MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/06/2011

A Variante Semprún do Eterno Retorno

 

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A NECESSIDADE DO BODE  EXPIATÓRIO

(resenha publicada em 19 de novembro de 2005)

Em O morto certo (ver abaixo),  Jorge Semprún evocava mais uma vez um acontecimento crucial da sua biografia, como prisioneiro, aos 20 anos, no campo de concentração de Buchenwald.

Outra experiência paradigmática a que ele sempre volta, memorialística ou ficcionalmente, é a sua década como militante clandestino do Partido Comunista, nos anos 50, durante o regime franquista, com vários pseudônimos, o mais ilustre deles Federico Sánchez. Ele a contou em Autobiografia de Federico Sánchez (prolongado em Saudações de Federico Sánchez) e deixou que esse alter ego fosse envolvido pela ficção, não bastasse a própria realidade parecer ficção, em romances como A algaravia.

E Federico Sánchez retorna em Vinte anos e um dia, também traduzido recentemente no Brasil, primeiro romance de Semprún em muitos anos (e o primeiro em espanhol, já que os outros, incluindo suas obras-primas, A grande viagem e A segunda morte de Ramón Mercader, foram escritos em francês).

vinte anos e um dia

No ano da publicação original, 2003, ele completou 80 anos. Podemos ler, ao longo do livro, sobre a “dura alegria” de escrever. E, sem entrar no mérito do adjetivo que acompanha a palavra alegria, é isso que sentimos na leitura,no autor e em nós mesmos, e vemos que Semprún veio fazer companhia a esses octogenários admiráveis, os quais depuraram sua arte em fluência, flexibilidade e limpidez, para nos fazer sentir a cada momento o que é o prazer de narrar, caso de uma Doris Lessing (O sonho mais doce) e de um José Saramago (veja-se a delícia que é As intermitências da morte).

Nem por isso Vinte anos e um dia é menos complexo, com o jeito peculiar de relatar do seu autor (“em desordem, por associações de idéias, imagens ou momentos, para trás, para a frente”). Há 3 datas-chaves: 1936 (o ano do assassinato, durante a Guerra Civil,  pelos camponeses, de um dos membros da família de proprietários); 1956 (o último ano em que será encenada ritualmente essa morte, como lembrete aos camponeses de sua culpa, e o ano em que um delegado procura meios de chegar ao subversivo Federico Sánchez); 1985 (o ano em que o Narrador tem a idéia do romance).

Um quadro italiano em que a bíblica Judite e uma criada fiel manietam e degolam o tirano Holefernes cataliza todos os eventos tanto quanto o assassianto de José María Avendaño. Há uma mulher na história, Mercedes, há uma criada fiel, Raquel, há um tirano (o irmão do marido assassinado pelos camponeses, que se considera no direito de usufruir sexualmente da cunhada viúva): há, enfim, todo um clima de opressão e violência, simbolizado pelo ato ritualístico e hierático da degola, e também há a ambigüidade do erotismo demonstrado no ato pelas executoras (pois Mercedes é conivente, mais do que mera vítima, dos atos do cunhado). E esse é apenas o núcleo de uma história que se desdobra numa fábula sobre o destino da Espanha no século XX, sobre o destino do sangue familiar (algo tão espanhol), sobre o atavismo da perda da virgindade da mulher numa socidade patriarcal e os vários meios de transgredi-lo e ao mesmo tempo perpetuá-lo, sobre o incesto (o casal de gêmeos, filhos de Mercedes e do marido assassinado), sobre os prazeres de contar uma história, sem determinar onde ela começa ou acaba, ou o que é verdade e o que é mentira.

