MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/12/2013

O que Wendy sabia

barrie e dogPeter+pan+-+Ana+Maria+Machado

(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 18 de maio de 2010)

No ano em que As aventuras de Alice tomam conta da mídia novamente, celebram-se os 150 anos do nascimento do criador de outro ambíguo monumento da literatura infanto-juvenil, J.M. Barrie, o qual também configurou na figura de Peter Pan a recusa às normas do mundo adulto.

      Peter Pan e Wendy (pois esse é o título completo,  apesar da capa e da tradição, que dá o devido destaque à figura da “mãe” substituta dos garotos perdidos, contraponto essencial ao herói) apareceu como romance em 1911 (embora já tivesse uma carreira de anos nos palcos), fora do período vitoriano. Mas ainda revolve os mesmos dilemas que assombraram aquele crucial momento histórico em que o Império Britânico era o ápice da civilização ocidental, e que originaram as peripécias da heroína de Lewis Carroll. Aliás, muitos autores e obras dessa época nos legaram personagens que ainda sustentam a indústria cultural, por assim dizer: é o caso do grande amigo de Barrie, o também escocês Arthur Conan Doyle (1859-1930)  e Sherlock Holmes, do compatriota deles, Robert Louis Stevenson (1850-1894) e Jekyll & Hyde, e do irlandês Bram Stoker (1847-1912) e Drácula; curiosamente, nenhum deles “inglês da gema”.

No Brasil, Peter Pan é mais conhecido na versão de Monteiro Lobato. Recentemente, apareceu uma maravilhosa tradução de Ana Maria Machado (que também fez uma bela versão de Alice no País das Maravilhas),  com ilustrações de Fernando Vicente (editora Salamandra) permitindo tanto ao leitor jovem quanto ao adulto mergulharem nessa fantasia bizarra e extravagante. Na Terra do Nunca, para a qual Peter e uma mal-humorada Fada Sininho raptam os três filhos do próspero casal Darling, parece imperar o Id desbravado por Freud: só os desejos e impulsos momentâneos é que prevalecem. As regras são arbitrárias e mutáveis (“uma das características de Peter era mudar de lado de repente, bem no meio de uma briga… “), tudo segue o ritmo do faz-de-conta de Peter, o mais perdido dos meninos, aquele que se recusa terminantemente a crescer (“a diferença entre ele e os outros meninos nessas horas é que os outros  sabiam que era faz-de-conta, mas para ele faz-de-conta e de-verdade eram exatamente a mesma coisa”).

A tragédia é que levando Wendy para lá, e deixando que ela preencha o papel de mãe, Peter coloca dentro do seu “paraíso” o princípio de contradição: pois Wendy é mais do que a figura materna, é a dona-de-casa e, portanto, apta também para o papel de esposa. No “lar feliz” (título de um dos capítulos) surge a maçã: “Peter, quais são realmente seus sentimentos por mim?”,Os sentimentos de um filho dedicado”,”Era o que eu achava, disse ela e foi se sentar sozinha na outra ponta da sala”, “Você é tão esquisita, disse ele, sinceramente intrigado”.

A originalidade incômoda de Peter Pan é que nunca “cairá a ficha” para Peter, ele jamais abdicará do seu direito a ter a vida em aberto, ao contrário de todos os outros, que capitulam.

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