MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/07/2013

Em louvor da ficção “média”: os 50 anos de “As Sandálias do Pescador”, de Morris West

Writer Morris Westas-sandalias-do-pescador-morris-west-capa-dura_MLB-O-65273197_6321

“__ Vós nunca tereis sido um pessimista, Jean? Nunca vos encontrastes perdido nesse rodopiar incessante da roda da vida?

__ Às vezes, Santidade… Por exemplo, certa vez, quando estava na China, nos confins do noroeste, no vale estéril dos grandes rios… Havia muitos mosteiros. Edifícios enormes que só poderiam ter sido construídos por grandes homens, homens com larga visão, que queriam desafiar o enorme vazio em que viviam… Pensava que, de uma ou outra forma, Deus deveria ter estado com eles, mas quando entrava em qualquer desses mosteiros e observava os homens que lá vivem agora… aborrecidos, falhos de inspiração, apáticos… era afligido por uma profunda melancolia. Quando regressei ao Ocidente… quando li os jornais e falei com os meus irmãos cientistas, fiquei desolado pela cegueira com que parecemos cortejar a nossa própria destruição. Por vezes, até me parece impossível acreditar que o homem possui um destino divino…

__ Kiril assentiu pensativamente. Colheu um ramo caído e provocou uma lagartixa adormecida, que logo desapareceu entre as folhas:

__ Eu sei o que é isso, Jean. Chego a sentir o mesmo, até na Igreja. Espero e rezo por um grande movimento, por um grande homem que nos leve de novo à vida plena…

   Jean Télémond não respondeu. Aspirou, placidamente, o cachimbo, aguardando que o papa completasse o seu pensamento.

__ …Um homem como São Francisco de Assis, por exemplo. Que significa ele, na realidade?… Um rompimento completo com o padrão da história… um homem nascido fora do seu tempo, uma súbita e inexplicável revivência do espírito primitivo do cristianismo. A tarefa por ele encetada ainda continua… mas já não é o mesmo. A revolução por ele inaugurada terminou, e os revolucionários tornaram-se conformistas. Os pequenos irmãos do homem pobre são caixas de esmola nas estações ferroviárias ou, então, negociam propriedades, para lucro da Ordem.

    O papa teve uma risada tranquila:

__ Claro, não fazem só isso. Ensinam, pregam, obram por Deus tão bem quanto podem, mas já não uma revolução. Penso que estamos bem precisados de uma…

__ Talvez—disse Jean Télémond, com uma centelha no olhar astuto.—Talvez Vossa Santidade seja um revolucionário.”

As Sandálias do Pescador (2)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 23 de julho de 2013)

A vinda do papa ao Brasil (e no fundo, as implicações da sua eleição na esteira da renúncia surpreendente de seu antecessor) proporciona o tempero adequado para um comentário sobre os 50 anos de um romance que ainda aprecio muito: As Sandálias do Pescador [The Shoes of the Fisherman, que comento na tradução de Fernando de Castro Ferro[1]].

Quando o publicou, Morris West (1916-1999) gozava do status ambíguo de certos autores de sucesso: visto com desconfiança pela crítica como um fabricante de best sellers, era alguém que lidava com temas “profundos”, “desafiadores”. O romancista australiano, e alguns de seus colegas na lista dos mais vendidos, a meu ver, permanecem subestimados e deveriam passar por uma reavaliação, pois praticavam ficção de bom nível e eram capazes de criar personagens complexos e artimanhas narrativas, muitos patamares acima do simplismo dominante no cenário editorial da atualidade.

Em 1978, sua trama girando em torno de um papa não-italiano (no livro, um russo) a sacudir os fundamentos fossilizados do Vaticano, se afigurou meio profética quando da aparição do polonês Karol Wojtyla[2]. Mas de lá para cá, talvez até pelo filão explorado em sua obra (dilemas católicos), West foi sendo esquecido. Ficou “datado”, o que parece injusto para quem leu O Advogado do Diabo ou Fora de Série, por exemplo, dentro dessa linha; ou, fora dela, Um mundo Transparente.  Por seu lado, João Paulo II pouca afinidade teve com seu duplo ficcional, Kiril Lakota, a não ser uma trajetória tumultuada em função do comunismo: seu longo papado pautou-se por um reacionarismo e um apego a dogmas retrógrados e suas sanções que fizeram a Igreja Católica recuar em número de fiéis, alienando-se das necessidades contemporâneas, enquanto em seu interior grassava a corrupção mais desenfreada e pululavam os pedófilos.