E sobretudo Vinte anos e um dia, como também o resto da obra de Semprún, nos leva para um mundo em que os acontecimentos, mesmo adulterados e deturpados, repercutem por muito tempo até o ponto de fazer outra geração, vinte anos depois, carregar o fardo ou ter de se rebelar. Como nós estamos vivendo o oposto (os acontecimentos rapidamente se esvaziando, sendo superados, virando abstração), isso acaba acrescentando um perigoso e escorregadio charme ao mundo descrito nesse grande romance.

foto grande da capa jorge semprin

Ter 20 anos em Buchenwald

(resenha publicada em 12 de novembro de 2005)

Quando Jorge Semprun estreou como escritor, e ele tornou-se um dos maiores, esse espanhol cuja obra foi realizada, na sua maior parte, em francês, com A grande viagem, mesmo saltando aos olhos, sob a complexidade narrativa, a experiência autobiográfica (ter sido prisioneiro, aos 20 anos, no campo de concentração de Buchenwald durante a 2a. Guerra) estava-se,  ainda que em limites imprecisos, no terreno da ficção. Talvez melhor dizendo: da reelaboração ficcional.

Nas outras vezes em que retomou o assunto, ele o fez de uma forma mais assumidamente memorialística, só que tão labiríntica e enviesada que nos devolvia, em pleno exercício de reconstrução da sua história pessoal, os prazeres de uma narrativa scherazadiana. Foi assim com Um belo domingo e A escrita ou a vida, livros barrocos, não-lineares, caleidoscópicos.

Isso não se repete  em Le mort qu’il faut- O morto certo, no qual mais uma vez o vemos com 20 anos em Buchenwald. Bem mais modesto em número de páginas, é um relato brilhante e linear mobilizado pela situação que justifica o título: Semprun, ligado aos líderes comunistas que mantêm um poder clandestino no campo, fica sabendo por eles que está sendo investigado pela administração nazista; a solução seria escolher um prisioneiro moribundo com quem pudesse trocar de identidade: “Viverei com seu nome, ele morrerá com o meu. Ele me dará sua morte, em suma, para que eu possa continuar vivendo. Trocaremos nossos nomes, não é pouco. É com meu nome que ele partirá em fumaça; é com seu nome que sobreviverei, se der.”

Isso já justificaria a leitura, ainda mais levando-se em conta uma biografia como a de Semprun, em que a adoção de codinomes e disfarces foi essencial, como bem sabe quem leu o clássico Autobiografia de Federico Sánchez, outro livro tortuoso. Todavia, o aspecto mais revelador de O morto certo é a demonstração cabal da mesma mentalidade que preside as atuais denúncias contra o PT,  de negociatas escusas e atos de corrupção destinados a garantir um projeto de poder, no qual os fins justificariam os meios. O partido comunista em Buchenwald arrebanhou poder e privilégios para os seus membros e prisioneiros úteis, deixando à margem e à míngua toda uma população de “muçulmanos”. Esse morto de quem se precisa, que é necessário, é descoberto entre eles, assim apelidados como a escória do campo, como aqueles que não fazem diferença, em termos do projeto comunista.

Esse morto do qual se necessita é, além de representante dos “dispensáveis” num modo de pensar em que só os fins contam, também representante dos “desamparados”, daqueles que desistem de viver na situação-limite, aqueles cujo olhar já abandonou o corpo e que não conseguem sustentar uma  atitude positiva similar à do narrador: “Assim, mesmo sentado sobre a viga das latrinas do Pequeno Campo; ou acordado no tumulto dos gemidos do dormitório; ou alinhado na fileira de detentos diante de um soboficial da SS fazendo a chamada; ou esperando que o serviço de alojamento cortasse com o fio de aço o derrisório pedaço de margarina cotidiana; em qualquer circunstância era possível se abstrair do imediatismo hostil do mundo para se isolar na música de um poema.”

Esse morto tão útil, pelo menos enquanto morto, perece por não suportar o dilema retratado por Rosálio, protagonista de O vôo da guará vermelha, de Maria Valéria  Rezende, quando fica numa situação-limite bem atual, e que não tem guerra nem nazismo para justificá-la, o trabalho rural escravo: “Um corpo de homem agüenta mais do que a gente imagina, por vontade de viver, mas a alma é outras coisa, vai morrendo mais depressa quando perde a esperança”.

