MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/06/2013

O FILHO KAFKIANO DE RUBEM FONSECA

o-campeonato

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de janeiro de 2010, sem epígrafe ou notas de rodapé)

“Pensa o que você vai estar vivendo,meu camarada. Uns caras doidões leram um conto de Rubem Fonseca e resolveram fazer tudo aquilo virar real, esses riquinhos de merda, três bobalhões, leram o conto e bolaram um campeonato de conjunção carnal entre virgens, cara, dá para alcançar a dimensão da maluquice? E o pior é que conseguiram! E agora você está prestes a presenciar isso, a concretização de uma obra de ficção do seu ídolo.”

Aos 26 anos André tem como figura paterna o irmão Augusto, que pega no seu pé para que se transforme num “adulto”, pelo menos permanecendo num emprego. O motivo das demissões: André é sempre flagrado lendo. Seu único interesse é a leitura, principalmente de romances policiais[1]. Após ser despedido mais uma vez, resolve fazer, em segredo, um curso de detetive particular . É  contratado por um milionário, logo descobre os “podres” da vida de um dirigente do Flamengo, seduz belas mulheres, como Mariana, outra detetive (mais experiente e equipada que ele) e Lívia uma ninfeta (15 anos), que vivia com um guru, e fora seqüestrada para participar de um campeonato de sexo entre adolescente virgens orquestrada por uma máfia, assim como o filho do milionário que procurou André para localizar o seu paradeiro . Parece, assim, que a seu modo estouvado, nosso amigo está realmente construindo uma vida independente…

A trama de O Campeonato[2], do goiano por nascimento e carioca por opção Flávio Carneiro, no que concerne ao certame que justifica o título do romance, foi extraída sem pudores de um conto de Rubem Fonseca, que pertence ao extraordinário Feliz Ano Novo (1975), e que se chama justamente O campeonato. Fonseca, para o bem e o para o mal, é a referência absoluta da nossa ficção de feição mais policialesca. Portanto, assim como André tem problemas com a autoridade “paterna” do irmão sobre ele, Carneiro, ao que parece teve de bater de frente com o que Harold Bloom denominou “a angústia da influência”, enfrentando seu “pai” literário, por assim dizer, em sua própria arena.

E aqui surge então um mistério digno de investigação: como o “filho” superou o “pai”, escrevendo um romance (um tanto longo, é preciso dizer) muito melhor do que todos os que li de Fonseca (O Caso Morel; A Grande Arte; Bufo & Spallanzani, por exemplo)?

O Campeonato, antes de mais nada, e apesar da sua extensão, é um livro charmoso. Com mão segura e talento inegável, o autor nos faz acompanhar, com o maior prazer, seu  herói-narrador em peripécias por um Rio de Janeiro muito vívido e bem delineado, assim como travamos conhecimento com uma das melhores personagens da nossa ficção mais recente, o Gordo, que faz às vezes do auxiliar necessário a qualquer detetive, mas que é um Watson  mais sagaz e que descobre mais coisas que o próprio André, o qual se pode dizer que vai sendo levado pelos acontecimentos mais do que os desvendando.

Ao fim e ao cabo, ele acaba descobrindo que nunca saiu da órbita do irmão-pai. Este é que levava uma vida secreta desde a mocidade, a de leitor apaixonado, e foi um dos que idealizaram o campeonato (no qual André se infiltra com a identidade de um garoto de programa, o qual  assassinou o dirigente do Flamengo), e  no momento em que o irmão caçula entra no jogo, ocorre uma luta mortal entre as várias facções que compõem a disputa, que movimenta muitas apostas e, portanto, muito dinheiro.

Augusto se revela um apaixonado pela obra de Rubem Fonseca, e a pretensa “liberdade” de movimentos que André se permitiu no tabuleiro da sua vida  não passou de uma ilusão, o que nos afasta muito da obra do autor de A coleira do cão e nos leva mais para o mundo kafkiano, em que figuras paternas oprimem os filhos até quando se tornam pródigos, basta lembrar de O processo, O desaparecido e O castelo.

Se causava espanto, nestes tempos politicamente corretos, que André transasse com Lívia, de 15 anos, e até se esboçasse um relacionamento cada vez mais acentuado entre os dois, após as duas outras mulheres (André tinha uma namorada, Raquel, que o trocou pelo terapeuta que Augusto recomendara, um craque da auto-ajuda) do enredo terem sido descartadas, é porque no fundo, apesar do seu disfarce de detetive e de suas aventuras, ele fracassou na sua tentativa de ser adulto e maduro; na conclusão, vamos encontrá-lo ainda esperando um carro que lhe dê um destino, e também verificamos que todas as opções estão em aberto e que suas aventuras podem continuar…

Pelo resultado alcançado por O campeonato, seriam mais-que-bem-vindas.


[1] “Sentei, pedi uma gelada, tirei o livro da bolsa. Aquele não era o melhor lugar para se ler um livro, mas eu não escolhia lugar”.

[2] O CAMPEONATO já tivera uma edição  em 2002 pela Objetiva. Porém, só fui tomar conhecimento dele agora que saiu pela Rocco. Com relação à primeira edição, o autor manteve a instigante epígrafe de Paul Auster (de uma das narrativas de Trilogia de Nova York), mas tirou a dedicatória, que era para Adriana (a Lisboa, a autora de Os fios da memória) e para os Gordos.

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