Na absorvente narrativa de West, onde os acontecimentos se entremeiam com “excertos” das memórias secretas do pontífice, Kiril I começa seu reinado enfrentando a petrificada-petrificante burocracia do Vaticano, ansiando pelo contato direto com as ruas (chega a sair disfarçado[3]); no seu passado, fora torturado por Kamenev, alçado depois a condição de líder supremo da URSS, com o qual desenvolvera uma co-dependência psicológica tortuosa, que faz com que os dois (através de mensageiros à la romance de espionagem) cultivem um contato incongruente com os aparentes princípios de suas doutrinas. É através desse vínculo com Kamenev que Kiril pretende usar o peso da igreja para enfrentar a ameaça nuclear (estamos na Guerra Fria) e a movimentação militar da China, uma ameaça ao Ocidente.

À volta de Kiril estão os cardeais artífices da sua condução ao trono de Pedro: Rinaldi e Leone; este último é uma espécie de Inquisidor moderno, responsável pelo silêncio e censura em torno do padre Jean Télémond, que almeja enlaçar teologia e ciência com ideias, na opinião da fossilizada ala de Leone (a qual detém grande poder), perigosas e subversivas. Kiril e Télémond, em posições antípodas (um se torna o líder da igreja, o outro é quase um pária) ficam muito amigos e o tratamento do Santo Ofício ao teólogo é um dos motivos para que o novo papa sinta a premência de dar um novo rumo para o catolicismo. Na adaptação cinematográfica de 1968, dirigida por Michael Anderson, com Anthony Quinn como Kiril, esse foi o aspecto melhor desenvolvido e mais convincente, decerto por causa do trabalho dos atores (Vittorio de Sica como Rinaldi, Leo McKern como Leone, e Oskar Werner como Télémond).

Assim como no filme, a parte mais frágil do livro, aquela que justificaria a fama de best seller, é a do correspondente norte-americano para assuntos do Vaticano, George Faber, envolvido com a esposa de Calitri, deputado católico, na verdade um gay que não sai do armário (apesar de alguns escândalos abafados). Há um processo na cúria vaticana para a anulação do casamento, e Faber corre o risco de cair em desgraça, perdendo sua credibilidade profissional, ao tentar atingir o oponente, que pouco a pouco ascende como força na política italiana. A figura feminina principal é a médica Ruth Lewin, que conhece pessoalmente o papa quando ele sai incógnito pelos bairros miseráveis de Roma, apaixonada por Faber. Ainda assim, esse melodrama não chega a comprometer o resultado, mesmo porque West é um sábio ficcionista que dá razão (e voz) a todos os seus personagens. Ninguém tem a palavra final. E não há um episódio crucial de As Sandálias do Pescador que, mesmo com a liquidação do comunismo e com a passagem do tempo, não pudesse ser encenado em nossos dias.

A certa altura, lemos: “… creio que temos estado na defensiva, em todos os lugares onde batemos em retirada, guardando a fé só para nós como se receássemos que ela se pudesse contaminar pelo contato com o mundo, e nisso falhamos; onde, pelo contrário, erguemos a fé como um estandarte, onde temos afirmado mais incisivamente que o Evangelho está relacionado com todos os atos humanos e com todas as situações, temos sempre obtido maior sucesso (…) Creio que o mundo se está educando mais depressa do que a Igreja… Nos últimos 20 anos, a humanidade foi projetada numa nova e terrível dimensão da existência (…) Tempora mutantur… Os tempos mudam e os homens mudam com eles. Se a nossa missão tem algum significado, esse significado deveria que qualquer ampliação do pensamento humano é, também, uma ampliação da capacidade do homem para conhecer, amar e servir a Deus…”[4]

A igreja católica procurando manter sua presença num mundo desestabilizado e em crise, para além das intrigas e esquemas financeiros da sede geográfica encravada numa desgastada Europa, tentando ainda fazer sentido para as pessoas, como força espiritual e temporal. Nada mais atual.

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[1] Na edição do Círculo do Livro, revista por Fernando Nuno Rodrigues.

[2] “Havia, por consequência, uma argumentação, bastante razoável, em defesa de uma nova sucessão, não-italiana, ao trono papal, assim como havia razão, também justificável, para crer que um papa não-italiano poderia tornar-se um fantoche dos seus ministros ou joguete dos seus talentos de intriguistas. A perpetuidade da Igreja foi um artigo de fé; mas os seus rebaixamentos e corrupções, as suas dilapidações, pelas loucuras dos seus dignatários, já constituem uma parte canônica da história. Havia, pois, razões de sobra para certa atitude de cinismo”.

