MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/04/2012

LINHAS TORTAS E TRÔPEGAS (O MAISTRE DE MACHADO)

“… raramente percorro uma linha reta…”  Ao escrever Viagens no scriptorium (Companhia das Letras, ver o post A austeridado do acaso aqui neste blog), Paul Auster, especialista em literatura francesa, não poderia obliterar a lembrança do clássico  Viagem ao redor do meu quarto (1794), o texto paradigmático na paradoxal junção da aventura e do sedentarismo. Tirando esse aspecto, evidenciado pelo título, Auster parece bem distante do universo de Xavier de Maistre, cujo livro — na tradução de Armindo Trevisan — tem  edição ainda em catálogo pela Mercado Aberto (há uma insuperável versão de Marques Rebelo, saborosamente intitulada Viagem à roda do meu quarto).

Viagem ao redor do meu quarto tem como pretexto o confinamento do narrador,  em Turim, por conta de um duelo, durante 42 dias (o número de capítulos): “Proibiram-me de percorrer uma cidade, um ponto; mas deixaram-me o universo inteiro: a imensidade e a eternidade estão às minhas ordens”. Essa reclusão acarretada por um episódio passional reflete uma situação existencial mais precária: de origem nobre, ele é um trânsfuga da Revolução Francesa. Restaram-lhe os prazeres de um egotismo caprichoso e errático, que muito influenciará o defunto narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Aliás, se Xavier de Maistre imitou o maravilhoso Tristram Shandy, de Laurence Sterne, Machado de Assis o imitaria em indisfarçáveis aspectos: a conversa constante com o leitor, os capítulos curtíssimos, a metalinguagem, as digressões, o uso satírico de teorias filosóficas (depois de anunciar um “sistema do mundo”, ele o apresenta num capítulo de três linhas, dizendo no que se segue: “…devo confessar de boa fé que não compreendo o meu sistema melhor do que todos os outros nascidos até hoje da imaginação dos filósofos, antigos e modernos; mas o meu tem a vantagem preciosa de estar contido em três linhas, por enorme que seja”) a galhofa alternando com a melancolia, a desfaçatez de classe para o julgamento das coisas do mundo (só alguém muito privilegiado poderia escrever: “E haverá, com efeito, algum ente tão infeliz, tão abandonado, que não tenha um reduto para onde possa retirar-se e esconder-se de todo mundo?”); ou seja, nesse clima de volubilidade e misantropia (misturada ao mundanismo: “não quero ser eremita senão de manhã; á noite, gosto de tornar a ver caras humanas. Os inconvenientes da vida social e os da solidão destroem-se assim mutuamente…”), pouco restou do tom essencialmente benigno e equânime, ainda que jocoso, da obra-prima de Sterne, possivelmente a maior narrativa do século XVIII. O texto é mais enxuto, menos prolixo, porém estamos num universo  rarefeito, seco e árido,  já a um passo da “volúpia do nada” pós-schopenhauriana experimentada pelo “herói” machadiano, e a léguas do talento abissal do nosso maior escritor.

Por isso, apesar do charme do texto, há uma reserva que persiste na leitura de Viagem ao redor do meu quarto (e da sua continuação, publicada em 1824, em pleno Romantismo, Expedição noturna ao redor do meu quarto).

O que não se pode negar é que de Maistre conseguiu o feito de alargar as fronteiras da literatura, trazendo o mundo da intimidade pessoal e a falta de intriga folhetinesca para o centro da narrativa, na exploração do seu quarto por 42 dias e no decorrer de uma noite (a “nova maneira de viajar que introduzo no mundo”). E há sempre as observações, se não exatamente sábias, certamente lapidares: “Não gosto das pessoas que são tão donas dos seus passos e das suas idéias, que dizem: ‘Hoje eu farei três visitas, escreverei quatro cartas, terminarei esta obra que comecei’. Minha alma é de tal modo aberta a toda sorte de idéias, de gostos e de sentimentos; recebe tão avidamente tudo o que se lhe apresenta!… Não há  gozo mais atraente, no meu entender, do que o de seguir a pista das próprias idéias…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 24 de março de 2007, de forma ligeiramente modificada)

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