MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/07/2012

Ele era bom assim, sem mais nem menos: o jovem Faulkner

Johnny, personagem de O garoto aprendiz, um dos ESQUETES DE NOVA ORLEANS, de William Faulkner (1897-1962), afirma: “Ninguém é bom assim sem mais nem menos: tem de aprender a ser”.

Pode até ser, mas parece que Faulkner era tão bom que aprendeu rapidamente. Para um de seus especialistas, Frederic Hoffman, esses esquetes , que apareceram entre fevereiro e setembro de 1925 num jornal de Nova Orleans, e os quais—ao lado de alguns poemas—representam suas primeiras publicações, têm um valor relativo pelo que sugerem e antecipam das obras futuras.

Permitam-me que eu discorde com veemência, considerando os ESQUETES mais do que mera curiosidade, tateios iniciais de um escritor que será importante mais tarde. Publicados em livro em 1958 [New Orlean Sketches], numa década em que seu autor vivia um período de “estrelismo”, por assim dizer, após ganhar Nobel (em 49), eles fogem totalmente do clichê de obras “para especialistas”. São uma leitura deliciosa e a ótima tradução de Leonardo Fróes é um dos destaques do ano.1

É até injusto chamar vários dos dezesseis textos de “esquetes” (no que a palavra pode sugerir de esquemático), pois são relatos de primeira, onde descortina-se em poucas palavras o mundo da periferia, do submundo (contrabando de bebida, quadrilhas de assaltantes, apostadores) da Nova Orleans dos anos 1920, com seus imigrantes (italianos, franceses), seus rostos marcantes (um jovem, uma velha, evocados em duas belas vinhetas: Fora de Nazaré & Episódio), num movimento textual que vai se espraiando rumo ao universo rural (que mais tarde constituirá o núcleo da obra faulkneriana) da Louisiana e do Mississipi, chegando até aos mares do Sul (Yo ho e duas garrafas de rum, homenagem evidente à obra de Joseph Conrad).

E já nos deparamos com duas marcas do estilo do maior escritor dos EUA: o prazer evidente de contar histórias, de relatar “causos”, e a impressionante individualidade que adquirem seus personagens, já manifestada de imediato pelo seu discurso, pela maneira como tomam a palavra na narrativa. Sem mais nem menos Faulkner já era bom nisso, aprendeu num piscar de olhos.

O leitor brasileiro de 2002 tem o prazer de acompanhar, sentindo a impressionante agilidade e modernidade do texto, a história de dois vigaristas que disputam palmo a palmo um “otário” nas corridas de cavalo (Damons & Pítias Ilimitada), a história do negro eu foge do Mississipi e para na Louisiana, acreditando que está na “Áflica”, horrorizando-se com os costumes dos nativos (Pôr-do-sol), a história dos contrabandistas urbanos que são engambelados por matutos (Ratos do campo), ou a história do contador de mentiras que distrai uma pachorrenta roda de conhecidos num armazém e que quase é assassinado por contar um episódio verdadeiro (O mentiroso). Histórias que já poderiam pertencer ao mundo de Yoknapatawpha, o condado criado por Faulkner como palco da sua ficção, a partir de Sartoris (1929).

Além delas, dois outros momentos excelentes parecerão familiares aos leitores de Dalton Trevisan e seu inferno curitibano: a história do marido ciumento e ridículo que mata o jobem e bonito garçom do seu restaurante , justo quando decide-se a ir embora da cidade para salvar o seu casamento (Ciúme); e, sobretudo, a história dos dois vizinhos que se odeiam (O rosário). Um deles, particularmente, acha a vida muito boa por atormentar o outro diariamente. Quando sua vítima cai doente, ele é quem começa a se torturar pela ideia de perdê-la: “Se mr. Harris morresse, ele, Venturia, se sentiria profundamente infeliz; seria obrigado a morrer também e seguir o outro no purgatório para então finalizar a tarefa de que criminosamente se desleixara em vida. Se houvesse ao menos uma coisa, qualquer uma, que pudesse fazer antes de seu inimigo morrer e o frustrar para sempre!”

Como se vê, Faulkner aos vinte e tantos anos já era bom sem mais nem menos. Depois, ele se tornaria o melhor.

1 A resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de agosto de 2002.

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