E a sufocante, “invivível”  (para utilizar um termo caro a Semprun) promiscuidade de corpos em Buchenwald, simbolizada pelas alucinantes latrinas coletivas em que tudo é feito em exposição também encontra eco na experiência e nas palavras de Rosálio, representante daqueles que “dançam” enquanto os partidos que supostamente tem nas metas sociais sua prioridade organizam seus projetos de poder: “lhe digo que não conheço de uma humilhação maior que um homem ter de cagar debaixo da mirada arma de outro homem ameaçando”.

Jorge_Semprun

 

  

24/03/2011

BECKETT: A terra devastada no manicômio do crânio

    o despovoador

 

 A LINGUAGEM DA DEPAUPERAÇÃO: A CONJURAÇÃO DE ALGO A PARTIR DO NADA

        ninguém olha para dentro de si onde não pode haver ninguém” (Samuel Beckett, “O despovoador”, 1970)

 

      Todo mundo deve lembrar do título da peça de Edward Albee, Quem tem medo de Virginia Woolf. Ele virou um chavão e volta e meia vemos em algum texto, “Quem tem medo de …?”  Quem tem medo de Kafka, de Clarice Lispector, de Dalton Trevisan…

Pois eu vou repisar o clichê perguntando: “Quem tem medo de Samuel Beckett?” Eu, pelo menos. É muito difícil ler um texto desse irlandês terrível (nascido em  1906 e que morreu há 20 anos, 1989), discípulo até certa altura de James Joyce, sem sentir um desconforto danado, sentir que toda a nossa idéia de literatura (que dirá da realidade) é muito “confortável” e quase necrófila, pertencendo a uma noção ultrapassada. Por temperamento e gosto, estou longe do mundo de Beckett, mas sou fascinado por ele. Até agora conhecia mais a chamada 2a. fase da sua obra, aquela que o tornou célebre no pós-guerra, e à qual pertencem tanto a trilogia que destrói a narrativa (Molloy; Malone Morre; O inominável) quanto as maravilhosas peças do absurdo total e nonsense, Esperando Godot, Fim de Partida & Dias Felizes. A primeira fase (dos anos 30) é totalmente inédita no Brasil, salvo engano, e a 3a. fase tem uma ou outra tradução. É a ela que estão vinculados os dois textos traduzidos por Eloísa Araújo Ribeiro, na edição organizada por Vadim Nikitim e prefaciada pelo ótimo Fábio de Souza Andrade, que a Martins Fontes publicou: O Despovoador (cujo título original soa mais bonito, “Le Dépeupleur”; embora título original, como tudo em Beckett, seja algo escorregadio, pois seus “originais” transitam do francês para o inglês e vice-versa, acarretando modificações que sempre deslumbram seus tradutores) e Mal visto Mal dito ( (“Mal vu Mal dit”), título sensacional que já traz em si todo um deslocamento semântico.

Sob certo ponto de vista, O despovoador não é muito original: são muitos os exemplos de autores que utilizaram um espaço alegórico para reiterar o absurdo da condição humana, já vi algo assim até num episódio marcante de “Além da Imaginação”. Os anos 60 estão coalhados disso. O que faz o encanto,se é que se pode falar assim, do texto, é a sua beleza quase cartesiana e seu radicalismo. Parece que Beckett está descrevendo um cenário, dando as indicações visuais (ambos os textos do volume são muito visuais) para uma peça. E ele o faz com rigor: é um cilindro onde duzentos seres estão reunidos, onde há escadas regularmente escaladas que dão para nichos e túneis que se camuflam nas paredes, e onde uma iluminação vermelho-amarela vai desgastando a visão de forma que há uma espécie de cegueira coletiva progressiva, onde só o instinto e algumas regras básicas de conduta, meio tateantes, meio às cegas, permite a ilusão de algum movimento ou de alguma vida útil. É, na verdade, um círculo do inferno de Dante: “O que em princípio chama atenção nessa penumbra é a sensação de amarelo que ela dá para não dizer de enxofre por causa das associações”.  E se alguém tiver alguma dúvida da alusão: “na atitude que arranca de Dante um dos seus raros pálidos sorrisos” ao descrever os quatro tipos de corpos que habitam  o cilindro.

