MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/09/2011

DEMASIADO PRÓXIMOS: William Golding e os ritos iniciáticos

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 21 de janeiro de 2003)

  Em Close Quarters- Confinados (1987), um dos últimos livros de William Golding (falecido em 1993), o narrador-protagonista—Edmund Talbot—que está viajando para a Austrália no início do século XIX, diz a um companheiro de navio: “Vou passar alguns anos, alguns poucos anos, na administração da colônia… estou convencido de que neste século as nações civilizadas cada vez mais assumirão a administração das regiões retrógradas do mundo”. Fica evidente a arrogância do homem branco europeu, assim como fica bem localizado o momento histórico no romance: o período final das guerras napoleônicas, já estando próxima a derrocada do imperador francês, visto como um tirano (“O estado do mundo estava muito modificado pelas catástrofes… o estado da França, a ruína de suas grandes famílias, uma geração exposta primeiro à sedução de uma liberdade e uma igualdade impossíveis, em seguida às durezas impostas pela tirania…”[1]).

    Portanto, em Close Quarters, Golding deixa muito mais claras as coisas para o  leitor do que no grande romance (de 1980) do qual ele é a seqüência: Ritos de Passagem. A tradução de Elsa Martins ganhou nova edição pela Nova Alexandria vinte anos depois da pioneira edição da Francisco Alves, lançada por aqui antes mesmo que o notável escritor inglês ganhasse o Nobel (em 1993), numa premiação polêmica.

    Em Ritos de Passagem tudo é mais cifrado, momento histórico e características do narrador, o qual embarca e imediatamente começa a escrever um diário, tendo como destinatário o padrinho. Parece um personagem meio ingênuo, bom sujeito, curioso, inteligente e que, conforme indicado pelo título, deve submeter-se voluntariamente a experiências que irão amadurecê-lo.

    São muitos os aspectos que poderiam ser abordados num livro do quilate de Ritos de Passagem (entre eles, a presença maciça de elementos e metáforas teatrais). A este artigo, contudo, caberá ressaltar que Golding se irmana ao Machado de Assis de Brás Cubas & Dom Casmurro ao nos propor um narrador não-confiável, bem menos simpático do que parecia a princípio. O que ele diz de si mesmo e o que temos de ler nas entrelinhas são coisas conflitantes, quase diametralmente opostas.

    O que lemos nas entrelinhas da narrativa de Talbot configura o sujeito arrogante e muito consciente das diferenças de classe que emerge sem disfarce em Close Quarters. Porque Ritos de Passagem é um livro sobre castas sociais e sobre seus párias, mesmo que “aparentemente” não o sejam. Dois deles se destacam: Summers, um dos oficiais da embarcação, a quem Talbot toma por um “cavalheiro”, no sentido inglês da palavra, que determina nascimento, quando sua origem é bem humilde (e por isso nosso herói anota em seu diário: “… discuti, de uma forma que temo que ele possa ter achado ofensiva, a conveniência de que os homens fossem elevados acima de sua primitiva condição”), e o Reverendo Colley, que morre após o grande incidente da viagem: tentando se fazer respeitar pelo capitão do navio, que o despreza e humilha repetidamente, ele acaba por se embriagar, num espetáculo de degradação que culmina num escândalo sexual (Colleu pratica sexo oral com um dos marinheiros, praticamente em público).

    É uma carta do Reverendo Colley, em poder de Talbot, que nos permite entrever o avesso do diário que estávamos acompanhando, as ambigüidades dos ritos iniciáticos, colocando os acontecimentos a bordo sob outra luz, ou sombreando-os, melhor dizendo.

    Enquanto isso, Golding também brinca com a linearidade narrativa. Talbot começa por enumerar cada dia (1, 2,3, 4, 5), depois perde a seqüência e coloca um X, pula para o 12, depois para o 17, coloca um ? perplexo,mais adiante um Y, depois um ZETA grego, e no capítulo posterior à carta do malfadado Colley, não coloca nada, de tal forma o Reverendo bagunçou o coreto, virando do avesso toda a sua complacência e autoconfiança, colocando-o diante de assuntos e inquietações “que estão me deixando meio louco, como todos os homens do mar que vivem demasiados próximos uns dos outros e, conseqüentemente, demasiado próximos de tudo quanto é monstruoso, sob o sol e sua a lua” (nesse sentido, somos então todos homens do mar).

   A viagem pelo mundo e seus ritos se mostra bem mais resistente à simplicidade e linearidade do que a contagem numérica.


[1] Nota de 2011: utilizo a tradução de Terezinha Batista dos Santos, lançada pela Francisco Alves na sua inesquecível coleção “A Prosa do Mundo”, em 1989. Há um terceiro livro, formando uma trilogia (que tem o título To The Ends of the Earth)  , e que ainda não foi traduzido (como a maior parte da obra de Golding): Fire Down Below, de 1989

08/09/2011

Um “id” à solta pelo mundo

(este é mais um texto de 2008, do meu curso AS MARGENS DERRADEIRAS sobre textos-limite do século XIX)

“Contra o meu gosto, nada me parece conveniente e justo”

“Eu era senhor de todos, e a todo pedia desforra

(Calderón de La Barca, A vida é sonho, 1635)

Em 1897, em meio ao seu surto de criatividade genial, H. G. Wells[1], que nascera em 1866, e portanto estava com 31 anos, publicou O homem invisível[2], o qual continua a linha do Fausto e do livro de Stevenson ao abordar a incapacidade de um cientista de manter o discernimento moral, anuviado pela cobiça de um poder sobre a natureza e sobre os outros.

