MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/11/2013

A taça de chá-maelstrom: uma homenagem ao centenário de “No caminho de Swann”

marcel-proust_4004733no-caminho-de-swann

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de novembro de 2013)

Novembro de 1913 proporcionou uma fascinante intersecção entre os dois maiores autores da língua francesa do século: no dia 7 nascia Albert Camus e na semana seguinte, Marcel Proust (1871-1922) publicava No Caminho de Swann [Du Côté de Chez Swann], volume inicial de Em Busca do Tempo Perdido [À la recherche du temps perdu], um dos livros fundamentais de todos os tempos[1]. Recentemente, a Globo completou sua aparatosa reedição, iniciada em 2006, do romance (com o lançamento de O Tempo Redescoberto), a qual ganhou o título um tanto pretensioso de Proust Definitivo! Tiveram até o desplante de colocar um resumo do texto! O que será que um verdadeiro leitor faria com ele?!! Borboleteios editoriais à parte, a tradução de Mário Quintana[2] permanece monumental.

No caminho de Swann é dividido em três partes. Na primeira, Combray, o narrador nos conta a agonia de esperar, quando pequeno, o beijo de boa-noite da mãe. Além de ser um dos maiores exercícios psicológicos já realizados por qualquer escritor, esse entrecho serve de mote para as relações amorosas da obra como um todo: mesmo que ela venha afinal dar o beijo (apesar dos compromissos sociais) o desamparo da carência absoluta nunca será preenchido. O título desse primeiro volume justifica-se pelas estadias de Marcel na provinciana Combray, com suas tias (personagens inesquecíveis—Proust rivaliza nesse sentido com Balzac): ali, há dois lados para se passear, o lado Guermantes (representantes do que há de mais chique na aristocracia francesa, e cujo mundo Marcel frequentará mais tarde), e  o lado Swann, amigo da família (de quem as visitas foram em parte a razão do tormento do menino porque impediam que a mãe fosse lhe dar o ansiado boa-noite). É nessa parte que aparece o famosíssimo bolo de madalena molhado em chá, cujo sabor traz a memória involuntária de todo o “tempo perdido”: “(…) comme dans ce jeu où les Japonais s´amusent à tremper dans un bol de porcelaine rempli d´eau, de petits morceaux de papier jusque-là indistincts qui, à peine y sont-ils plongés s´étirant, se contournent, se colorent, se différencient, deviennent des fleurs, des maisons, des personnages consistants et reconnaissables (…) tout Combray et ses environs, tout cela qui prend forme et solidité, est sorti, ville et jardins, de ma tasse de thé”.  Ou ainda: “(…) quand d´um passé ancien rien ne subsiste, après la mort des êtres, après la destruction des choses, seules, plus frèles mais plus vivaces, plus immatérielles, plus persistantes, plus fidèles, l ´odeur et la saveur restent encore longtemps, comme des ames, à se rappeler, à attendre, à esperer, sur la ruine de tout le reste, à Porter sans fléchir, sur leur gouttelete presque impalpable, l´édifice immense du souvenir”.[3]

swann 2swann

O amor torturado e humilhante do refinado Swann (o fato de ele ser judeu terá peso no avançar do romance) pela, digamos recatadamente, “acompanhante” de luxo Odette ocupará a 2ª. parte (Un amour de Swann, às vezes publicada em separado, como fez aqui no Brasil a L&PM[4]– foi também adaptado à parte para o cinema, de forma aliás incrivelmente medíocre, por Volker Schlöndorff, num desperdício de possibilidades, e de elenco, deplorável) e será como que uma engenhosa miniatura dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, nos levando a um passeio pelo inferno (e pelos mecanismos) do ciúme, da desconfiança,  ensinando-nos como as paixões nunca são isentas dos signos sociais (classe, cultura, o papel atribuído ao homem etc). Odette se tornará a sra. Swann—e seu salão terá papel-chave no segundo volume, À sombra das moças em flor (o qual, publicado em 1919, foi aquele que chamou a atenção para a genialidade de Proust, pois Swann foi ignorado), ganhando respeitabilidade. Isso não impedirá a conclusão amaríssima de seu apaixonado:   “E dizer que eu estraguei anos inteiros de minha vida, que desejei a morte, que tive o meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não era meu tipo!”.

