MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/02/2014

Destaque do Blog: FAUSTO MEFISTO ROMANCE, de Judith Grossmann

grossmann mefisto

“A revelação: tudo saber sem que lhe digam nada, e mais, ignorando mesmo o que seja este saber. Apenas saber, saber, saber. Saber por nascimento, e mesmo sem ousar dar nome a este saber, ainda saber…”

   (de Fausto Mefisto Romance)

“…se um deus lhe deu

Do momento essa graça tão presente,

Quem acaso ao amável lado seu

Um eleito da sorte não se sente?

Mas eu, mandado embora, o que faria,

Já sem você, de tal sabedoria?”  (Goethe)

Para quem já percorreu parte significativa da via fáustica que atravessa a literatura desde o século XVI (Marlowe, Goethe[1], Mann, Pessoa, Valéry, Vieira) torna-se quase imperativa a leitura de FAUSTO MEFISTO ROMANCE[2], de Judith Grossmann: em primeiro lugar, porque se trata de uma mulher assumindo um dos “mitos do individualismo moderno” (na formulação de Ian Watt)[3]; em segundo, porque se trata de um livro aparecido (a edição pela Record é de 1999[4]) nas proximidades da virada do do milênio, o que lhe confere um sabor fin de siècle; em terceiro, porque a forte lembrança da leitura de um romance anterior,  Cantos delituosos (1985), mesmo depois da passagem de muitos anos, predispõe favoravelmente com relação aos recursos da autora para enfrentar a estatura do personagem-mito.

O romance é composto de cinco partes. Na primeira, temos o relato do Dr. Fausto de Oliveira Homem (“Este o meu nome, e agora o sabeis. O Homem foi um acréscimo do meu Bisavô para diferençá-lo dos demais Oliveira”) enquanto aguarda o nascimento dos filhos gêmeos, Joris e Loris. Misto do Fausto da lenda e da tradição literária com Roberto Freire (o autor de Cléo e Daniel e Coiote),mantém uma Clínica nas serras fluminenses onde trata de menores colapsados. Sua mulher, Leda Maria, foi uma paciente[5]. A noite de núpcias é narrada num tom no qual a (inegável) qualidade literária da maior parte do texto se esborracha em escorregões feios, quase trambolhões, tais como os que vitimariam anos mais tarde  Ivone C. Benedetti e seu Immaculada[6]:

“Dizer o que foi possuir esta mulher que me estava destinada, como um talismã ou um amuleto, ultrapassaria a linguagem humana. Nem por isso poria aqui covardes reticências. Tirou-me ela a gravata. Tirei-lhe eu o vestido. Não houve pressa. E por toda a eternidade a desvestiria de todos os seus corpetes. E acredito que ela o mesmo me fizesse. Sua nudez resplandecia em nácar. Pus-me de joelhos, pois entendi que era preciso ajoelhar-me. Ela se deixou adorar. Depois ergueu-se e comigo fez o mesmo. Cada ponto foi tocado, seus seios de pequenas pombas, seu ventre tão liso quanto um mármore grego, suas coxas em colunata. Um gozo intenso e prolongado abalou a terra. Chorei. Não acredito que houvesse amado antes…”[7]!!!???

Bem, irregularidades à parte, nessa etapa inicial já temos uma série de motes: a Serra como refúgio edênico contra as vicissitudes da História, o pressentimento de seres “prontos” em contraste (às vezes, em confronto) com outros ainda em formação, inacabados ou danificados, a concepção de um Feminino essencial para completar o Masculino, mesmo com toda a potência fáustica, mesmo assim estéril e egocentrado (aliás, Fausto não pretende ficar com os filhos, assim que nasçam intenta entregá-los aos sogros).

Os planos de Fausto de ficar apenas com a companhia da esposa (“Nossos filhos podem ser gêmeos, mas era contigo que eu era geminado”) são logrados, pois ela morre no parto (“na orfandade de tua morte, sou também órfão, metade de um homem”).

O trabalho na clínica é que o salvará relativamente dos efeitos da morte de Leda Maria. Enquanto isso, o leitor aguarda Mefisto, a rememoração do pacto, todas as virtuais implicações do uso da figura de Fausto.