Trata-se de uma DISTOPIA,  utopia negativa, tem a ousadia de imaginar harmonia e simetria numa existência verdadeiramente demoníaca e insana. O título vem (segundo Fábio de Souza Andrade) de um verso das “Meditações” de Lamartine, “um único ser vos falta e todo se despovoa”. Tudo é muito visual  (em Beckett, o olhar, o olho em si, tem grande importância). O cilindro: “recinto onde corpos vão buscando cada um seu despovoador. Amplo o bastante para permitir buscar em vão. Estreito o bastante para que qualquer fuga seja vã”. As escadas, os únicos objetos do local: “a necessidade de escalar é muito difundida. Não mais senti-la é uma liberação rara”. Os nichos (dos quais partem túneis), camuflados nas paredes e ocupados intermitentemente pelos escaladores: “de tamanho variável mas sempre suficiente  para que através do jogo normal de articulações o corpo possa ali penetrar e até mesmo mal ou bem se deitar”; “nichos e túneis são submetidos à mesma iluminação e ao mesmo clima que o conjunto do recinto”. São, portanto, refúgios vãos.  O  uso (porque até as regioes ínferas têm suas regras) das escadas “é regido por convenções de origem obscura que por sua precisão e pela submissão que exigem dos escaladores assemelham-se a leis. Há infrações que desencadeiam contra os transgressores  um furor coletivo surpreendente entre seres tão pacíficos em seu conjunto e tão pouco atenciosos uns com os outros fora da grande questão… Tudo repousa sobre a proibição de mais de um subir ao mesmo tempo na mesma escada. Enquanto aquele que a está usando não voltar ao chão ela fica proibida para o próximo”. Imagine-se um coreógrafo genial encenando esse texto, já que não há palavras a não ser do narrador neutro e auto-anulante.

Os 200 corpos (veja-se: não seres, mas corpos): “a identificação torna-se difícil pela aglomeração e pela obscuridade”. São de 4 tipos: 1) aqueles que circulam sem parar; 2) aqueles que às vezes param; 3) aqueles que a menos que sejam expulsos nunca deixam o lugar que conquistaram (e se expulsam correm para outro lugar para ali se imobilizar novamente); 4)os não-buscadores, sentados em sua maioria contra a parede (na verdade, esses não-buscadores são ex-buscadores. Tudo com a onipresença de uma fraca claridade amarela “sacudida por um vaivém vertiginoso entre extremos que se tocam” e por vibrações intermitentes: “Desde sempre corre ou ainda melhor a idéia ocorre que existe uma saída. Aqueles que já não acreditam nela não estão a salvo de acreditar nela novamente”.  Ao amarelo se acrescenta o vermelho: “O que à sensação de amarelo se acrescenta a mais fraca de vermelho. Em suma uma  iluminação que não apenas escurece mas confunde além de tudo. Nada impede afirmar que o olho acaba se habituando com essas condições e se adaptando a ela se não fosse antes o contrário que se produz na forma de uma lenta degradação da vista arruinada a longo prazo por esse avermelhamento fuliginoso e vacilante pelo esforço incessante sempre frustrado sem falar da miséria moral repercutindo assim sobre o órgão”.

Nesse círculo do inferno, o discurso se auto-anula. Afirma uma coisa e depois “não é exatamente assim”, ratificando o caráter derrisório do lugar. Aqueles que não buscam mais: ” Praticamente mortos para as escadas e fonte de incômodo tanto para o transporte quanto para a espera eles são no entanto tolerados. O fato é que essas espécies de semi-sábios nos quais aliás todas as idades estão representadas inspiram àqueles que ainda se agitam se não um culto ao menos uma certa deferência” Parece o sistema de castas indiano. Corpos que já atingiram um certo nirvana em torno da “azáfama central”. O efeito depauperante da iluminação: “E para o ser pensante que venha a se debruçar friamente sobre todos esses dados e evidências seria realmente difícil ao final de sua análise não estimar erroneamente que em vez de empregar o termo vencidos que tem com efeito um pequeno lado patético desagradável seria melhor falar só de cegos. Passadas as primeiras surpresas enfim essa iluminação tem ainda de inabitual o fato de longe de acusar uma ou várias fontes visíveis ou ocultas parecer emanar de todas as partes e estar em toda a parte a um só tempo como se o lugar inteiro fosse luminoso inclusive as partículas do ar que ali circula. A tal ponto que até mesmo as escadas parecem antes dar luz do que receber só que a palavra luz é imprópria. Únicas sombras por conseguinte as que se criam os corpos obscuros  espremendo-se uns contra os outros propositadamente ou por necessidade…”

