que pela manhã ela acordaria e faria tudo o que devia, brincar, estudar, ir à escola ou qualquer outra coisa a que estivesse acostumada, mas, quando chegasse a hora, correria até o parque Steglitz à sua procura…”

E ele se entrega febrilmente, assim como em todos os seus projetos de escrita, a compor a carta em que Brígida se explica. Ela é um sucesso. A pequena Elsi “viaja” com sua boneca e então fica à espera de mais, e mais. E aí Kafka se vê enredado por uma menina-sultão que lhe exige o sherazadiano ofício de dar conta do destino da sua boneca viajante. A voracidade do mundo infantil, as exigências do maravilhamento infantil às quais estamos tão pouco equipados a corresponder (“De quantas cartas Elsi precisaria para ser feliz? E Brigida, de quantas para se libertar?”; “A menina nunca perguntava nada sobre ele. Que importava? Os pequenos imaginam que a vida alheia é como sua própria vida. O essencial para ela eram as cartas”; “Elsi nunca  se cansaria. Brígida era sua boneca, e cada carta era um maravilhoso jogo e a possibilidade de continuar a seu lado, unidas, compartilhando os dias felizes de sua existência. O final não viria por conta dela, mas dele mesmo”).

Assim, a cada noite ele se vê obrigado a prolongar a viagem de Brígida pelos mais diversos continentes (“No mundo das bonecas não existiam fronteiras, nem raças, nem problemas com as diversas línguas”), deixando sua própria e agônica obra interrompida, à espera, até que o impasse se resolva.

É uma bela idéia, como já afirmei antes, e gostei muito do livro, mas me permitam esse travo de insatisfação: não deixa de ser decepcionante Sierra i Fabra não ter mergulhado a fundo na ficção kafkiana da boneca, e ter dado vida às cartas, às viagens de Brígida. Senti falta disso o tempo todo da leitura: tudo é muito bem armado, o encontro de Kafka com Elsi, as semanas em que ele lhe entrega as cartas, a descrição do relacionamento dele com Dora, a caracterização de uma Berlim pós-guerra (e rumo a outra). O que faz falta é Brígida, no fundo ela continua desaparecida na narrativa, pois o autor nos mostra a “descrição” das suas aventuras, pouco se aventura em imaginar  as próprias cartas, ou deixar que elas conduzam a narrativa geral.

Apontada esta limitação, mesmo assim KAFKA E A BONECA VIAJANTE é um texto digno de nota, e com uma proposta aliciadora.

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07/04/2010

A MORTE DO CAIXEIRO VIAJANTE: “A METAMORFOSE”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 14 de outubro de 1997)

A Companhia das Letras iniciou uma nova edição das obras de Franz Kafka no Brasil, começando com A METAMORFOSE, certamente um dos textos mais traduzidos por aqui. Eu, por exemplo, tenho em casa quatro  traduções brasileiras (além de uma portuguesa). A Ediouro publica atualmente tanto a tradução pioneira de Torrieri Guimarães (que está na coletânea A Colônia Penal) quanto uma versão de Marques Rebelo. Há a tradução de Brenno Silveira, relançada pela Civilização Brasileira.  E a mesma tradução de Modesto Carone que inicia o empreendimento da Companhia das Letras já havia sido lançada pela Brasiliense. Como se vê, é metamorfose que não acaba mais, quase tanto quanto as metamorfoses partidárias de certos políticos em época pré-eleitoral.

Como se sabe, A METAMORFOSE conta a história de um caixeiro-viajante, Gregor Samsa, o qual desperta uma manhã transformado numa “espécie monstruosa de inseto”. Como se sabe também, o texto (que  Kafka escreveu em 1912, numa grande fase criativa) é uma espécie de vingança simbólica do genial escritor tcheco contra sua família: ao mostrar Samsa reduzido à condição de um inseto inválido e incapaz para o trabalho, ele estaria dando vazão a um ressentimento que faz dos familiares de Gregor os verdadeiros monstros da narrativa (mesmo a irmã, Grete, bondosa com ele a princípio, vai metamorfoseando-se numa tirana).

O principal alvo é o pai. Não é à toa que os capítulos de A METAMORFOSE acabam convergindo para confrontos onde o pai de Gregor praticamente o esmaga. Inicialmente, com uma bengalada, relegando o filho à condição de prisioneiro no seu quarto, e, meses mais tarde, ao acertá-lo com uma maçã que apodrecerá no seu corpo, apressando seu fim.

O pai, dentro da ótica do narrador, parece revitalizar-se com a desgraça do filho e parece ressentir-se, ao mesmo tempo, pela atenção dispensada a ele na sua “condição monstruosa”, a qual nada mais é do que a inatividade, a incapacidade de ganhar a vida, o sustento da família, ou seja, de manter-se no mercado de trabalho, essa expressão odiosa que parece ter se metamorfoseado no nosso único horizonte.

Mas, com se sabe também, A METAMORFOSE é uma demonstração do progressivo esvaziamento das pessoas pelo capitalismo, isto é, sua crescente desumanização e alienação da própria ideia do “humano”.  É por isso que não se limita a ser apenas uma mera vingança de um filho oprimido e recalcado, para ganhar a dimensão de grande alegoria da nossa época.

O que, porém, só uma leitura, um contato efetivo, transcendendo o mundo de informações biográficas e interpretativas que se pode ter de A METAMORFOSE, mesmo sem ter lido o texto, dessa que é a novela (aquela forma intermediária e imprecisamente caracterizada entre o romance e o conto) mais importante, o texto paradigmático deste século, pode mostrar verdadeiramente o impacto que é acompanhar Gregor Samsa rumo à sua morte decretada pela família e pela esfera de produção, em cenas que conseguem o milagre de ser engraçadas (quem pode esquecer a fuga do chefe de Samsa após sua aparição? Ou o espanto dos inquilinos? Ou a empregada jocosa?) e macabras, a um só tempo.

E, pouco antes da terrível sentença familiar contra ele, o inútil, o inválido, o sem-vida no mundo em que todos precisam ser úteis, produtivos e capazes, o texto  atinge o ápice da beleza quando Gregor rasteja, inconsciente dos danos que pode trazer (ele que se transformou num monstro rancoroso, rabugento e faminto), rumo à irmã que toca violino:

“Gregor rastejou um pouco mais… a fim de que os seus olhares se encontrassem. Será que ele não passava de um animal, embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho rumo a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava.”

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