Na segunda parte, através da curiosidade do Dr. Fausto pelos cadernos que ela escrevia, conheceremos a palavra da falecida Leda[8].  Nesse passo se insinua a questão do ágon entre gêmeos, um deles tendo de prevalecer (a irmã dela morre precocemente e se torna uma “sombra), assim como se intensifica a percepção da prontidão de certos seres raros, a qual não admite as etapas habituais da vida (“não me sentia em condições de enfrentar nenhuma espera. Esperar para mim, em minha ânsia, sempre foi o pior”)[9], a predestinação dos casais[10], como complementaridade da esferas do masculino (insuficiente) e do feminino (inclusivo): “E Fausto quase não fala, são hábitos, costumes, de um total mergulho em si mesmo, seus propósitos, seus desígnios, de fidelidade àquilo em que acredita, de inabalável constância…”

O ponto alto é a narração do casamento com Fausto, já a partir do percurso da charrete nupcial, nessa peculiar ambiência bucólica em que transcorre boa parte do relato, malgrado a alternância de vozes: “Como seria possível que aquele momento se desfizesse, transformando-se em outro? Eu não queria. As folhas das árvores se agitavam brandamente e o azul do céu fazia com que, sentada, eu flutuasse. A cada movimento da charrete, a cada passada do cavalo, o caminho diminuía, e eu, como alguém dono de um enorme tesouro, via diminuir minha fortuna. Ah, que o mundo parasse em sua órbita para que eu vivesse para sempre ali, assim, ataviada, as flores, a charrete, o cocheiro, o cavalo, a brisa leva, o céu, as folhas das árvores, quando viver havia se tornado por inteiro no puro paraíso de respirar…”

  Quase no altar, ela é tomada (quase que se poderia dizer: possuída) por um anjo, depois por um cisne (claro, em se tratando de Leda, não é?), e enfim por um vulto embuçado e sinistro, antes de ser entregue ao marido. E a partir daí o que ela espera mais ardentemente é a maternidade, ser a “mãe do mundo”.

Na terceira parte, as sessões particulares do Dr. Fausto com alguns pacientes externos à Clínica de jovens é pretexto para o longo relato do Barão, um francês que se aclimatou ao Brasil, fugindo da Segunda Guerra, ainda assim um “estrangeiro”: “Está sempre viajando de volta para a França, ou de fato, ou virtualmente. E não abandona jamais o projeto de ficar num só lugar, mas este lugar só, para ele, é tanto o Continente de origem, segundo diz, e a Serra. E nesta movimentação de pêndulo, a enxaqueca…”

Com o Barão, continua o mote do lugar edênico, como também dos exílios impostos pelas peripécias seculares, pelos percalços causados pelas guerras. Através do seu relato travaremos contato com duas delas (as mundiais) e três gerações da sua família. E também com um romancista do Boulevard Haussmann destinado a ser o maior escritor da sua época, e que tem substancial, ainda que simbólica, participação na vida de seus avós e nas crônicas familiares (que também são a crônica de leitores e escritores “falhados”, que não chegaram prontos ao mundo para a tarefa—será a descendente brasileira que poderá corrigir essa “falta”: Jurema, a filha[11]). Trata-se, claro, de Proust (não li o romance anterior de Judith Grossmann, Meu amigo Marcel Proust, mas é curioso que Proust entre na fatura de seu romance faustiano tanto quanto entrou na do Doutor Fausto, de António Vieira[12]) e seu empreendimento fáustico e tão “masculino”: vencer o tempo com sua obra (“um total mergulho em si mesmo, seus propósitos, seus desígnios, de fidelidade àquilo em que acredita, de inabalável constância…”).

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Devo confessar que considero essa terceira parte, no coração do livro (com duas partes que lhe antecedem e duas que lhe sucedem), a mais cheia de vitalidade e interesse, o que ainda assim é um índice de desequilíbrio do todo, que pode ser muito interessante (é muito interessante, de fato), nem por isso deixa de ser bem desarmônico. Também enfatiza a estranha e desconfortável “fidalguia” (num sentido bem elitista) desses refugiados e nativos da Serra com relação à realidade brasileira.

Leiamos um trecho:

“Aqui dois narradores começam a disputar os ouvidos de minha avó, meu pai querendo em tudo superar o talento do meu avô, inclusive na enxaqueca que, como o título de família, não deixou de herdar, para me transmitir. A vida do meu pai foi se confrontar com esta multidão de patchwork que onde ele nasceu se instalara após a guerra, e mesmo esta palavra patchwork já era uma vitória temporária do inglês sobre o francês, uma liberação de fronteiras a ser para sempre questionada, a ser contida até por decretos, nem que fosse umas seis décadas depois, como se viu, somente porque houve uma guerra, somente?, somente porque houve os aliados, que nem por isso deixaram de continuar os des-aliados, ora, há muito mais sangue alemão por cá, quero dizer por lá, passo a misturar o aqui e o lá, do que qualquer outro, e os meus possuíam a sua gota (…) e o seu tempo foi ver de perto ou de longe todo o fermento artístico que começou a borbulhar como champagne, efervescente, à sua volta, havendo aprendido o seu inglês em plena circulação pelos boulevards, e a misturá-lo por seu alvedrio ao francês, babelizando como a guerra babelizara, como aquele lá da Ilha, e também por cá, babelizara, para que tivéssemos uma língua de primeiro dia, nova, inteiramente nova, todas as línguas, cada uma das línguas, internacional, como uma língua morta que por babelização se fez viva para que a entreguemos ao terceiro milênio, apta, com o seu novo expansionismo de qualidade, não de quantidade, a expressar tudo, o novo ovo de tudo, e assim foi o tempo dele, a vinda para o Brasil…”

Ao seu interlocutor, ele reitera sua velha questão: “nem europeu nem americano, afinal quem sou eu?”