        A sensação geral, derrisória, de impotência e inutilidade, não impede “a paixão de buscar”. Ela é tal “que obriga a buscar por toda a parte”.O discurso também continua, continua, continua: “Nem tudo foi dito e nunca será”.

“O efeito desse clima sobre a alma não deve ser subestimado. Mas ela sofre com ele certamente menos do que a pele cujos sistemas de defesa desde o suor até o arrepio são a todo o instante contrariados”. Esse regime existencial tira do sexo qualquer charme e transforma “num roçar de urtigas a suculência natural de carne contra carne”. É a libido em menopausa: “As próprias mucosas se ressentem o que não seria grave se não fosse o incômodo que daí resulta para o amor”. Tudo bem, no entanto: “mesmo desse ponto de vista o mal não é grande já que no cilindro a ereção é rara”. Vocês devem ter reparado que o discurso de Beckett não recusa o lírismo nem o humor, e como ele o consegue, é um dos seus feitiços.

Para terminar esse meu percurso por O despovoador, só quero comentar a única figura que adquire “vida”, por assim dizer, no texto: uma vencida (uma sedentária, não-buscadora) que serve de referência espacial: “existe um norte na forma de um vencido ou melhor de uma vencida ou ainda da vencida. Ela está sentada contra a parede com as pernas levantadas. Está com a cabeça entre os joelhos e os braços em torno das pernas. A mão esquerda segura a tíbia direita e a direita o antebraço esquerdo. Os cabelos ruivos desbotados pela iluminação chegam até o chão. Eles lhes cobrem o rosto e toda a parte da frentre do corpo inclusive a entreperna. O pé esquerdo está cruzado sobre o direito. Ela é o norte. Ela mais do que outro vencido qualquer devido à sua maior fixidez. A quem excepcionalmente quiser ter um ponto de referência ela pode servir. Determinado nicho para o escalador pouco dado às acrobacias evitáveis pode estar a uns tantos passos ou metros a leste ou a oeste da vencida sem naturalmente que ele a chame assim ou de outro modo até mesmo em pensamento

     

              PETRIFICADA PETRIFICANTE: O OLHO LASSO DO INERTE

          “subitamente não mais em lugar algum para ver. Nem com o olho de carne nem com o outro. Depois subitamente ali de nada… Para poder retomar. Retomar o –como dizer? Como mal dizer? (…) Qual dizer? Maldizer.” (Samuel Beckett, Mal visto, Mal dito, 1981)

“E o resto.  De uma vez por todas. Tudo. Até a morte. Livrar-se dela. Passar à seguinte. À quimera seguinte. Fechá-lo de uma vez esse olho de carne sujo. O que impede? ” (idem)

Se O Despovoador lembra, em forma narrativa, as grandes peças que deram fama à Beckett, na sua exploração cênica do espaço e na movimentação quase coreográfica dos seres/corpos que compõem a narrativa, Mal visto Mal dito lembra as anti-narrativas ficcionais, principalmente por causa da presença da velhice, da des-memória, do aniquilamento da  história pessoal, da subjetividade em ponto mínimo, e paralela à decrepitude e impotência, quase que uma mineralização do sujeito (nossa, pareço um pensador francês!).  Os personagens de Molloy que saíam em missão detetivesca acabam meio que paralíticos e se arrastando por uma região entre rural e urbana, o personagem-título de Malone morre escrevia, escrevia sobre uma vida que podia ou não ser a sua , tanto fazia, e o que dizer então do entalado “herói” de O inominável?