A terceira parte, Nomes de terras: o nome[5], prepara os eventos dos próximos volumes (principalmente o primeiro amor de Marcel, a filha de Swann e Odette, Gilberte, uma das moças em flor tão pouco convincentes), que Proust foi reescrevendo até sua morte, em 1922 e cuja publicação final se estendeu a 1927.

Viver acaba sendo, no fundo, apenas uma longa preparação para o livro que ele escreverá, e no qual controlará todos os detalhes: a  paisagem, os lugares, as pessoas, fazendo com que tudo se atrele a um microcosmo que parece ter tanta vida quanto a nossa realidade. Se, desde criança,  não pôde controlar nem o beijo diário de boa-noite da mãe, na sua obra ele vai fazer com que tudo retorne—como literatura—confinado na sua vertiginosa taça de chá.

swann 3

TRECHO SELECIONADO:

Escolhi um trecho da 2ª parte, Um amor de Swann

No original, lemos:

Quand sa maîtresse du moment était au contraire une personne mondaine ou du moins une personne qu´une extraction trop humble ou une situation trop irrégulière n´empêchait pas qu´il fît recevoir dans le monde, alors pour elle il y retournait, mais seulement dans l´orbite particulier où elle se mouvait ou bien où il l´avait entrainée. “Inutile de compter sur Swann ce soit”, disait-on, “vous savez bien que c´est le jour d´Opéra de son Américaine”. Il la faisait inviter dans le salons particulièrement fermés où il avait ses habitudes, ses dîners hebdomadaires, son poker; chaque soir, après qu´un léger crépelage ajouté à la brosse de ses cheveux roux avait tempéré de quelque douceur la vivacité de ses yeux verts, il choisissait une fleur pour sa boutonnière et partait pour retrouver sa maîtresse à dîner chez l´une ou l´autre des femmes de sa coterie; et alors, pensant à l´admiration et à l´amitié que les gens à la mode pour qui il faisait la pluie et le beau temps et qu´il allait retrouver là, lui prodigueraient devant la femme qu´il aimait, il retrouvait du charme à cette vie mondaine sur laquelle il s´était blasé, mais don’t la matière, pénétrée et colorée chaudement d´une flame insinuée qui s´y jouait, lui semblait précieuse et belle depuis qu´il y avait incorporé un nouvel amour.

swann 5

Na versão de Mário Quintana:

Quando sua amante do momento era pelo contrário uma pessoa da sociedade ou pelo menos uma pessoa cuja origem muito humilde ou cuja situação muito irregular não impedia que ele a fizesse receber em sociedade, então, por ela, Swann voltava àquele ambiente, mas apenas dentro da órbita particular onde ela se movia ou aonde ele a tinha levado. “Inútil contar com Swann esta noite”, diziam, “bem sabem que é o dia de Ópera da sua americana”. Fazia com que a convidassem para salões particularmente fechados onde ele tinha seus hábitos, suas ceias hebdomadárias, seu pôquer; todas as noites, depois que uma leve ondulação aplicada a sua basta cabeleira ruiva temperava de alguma brandura a vivacidade de seus olhos verdes, ele escolhia uma flor para sua botoeira e ia encontrar-se com a amante à mesa de algumas das mulheres de seu círculo; e então, pensando nas provas de admiração e amizade que as pessoas da moda ali presentes, e para as quais ele era o árbitro, lhe prodigalizariam diante da mulher a quem amava, ainda encontrava encanto naquela vida mundana de que se enfadara, mas cuja substância, penetrada e ardentemente colorida por essa luz que nela brincava, parecia preciosa e bela depois que lhe incorporava um novo amor.

swann 4

Na tradução de Fernando Py:

Quando, ao contrário, sua amante do momento era uma pessoa da sociedade, ou pelo menos alguém cuja origem muito humilde ou cuja situação bastante irregular não a impedia que fosse recebida em sociedade, então, por causa dela, Swann voltava àquele meio, mas apenas na órbita particular em que ela transitava ou então aonde ele a levara. “Inútil contar com Swann esta noite”, diziam, “sabem muito bem que é o dia de Ópera da sua americana”. Dava um jeito para que a convidassem para salões especialmente fechados e onde ele tinha seus hábitos, seus jantares semanais, o seu pôquer; todas as noites, depois que uma leve ondulação aplicada aos cabelos ruivos havia matizado de alguma doçura a vivacidade de seus olhos verdes, Swann escolhia uma flor para a botoeira e saía para se encontrar com a amante na mesa de alguma das mulheres do seu gripo; e então, pensando na admiração e na amizade que as pessoas da moda, para quem ele era a palavra suprema, lhe devotariam diante da mulher que amava, ainda encontrava charme naquela vida mundana da qual se entediara, mas cuja substância, impregnada e calidamente colorida por uma chama insinuante que nela brincava, lhe parecia bela e preciosa desde que a ela incorporara um novo amor.