O Homem Invisível, Griffin, ao perder sua identidade de ser visível, também parece perder a unidade (mesmo que conflituosa) do ego humano, e apresenta-se como puro “id”, como um Hyde sem Jekyll. Entretanto, como é nosso hábito aqui, repassemos a história, mesmo porque o livro de Wells, assim como o de Stevenson, o de Bram Stoker, o de Mary Shelley e tantos outros, nas suas inúmeras versões e adaptações nunca é muito respeitado (mesmo a esplêndida versão dos anos 30 modifica bastante o final [3] ).

O romance apresenta 28 capítulos e um epílogo. Tem um começo maravilhoso com a chegada, no meio do inverno, na cidadezinha de Iping, do “estranho” (Griffin), todo coberto (Estava agasalhado da cabeça aos pés e a aba do chapéu de feltro macio ocultava-lhe cada centímetro do rosto; a neve tinha se acumulado em seus ombros e peito, acrescentando uma orla branca ao peso que carregava[4], irascível, com respostas cortantes, que irritam a dona da estalagem onde ele deseja se hospedar com o máximo de privacidade, a Sra. Hall, que se apazigua devido ao pronto (e generoso) pagamento (um par de soberanos jogados sobre a mesa”). É uma delícia acompanhar a interesseira e intrometida senhoria tentando forçar a intimidade com o insólito e incômodo hóspede (ao mesmo tempo, Wells traça já um retrato sombrio e negativo de Griffin, ser humano pouco agradável; e um retrato satírico e demolidor do senso comum, das pessoas que só querem viver sua vidinha). A maior curiosidade dela é saber se ele está deformado ou desfigurado por algum acidente. Nas tentativas de entra-e-sai dela, sempre mal recebidas pelo hóspede, o narrador em 3ª. pessoa aproveita para ampliar o âmbito de sua descrição da incomum aparência do protagonista: “Segurava um pano branco diante da porção inferior do rosto, de forma a encobrir a boca e maxilar, o que explica a voz surda. Mas não fora isso o que espantara a Sra. Hall e sim o fato de que toda a testa, acima dos óculos azuis, estava envolta em uma atadura branca, e outra lhe encobria as orelhas, sem deixar nem um pedaço de rosto à mostra, a não ser o nariz rosado e pontiagudo. Este era de um rosa claro e brilhante…” Ele anuncia que é um “pesquisador” e “faz experiências” e que está aguardando seus equipamentos: “Meu motivo para vir para Iping foi o desejo de solidão. Não quero ser interrompido em meu trabalho”. Todos que tentam entabular assunto ou se aproximar são rechaçados. E a sensata Sra. Hall não quer saber de falatórios a respeito dele, conquanto a conta seja paga em soberanos. Mas a bagagem dele, que chega depois, realmente a exaspera (“Havia, de fato, um par de malas como seriam necessárias a qualquer homem racional, mas além disso havia uma caixa de livros, grandes e grossos, alguns dos quais em uma escrita incompreensível, e talvez mais de uma dúzia de engradados, caixotes e embrulhos, contendo objetos acondicionados em palha que pareceram ao Sr. Hall garrafas de vidro”). A chegada desse equipamento proporciona o primeiro incidente (embora como se possa deduzir, o tom da narrativa ainda seja brejeiro e pitoresco). O estranho sai para apressar a entrega e um cachorro o morde. O Sr. Hall afana-se para ajudá-lo (ele correu para os seus aposentos) e ao entrar vê “algo extremamente esquisito, o que parecia um braço sem mão acenando em sua direção. Ele é rechaçado, como de hábito, e o incidente se perde no ramerrão, perturbado apenas pelas crises do hóspede durante suas pesquisas, com barulhos de garrafas sendo violentamente atiradas no chão.