Esses livros são tidos como uma trilogia. Mal visto e Mal dito (1981) é a segunda parte de outra trilogia. A primeira parte, Companhia, já foi traduzida no Brasil (pela Francisco Alves).  A personagem é uma velha (parece que para Beckett a Europa era isso: velhos decrépitos presos a um ambiente rural anacrônico, uma waste land de melancolia e derrelição, parecem um bando de reis Lears enlouquecidos pela sua impotência a chafurdar num quase-nada, numa sobrevida inútil: “Tudo já se mescla. Coisas e quimeras. Como sempre. Mescla-se e anula-se. Apesar das precauções. Se ao menos ela pudesse ser somente sombra. Sombra sem mescla. Essa velha tão moribunda. Tão morta. No manicômio do crânio e em nenhuma outra parte… Comootudo seria simples então. Se tudo pudesse ser somente sombra. Nem ser nem ter sido nem poder ser” ou ainda “… de tanto fiasco a loucura se imiscui. de tantos escombros. Vistos não importa como não importa como ditos“.  No universo de Beckett, não ocorre despojamento, e sim depauperação).

Começa assim: “Do seu leito ela vê se levantar Vênus. Mais uma vez… Sente então raiva do princípio de toda vida. Mais uma vez“. Na minha opinião, é ainda melhor que o texto-companheiro na edição da Martins Fontes; deixem-me retificar: pelo menos, me impressiona mais. Logo na página inicial aparecem o termo “pedra” , onipresente ao longo de todo o relato: “Ali está ela portanto como que transformada em pedra diante da noite” .

      O cenário podia ser bucólico, mas é demoníaco: uma cabana cercada por um campo: “Pedras abundam cada vez mais numerosas… pedras gredosas de um efeito impressionante sob a lua… Por toda parte a pedra invade. A brancura. Cada ano um pouco mais. Vale dizer cada instante. Por toda parte cada instante a brancura invade “. Mas o movimento do texto é mais narrativo do que cênico, embora sempre muito visual (se o inerte puder ser muito visual). A velha “já não conversa consigo mesma. Jamais conversou muito consigo mesma. Agora de jeito nenhum. Como se tivesse a infelicidade de ainda estar viva… Ali como de pedra também ela. Porém preta. Ao luar às vezes. Muitas vezes sob as estrelas… Paralisada fiel a si mesma parece transformada em pedra”. Uma viúva? Aquela viúva imemorial das aldeias, toda de preto, figura funesta, de um fatalismo atávico e atroz ? “Toda de preto ela passa e repassa. A barra de sua longa saia preta roça o chão. No mais das vezes porém ela permanece imóvel. De pé ou sentada. Deitada  ou de joelhos. Na meia-luz que lhe vertem as luzes”. 

      “Ela só se mostra para os seus. Mas ela não tem seus. Sim sim ela tem um. E que a tem” (note-se novamente o discurso que se renega): “É a vida que termina. A sua dela. A sua de outro. Mas tão diferentemente. Ela não precisa de nada. De dizivel. Mas o outro. Como ter necessidade no fim? Mas como? Como ter necessidade no fim?”  Curiosamente, o termo viuvez é para o olho: “o olho viúvo”

      Aos poucos, no texto, começam a emergir os objetos que fazem companhia à velha e na verdade quase se colocam no nível de existência dela. Não há diferenciação entre coisa e ser: “Esse álbum que sai da sombra. Que talvez na hora desejada se possa folhear com ela. Ver os velhos dedos virarem como podem as páginas…” Assim a cadeira, o leito, a arca, a abotoadeira… 