no-caminho-de-swann-marcel-proust_MLB-O-217920587_5510

Na versão de Celina Portocarrero:

Quando sua amante do momento, ao contrário, pertencia à sociedade ou era ao menos alguém cuja família humilde ou posição demasiado irregular não impedia que ele pudesse fazer receber pela sociedade, então por ela ele voltava, mas somente na órbita particular onde ela circulava ou na qual ele a havia introduzido. “É inútil esperar por Swann esta noite”, diziam, “sabemos todos que é o dia de ópera com sua americana”. Ele a fazia ser convidada em salões especialmente fechados nos quais tinha seus hábitos, seus jantares semanais, seu pôquer; todas as noites, depois que uma leve ondulação aplicada a seus cabelos vermelhos temperara com alguma doçura a vivacidade de seus olhos verdes, ele escolhia uma flor para a lapela e saía para encontrar sua amante jantando em casa de uma ou outra amiga de seu círculo; então, pensando na admiração e na amizade que as pessoas da moda que lá iria encontrar, para as quais ele era o ar que respiravam, iriam prodigalizar-lhe diante da mulher que amava, reencontrava encanto naquela vida mundana da qual se havia enfastiado, mas cuja matéria, penetrada e calidamente colorida por uma chama insinuada que ali brincava, parecia-lhe  preciosa e bela desde que se lhe incorporara um novo amor.

swann- resenha


[1] A intersecção fica mais interessante ainda quando nos damos conta que se trata de dois estilos exemplarmente antípodas: o de Camus, clássico, mais para eloquente, muito “mot juste”; o de Proust, com suas longas frases, seu cacho de analogias e símiles.

[2] Essa versão de Quintana já teve duas outras edições (com inúmeras reimpressões) pela própria Globo, e também fez parte da coleção Obras-Primas da Abril Cultural (foi nessa edição que o li pela primeira vez). Há também a tradução de Fernando Py, nos anos 1990, para a Ediouro.

[3] Na versão publicada em A TRIBUNA, me vali da tradução de Quintana para os dois trechos:

“… como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia d´água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram , se delineiam, se cobrem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis(…) toda Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha taça de chá“.

“…quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando sobre a ruína de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação”.

[4] A tradução ficou a cargo de  Celina Portocarrero.

[5] Na versão de Fernando Py, Nome de lugares: o nome

swann- filme

pleiade

27/01/2012

Proust e o abismo homossexual: SODOMA E GOMORRA, o centro de “Em busca do tempo perdido”

No final de O caminho de Guermantes, terceiro volume de Em busca do tempo perdido, há uma famosa e impressionante cena em que o Duque e a Duquesa de Guermantes, casal que é o suprassumo do chique, para não se atrasarem para um jantar mundano, passam por cima, por assim dizer, da morte próxima de seu amigo mais chegado, Swann, comunicada por ele mesmo.

Nesse momento, consuma-se um processo de esvaziamento dos mitos de infância e adolescência de Marcel, o narrador, para quem o nome Guermantes representava o grandioso e o romanesco, e que como um Gulliver no meio de costumes e seres liliputianos, descobre sobretudo (mas não apenas) a estupidez e a mesquinharia.

E esse é apenas o prelúdio para a descida aos infernos que é Sodoma e Gomorra (Sodome et Gomorrhe, em tradução de Fernando Py para a Ediouro), o quarto volume.

Marcel conhecerá o mundo do homossexualismo, representado—pelo lado masculino—pelo Barão de Charlus (irmão do Duque), o qual simboliza a convivência entre o supremo refinamento e a tendência à degradação; e—pelo lado feminino—por Albertine, que Marcel ama, apesar das “intermitências do coração”.

