MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/03/2011

NAS ÁGUAS FEMININAS DO RIO CHICO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 20 de junho de 2000)

No final da década de 70, Adélia Bezerra de Menezes inovou os estudos acadêmicos no Brasil ao estudar pioneiramente a obra de Chico Buarque na tese que resultou no belo e premiado Desenho Mágico.

Ao longo do tempo, Adélia (que pertence a uma grande geração de ensaístas e críticos literários cujo mestre é Antônio Cândido) foi publicando artigos e ensaios sobre vários aspectos da poesia do nosso mais prestigiado compositor-letrista até que resolveu dar a eles uma unidade, privilegiando a temática do feminino. Como se sabe, em inúmeras letras Chico assume o ponto de vista da mulher. Mas essa mulher não é uma, ela é várias, tem muitos prismas. É o que tenta mostrar Figuras do feminino na canção de Chico Buarque.

O livro propõe não haver “uma evolução linear da personagem feminina ao longo da obra de Chico. Poderíamos, quando muito, falar em evolução em espiral, em que há uma expansão, e uma retomada de temas fulcrais”. Mas alerta sempre: “Não dá para falar da mulher sem falar do homem, e vice-versa. Pois a mulher sempre aparece nas canções de Chico e na vida em geral, em situações densas de afeto, libidinalmente carregadas de confronto com o masculino”.

Quem conviveu com a imensa popularidade (não a popularidade instantânea e industrializada dos hits de hoje) das canções de Chico nos anos 70 e início dos 80 (bem menos agora) não terá dificuldades de acompanhar o percurso da autora por letras tão famosas quanto as de Terezinha; O meu amor; Sem fantasia; Com açúcar, com afeto; Cotidiano; O que será; Pedaço de mim; Olhos nos olhos; Trocando em miúdos; Folhetim; Mar e lua; Beatriz; As vitrines. Há, ainda, letras menos conhecidas do “grande época” buarquiana, como as belíssimas Sobre todas as coisas & Moto contínuo, por exemplo. E há as recentes, bem menos paradigmáticas, como Iracema voou para a América ou Você, você.

Algumas pessoas—e muitas vezes eu me incluí entre elas, em momentos de fastio e saturação—vêem em muitas das letras do autor de Ópera do malandro uma visão anacrônica da mulher, por conta de situações revoltantes como a apresentada em Atrás da porta, que mostra uma tipa rastejante e masoquista, que se agarra aos pés do amado, implorando, “pra provar que inda sou tua”! O cúmulo maior com relação a essa canção é o fato de que infalivelmente ela é interpretada como se fosse algo ultra-romântico e passional (é o caso da melodramática performance de Elis Regina), o que a torna um insulto às mulheres em geral.

É de se notar, também, que o feminino no cancioneiro de Chico Buarque não registrou muito a mudança e a subversão do papel feminino nas últimas décadas. Parece que ainda estamos na época em que a mulher se dividia em santa do lar e puta, em submissa ou vadia, na mulher de malandro ou que faz de cada homem “página virada do meu folhetim”. Será que as mulheres de hoje ainda podem se identificar com eu lírico feminino nas canções do autor de Atrás da porta?

Para Adélia Bezerra de Menezes, sim. Pois, com seu texto altamente persuasivo e envolvente, ela não nos mostra uma visão da mulher anacrônica, mas uma visão arquetípica. Valendo-se do instrumental da psicanálise, tanto na sua vertente individual (Freud) quanto na sua vertente ideológica e politizante (Marcuse), ela remonta aos mitos gregos para nos dar algumas categorias de mulheres: temos as mulheres órficas, dionisíacas, que estabelecem a ordem da festa, subvertendo e transgredindo a ordem repressiva do cotidiano (por exemplo, em Ela desatinou, a mulher que insiste em continuar sambando, mesmo depois da quarta-feira de cinzas); a mulher prometéica, que, ao inverso, procura instaurar a ordem repressiva (a mulher de Cotidiano, que “todo dia faz tudo sempre igual”); para além dessas mulheres, temos aquelas portadoras da ordem do trágico, como a da canção Angélica (feita em homenagem a Zuzu Angel, que tentou esclarecer o assassinato do filho durante a ditadura e acabou ela mesma sendo morta).

O liame que se estabelece entre a tão arquetípica ordem do trágico e um fato político da atmosfera pós-1964 mostra uma das preocupações centrais de Figuras do feminino na canção de Chico Buarque: a de sempre enredar o individual no coletivo e vice-versa. Opondo-se veementemente contra a despolitização assustadora a que assistimos (e que antigamente chamava-se alienação, pura e simplesmente), o livro desenvolve-se numa espiral que sempre leva o mundo de Eros (pretensamente íntimo e pessoal) ao mundo da polis, estabelecendo um diálogo entre eles, assim como estabelece um diálogo entre o feminino e o masculino, entre a leitura e o ouvido (pois não deixamos de “ouvir” mentalmente as canções de Chico quando lemos, o que mobiliza uma intensa memória afetiva), entre a palavra e a imagem (a extremamente caprichada co-edição entre a Ateliê Editorial e a Boitempo traz reproduções—coloridas—de quadros de Ismael Nery, Alfredo Volpi, Di Cavalcanti, Portinari, Vicente do Rego Monteiro, Milton da Costa, Flávio de Carvalho, Jan van der Straet), e entre análise acurada e emoção visível.

E, sobretudo, estabelece um diálogo entre o alto ensaísmo e o leitor comum. Pois, Adélia Bezerra de Menezes, que, não por acaso, já escreveu deliciosos ensaios sobre Scherazade (na sua coletânea Do poder da palavra) acredita no prazer da leitura e em ser lida com prazer. Para ela, o leitor comum nunca é página descartada do seu folhetim.

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