O quarto capítulo começa assim: “Contei as circunstâncias da chegada do estranho a Iping com certa profusão de detalhes para que o leitor compreenda a curiosa impressão que causou . Aí, as coisas começam a acelerar. As escaramuças com a Sra. Hall aumentam, após alguns meses, pois o dinheiro começa a rarear, e ela perde a paciência, a boa mulher. Ter alguém esquisito, mandão, e que não paga ainda por cima, é demais para uma singela alma de comerciante! O estranho também vira tópico de conversas e de especulações por toda a pequena e provinciana Iping (quase uma aldeia): é um criminoso foragido, um anarquista, um preparador de explosivos, uma aberração física ou um maluco inofensivo? Ele caminha pela aldeia (sempre na penumbra) e a garotada zomba dele. E há os pequenos incidentes de alguém achar que “não” viu alguma parte dele. Tudo se precipita num feriado de Pentecostes, quando o presbitério é assaltado. O pároco e sua esposa vasculham a casa, pois ouvem barulho e movimento, e embora constatem o roubo não acham ninguém. A coisa mais palpável é um ou outro espirro ocasional. Nesse mesmo dia, ao se desincumbir de uma tarefa dada pela mulher, o Sr. Hall encontra o quarto do seu hóspede deserto, mas as roupas que ele usa ali estão (Que estará fazendo sem roupas?”). Ele chama a mulher, os dois sobem, e pensam ter ouvido a porta da estalagem abrir-se e fechar-se, só que não deram maior importância ao fato. Além disso, ouviam-se espirros (lembrem-se, mal acabou o inverno, e imagine andar nu pela úmida Inglaterra [5]). A Sra. Hall começa a verificar o quarto e subitamente móveis e roupas enlouquecem e começam a se mexer sozinhos:a cadeira…rindo secamente com uma voz muito parecida com a dele, virou para cima, com as quatro pernas para o ar; por um momento pareceu fazer pontaria na direção da Sra. Hall e precipitou-se para ela. Gritando, ela virou-se e as pernas da cadeira tocaram-lhe as costas, sem brutalidade, mas com firmeza, e empurraram-na, juntamente com Hall, para fora do quarto. A porta fechou-se violentamente e foi trancada. Durante algum tempo a cadeira e a cama pareceram estar executando uma dança triunfal e depois, abruptamente, tudo cessou” [6].

A Sra. Hall, apoplética, quer proibir a entrada do hóspede: Deixem-no do lado de fora. Não permitam que entre outra vez. Bem que desconfiei…Devia saber. Com os olhos esbugalhados e a cabeça enfaixada e nunca indo à igreja aos domingos. E todas aquelas garrafas, muito mais do que qualquer um tem o direito de ter.”

Resolvem chamar o ferreiro para arrombar a porta, arma-se um debate sobre o assunto e, zapt, a porta do quarto abre e o estranho hóspede desce as escadas, mais sombrio, carrancudo e autoritário do que nunca. Ele entra na sala de estar e se tranca. O marido da estalajadeira, incitado pelos outros, tenta falar-lhe e recebe um Vá para o inferno!”.

         Lá fora acontecem os festejos do feriado e na estalagem aquela estranha situação, com o hóspede sitiado na sala de estar, rasgando papéis e quebrando garrafas. Depois de horas, ele sai e reclama das refeições não servidas. Ela reclama das contas não pagas e mostra, afinal, suas garras de comerciante ultrajada pisando nos saltos dos “seus direitos”. Ele afirma que tem algum dinheiro, ela quer saber como o arranjou, já que alegara antes estar esperando uma remessa, e começa a interrogá-lo, com vários “quero saber”: “De repente, o estranho ergueu as mãos enluvadas e cerradas, bateu com os pés no chão e gritou: Pare! com tal violência que a silenciou instantaneamente. A senhora não sabe quem sou e o que sou. Vou lhe mostrar, por Deus, vou lhe mostrar. Colocou então a mão espalmada sobre o rosto e retirou-a. O centro de seu rosto tornou-se uma cavidade negra. Tome, disse. Adiantou-se e entregou à Sra. Hall algo que ela, de olhos fixo no rosto metamorfoseado, aceitou automaticamente. Quando viu o que era, deu um berro agudo, deixou-o cair e recuou, cambaleando. O nariz, era o nariz do estranho! rosado e brilhante.Rolou para o chão.”

Ele não se limita a tirar o nariz: Estavam preparados para cicatrizes, deformidades, horrores tangíveis, mas para o nada!” Pânico geral, correria, atropelo, boataria, quem conta um conto aumenta um ponto e por aí vai.  O oficial de justiça Jaffers vocifera: “Com cabeça ou sem cabeça tenho que prendê-lo…” Surpreendem o estranho devorando um pedaço de pão com queijo (lembrem-se de que estava faminto quando abordou a Sra. Hall). Isso dá margem a um diálogo nonsense, a partir da situação incongruente de se ter sacado um par de algemas:

Huxter- Vejam! Isso não é um homem. São apenas roupas vazias… Poderia enfiar o braço…

Griffin- Na verdade, estou todo aqui; cabeça, mãos, pernas e o resto, mas acontece que sou invisível. É muito inconveniente, mas sou. Isso não é razão para que seja apalpado até ficar em pedaços por cada campônio idiota de Iping.

Huxter- Invisível, hein? Onde já se viu isso?

Griffin- Talvez seja fora do comum, mas não é crime. Por que fui agredido dessa forma por um policial?

Jaffers- Ah, isso é diferente! Sem dúvida o senhor é um tanto difícil de ver nesta luz, mas tenho um mandado e tudo legal. Não estou atrás de invisibilidade, é de um roubo. Arrombaram uma casa e tiraram dinheiro.

Aproveitando-se de um descuido, Griffin se desembaraça das roupas, sucede-se uma cena de pastelão, e não se consegue impedir a fuga do Homem Invisível que, ainda por cima, deixa o policial prostrado no chão, com um golpe.

O capítulo seguinte consiste de um pequeno parágrafo é quase machadiano devido ao tom adotado pelo narrador: “O oitavo capítulo é extremamente breve…” e só está ali para mostrar que o naturalista amador da região, Gibbins, que de nada sabia, ouviu espirros e uma voz vinda não sabia de onde resmungando e blasfemando em meio às colinas que circundam Iping: o fenômeno fora tão estranho e perturbador que sua tranqüilidade filosófica desaparecera.