Na verdade, a maneira como Marcel tem acesso a esse lado underground da sociedade que se freqüenta (não fazia muito tempo Oscar Wilde fora condenado na Inglaterra por sodomia) é ridiculamente forçada. Você consegue se imaginar, leitor, seguindo sorrateiramente dois conhecidos para ver o que vão fazer (no caso, o encontro entre Charlus e Jupien engata numa relação sexual)? Esse é apenas um dos muitos problemas de Sodoma e Gomorra, livro informe e atravancado. Proust não teve tempo de revisá-lo inteiramente (foi publicado no ano de sua morte, 1922). Mesmo assim, é prodigioso, a meu ver, provando que o autor é a sintese dos três gênios maiores franceses na área do romance, que o precederam: Balzac, Stendhal e Flaubert, juntando a cosmovisão social do primeiro, a capacidade de análise microscópico-caleidoscópica do segundo e o senso de detalhe do terceiro.

Fiel ao seu pendor simétrico, faz da citada, absurda (e quase cômica) cena de voyeurismo que abre esse quarto volume a contrapartida da cena de sadomasoquismo entre mulheres que presenciara em No caminho de Swann, o volume inicial. A burguesa e risível senhora Verdurin, que pontifica em seu salão, ditando leis sobre arte e comportamento, é a contrapartida da restritiva Duquesa de Guermantes (aliás, substituí-la-á após a derrocada da aristocracia francesa, por causa da Primeira Guerra, mas isso é assunto dos outros três volumes, publicados postumamente): “Essa atitude de resignação aos sofrimentos sempre iminentes infligidos pelo Belo, e a coragem que tivera em pôr um vestido, quando mal se levantava após a última sonata, fazia com que a senhora Verdurin, mesmo para escutar a música mais cruel, conservasse uma fisionomia desdenhosamente impassível…” (pág. 256)

O mesmo sopro de crueldade irônica paira sobre o abismo homossexual que é moralisticamente apresentado, percebendo-se claramente o recuo de autodefesa do autor, que realça o empobrecimento pessoal e a baixa auto-estima que permeiam as trajetórias de Charlus e Albertine, em meio às discussões de salão e ao contraste entre o mundo aristocrático e o burguês.

Eu, afinal de contas, fora dar… não no umbral, como julgara, mas no fim do mundo encantado dos nomes”. Já comentei nesta minha coluna a relevância do empreendimento de colocar para o leitor brasileiro dos anos 90 uma nova versão de um livro fundamental. Com o lançamento de Sodoma e Gomorra não custa insistir.

–a resenha acima foi publicada, com ligeiras alterações, originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de setembro de 1994, quando a Ediouro publicava EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, versão Fernando Py, aos poucos; alguns anos mais tarde, a editora lançou uma caixa com três volumes; acontece que nos últimos anos, a Globo, vem se dedicando a lançar uma Edição definitiva; em 04 de abril de 2009, aproveitei parte do texto que escrevi para comentar o lançamento de Sodoma e Gomorra versão Quintana, com o título “O centro de EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO”; abaixo alguns trechos:

Chega ao meio do caminho o PROUST DEFINITIVO, isto é, a nova e aparatosa edição da clássica tradução de EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO em sete volumes: saiu o quarto volume, Sodoma e Gomorra (Globo, 637páginas), o centro da obra, e talvez sua parte mais complicada, apesar da extraordinária tradução de Mário Quintana (responsável pelos quatro primeiros volumes), uma prolixa descida aos infernos, na qual a homossexualidade é representada em cada sexo por um personagem-chave (…)

Na verdade, a maneira como Marcel tem acesso a esse lado underground é ridícula, e só um autor do porte de Proust pode sobreviver e ainda nos proporcionar passagens magníficas: ele testemunha um encontro fortuito entre dois conhecidos, Charlus e Jupien, e resolve segui-los sorrateiramente para ver o que farão juntos! Ora, ora. E o que farão? O título explica, noblesse oblige do responsável por este texto recato e pudicícia.

A bisbilhotice inacreditável de Marcel é um dos muitos problemas do texto (…)

Se o narrador é cruel com a pobre madame Verdurin, tampouco se mostra compassivo ao retratar o submundo homossexual (que, depois, absurdamente, virará um todo-mundo homossexual, quase não escapando ninguém), e aí percebemos o recuo defensivo do próprio Proust, que tenta se isentar enquanto se mostra um formidável psicanalista… para os outros.

 

MOÇAS DE ARAQUE E OBRA-PRIMA PARA TODA A VIDA

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de setembro de 1993)

A Ediouro continua na sua iniciativa de oferecer aos leitores brasileiros uma nova tradução de Em busca do tempo perdido com o lançamento de À sombra das moças em flor. Há exatamente 80 anos, com o primeiro volume (No caminho de Swann), Marcel Proust iniciava a publicação do seu grande romance.

