MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/10/2010

HUIS CLOS: a condição humana em cena

 

I

( resenha publicada em 07 de maio de 2005)

Com relação a Jean-Paul Sartre, num certo sentido o maior escritor do século XX, pode-se em 2005 escolher entre duas datas-marcos: o centenário do seu nascimento ou o primeiro quarto de século da sua morte. Em meio aos muitos textos que ele nos deixou, em diversas áreas e gêneros (filosofia, ficção, teatro, cinema, crítica, teoria literária, política, memórias) três são particularmente famosos, formando a famosa trinca “existencialista”: na ficção, A náusea (1938); na filosofia, O ser e o nada (1943); no teatro, Huis clos-Entre quatro paredes (encenada pela primeira vez em 1944), que acabou de receber nova edição pela Civilização Brasileira (em tradução de Alcíone Araújo & Pedro Hussak).Entre quatro paredes é ambientada no inferno. O cenário é um falso e cafona salão estilo Segundo Império. Nele, terão de conviver os três protagonistas, cada um deles desconhecido para os outros (a palavra outro é essencial aqui): o jornalista Garcín, a funcionária pública Inês e a burguesa Estelle (seus crimes, respectivamente: deserção, crime passional, infanticídio).

Sartre foi genial ao imaginar dessa forma o inferno porque a danação é a convivência perpétua. Se estamos no inferno ninguém pode alegar que é inocente, portanto as máscaras que usamos na vida social são inúteis. Poderemos até tentar mantê-las, só que ninguém nos levará a sério. Estamos no inferno, a situação já é o próprio currículo de cada um.

Assim, conviver cada hora, eternamente, com pessoas em cujo olhar lemos um julgamento, torna-se a condenação extrema. Porque o ser humano sempre julga o próximo, qualquer que seja sua escala de valores, e o inferno é ser julgado pelo olhar e pela existência do outro, ad infinitum.

E é isso que o ato único de Entre quatro paredes proporciona: através da guerra de nervos que se estabelece a partir do momento em que Inês se interessa por Estelle, tentando conseguir uma companheira em sua danação, e no entanto Estelle insiste em seduzir Garcín, o qual está comprometido em resgatar sua imagem diante dessas duas mulheres (ah, a necessidade de heroísmo do homem) indiferentes ao seu dilema.

Entre quatro paredes é um daqueles textos despojados, incisivos, em que parece que tudo foi dito de uma vez por todas.

 

II

(resenha publicada em 14 de maio de 2005)

Entre quatro paredes é a peça mais famosa de Jean-Paul Sartre (1905-1980). Ele escrevera antes, para o teatro, além de uma experiência amadora num campo de prisioneiros, apenas As moscas, baseando-se na tragédia de Orestes e Electra, para driblar a censura da Ocupação nazista na França, e incitar o público à resistência (“Eis o que me parece a primeira coisa a ser feita, tentar aos poucos convencer a maioria das pessoas a participar, e assim organizar um movimento capaz de enxotar os alemães/’),

Portanto, desde o início o teatro sartriano inscreve-se sob o signo da política, propondo no palco situações nas quais a liberdade individual é colocada em xeque em relação ao engajamento.

Seus protagonistas sempre tentam inutilmente manter-se “donos” dos seus atos, os quais escapam a eles. É o caso do grupo de resistentes torturados em Mortos sem sepultura (talvez a mais poderosa de todas as obras teatrais que ele escreveu), de 1946, ou de Hugo, assassino relutante de As mãos sujas, de 1948. Esta última é marcada por uma tal complexidade de situações, personagens e dilemas éticos (como também acontece em O diabo e o bom deus e Os seqüestrados de Altona,para citar outras duas peças célebres de Sartre), que parece estarmos lendo um grande romance, mal dá para imaginar como fica no palco.

Dá para ver, então, que o dilema de Garcín, um dos protagonistas da límpida Huis clos é essencial para o grande escritor francês, já que ele o amplificou de tal forma. Garcín está comprometido com a idéia de se redimir diante dos olhos de suas companheiras de inferno da condição de covarde, de desertor. Quer resgatar sua vida de um ato que a rouba dele (assim como ter matado Hoederer por ciúme—ao surpreendê-lo beijando sua esposa—rouba o significado político do crime de Hugo, em As mãos sujas).

Inês espicaça Garcín, despeitada por ser rejeitada por Estelle, que tenta seduzi-lo a todo custo. Mas é Estelle quem diz a frase fatal: “Ainda que você fosse um covarde, eu ia gostar de você, Não é o bastante?” (é preciso lembrar que a primeira montagem ocorreu numa Paris ainda ocupada).

A angústia da inautenticidade , de ter de pagar o preço de ser julgado pela eternidade, nas palavras do próprio Garcín: “Eu não estava nem aí pro dinheiro, pro amor. Eu queria ser um homem. Um durão. Apostei tudo num só cavalo. Será que é possível ser um covarde se a gente escolheu os caminhos mais perigosos? Será que se pode julgar uma vida inteira por um único ato?”

Lembrado por Inês—pior que um carrasco—do princípio da realidade (“Prova que aquilo não era um sonho. Somente os atos decidem a respeito do que a gente quis”), ele tem a fala mais patética da peça: “Eu morri cedo demais. Não me deram tempo para executar os meus atos”. E Inês dá a chave da condição humana: “A gente sempre morre cedo demais—ou tarde demais; E, no entanto, a vida está lá, terminada, a linha está traçada, agora é fazer a soma. Você não tem nada além da sua vida”.

As peças de Sartre eram muito apreciadas na época da ditadura militar. Parecia que tinham ficado “datadas”. Agora que a Esquerda atingiu o poder e que o velho dilema das “mãos sujas” volta à tona, elas se revelam mais atuais e vivas do que nunca. È sempre assim com as obras maiores.

 

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