O nono capítulo relata o encontro do fugitivo com um vagabundo, Thomas Marvel, a quem ele expõe as desvantagens físicas da sua condição, e meio que obriga com ameaças a ser seu “seguidor”:

Thomas Marvel- E de que pode precisar, em matéria de ajuda?

Griffin – Quero que me ajude a arranjar roupas e abrigo e depois, outras coisas… Tem que ser meu ajudante. Ajude-me e farei grandes coisas por você. Um Homem Invisível é um homem que tem poder… Mas, se me trair, se deixar de fazer o que mandar…

         Fez uma pausa e bateu com força no ombro do Sr. Marvel. Ao sentir o toque, o Sr. Marvel deu um guincho de terror.

O tom da narrativa começa sutilmente a se alterar. Até então, “víamos”, se é possível falar assim, o Homem Invisível “de fora”. Agora começaremos a vê-lo por dentro. De perto

E assim a narrativa volta a Iping, o delicioso lugarejo que permite a Wells uma sátira à mediocridade humana. Ainda estamos no feriado, e o vagabundo Marvel, orientado por Griffin, e“i vigiado pelo desconfiado Huxter, que ficara com a pulga atrás da orelha com esse outro “forasteiro”, “imaginando que estava sendo testemunha de algum furto”, pega uma misteriosa trouxa pela janela de estalagem. Huxter grita “pega ladrão” e começa novo corre-corre. O que acontecera: o Homem Invisível se imiscuíra novamente na estalagem, surpreendendo alguns dignos cidadãos de Iping xeretando nos seus pertences, especialmente seus livros de anotações, com diagramas cifrados. Indignado, ele os ameaça com um atiçador: Quando entrei nesta sala não esperava encontrá-la ocupada e queria, além de meus livros de anotações, uma muda de roupa. Onde está? Não, não se levantem. Já vi que não está aqui. Nesse exato momento, embora os dias sejam bastante quentes para que um homem invisível possa andar por aí, as noites são frias. Quero roupas, e mais algumas coisas, e também preciso de livros.”

Machadianamente[7], corta-se o capítulo e, no começo do outro, lemos, Neste ponto torna-se impossível deixar de interromper outra vez a narrativa, por uma certa razão muito penosa que não tardará a se tornar evidente.” Enquanto Huxter está vigiando os movimentos do suspeito Marvel lá fora, enquanto o Homem Invisível ameaça os cidadãos de Iping que remexiam nas suas coisas na sala de estar da estalagem, os sons e vozes que dali vêm, começam a inquietar o taberneiro (nosso já conhecido Sr. Hall), o que irrita sua diligente esposa: Por que está aí escutando, Hall? Não tem mais nada a fazer em um dia atarefado como este? (deve-se notar que, apesar de ter recebido de um homem invisível o seu suposto nariz, e afora o insólito de toda a coisa, ela não demorou a voltar à sua rotina e aos seus afazeres com a máxima prontidão).

Mas fica impossível ignorar que algo está acontecendo. De repente, se ouve o grito de “pega ladrão” (lançado por Huxter) e o barulho da janela na sala de estar: “…todos os ocupantes humanos do bar precipitaram-se para a rua, na maior confusão. Viram alguém dobrar a esquina que dava para a estrada nas colinas, e o Sr. Huxter executando um complicado salto no ar e caindo de cara no chão. Pela rua, as pessoas tinham se detido, pasmas, ou corriam para ele.” A única a não sair é a Sra. Hall (“que havia aprendido com os anos de experiência, e ficou no bar, junto ao caixa”). Os ocupantes da sala, nus (pois haviam sido obrigados a ceder suas roupas a Griffin) saem e dão o alarme de que o Homem Invisível está novamente em Iping, e furibundo, louco: “Imagine-se a rua, cheia de gente que corria, de portas que batiam e de brigas por lugares seguros… E então todo o tumulto passou e as ruas de Iping, com seus enfeites e bandeiras, ficaram desertas, a não ser pelo Desconhecido ainda furioso… por toda parte, ouvia-se o som de janelas fechando-se e de trancas sendo colocadas, e o único sinal visível de um ser humano era, ocasionalmente, um olhar furtivo sob uma sobrancelha erguida, no canto do painel de uma janela. O homem invisível ainda se divertiu um pouco quebrando todas as janelas da estalagem da Sra. Hall…Também deve ter sido ele quem cortou os fios do telégrafo… E depois de tudo isso… ficou fora do alcance da percepção humana e não foi mais visto, ouvido nem pressentido em Iping…Passaram-se no entanto quase duas horas antes que qualquer ser humano se aventurasse a sair novamente para a desolação da Iping Mean Street.”

