MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/07/2015

«Mas não me exijam a lucidez constante, a sabedoria assertiva, a impossibilidade do erro»: a segunda vida de Mário Bortolotto

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de julho de 2015)

«Simples assim. As pessoas vão indo embora.  Eu fico. Eu sempre fico. Acordo com aquela sensação de um fantasma piscando cúmplice sentado no canto do quarto. E por enquanto ainda há outro dia. E outro». A sensação que se tem, ao ler os textos confessionais de Esse tal de amor e outros sentimentos cruéis (editora Reformatório), é a de um mapeamento (ou balanço) dos afetos de um homem que, ao tornar-se um cinquentão “derrotado”, ironicamente ganhou a oportunidade de uma “segunda vida”.

Pois Mário Bortolotto, figura bastante conhecida no meio teatral, foi vítima de um incidente trágico-folclórico (utilizo tal expressão devido à sua ligação com a boemia e ao seu “personagem”: «até me considero um pouquinho especial por conta dessa minha natureza avessa»): em 2009, tomou três tiros ao reagir à agressão de assaltantes, num bar da praça Roosevelt («Em vez dos caras me agredirem, deviam ter me dado logo mais uma dose de Jack. Eu teria capotado na mesa e nada disso teria acontecido»).

Para dizer a verdade, mesmo pertencendo à mesma geração, tudo me distanciaria desse londrinense radicado em São Paulo, já a partir do gosto literário. Nunca tive admiração pelos beatniks, por Jack Kerouac ou por Charles Bukowski, antes o contrário. Tampouco sou fã do som de Tom Waits ou Emmy Rossum, por exemplo. E, não dá para negar, as referências — antigas ou recentes — têm um peso inequívoco num universo como o de Bortolotto[1]. O leitor de Esse tal de amor também nunca consegue se convencer do encanto (para não dizer, integridade e autenticidade) de bebuns over que ficam alugativos, sempre relembrando eventos passados, quando não agressivos e grosseiros. Há toda uma evocação complacente («O que eu percebo é que existe uma solidariedade estranha no meio dos loucos») de tipos assim, inclusive um guardador de carros chamado Flávio: «Ele provocava. Ele importunava. Ele excedia. Ele passava da conta».

A continuação da última citação, «Mas qual é mesmo a medida? Alguém sabe? », sinaliza de certa forma o caminho para que meu leitor entenda o curioso poder que essas crônicas tiveram sobre mim, mesmo com todas as ressalvas: nem sei dizer se são “bem escritas” (um infame “houveram” na pág.141 deve ter escapado à atenção geral), contudo elas sustentam um diapasão de ternura (às vezes resvalando para o sentimentalismo) pelos seres e pela realidade cotidiana— com toda sua feiura, desencanto e prosaísmo («Gosto muito de tomar café da manhã. Eu não acordo pra tomar café da manhã. Eu tomo café da manhã pra ir dormir. É diferente») —, um lirismo crispado e renitente, de tal modo que não dá para ficar indiferente à visão de mundo desse redivivo de tiros, noitadas, bebedeiras rituais e confraternizatórias (apesar da melancolia e da solidão essenciais e inexoráveis[2]), fazendo a apologia da lealdade e da amizade («…o amor é um ônibus lotado e quebrado numa segunda-feira de sol no meio da estrada. Já a amizade é como uma ambulância que simplesmente liga a sirene e os carros abrem caminho pra que ela passe»), mesmo que, olhando para trás, para a sua primeira vida, por assim dizer, a paisagem seja de «destruição, casas arrombadas e árvores caídas na estrada».

Aos 50 anos, considerando um insulto o termo feliz («ninguém é feliz aos 20 anos, mas você ainda pode acreditar—ninguém é feliz aos 50 e não falemos mais sobre isso»), por paradoxal que seja, com os sentimentos cruéis (porque sempre presentes e cheio de arestas) destilados em Esse tal de amor, Mário Bortolotto apresenta aos leitores um dos lançamentos mais  prazerosos de 2015, dando carne e espessura às palavras de outra outsider que amava os avessos e as desmesuras:  «A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender» (Hilda Hilst). Ou então em bom bortolottiano, «É que na verdade eu sou o tipo de cara que nunca pensou em atravessar a rua. E tenho certeza de que vai ser sempre assim. Aos do outro lado, apenas aceno sem muito entusiasmo… ».

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TRECHO SELECIONADO

«Mas pra variar, eu divergi do tema que havia decidido escrever. Eu tava falando de livros e comecei a falar de inclusão (minha cabeça funciona assim). É que eu dizia que não suporto competição. Na Copa do Mundo eu gosto de assistir aos jogos, mas não sou do tipo que fica torcendo […] Porra, agora tô falando de futebol, sacaram? Deixa pra lá, eu queria mesmo falar de livros e sobre a minha dificuldade em eleger o melhor livro da minha vida, por não gostar dessa expressão: “melhor”[….] Talvez tenha a ver com tudo o que escrevi sobre o lance de ser um garoto solitário na infância e de carregar esse sentimento comigo ainda hoje, do processo de inclusão, etc. Uma coisa sempre tem a ver com a outra, por mais que a gente tente evitar. Eu já nem tento mais». 

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NOTAS

[1] Como tudo é relativo, outras referências nos aproximam, e muito, por exemplo:

«Tava conversando com um amigo que me perguntava ironicamente como é que eu consegui ser tão “looser” assim. Expliquei pra ele que aos 16 anos li “O apanhador no campo de centeio” do Salinger e “O lobo da estepe” do Hermann Hesse. Quem lê esses livros nessa idade e se deixa socar por eles, está fadado a ter uma vida errada e sem possibilidade de negociação. Terminei dizendo pra ele que todos os dias agradeço a Deus por ter lido esses livros nessa idade».

   E, sim, também acho que «não há quase nada mais sexy do que a Linda Fiorentino  em qualquer filme que ela tenha feito».

[2] Mas com algumas anedotas impagáveis, como esta aqui:

«___Você não acha que o Pereio está pegando pesado demais? Você que é amigo dele, devia falar com ele. Se você é mesmo amigo dele, então tem que se preocupar pra que ele não morra precocemente.
__Como assim precocemente? Ele tem 78 anos.
__73. Ele tem 73»
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