[3] E mais adiante, desejará “percorrer o mundo”:

“A ideia de um papa peripatético tornara-se, com a passagem dos anos, muito estranha à igreja. Havia quem a concebesse como uma sucessão de perigos… para a dignidade, pois um homem que fazia as malas e viajava pelo mundo poderia parecer demasiado humano; para a autoridade, visto que teria de falar ex tempore sobre muitos assuntos, sem prévios estudos e pareceres; para a ordem e a disciplina, já que a corte do Vaticano precisava de firmeza de mão para manter a estabilidade, visto que as viagens aéreas representavam um perigo constante, e perder um pontífice e eleger outro era um negócio muito caro. Além do mais, o mundo estava cheio de fanáticos, que podiam afrontar a augusta personagem do vigário de Cristo e até ameaçar-lhe a vida.”

Mas é uma saída para o impasse da “autoridade engessada” de que se dá conta Kiril:

“Não dava um passo que não pisasse, com a ponta do pé, a história, o ritual, o protocolo e a monótona metodologia da burocracia do Vaticano. Para onde quer que se voltasse, encontrava sempre a seu lado um funcionário que dirigia a atenção de Sua Santidade para isto ou para aquilo: um cargo a ser preenchido, uma cortesia a fazer, ou um talento a apadrinhar.

    Era grandioso o cenário. A direção de cena era mais que eficiente, mas Kiril levou uma semana para descobrir o nome da peça. Tratava-se de uma velha comédia romana, outrora popular, mas agora caída em ridículo, com o título: O Governo dos Príncipes. O tema era simples: como dar a um homem o poder absoluto e, depois, limitar-lhe o uso dele. A técnica era fazê-lo sentir-se tão importante e ocupá-lo com tantos pormenores pomposos que não lhe sobrasse temo para pensar numa orientação política, nem para pô-la em execução.”

[4] Em outro trecho: “Cada acordo econômico trazia vantagens para os que o assinavam e uma dose de injustiça para os que dele ficavam excluídos. As nações do Oriente e da África explodiam em novos conceitos de grandeza, mas, apesar disso, os homens tomavam partido em assuntos de cor ou raça, como se estivessem investidos de um direito divino de eleição para um paraíso na Terra. Cada nova vitória sobre a doença correspondia a um esvaimento dos decrescentes recursos do planeta. Todo progresso na ciência era mais um remendo do manto em que o homem se abriga contra o vento frio da dissolução.

    Todavia… todavia, esta é a natureza humana. O seu método histórico de progresso é um arame suspenso, por onde se caminha para um futuro tenuemente percebido, mas profundamente sentido. A Igreja está no mundo, embora não seja o mundo (…) Assim, Kiril, o Pontífice, colhido como todos os seus irmãos no dilema humano, sentou-se à sua escrivaninha e seguiu, nas palavras formais do relatório do seu secretário de Estado, as nuvens de uma tormenta em formação: ´O fulcro da atual situação é a China (…) Na América, verificou-se um certo alívio na recessão econômica, mas devido em larga escala ao incremento dos programas de armamento militar´…”

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21/03/2012

MAR MORTO

(resenha publicada em primeiro de agosto de 2000, em A TRIBUNA de Santos)

O velho e o mar (The old man and the sea) está de novo nas livrarias. A Bertrand comprou os direitos dos livros de Ernest Hemingwaye abrasileirou um pouco mais a tradução de Fernando de Castro Ferro que há anos circula por aqui. Ela já fora revista em edições anteriores (por José Baptista da Luz),mas desta vez procedeu-se a um sutil trabalho de pequenas e decisivas mudanças, de forma a tirar o ranço excessivamente formal e lusitano, que pouco tinha a ver com o famoso estilo Hemingway. Quem ler a nova edição terá a sensação de estar diante de um novo texto em português, mais ágil e moderno, apesar de terem permanecido ainda algumas soluções forçadas e infelizes.

A história é aquela já bem conhecida: Santiago é o velho pescador cubano que se tornou azarado, não conseguindo apanhar um peixe há 84 dias e que sobrevive graças à devoção de Manolin, guri que a princípio o ajudava na pesca e que foi obrigado a trabalhar em outro barco, por ordem paterna.

No 85º dia, Santiago afasta-se muito da costas e acaba pescando um peixe enorme (cinco metros e meio), maior até que seu barco. O peixe demora para morrer, arrastando-o, e ele se afasta mais e mais no alto mar. Quando consegue matá-lo, é obrigado a rebocá-lo, pois ele não cabe na embarcação. Na longa volta, os tubarões começam a devorar o peixe e, ao atracar, só resta a carcaça…

Muito antes disso, porém, é antecipada a moral da história: “Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”. Apesar de saber vã a luta com os tubarões, Santiago não deixa de lutar, segundo a sua filosofia:

Vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer e o que é capaz de agüentar… As milhares de vezes que já o demonstrara não significavam nada. Agora ia prová-lo de novo. Cada vez era uma nova vez e, quando o estava fazendo, o velho nunca pensava no passado”.