E está na hora de conhecer outro personagem importante, também cientista, como Jekyll e Griffin: o Dr. Kemp, que aparece pela primeira vez na narrativa em seu escritório, em outro lugarejo, Burdock: Era um pequeno aposento agradável, com três janelas que davam para o norte, oeste e sul, estantes cheias de livros e publicações científicas, uma grande escrivaninha e, sob a janela que abria para o norte, um microscópio, lâminas de vidro, pequenos instrumentos, algumas culturas e vidros espalhados de reagentes”. Dr. Kemp é ambicioso: “o trabalho de que se ocupava lhe daria, segundo esperava, o título de membro da Royal Society” [8]. Num final de tarde, enquanto os jornais espalham notícias tão vagas que parecem boatos sobre um “homem invisível”, ele vê uma pessoa (Marvel) fugindo colina abaixo, presa de um “terror abjeto” e carregando algumas coisas. Desse modo, o fugitivo chega a Burdock, gritando que “o Homem Invisível esta chegando!” Ele se refugia  num pub, o Jolly Cricketers, e suplica que tranquem portas e janelas. O pub é atacado. Policiais e populares enfrentam o atacante e acabam ferindo-o (um americano “de barba negra” usa uma espingarda e dispara cinco tiros), mesmo sem apanhá-lo, enquanto Marvel consegue escapulir do seu perseguidor.

Às duas da manhã, o Dr. Kemp, após horas de trabalho científico, desce até a sala de jantar para pegar uísque e um sifão. Ele percebe manchas de sangue pela sua casa e no seu quarto descobre a colcha encharcada de sangue e o lençol todo rasgado. Uma voz diz: “Deus do céu! Kemp!” Até então, ele acha tudo fruto da sua imaginação (lembrem-se, é um espírito cientifico, a ciência era o Deus da 2ª. metade do século XIX), embora o narrador  nos alerte de que todos os homens, por mais instruídos que sejam, retêm alguns vestígios de superstição. Também não é para menos: De repente, com um sobressalto, divisou uma atadura feita de um pedaço de linho, enrolada e manchada de sangue, pendendo no ar...” E ouve uma voz que o chama. Demonstrando relutância em se manter ali [9],  Kemp é dominado pelo Homem Invisível, que, como sempre, perde as estribeiras, não compreendendo porque o mundo não se dobra aos seus desejos (como bom id à solta que ele é, no fundo): Se gritar, rebento sua cara… Sou realmente um homem invisível. E quero sua ajuda. Não pretendo machucar você, mas se se comportar como um labrego apavorado, terei de fazê-lo”.

Eles foram contemporâneos de universidade. Griffin se apresenta como um estudante mais moço, quase albino, de perto de um metro e noventa, forte, com um rosto cor-de-rosa e olhos vermelhos, aquele que ganhou uma medalha em química. Essa primeira descrição da aparência pré-invisibilidade de Griffin nos dá preciosas pistas: aparência disfuncional e esquisita (quase albino, rosto-cor-de-rosa, olhos vermelhos, altura desmesurada), certo indício de insociabilidade e a idéia de perseguir méritos e ser reconhecido (a medalha em química), que sugerem um controle do superego, àquela altura, apesar das desvantagens físicas. Esse apelo a um remoto coleguismo acaba por “acalmar” Kemp e Griffin revela estar ferido, faminto e sedento, com desejo de fumar. E extremamente cansado, já que não consegue dormir há dias (como disse antes, os aspectos fisiológicos, embora não à moda naturalista, são um ponto forte do romance de Wells). Kemp pede a ele que conte como chegou a esse estado: “Mas a história não foi contada aquela noite. O pulso do Homem Invisível estava ficando doloroso, sentia-se febril, exausto e sua mente fixou-se na perseguição colina abaixo e na luta dentro da estalagem. Falando em Marvel intermitentemente, passou a fumar mais depressa e a voz foi ficando colérica. Kemp tentava entender o que era possível.”. Em meio ao cansaço, uma tirada importante: “Fiz uma descoberta. Pretendia guardá-la só para mim. Mas não posso. Tenho que ter um sócio. E você… Há tanta coisa que podemos fazer, ou seja, na sua falta de discernimento moral, ele não pensou em resultados úteis ou produtivos à sua descoberta: pretendia guardá-la para si, dominar os outros, ter poder sobre eles, através da intimidação e das imunidades da sua condição.

Afinal Griffin “apaga”, como se diz, e Kemp, lendo as recentes notícias dos jornais, fica horrorizado com a verdade que vislumbra: “Ele não é apenas invisível, é louco…Homicida!”  É interessante notar que, vindo de um cientista, o termo tem a força de um diagnóstico, e é a primeira vez que ocorre ao leitor (principalmente deveria ser a primeira vez que ocorria ao leitor da época) que está acompanhando a trajetória de um louco homicida tanto quanto um ser de bizarra condição. O termo “monstro” é inevitável (pensemos no que o dicionário diz da palavra: ser de conformação extravagante…pessoa cruel, desnaturada ou horrenda”, e retenhamos o termo desnaturado, algo que distorceu o natural, e teremos um medo tipicamente vitoriano, ou até mesmo, num sentido mais lato, burguês, que paira sobre nossas narrativas derradeiras,): “Ele é invisível. E parece que sua raiva está se tornando maníaca. As coisas que pode fazer! As coisas que pode fazer! E está lá em cima, livre como o ar. Como devo agir?”