Gosto muito também da quarta parte, apesar de algumas reservas: o relato é assumido pelo sogro de Fausto, pai de Leda Maria, e que sofre por ter de entregar—conforme combinado de antemão com o médico—os gêmeos Joris e Loris para serem criados no espaço da Clínica (desconhecendo que o Doutor é seu pai). Por causa desse rito de passagem, ele e a esposa, Blenda (com quem tem uma relação plena e complementar: “Ela sonha, eu realizo, é justa, e bela, esta divisão de trabalho”), tomam a decisão de viajar pelo mundo, desenraizando-se da Serra, numa experiência antípoda à da família do Barão[13].

O relato é uma chance de conhecer obliquamente as diferenças entre Joris e Loris, ainda crianças: o primeiro mais puxado à mãe, outro ser “pronto” e com pressa de viver, enquanto seu gêmeo é mais retardatário e reativo (“Loris tem suas qualidades, mas é menos desenvolvido, embora não seja mofino. E é mais calado, ainda que não seja inexpressivo. Seus olhos brilham menos, movimentam-se menos. Sai perdendo na comparação, e toda comparação é injusta, em sua inevitabilidade”). Os irmãos são eles mesmos e um compêndio da relação amor-ódio de irmãos desde as origens: “…os dois trabalham juntos, trocando a espaços socos apenas gestuais, como costumam os meninos e irmãos, iniciando atávicas guerras, trazendo de volta a encenação de protopaisagens, de olimpos, de olimpíadas, helênicas tragédias, medievos, prélios, danças marciais, pugilatos, evoluções, ludismos, quadras esportivas, no prenúncio de futuras verdades?”

   E na quinta e última parte, o introvertido Loris relata justamente essa desenfreada dança fraterna de amor e ódio (coreografada em torno do pai, agora que estão no ambiente da Clínica). Pois Fausto Mefisto Romance seria melhor caracterizado, pela evolução dos acontecimentos, como “Os filhos de Fausto”, já que ele mersmo fica absolutamente como coadjuvante desse drama opressivo em que é preciso triunfar sobre o Outro, que serve de espelho e avesso ao mesmo tempo.

Na logística parental, Loris ficará cada vez mais atraído pela figura paterna (querendo seguir seus passos e ao mesmo tempo superá-lo) enquanto Joris se distanciará mais e mais (e sua rebeldia fará dele um ídolo para a garotada que está ali como paciente)[14].

Fiquei incrédulo quando li a resolução, no plano dramático, do conflito pai-as duas naturezas dos filhos. Pois Judith Grossmann despacha-o com dois parágrafos, matando Fausto e Joris:

“… desta vez, ao chegar ao final do corredor, o Doutor, como tomado por um súbito impulso, retornou e pôs-se diante de Joris, quando ele então se virou para a frente, como se fosse se atirar ao chão, ou nos braços do Doutor, isso nunca se poderá saber. O Doutor, tentando ampará-lo, se desequilibrou e deu com a cabeça na parte inferior do móvel, abrindo-se-lhe um enorme sulco no crânio. Joris tomou ao solo e do imenso espelho que se partiu uma fina lasca se lhe enterrou no peito.

    Eles não existiam mais…”

   Então, como creio ter dado razoável noção, acompanhando os fios mais visíveis do relato, Fausto Mefisto Romance levanta questões do mais alto coturno e, na maioria das vezes, apesar de alguns bruxuleios, numa linguagem que não faz feio em comparação à linhagem de autores (homens) que precederam Judith Grossmann nessas sendas. Entretanto, seria preciso que algum outro leitor mais atento e perceptivo se manifestasse, ajudando-me a encontrar as conexões devidas entre as partes, se é que as há, pois apesar dos motes em comum, não as configuro com muita clareza. Ficam da leitura nebulosas de teor e peso  bem distintos.