Não se trata, aqui, de comparar a tradução de Fernando Py com a de Mário Quintana (editora Globo), esta última um clássico da nossa língua, e sim de comentar a maravilha que é esse segundo volume (1919): Marcel narra sua adolescência, suas tardes nos Champs Elysées, a paixão pelo teatro e por Gilberte, filha de Swann, rejeitado pela sociedade por casar com uma mulher “duvidosa”.

Através da filha, Marcel penetra no círculo íntimo de Odette Swann, no qual o astro é justamente seu ídolo, o escritor Bergotte (baseado em Anatole France & Bergson), um dos três artistas inspiradores do narrador. Vinteuil (baseado em Debussy & César Franck) já aparecera no primeiro volume; Elstir (baseado em Degas), o pintor impressionista que, numa das coincidências meio forçadas da obra, já foi marido de Odette, aparece na segunda parte de À sombra das moças em flor, passada no balneário de Balbec, assim como dois outros personagens fundamentais para o desenvolvimento da “intriga”: Albertine, que será o grande amor de Marcel) e o Barão de Charlus, que …

Defeitos em Proust? Além do estilo único, do lirismo, do esplendor das imagens como (só para citar uma) a inesquecível analogia de um restaurante com um planetário e das caixas com astrólogos, o que torna especial À sombra das moças (felizmente modernizaram o título, porque o tradicional À sombra das raparigas em flor era dose, era quase odettiano) é o fato de ser o mais perfeito, o mais esférico e bem acabado volume da Recherche.

O romance completo (na tradicional publicação em sete volumes) é genial, todavia os seguintes (à exceção do sexto, outro ponto de perfeição) às vezes são um osso duro de roer, pelas manias, confusões, excessos, repetições, e principalmente pela irritante obsessão do autor, que faz seu narrador descobrir que quase todos os seus conhecidos são homossexuais.

Como se diz, a obra é prima porém está longe de ser perfeita. Mesmo assim, ninguém pode negar que é apaixonante. Um grande livro é vivo, tem sua dinâmica própria, nos conquista até pelos seus defeitos, que se tornam características como nas pessoas que amamos e admiramos. E conviver longamente com Proust nos causa esse efeito.

Moças?O senão do segundo volume é a dificuldade de acreditar nas ex-raparigas e agora moças em flor. Leiam-se as brincadeiras nos Champs Elysées, a liberalidade dos costumes em Balbec, para ver se dá para aceitar como verossímil o comportamento e direi mesmo a existência dessas “moças”.

Aliás, inverossimilhança por inverossimilhança, é difícil crer em conversações burguesas ao jantar tão sem meias-palavras como as da família de Marcel. E, mais que tudo, numa convivência tão estreita de um adolescente enfermiço, mimado e vigiado com uma anfitriã tão desabonadora como Odette Swann.

Mas, voltamos ao ponto: no final das contas, Proust é Proust. Do alto da sua estatura artística, ele nos tolera catando suas pulgas. Noblesse oblige.

 

 

DENTRO E FORA DO TEMPO: MARCEL PROUST

proust_060509102040493_wideweb__300x375o tempo recuperado

“… me apercebia enfim (no que não pensara ao entrar naquele salão) que toda festa, ainda mais singela, nos causa, quando ocorre  muito tempo depois que deixamos de freqüentar a sociedade e mesmo que reúna poucas pessoas das que conhecêramos outrora, o efeito de uma festa à fantasia… um teatro de fantoches, onde, para se identificarem as pessoas conhecidas, fazia-se necessário decifrar, a um só tempo, vários planos situadas por detrás delas, e que lhes conferiam profundidade, obrigando a um trabalho mental, pois devia-se ver esses velhos fantoches tanto com os olhos quanto com a memória; um teatro de fantoches banhados nas cores imateriais dos anos, exteriorizando o Tempo, o Tempo que de hábito é invisível, que, para deixar de sê-lo, procura corpos e, onde quer que os encontre, deles se apodera a fim de mostrar, acima deles, a sua lanterna mágica”

    O trecho acima é de O tempo recuperado, tradução que completa o monumental trabalho de Fernando Py em oferecer uma nova versão (além daquela clássica, pela editora Globo) dos sete volumes de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. É um dos feitos literários da década.