Kemp resolve mandar um bilhete para o Coronel Adye, da polícia de Burdock, pedindo auxílio. E o Homem Invisível desperta, iniciando uma série de capítulos retrospectivos, nos quais conta a Kemp como tudo começou, depois de comentarem que “o mundo tomou consciência de seu cidadão invisível”, ou seja, o ego social deu-se conta de que o reprimido rompeu os diques da repressão, “desnaturando-se”, e assim fugindo do controle do superego. Griffin conta seu fascínio pela luz, o que o levou às experiências com a física, aos 22 anos, seis anos antes de sua chegada a Iping, e à descoberta, um pouco por acaso, dos segredos da invisibilidade (no que ajudou sua peculiaridade pigmental como albino): “Contemplei, sem a sombra da dúvida, uma visão magnífica do que poderia significar a invisibilidade para um homem: o mistério, o poder, a liberdade… E eu, um instrutor mal vestido, pobre e enclausurado, ensinando asnos numa universidade provinciana, poderia me tornar,da noite para o dia, isso. Faltava só uma coisa: dinheiro. Então ele rouba o próprio pai, e como se apropria de dinheiro dos outros, que estava sob confiança com o pai, este se suicida (“não tive nem um pouco de pena de meu pai. Parecia-me que fora vítima do próprio sentimentalismo tolo”, e eu imagino o pai como um Sr. Utterson (de Jekyll e Hyde), íntegro e inabalável em suas convicções de homem honrado). Griffin utiliza o dinheiro para fazer de um amplo quarto nos arredores de Londres um laboratório. Sua primeira experiência com um ser vivo é com um gato [10], cujo “sumiço” atrai a desconfiança e a hostilidade das pessoas da pensão. Pressionado pela falta de dinheiro, pela bisbilhotice alheia e por sua misantropia cada vez mais aprofundada, ele realiza em si mesmo a experiência, longa e dolorosa: “Nunca esquecerei daquela madrugada, do estranho terror de ver que minhas mãos pareciam feitas de vidro opaco ao observá-las enquanto iam ficando cada vez mais límpidas e transparentes… Braços e pernas foram ficando vítreos, os ossos e artérias tornaram-se imprecisos e desapareceram e os pequenos nervos esbranquiçados foram os últimos a sumir”.

O senhorio tenta invadir o quarto com uma ordem de despejo e quando consegue fica espantado de encontrá-lo “vazio”.  Para eliminar pistas, não permitir que ninguém adivinhe seus objetivos, e também por rancor e raiva anti-sociais, ele incendeia a hospedaria: Abri cuidadosamente os trincos da porta da frente e saí para a rua. Estava invisível e apenas começava a compreender a enorme vantagem que a invisibilidade me dava. Minha cabeça já estava fervilhando de todas as coisas loucas e maravilhosas que poderia fazer impunemente (parece o Dr. Jekyll ao se imaginar vagando por Londres como Hyde).

Aí começa um seqüência de maravilhosos instantâneos urbanos e cosmopolitas, já que o Homem Invisível vaga por uma Londres fervilhante e descobre que o Princípio de Realidade não desapareceu com um passe de mágica só porque ele se sente regido apenas pelo Princípio do Prazer: totalmente nu, ele é abalroado pelos transeuntes, pisado nos calcanhares, quase atropelado, morre de frio no janeiro londrino, o chão é gelado, o calçamento machuca seus pés (por mais tolo que me pareça agora, não tinha pensado que, transparente ou não, ainda estava sujeito ao clima”), os cachorros o farejam e saem correndo para mordê-lo. Além disso, seus pés vão se sujando e deixando marcas pelo chão, o que começa a ser notado. Logo apanha um resfriado e passa a espirrar sem parar, os pés doem muito e um pequeno corte em um deles o faz coxear. Que onipotência! Como vimos com Hyde, tira-se a casca narcisista e se tem a criança assustada e agressiva. E assim “comecei essa vida nova à qual estou condenado.

Com medo de que caia neve e ela o denuncie,  resolve então entrar numa loja de departamentos, a Omniuns, enorme labirinto de lojas numa só”. Ele queria alimentação e roupas para se disfarçar. E até um refúgio, pois adormece ali. A idéia parece luminosa, mas se revela um desastre, com suas mil trapalhadas que o fazem ser notado e perseguido (o que parece um deliberado percurso cíclico/reiterativo da narrativa, de forma a acentuar o isolamento do Homem Invisível). Ele diagnostica o maior inconveniente da sua situação: caso não se disfarce direito e se dissimule numa visibilidade aceitável, tudo o que fizer o denunciará: Vestir-me seria abrir mão de toda minha vantagem, tornar-me algo estranho e terrível; estava em jejum, pois comer, encher-me de matéria não assimilada, seria tornar-me grotescamente visível de novo…Além disso, quando saí, no ar de Londres, juntava sujeira em meus tornozelos e manchas flutuantes de fuligem e poeira na minha pele”. Passando por cima de detalhes do texto, ele a certa altura subjuga, amarra e amordaça o dono de uma loja de fantasias solitário e corcunda (nesse ponto do relato, Kemp se escandaliza e Griffin retruca: Ora, Kemp, você não é suficientemente tolo para obedecer a velhas regras”), e se veste da maneira como chegou a Iping: “Passei alguns minutos ganhando coragem, depois abri a porta da loja e saí para a rua… Ninguém demonstrava muito interesse em mim”.