A minha queixa principal com relação a Fausto Mefisto Romance, não obstante, está na figura de Fausto. Citei, em nota de rodapé, um trecho onde lemos: “considerando o homem que este homem é”. Embora evidentemente o ingrediente do Eterno Feminino mine nitidamente a preponderância faustiana na tessitura do romance, o que este homem é, exatamente? Consideremos: muito pouco. A esposa de Fausto, o sogro de Fausto, os filhos de Fausto, o paciente de Fausto, tudo se abre para perspectivas interessantes e prenhes de novas significâncias. Ele mesmo, e Mefisto menos ainda (seria ele o vulto embuçado?), faz muito pouco para que atrelemos a seus nomes o Romance. Todas as contas feitas, nosso amigo Marcel Proust avulta muito mais: “E, no meu caso, diferentemente dos demais, e sobretudo daquele renomado romancista com o qual escolho duelar, como duelou Dante com Virgilio, ou esgrimir, com o meu florete envenenado, recebido de Hamlet, é a lembrança que traz de volta o perfume, e não algum apelo extrínseco do perfume que traz a lembrança.”

(escrito especialmente para o blog, em fevereiro de 2014)

meu amigo marcel proust romance


[1] E a versão de Nerval para o Fausto de Goethe.

[2] É assim mesmo, o termo Romance está incorporado ao título.

[3] Os outros são Dom Quixote, Don Juan e Robinson Crusoé. No livro de Grossmann, há também uma forte presença de Hamlet, que também seria um mito do individualismo moderno (mas que na acepção de Watt não teve penetração no imaginário popular, independentemente da obra a que pertence, suficiente para ser incluído).

[4] Judith Grossmann nasceu em 1931, portanto estava lá pelos 68 anos à época do lançamento.

[5] E acredito de que até mais do que o personagem Fausto, o personagem de Grossmann nos remete ao velho Goethe e seu encanto por mocinhas, o que não deixa de pertencer à esfera do imaginário faustiano, mesmo com as reservas morais que possamos manter ao longo da leitura.

Sobre Goethe e suas paixões da velhice:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/17/destaque-do-blog-um-homem-apaixonado-de-martin-walser/

[7] Outro trecho dessas primeiras páginas que quase me fez desistir da leitura

“Viver mil anos para povoar a terra! Que presente! Que presente? Presente. Hoje. Roma? Romã, pode ser. Ou amor.” !!!!!!????

[8] Antes, temos uma passagem que justifica o Romance atrelado ao título, mas também um temerário cacoete de Judith Grossmann, o vezo da metalinguagem. Fausto nos diz: “Se não fora apenas esta vaga e incansável pena que atrás de mim me escreve e me usurpa, meus dizeres, quando os  meus pensamentos se fazem em sua escrita, eu bem a vejo, a sombra desta mão na parede, empunhando a pena, a pena de uma ave, um cisne, sem dúvida, os dois que tenho aqui no lago, o delicado equilíbrio intra-atômico desta pena, à borda da mesa, e nunca cairá a opressão escrevente, roubando-me, como deus me roubou.” Mais adiante, veremos vários personagens discorrendo sobre o escrever, a maioria das vezes tediosamente.

[9] “Tudo em mim cresceu muito cedo, e rápido, e força eu tinha, e muita. Força para falar e força para ficar calada. Alguém neste mundo sabe de fato o que é uma menina? Exceto os que sabem, ou souberam…” 

[10] “Quem escolheu quem nesta prodigiosa façanha, considerando o homem que este homem é e a mulher que sou? Escolhemo-nos, por assim dizer, por seleção da natureza.”

[11] “Porque com o ler, com o escrever, que talvez sejam a mesma coisa, já se nasce, e minha filha nasceu.”

Em outra das relações um tanto quanto pedófilas do livro, Jurema é filha do Barão com uma órfã que ele adota na sua casa, trazida por umas freiras: “Do lado paterno, nossa filha provém de uma árvore visível, e do lado materno, ela provém daquela árvore no meio do paraíso, provém do feminino radical, da maternalização de Frieda Rosalie Inajá [nome da órfã que desposou] pelas freiras…”

[12] Que afirmou: A minha influência central, mais que Musil ou Broch, que todavia li com deleite, é Proust. Peguei na Recherche aos 25 anos, e li-a obstinadamente durante meses”.

[13] Sobre Fausto e sua família: “Vá-se entender um indivíduo assim, várias gerações dele são daqui, mas ele continua tão misterioso, indecifrável, como um estrangeiro que aqui houvesse chegado de improviso…”  Fausto é o indivíduo tão indivíduo, tão diferenciado, que parece não ter raízes.

[14] Também há uma surda batalha entre formas de expressão: uma, já formada, se fazendo incessantemente, com pressa, a de Joris (que é pintor); outra, guardada para o futuro, adiada, em formação, a de Loris (que pretende escrever).

dali

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