MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/12/2010

HAMLET GENÉRICO

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O tradutor Fernando Nuno e a editora Objetiva começaram, a partir da publicação de Hamlet, a Coleção Shakespeare, norteada por uma excelente idéia: verter integralmente os textos, entretanto adaptando-os ao formato da prosa. A narração substitui as deixas teatrais. As falas permanecem relativamente intactas.

É uma solução média bastante pertinente para atrair o leitor de hoje (principalmente o público jovem), sem que se recorra a condensações ou mutilações excessivas através de adaptações simplificadoras. No fundo, não é muito diferente de outra versão média, a tradução de Millôr Fernandes editada pela L&PM (que também tem outras versões muito ágeis e qualificadas de peças shakesperianas na sua coleção pocket).

E também média, no bom sentido, é a versão em prosa de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros & Oscar Mendes, publicada pela Nova Aguilar—possivelmente ainda o melhor meio de entrar em contato com Shakespeare em língua portuguesa—que, como as outras, é uma boa preparação para enfrentar traduções mais eruditas e complexas, como a de Péricles Eugênio da Silva Ramos, um tour-de-force do tradutor e também para o leitor.

Aqui nem vou falar da peça (todo mundo sabe que o espectro do pai de Hamlet conta a ele que fora assassinado pelo irmão, agora rei da Dinamarca, e a vingança que ele deve efetivar é procrastinada até o último ato, no qual morrem todos os personagens principais), embora—como tantos outros—eu tenha dedicado boas horas da minha vida a pensar sobre ela (todo mundo sabe também que é um dos quatro ou cinco textos fundamentais da história do Ocidente).

Recentemente foi lançado no Brasil o importante livro de L. S. Vygotski, A tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, onde ele mostra como é infrutífera a tentativa de entender a peça a partir da falta de decisão de Hamlet. Ele é o homem que teve acesso à vida após a morte (no contato com o espectro); a partir daí torna-se uma figura no limiar, na passagem entre os dois mundos, nunca mais estará inteiramente “cá”, já está com um pé no lado de “lá”. A peça, com sua filosofia à Montaigne, é uma aula de preparação para a morte (já se disse dela que é `o Eclesiastes em ação”).

“The readiness is all”, diz o príncipe a Horácio no último ato, logo antes do clímax, quando deve duelar com Laertes (cuja tragédia espelha a sua).

Causa espanto que Fernando Nuno (que é apresentado como um apaixonado por Shakespeare) tenha vertido de forma tão chocha a fala “Desafiamos os presságios. Se vai ser agora, também pode ser em outra hora, e se não for para acontecer, também não vai ser agora, também pode acontecer mesmo assim. E se é para deixar de lado alguma coisa, qual é a hora certa para deixá-la de lado? O mais importante de tudo é estar sempre prevenido”.

Compare-se com a versão (muito mais bela) de Péricles Eugênio da Silva Ramos: “…desdenhemos o augúrio. Há uma iniludível providência na queda de um pardal. Se for este o momento, não está para vir; se não está para vir, é este o momento; se não é este o momento, há de vir todavia—estar pronto é tudo. Já que ninguém sabe, por coisa alguma do mundo, qual o momento exato de morrer, por que nos preocuparmos?”.

Para o leitor que aprecia justamente a linguagem é o mesmo choque experimentado com o que aconteceu ao já referido Eclesiastes na “nova versão internacional”. Na Bíblia de Jerusalém, lemos: “Vaidade das vaidades—diz Coélet—vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?” É lindo, é a suprema beleza da linguagem.

Na “nova versão internacional”, lemos: “Que grande inutilidade, diz o mestre, que grande inutilidade. Nada faz sentido! O que o homem ganha com todo o seu trabalho em que tanto se esforça debaixo do sol?” É preciso dizer alguma coisa? Mesmo louvando a iniciativa de um novo Hamlet, é preciso dizer que muita coisa se perdeu na canhestrice. Por exemplo, é possível uma frase como “A little more than kin, and less than kind” (pouco mais que um parente, menos que um filho) virar “filho desse aí é que eu não sou mesmo”!!!!???? Ou ainda, onde está o soberbo e indispensável grito de Hamlet ao saber que o tio realmente assassinara o pai: “Ó minh´alma profética”?

E assim por diante. O Hamlet que inaugura a coleção Shakespeare não é suficiente,mas é um bom primeiro passo para quem não se contentar apena com ele. Mais que uma adaptação ou condensação, menos que um Hamlet genuíno.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de julho de 2003)

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