Ele revela sua intenção a Kemp: desfazer a experiência (para isso,  precisaria recuperar seus livros, ora em poder de Marvel). Porém, só depois de ter feito tudo o que pretende. E um de seus planos é o assassinato (para ele, punição justa) de Marvel: Kemp, você não sabe o que é raiva! Trabalhar durante anos, planejar, estudar e depois ter um idiota obtuso atrapalhando seus objetivos. Todos os tipos possíveis e imagináveis de seres tolos jamais criados foram escolhidos para me importunarem… Vou começar a esmagá-los”.  Mais adiante: “O que eu quero,Kemp, é um guardião, um ajudante e um lugar onde me esconder… Com um aliado, comida e descanso, tudo é exeqüível”. E adverte que sua invisibilidade é útil sobretudo para matar (o que, com o desenrolar dos acontecimentos, toma um tom sinistro de pressentimento): “Posso andar em volta de um homem, seja qual for sua arma, escolher meu alvo e golpear como quiser… E o que temos de fazer é matar… Não seriam mortes ao acaso, mas assassinatos lógicos…O Homem Invisível deve implantar um Reino de Terror…Devo apossar-me de uma cidade como a sua Burdock, apavorá-la e dominá-la. Darei ordens. Posso fazê-lo de mil formas, pedaços de papel enfiados por baixo das portas são suficientes. E matarei todos os que desobedeceram às minhas ordens e matarei todos os que defenderem os rebeldes”.

Aí chega a solicitada força policial. O mais que escaldado Griffin consegue escapar e a partir daí seu ódio volta-se contra o novo traidor: Kemp. Este explica a situação e propõe linhas de ação para caçar o Homem Invisível, baseando-se nas informações que recebeu: Ele é louco. Desumano. E de um egoísmo absoluto. Só pensa no que lhe convém, em sua própria segurança… Cortou os laços que o ligavam a seus semelhantes. Que seu sangue recaía sobre a própria cabeça”  [11]. As medidas que propõem são minuciosas e chegam a ser cruéis (esses cientistas!). Só para dar um exemplo: sua sugestão de que encham as estradas com vidro moído.

Griffin (“enraivecido e desesperado com seu intolerável destino… evidentemente contara com a cooperação de Kemp em seu sonho brutal de um mundo aterrorizado) não deixa por menos: levanta uma criancinha do chão, a atira longe violentamente, quebrando seu tornozelo; enquanto inúmeros homens executam as recomendações de Kemp, o Homem Invisível enfim comete um assassinato: com uma barra de ferro, ele mata o mordomo de Lord Burdock, o inofensivo Wicksteed (quebrou-lhe o braço, derrubou-o e reduziu-lhe a cabeça a uma massa informe[12] ). O pior é que foi um crime arbitrário, sem motivo.

Kemp recebe uma carta, condenando-o à morte, no dia um do ano um da nova era, a Era do Homem Invisível… Haverá uma execução no primeiro dia, para servir de exemplo, a de um homem chamado Kemp… Hoje Kemp vai morrer”.  Kemp evidentemente se entoca em casa e procura proteger-se. O coronel Adye reaparece. De repente, os vidros das janelas começam a ser quebrados. Adye se propõe a sair e buscar os cães (os quais têm uma particular implicância com o Homem Invisível). Ele leva um revólver. Perto dele, uma voz ordena que pare e volte para a casa. Adye tenta atirar, mas Griffin toma-lhe o revólver dizendo “Não tenho contas a ajustar com o senhor”. Adye tenta agarrar o revólver e leva um tiro. Kemp assiste à cena: “Adye jazia no gramado perto do portão. A casa começa a estremecer com pancadas brutais e estraçalhar de madeira. Ouve-se um ruído,  o clangor da destruição dos fechos de ferro dos postigos. O revólver começa a disparar contra ele: “Bateu e trancou a porta e do outro lado ouviu Griffin, gritando e rindo. Depois recomeçaram os golpes de machado , com seu acompanhamento de rachaduras e destruição. A polícia invade o local e o Dr. Kemp se escafede covardemente (a opinião do policial sobre Kemp foi breve e pitoresca”). O cientista (Kemp) e o vagabundo (Marvel) se irmanam, pois no último e memorável capítulo, o primeiro repete a trajetória de fuga do segundo.  Essa repetição não deixa de ser um eloqüente e sarcástico comentário do autor sobre o personagem [13].

