MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/05/2013

“Atrasado e amargo… algum gosto de vida”: A MADONA DO FUTURO e A FERA NA SELVA

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de julho de 1997)

Publicada originalmente em 1873, A MADONA DO FUTURO (The Madonna of the Future, em tradução de Arthur Nestrovski para a ótima coleção Lazuli, da editora Imago),  não é uma antevisão oitocentista da popstar que estrelou Evita. É uma visão quase melodramática sobre o desencontro entre o ideal e a realidade, e também uma prova cabal de como Henry James (1843-1916), já naquela época (e ainda muito jovem), refletia sobre o esgotamento criativo diante do peso da tradição cultural.

O narrador americano, H., conta numa reunião que, quando era moço, visitou Florença, encontrando em sua primeira noite na cidade um compatriota, o pintor Teobaldo. Este acredita que a Madona della Seggiola, de Rafael, seja o momento culminante da arte, e acredita também que ainda é possível surgir uma “madona” como síntese da arte do período em que vivem. Aliás, ele está se preparando para pintar tal “madona”.

Teobaldo, ridicularizado pelo círculo de americanos com o qual também convive H. em sua estadia em Florença, acredita até ter encontrado o modelo para a sua madona, e gasta anos de sua vida na contemplação desse modelo, imbuindo-se da sua figura para um dia tornar real o seu sonho. Ele concede a H. a honra de conhecer Serafina, e é na descrição da musa do pintor que James atinge o ponto alto de A MADONA DO FUTURO:

“Que ela era, de fato, uma bela mulher, eu logo percebi, depois de me recobrar da surpresa em ver que não exibia o frescor da juventude. Sua beleza era de uma espécie que perdendo a juventude, não perde quase nada de seu encanto essencial (…) Admirei sua beleza intensamente, mas com boa dose de reserva. Certa suave apatia intelectual pertence, de direito, a este tipo de beleza, e contribui para torná-lo mais acabado e aparente, mas o que essa Egéria burguesa revelava, salvo engano, era uma prosaica estagnação da inteligência. Talvez tivesse brilhado algum dia em sua face uma vaga luz espiritual, mas há muito já começava a minguar (…) Nem macilenta, nem abatida, nem sem cor, ela era simplesmente tosca. A alma prometida por Teobaldo não parecia digna de comentário; seu mistério não passava de uma certa suavidade matronal dos lábios e da fronte”.

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James, aqui seguindo os passos de um Balzac que fosse também um Stendhal, é um autor cruel. Ele mostra que Teobaldo, carregando todo o peso da tradição estética, é incapaz de olhar Serafina sem o embelezamento da possível obra que pode extrair dela, obra que ele se torna incapaz de criar porque aquela mulher que ele visita todas as noites anos a fio é a sua própria obra. E esse é um equívoco constante e permanente, não só na literatura (quem pode esquecer o Swann de Marcel Proust apaixonando-se pela vulgar, sonsa e tola Odette só porque ela lembra uma figura de Botticelli?), mas na vida. Quem já teve, como eu, a visão de uma mulher que parecia diáfana e transcendente, de uma beleza surpreendente, em meio a um ambiente reles, para dizer o mínimo, e descobriu ao fim e ao cabo uma personalidade tosca e xucra, não só com a inteligência referida por H., mas principalmente a sensibilidade, rarefeitas, não pode deixar de admirar a força com que James descreve a pertinaz ilusão de Teobaldo.

Sua incessante preparação para realizar sua obra (que acaba num quadro em branco) é também uma das versões de James para o problema do auto-ofuscamento, se é que se pode chamar assim, de um protagonista, e que talvez tenha chegado ao cume num texto bem mais tardio, A fera na selva  (The beast in the jungle, que foi traduzido por Fernando Sabino para a Rocco). Nesta outra novela notável, o personagem principal, John Marcher arrasta uma mulher, May Bartram, para acompanhá-lo durante anos numa expectativa: a de que algo terrível vai acontecer com ele, algo portentoso, como uma fera que, na selva, se preparasse para dar o bote sobre alguém. No final, quando Marcher descobre o que era esse “algo terrível” (não convém contar aqui, para não estragar o efeito do texto, e é preciso dizer, meu leitor, que poucas vezes a expressão “efeito do texto” fez tanto sentido), o narrador diz coisas que serviriam perfeitamente para Teobaldo, quando H. destrói sua visão idealizada de Serafina:

“A fera estivera mesmo na emboscada, a fera havia atacado… havia atacado quando não descobrira… O horror de despertar—este era o conhecimento—conhecimento cujo sopro as lágrimas em seus olhos pareciam gelar. Através delas, entretanto, tentou prendê-lo, segurá-lo; manteve-o diante de si para que pudesse sentir a dor. Isto pelo menos, atrasado e amargo, tinha algum gosto de vida.”

A incapacidade de separar o vivido do ideal e do simbólico, separar a paixão e o amor do gosto estético, separar o egoísmo do homem absorvido por suas preocupações da compreensão real do mundo feminino, incapacidade dramatizada de maneiras diferentes em A MADONA DO FUTURO e A fera na selva pode causar uma ressaca de angústia, lidas em conjunto as duas novelas, mas nos prova que Henry James foi um dos autores mais lúcidos que já existiram. Ter um gosto estético tão apurado quanto o dele, e ainda assim saber o quanto esse gosto pode ser mesquinho, estéril e autista, é um feito admirável.

raphael42

16/03/2011

Fernando Sabino, autor de DOM CASMURRO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de janeiro de 1999)

A existência de um livro tão perfeito, tão genialmente concebido como Dom Casmurro numa literatura como a nossa, deve desanimar muitos escritores medíocres. Mais do que isso, deve causar rancor, uma vontade a la Salieri de destruir, aniquilar. Só isso explica o fato de Fernando Sabino ter se atrevido a publicar Amor de Capitu, após consagrar-se como um dos medalhões nacionais da mediocridade.