    A desmemória:  “Os fatos são tão antigos (…) Como parece tranquila essa máscara antiga. Igual àquelas de certos recém-mortos. É verdade que a iluminação deixa a desejar. Os olhos fechados não mostram suas pupilas.O futuro os dirá cingidos por um azul descorado. Ao qual os prantos não puderam ficar alheios. Inimagináveis prantos de antanho. Cílios da cor de azeviche vestígios da morena que ela foi. Foi talvez”. E a sensação do fim que se aproxima, mas nunca chega: “Receio da escuridão. Do branco. Do vazio. Que ela desapareça. E o resto. De uma vez por todas. E o sol. Derradeiros raios. E a lua. E Vênus. Só céu preto. Só terra branca. Ou vice-versa. Nada de céu e terra. Fim de alto e baixo. Nada além de preto e branco. Em qualquer parte por toda a parte. Além de preto. Vazio. Nada mais.” E mais adiante: “Longe dela em um canto eis de repente uma arca de época… E em suas profundezas quem sabe a palavra-chave enfim. A palavra fim”.  Por que essa vida afinal?  “Houve algum dia um tempo em que não mais questão de questões? Natimortas até a última. Antes. Assim que concebidas. Antes.”  A arca que poderia ser um símbolo de recuperação do temps perdu, da memória reencontrada: “Examinando demoradamente à noite ela está vazia. Senão bem no último momento sob a poeira um pedaço de folha picotada de um lado como se arrancada de um memento. Com uma tinta pouco legível sobre uma das faces amareladas seguida de um número. Quar 17. Ou Ter. Quar ou Ter 17. Senão em branco. Senão vazia.”

           Na sua apresentação do texto, Fábio de Souza Andrade alude às interpretações que ressaltam as ressonâncias celtas na constituição do imaginário de Mal Visto Mal dito, inclusive os doze dólmens de pedra (sobre os quais ainda não fiz referência) que fazem parte da paisagem da solitária velha: “para além da referência remota e coletiva de Stonehenge, a pouco mais de um quilômetro de sua casa, Beckett conviveu com esses espaços ritualísticos dos druidas. A possibilidade de observar Vênus e o sol das janelas e o brilho que as pedras assumem lembram que esses templos foram projetados em função da observação de fenômenos astronômicos… O imaginário irlandês secularizado e destituído de cunho nostálgico soma-se a um desnudamento e a um desinvestimento do imaginário cristão, aludindo ao sagrado tradicional, mas esvaziado dele, como imagem de dor, sofrimento, vida e morte, agonia e ressurreição (em Beckett, o contrário de uma bênção)… Estamos no manicômio do cérebro, referência  direta a Gólgota, a colina da caveira,  onde se deu o calvário cristão, mas que não faz mais do que reforçar a ambiguidade e a atmosfera soturna já presentes nos lementos temáticos essenciais do texto: a solidão da velha assombrada pelas memórias distantes… Por mais que a identificação nítida seja tentadora, não se pode perder de vista que o princípio formal que sustenta o texto é a confusão voluntária entre jogo ficcional e memórias do narrador, entre a projeção de imagens e a observação criteriosa e detida. Aqui, a instabilidade é essencial…”

      Assim como em O Despovoador a capacidade de olhar se ressente desse passa-fome ontológico e epistemológico: “O que fazer com o olho submetido a esse regime? Esse vai-não-vai”

Nesse vai-não-vai, nesse fluir e refluir de frases-chave, um dos momentos mais extraordinários:

“Ela se perde. Com o  resto. O já mal visto se ameniza ou mal revisto se anula. A cabeça trai os traidores olhos e a traidora palavra suas traições. Única certeza a bruma. Aquele de além dos campos. Ela já os ganha. Ganhará o pedregal. Em seguida o refúgio por todas as suas frestas. Por mais que o olho se feche. Ele só verá bruma. Nem mesmo. Ele próprio não será senão bruma. Como dizê-la. Depressa como mal dizê-la antes que submerja tudo. Luz. Numa traidora palavra. Bruma luz. A grande enfim. Onde nada mais para ver. Para dizer. Calma”.

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https://armonte.wordpress.com/2011/03/24/o-mau-infinito-e-o-mal-infinito/

https://armonte.wordpress.com/2011/03/24/o-fim-nunca-chega-endgame-de-beckett/

 

 

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