Kemp corre para a cidade, vê um bonde, a delegacia de polícia. São passos o que ouve atrás dele? As pessoas começam a reparar nele. Tem a tentação de pular no bonde, mas opta pela delegacia: O condutor do carro e o cobrador, fascinados pela visão daquela pressa furiosa, ficaram olhando… Mais adiante, as expressões intrigadas dos operários de drenagem apareceram por sobre o cascalho acumulado”. E como Marvel, Kemp é arauto do Homem Invisível que adentra a cidade no esplendor da sua fúria, agora transformado em pura selvageria, instinto agressivo, pulsão de morte, thânatos. E Kemp não age diferente: se o outro está na margem do isolamento, ele pede socorro à horda, ao ajuntamento humano, à moderna massa: Subindo a rua havia outros que os seguiam, batendo e gritando. Na direção da cidade homens e mulheres também corriam e viu claramente um homem saindo da porta de uma loja, com uma bengala na mão. Espalhem-se, espalhem-se! gritou alguém. Kemp não tardou a perceber a mudança de situação na caçada.” O que fora um experimento científico vira uma luta corporal, logo uma carnificina, inflada pelas emoções da massa: um estranho que chegasse à estrada de repente poderia pensar que estava havendo uma partida de rúgbi excepcionalmente selvagem. E não se ouviu mais nada… apenas o som de socos, pontapés e uma respiração pesada… Subitamente um grito angustiado de piedade, piedade, que se transformou depressa em um som estrangulado”. Kemp recupera a lucidez e pede que a turba pare o linchamento e se afaste: Não está respirando. Não sinto o coração.” E de repente “todos viram, impreciso e transparente, o contorno de uma mão, mão flácida e caída, como se fosse de vidro, de forma que veias e artérias, ossos e nervos podiam ser distinguidos… E assim, lentamente, começando pelas mãos e pés e subindo pelos membros para os centros vitais daquele corpo, a estranha metamorfose continuou… Puderam ver então o peito esmagado, os ombros e o vago esboço de feições esbatidas e castigadas. Quando a multidão finalmente abriu espaço para que Kemp ficasse de pé, jazia no chão, nu e deplorável, o corpo maltratado e todo quebrado de um moço de perto de trinta anos. Tinha o cabelo e a barba brancos, não grisalhos por causa da idade, mas brancos com a brancura do albino, e seus olhos eram cor de granada. Tinha as mãos contraídas, os olhos abertos e sua expressão era de cólera e espanto.” E a última palavra dita a seu respeito é: Cubram o rosto dele! Pelo amor de Deus, cubram esse rosto”. Cubram esse rosto que é o dos nossos mais primitivos e básicos instintos: se apossar do mundo, assimilá-lo, tudo nos servindo, palco para os nossos prazeres. Esse rosto que traz a marca da ambigüidade da imaturidade e da incapacidade de lidar com o real: feições juvenis e traços grisalhos. A velhice inscrita precocemente numa eterna criança.

O epílogo é reservado a Marvel, que adquiriu uma estalagem com o dinheiro roubado pelo Homem Invisível e que guarda escondidos os seus livros, tentando decifrá-los para adquirir seu poder; só que para ele são feitiços e não fórmulas científicas. A estupidez sempre acaba por vencer.


[1] Herbert George

[2] Ele publicara um ano antes A máquina do tempo & A ilha do doutor Moreau; um ano depois publicará A guerra dos mundos.

[3] Só que essa versão é tão boa que causou um engano atéem Jorge Luis Borges. Como se sabe, H.G.Wells é um dos seus autores favoritos, todavia, ao recapitular o enredo do livro, ele afirmou num dos seus ensaios que o Homem Invisível era abatido a tiros por uma força policial, quando se refugia numa espécie de celeiro (está nevando e por isso suas pegadas ficam visíveis). Isso acontece no filme, não no romance original.

[4] Utilizo aqui a tradução de Elsa Martins (Francisco Alves), às vezes ligeiramente modificada..

[5] Os aspectos fisiológicos da “condição” do Homem Invisível são magistralmente explorados por Wells, como veremos.

[6] Imaginem a sensação de uma cena como essa na época, em que era pura novidade.

[7] Seria mais exato dizer sternianamente, pois, como Machado, Wells deve ter lido Laurence Sterne e seu maravilhoso A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy, no qual o narrador vive interrompendo sua narrativa. Além disso, muitos grandes narradores ingleses (tais como Henry Fielding, autor de As aventuras de Tom Jones; William Thackeray, autor de A feira das vaidades, e mesmo o grande Dickens) são useiros e vezeiros desse tipo de “conversa com o leitor” e “informalidade narrativa”.

[8] O Dr. Jekyll era membro destacado da Royal Society.

[9] Um detalhe interessante, quando nos lembramos dos estudos de Freud, é que Kemp chega a acreditar que foi vítima de hipnotismo.

[10] Kemp: Você não está dizendo que existe um gato invisível por aí!

Griffin: Se não foi morto, por que não?”

[11] Aqui me parece que Wells equilibra os pratos da balança: Griffin renunciou à humanidade, decerto, mas também é uma humanidade para lá de renunciável. A crueldade está presente nos dois campos, como se vê na proclamação assinada pelo coronel Adye: Descrevia, sucinta e claramente, todas as condições da luta, a necessidade de não propiciar ao homem invisível alimento ou repouso, a necessidade de uma vigilância incessante e de atenção imediata para qualquer indício de sua movimentação.”

[12] O que dá certa simetria desse romance com Jekyll & Hyde, no qual também há a agressão a uma criancinha e um assassinato gratuito, de um homem mais velho.

[13] Diga-se de passagem, temos mais uma narrativa onde a ausência de mulheres (no sentido de interesse afetivo e erótico) é visível. Tanto Griffin quanto Kemp já são os típicos solteirões vitorianos.

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