Sabino afirma admirar Dom Casmurro. O busílis é que, tendo Machado de Assis escrito uma narrativa em 1ª. pessoa, que permite apenas uma visão retrospectiva dos fatos (e ainda complicada por mil digressões e volteios), o autor da biografia de uma nada saudosa ex-ministra do Mal, digo, da Economia, resolveu eliminar Bentinho como narrador. Como afirma no seu delirante prefácio: “Tudo isso a meus olhos de leitor acaba mascarando aqui e ali o relato, a ponto de criar artificialmente um mistério a mais. Como se não bastasse aquele que é inerente à natureza humana, encarnado em todos os figurantes do romance, e não apenas em Capitu. A não ser que fosse exatamente este o objetivo de Machado de Assis: um mistério a mais. Só que o mistério, como a esmola do pobre, quando é demais o leitor desconfia.” As sandices (“mascarando aqui e ali o relato”, “criar artificialmente um mistério a mais”, “como se não bastasse aquele que é inerente à natureza humana”) nem merecem comentário, a não ser que Sabino está criticando o fundamento mesmo da literatura, que será sempre máscara e artifício, não tem jeito, o mendigo do leitor que se conforme.


Amor de Capitu utiliza boa parte do texto original de Dom Casmurro, adaptando-o à narrativa em 3ª. pessoa. Com isso, num passe de mágica, retira-se o eixo da obra, sua razão de ser, a sua alma. Mas os estudantes preguiçosos que se horrorizam com a complexidade do livro, “que sempre cai no vestibular”, os professores igualmente preguiçosos, os que acham que um livro pode ser “resumido” (melhor dizendo, “condensado”), enfim, a estultície geral tem muito que agradecer a Fernando Sabino, o Bouvard e Pécuchet reunidos na mesma pessoa da reinvenção textual.

Ficaram os “eventos”, os fatos narrados. Pois o autor mineiro perpetrou seu atentado estético-intelectual, como diz, “tentando desvendar a mensagem nele contida”. Gente, aque ponto de retrocesso mental poderemos ainda alcançar? Será que chegamos ao tchan da literatura? Sabino ainda nessa de “mensagem”, a qual estaria prontinha e enrodilhada dentro dos fatos da narrativa e é só “descobrir”? Como se explica, porém, que tanta gente boa se debruçou sobre Dom Casmurro e nunca se chegou a um acordo sobre o “sentido” global do romance, quanto mais a respeito de uma possível “mensagem”!!?? E qual seria? “Não case com a namorada de infância e não aproxime a esposa do melhor amigo ou então corno tu serás”! É a versão Falcão-Reginaldo Rossi da teoria literária.

O que Amor de Capitu evidencia é o seguinte: limitado aos “fatos”, o texto se salva por um dos estratos da genialidade machadiana: os diálogos, que caracterizam de forma corisca e magistral cada personagem. E que era um desdobramento de outros estratos formados a partir da narrativa retrospectiva e altamente suspeita de Bentinho/Dom Casmurro, ator do drama/autor da versão que vai ao palco. Esse primeiro estrato, o do narrador que sujeita o leitor a uma visão limitada dos fatos, subordina todos os demais e gera uma ambigüidade perturbadora e sempre renovada. Só que ninguém hoje em dia quer saber de ambigüidade. É preciso ter tudo claro, simples e “verdadeiro”. Como se a vida fosse assim. Pior ainda, é preciso que tudo seja raso e reles, que siga o mínimo denominador comum. Nesse ponto, Amor de Capitu é o Dom Casmurro ideal para 1999, é o livro de Machado de Assis ao nível da Xuxa e do Ratinho.


Uma coisa assustadora do texto de Fernando Sabino, afora o projeto como um todo da “recriação” da obra-prima machadiana tal como levado a efeito, é a falta de ironia com que ele o levou a cabo, diria mesmo, a falta de molecagem. Um Pierre Menard sem nenhum pingo de humor, ele se leva tão a sério a ponto de afirmar taxativamente a culpa de Capitu: “O que sempre me atraiu nesse romance admirável não foi a intrigante e todavia óbvia infidelidade da personagem principal”. Óbvia por quê? Só porque descobriu um ou dois pormenores que ratificam a suspeita de Bentinho e que, segundo ele, não haviam sido notados por ninguém? Como se não houvesse milhares de detalhes esmagadoramente suspeitos que provariam a culpa da nossa maior personagem feminina, em qualquer tribunal.

E não tem a menor importância. O “enigma de Capitu” só existe sob o ângulo de visão de Bentinho, sob o manto da sua narrativa, através da maneira como ele selecionou os detalhes e incidentes para persuadir o leitor de que a Capitu adulta que o traiu já estava na Capitu menina, nessa sua má-fé rancorosa.

Portanto, o “enigma de Capitu” e todos os outros enigmas de Dom Casmurro (e por isso ele é um dos textos-fetiches dos últimos cem anos) só existem através da entidade que Fernando Pessoa (ops, Sabino) desalojou ou exorcizou na sua “recriação literária”: o narrador em primeira pessoa. Os mistérios são muitos e o santo leitor que desconfia da abundância deles pode não ser doente do pé, mas é ruim da cabeça.

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