Hemingway chega ao mau gosto, quase ao kitsch (que, aliás, ameaça o livro inteiro, se é que não o afoga), de associar a figura de Santiago à figura de Cristo, fazendo a caminhada do velho à sua cabana, carregando seu mastro, lembrar as estações da via crucis:

Recomeçou a andar e, no topo da rampa, caiu no chão e ficou deitado durante alguns momentos com o mastro ainda nos ombros. Tentou levantar-se. Mas era esforço excessivo e ficou sentado com o mastro nos ombros… finalmente pôs o mastro no chão e levantou-se. Tornou a pegar no mastro, pô-lo aos ombros, e começou de novo a caminhar. Teve de sentar-se cinco vezes antes de de chegar à cabana”.

Toda essa crucificação simbólica fica ainda mais incômoda se lermos O VELHO E O MAR numa chave mais biográfica, como um registro cifrado da carreira literária de Hemingway. Quem achar que tal aproximação biografia-obras é um exagero, basta atentar para a reiteradíssima referência aos sonhos de Santiago com os leões (a última frase do texto é: “O velho sonhava com leões”). Quando nos damos conta de como o nome e a lenda de Hemingway são ligados às caçadas, aos safáris na África, fica mais fácil decodificar essa presença onírica na vida de um pescador cubano que, fora isso, permaneceria um tanto deslocada.

Quando publicou O VELHO E O MAR em 1952, Hemingway era um escritor praticamente acabado, que vivia de glórias passadas. O seu azar literário durou bem mais do que os 84 dias do velho Santiago. Seu último sucesso fora o romance Por quem os sinos dobram, em 1940, e é muito difícil afirmar que seja um grande livro, principalmente comparado à sua obra-prima, Adeus às armas (1929). Em 1950, lançara um romance ridículo e constrangedor, Do outro lado do rio, entre as árvores. Portanto, Hemingway literalmente vivia de fama.

Conheço todos os truques”. Esta afirmação do velho Santiago pode muito bem definir a empreitada que é o texto. Um velho escritor que já foi um mestre (Hemingway é um dos mais influentes autores do século XX, isso ninguém pode negar), e que tem um estilo e uma temática inconfundíveis. Um personagem numa situação-limite, enfrentando obstáculos primevos e insuperáveis, vencendo espiritualmente, fazendo prevalecer a dignidade humana. Alguém pode imaginar um quadro mais irresistível? Qual a impressão que se podia ter? Não só o personagem triunfa, apesar de tudo, como também o velho escritor, Santiago Cristo Hemingway, apesar dos tubarões vorazes da crítica tentarem acabar com o peixão que ele pescou no mar (já meio raso) da sua criatividade combalida; e apesar de só restar, no fundo, a carcaça de uma grande obra artística, ele pelo menos teria a dignidade e o heroísmo da luta inglória.

Pois não é que essa estratégia piegas funcionou? Para muitos, Hemingway ressuscitou como escritor, e ele chegou a ganhar o Nobel em 1954 (em boa parte por causa de O VELHO E O MAR). Só que o passar foi evidenciando a lengalenga aborrecida que é a história do velho Santiago (que não difere muito da de um Rocky, um lutador, por exemplo). Mais que isso, foi evidenciando cruelmente como o texto, apesar de bem escrito, sem dúvida, não passa de uma pálida sombra da força com que o autor de Ter e não ter escrevia antes. Ele conhecia todos os truques, é certo, mas o leitor atento percebe logo que não passam disso, de truques, que a austera emoção, ou a comovente simplicidade, da narrativa não passam de pura apelação.

A prova de que O VELHO E O MAR não era uma ressurreição literária (apesar de todas as analogias narcisistas com a história de Cristo) e sim um último lampejo de esperança antes da agonia final está no fato de que Hemingway praticamente não publicou mais nada em vida que tivesse alguma repercussão: anos mais tarde, segundo o lamentável costume de remexer nas gavetas de escritores já mortos, publicaram uma maçaroca intragável chamada As ilhas da corrente, um projeto do qual, ao que consta, a remelenta história do velho Santiago fazia parte. Sob essa nova luz, O VELHO E O MAR ficou ainda mais com ar de carcaça, de algo que foi resgatado de um desastre geral, do mar morto.

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