    Nesse ponto do romance, o narrador reencontra velhos conhecidos numa recepção após a Primeira Guerra, que reordenara a alta sociedade francesa de cunho aristocrático (o mítico “faubourg Saint-German”).

    A noção de tempo perdido, de desperdício da existência, vem da visão do depauperamento das pessoas, por causa da velhice ou da degradação moral. Marcel, que investira boa parte da sua freqüentando salões, vê então as distinções promovidas pelo exclusivista clã dos Guermantes caírem por terra e a própria Duquesa de Guermantes, a personificação do esnobismo chique, ser substituída pela cafona e vulgar Madame Verdurin.

    Proust descreve de maneira implacável a derrocada da sociedade que ele tanto se esmerara em cultivar e da qual foi afastando-se por conta da sua obsessiva relação com a ambígua (inclusive sexualmente) Albertine. Ele nos mostra retratos poderosos das pessoas que acompanhamos pelos volumes anteriores (como Saint Loup, Madame de Saint-Euverte, Barão de Charlus). Poderosos e perturbadores. Era preciso tanta crueldade?! É difícil gostar muito do ser humano após ler Proust.

 marcel proustrecherche

“… essas várias impressões que me proporcionaram bem-estar e que, entre elas, tinham em comum a faculdade de serem sentidas, ao mesmo tempo, no momento atual e num momento passado –o ruído da colher no prato, a desigualdade das lajes, o gosto do biscoito madeleine— até fazerem o passado permear o presente a ponto de me tornar hesitante, sem saber em qual dos dois me encontrava; na verdade, a criatura que então saboreava em mim essa impressão, saboreava-a naquilo que ela possuía em comum entre um dia antigo e o atual, no que possuía de extratemporal, era uma criatura que só aparecia quando, por uma dessas identidades entre o presente e o passado, podia achar-se no único ambiente em que conseguiria viver, desfrutar da essência das coisas, isto é, fora do tempo… Tal ser nunca viera até mim, nunca se manifestara senão fora da ação, do gozo imediato, todas as vezes que o milagre de uma analogia me fizera escapar ao presente”

    Proust é um artista platônico.  Como se sabe, para Platão havia o nosso mundo dos fenômenos, mundo imperfeito, réplica defeituosa de um mundo superior, o mundo das essências. Portanto, se no plano dos fenômenos, da realidade transitória, que nos  envelhece, exaure e carcome, Marcel soma e obtém zero,  no plano essencial, extratemporal, ele recupera, resgata, recaptura, reencontra esse tempo perdido, através das sensações e impressões despertadas por algumas coisas, geralmente impalpáveis para a Razão e a memória consciente. Enquanto chega para a recepção, envelhecido, desiludido e sentindo o fracasso do tempo desperdiçado, ele tropeça nas lajes assimétricas em frente ao palácio, e toda sua experiência em Veneza vem à tona. É o milagre da analogia, e um momento mágico da literatura e da capacidade perceptiva do ser humano (a quem não admiramos tanto no plano dos fenômenos). Toda a proposta final de O tempo recuperado é proporcionar o acesso ao mundo das essências. Aliás, é nesse último volume de Em busca do tempo perdido que está a famosa frase que poderia servir de epígrafe à obra de Fernando Pessoa (outro artista que desabrocha no “extratemporal”): “…os verdadeiros paraísos são aqueles que já perdemos”.

    E assim o último volume reata a conclusão do primeiro capítulo de No caminho de Swann, o volume inicial, que voltava-se para a infância de Marcel:

“… quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre as suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações”.

 proust-on-his-deathbed

    Mas é preciso que ele perca tanto tempo ao longo da vida, para se recolher no final do último volume e se dedicar a escrever a obra que começa com No caminho de Swann: o final de O tempo recuperado é o anúncio do Livro.

    A tradução de Py é boa? Poderia ser, às vezes, menos prosaica. Entretanto, só a façanha de traduzir sozinho um livro como esse já merece o louvor de quem gosta de ler. Mesmo assim, não custa prevenir ao meu leitor de que há uma magnífica tradução desse mesmo volume, feita por Lúcia Miguel Pereira (sucedendo Mário Quintana, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, responsáveis pelos anteriores), com o título O tempo redescoberto.

     Recuperado ou redescoberto, esse tempo é uma das coisas essenciais que se tem para ler na nossa vida de fenômenos transitórios.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de dezembro de 1996)

Blog no WordPress.com.