MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/05/2012

ATOS DE INSURREIÇÃO ÉTICA (primeira parte): “Ensaio sobre a cegueira”

O novo romance de José Saramago, Ensaio sobre a lucidez (que vem  sendo recebido com reservas pela crítica), vem formar dupla com o belíssimo Ensaio sobre a cegueira (1995), o qual, para mim, representou um marco na obra saramaguiana, e ainda é o livro do grande escritor de que mais gosto (embora tenha uma admiração especial e diferente, mais do ponto de vista literário mesmo, por O ano da morte de Ricardo Reis).

Saramago já escrevera coisas extraordinárias (Memorial do convento, o próprio Ricardo Reis), já havia hiper-humanizado Cristo e levado a cabo a mais terrível acusação a Deus em O Evangelho segundo Jesus Cristo. A partir de Ensaio sobre a cegueira começou a se operar na obra dele uma tendência definitiva à alegorização: um núcleo alegórico central e desenvolvido até as últimas conseqüências.

Em contrapartida, assiste-se a um processo pedagógico, através do qual –entre perdas e danos— algo se aprende e fica com o leitor para sempre. Assim foi também com Todos os nomes e A caverna. Essa série de livros representa o encontro mais conseqüente entre o ético e o estético na contemporaneidade e causa espanto que as pessoas se preocupem mais com a suposta estranheza da pontuação e do uso das maiúsculas no estilo saramaguiano.

Ensaio sobre a cegueira narra uma epidemia de “cegueira branca”, que leva o governo a isolar, num manicômio, os atingidos que, ali, vivenciarão os horrores daquilo que se convencionou chamar de “universo concentracionário” (o século XX, com os campos de concentração nazistas, stalinistas etc, proporcionou experiências mais que suficientes para a imaginação). Falta de respeito, descaso, estupidez e violência. Falta de higiene, querelas e quizilas, a tomada de poder por uma quadrilha de cegos, que passa a extorquir pertences e favores sexuais (há estupros coletivos).

Duas pessoas ali estão e não são vítimas da “cegueira branca”: a esposa de um oftalmologista que cegou, a qual insistiu em permanecer com o marido afetado, e um cego “normal”, que faz parte da quadrilha. Um incêndio no manicômio, abandonado pelas autoridades, jogará no mundo essa mulher e um pequeno grupo nas ruínas da cidade, pois o mal se alastrou.

É um grupo pungente, que tem o acréscimo de um cão que passa a acompanhá-lo para o que der e vier e   que bebe lágrimas (Saramago e um dos autores que mais pertinentemente incorporaram animais ao seu universo narrativo, não por acaso um dos pontos mais fortes de seu “processo contra Deus” em O evangelho segundo Jesus Cristo seja a crueldade para com eles).

É um grupo que, apesar de ninguém ser nomeado, vai personalizando-se cada vez mais para o leitor, transcendo o horror da massa, tal como vemos pelas terríveis cenas no manicômio e depois nas ruas da cidade até que uma “cura” tão gratuita quanto a aparição do mal chegue. Porém, como já afirmei outras vezes, é improcedente pensar em Kafka e seguidores ou em autores do teatro do absurdo, entre os quais a cegueira e um assunto curiosamente recorrente. A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente aos seus personagens femininos. Ao lançar agora Ensaio sobre a lucidez, e isso veremos na próxima seção, ele faz surgir novamente a mulher do médico que não perdeu a visão. Fez bem, é a maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.

nota versão de artigo anterior [de 12 de dezembro de 1995]  publicada de forma ligeiramente diferente, em 4 de maio de 2004; haveria ainda uma outra versão, em 13 de setembro de 2008,  em A TRIBUNA de Santos, como as anteriores, por conta do lançamento do filme de Fernando Meirelles. Essa versão termina da seguinte maneira: 

A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente a essa esposa de médico, que não perde a visão e mesmo assim se submete ao apartheid sofrido por eles. Qualquer um que tenha passado a amá-la, ficou felicíssimo quando soube que seria interpretada pela fantástica Julianne Moore (que além de ser uma grande estrela, ainda tem o hábito de roubar os filmes em que é coadjuvante), já que se trata da maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.

VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/06/09/atos-de-insurreicao-etica-segunda-parte-ensaio-sobre-a-lucidez/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/20/entre-a-insurreicao-etica-e-a-vaidade-jose-saramago-1922-2010/

Blog no WordPress.com.