MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/01/2014

Eles usam black tie: a obra-prima de Kazuo Ishiguro

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Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de março de 1994

É nirvânica a concepção que o mordomo Stevens tem do seu ofício. A individualidade deve desaparecer no exercício da função: “Um mordomo de qualidade tem que mostrar que habita seu papel, inteira e completamente; não pode ser visto jogando-o de lado num momento e simplesmente vesti-lo no momento seguinte, como se nada mais fosse que uma fantasia teatral”. Em virtude desse modo de pensar, tirar uma semana de folga (em 1956) só é aceitável com uma motivação profissional: reencontrar, e se possível trazer de volta, miss Kenton, a antiga governanta de Darlington Hall.

Stevens é a voz narrativa de OS VESTÍGIOS DO DIA [The remains of the day, publicado originalmente em 1989, que comento na tradução de Eliana Sabino], de Kazuo Ishiguro e, confrontando-nos com o seu discurso, nos faz perceber que o traje-personalidade de mordomo por vezes se torna efetivamente uma fantasia teatral. A voz de Stevens nos revela os desalinhos da existência mesmo quando enceta a listagem dos seus ideais, já que no presente da narrativa ele está trabalhando para um novo e desconcertante patrão, um americano. Para Stevens, um dos fundamentos do quilate de um mordomo é estar a serviço de uma casa “ilustre” e ele orgulha-se ostensivamente do seu falecido patrão, Lord Darlington, apesar do namoro sério deste com os nazistas no período anterior à Segunda Guerra.

Por que, então, omite ou nega ter sido seu mordomo em vários momentos da sua viagem? Será, também, que ele acredita de fato estar buscando miss Kenton de volta ao seu antigo emprego (que ela deixou para casar-se), se ela ao longo de tantos anos procurou de todas as formas desencantá-lo do seu feitiço de sapo-mordomo e transformá-lo no seu príncipe encantado (guardadas as devidas proporções, claro)? Uma luta que nos é mostrada através de diálogos relembrados, nos quais tudo que é importante não é dito, ficando irremediavelmente para trás, à revelia das palavras. Até que miss Kenton desiste.

Além desses maravilhosos diálogos (bem dentro da tradição literária inglesa), o fascinante de OS VESTÍGIOS DO DIA e que faz dele um dos melhores romances dos últimos anos, é que há todo um lado monstruoso em Stevens e miss Kenton quando levam a extremos seus papéis (ou seus trajes, para prolongar a analogia), mas jamais caem na caricatura ou no chavão. Há uma antológica cena que demonstra bem isso, na qual Stevens serve convidados de uma importante conferência organizada em Darlington Hall, enquanto seu pai agoniza aos cuidados de miss Kenton que, a essa altura, ainda não desistira.

O livro de Ishiguro parece fluente, transparente mesmo. Na verdade oculta artifícios e dissimulações, patéticas por parte do narrador, e brilhantes por parte do autor (em seu terceiro romance). O diálogo final do reencontro entre os dois protagonistas é um dos momentos mais pungentes da ficção moderna.

OS VESTÍGIOS DO DIA parece ter sido escrito mesmo para ser filmado pelo grande James Ivory, o qual após um subestimado e perspicaz sobrevoo sobre a vida alternativa na metrópole (Slaves from New York, aqui batizado com um inescrutável—mais ainda do que o homem sob a roupa de mordomo—título: Um caso meio incomum), realizou dois trabalhos de mestre (Mr. e Mrs. Bridge e Howards End), diga o que quiser a crítica brasileira “antenadinha”, que vai arder no inferno aturando cult movies e filmes de Mostra. Todo esse mundo sufocado, esses homens-dinossauros extintos pelo processo histórico que Ishiguro-Ivory se dedicam a escavar em sua notável arqueologia, deixam claro que aos contrários dos proletários de Gianfresco Guarnieri, aqui eles até usam black tie, mas a alienação e exploração são as mesmas.

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NOTA– Em 2003, a Companhia das Letras lançou outra versão, realizada por José Rubens Siqueira. A seguir alguns trechos da resenha que escrevi, publicada em 25 de novembro daquele ano, em A TRIBUNA:

Quem gosta de cinema deve lembrar que um dos melhores filmes da década de 1990 foi  Os vestígios do dia. Quem pode esquecer das fantásticas atuações das fabulosas soluções do roteiro de Ruth Prawer Jhabvala (como juntar os dois americanos do romance num personagem só, intepretado por Christopher Reeve), da precisão cirúrgica da direção e das fantásticas atuações de Anthony Hopkins e Emma Thompson, ambos no maior momento das suas carreiras?

A obra-prima de James Ivory é baseada num romance de 1989, do então jovem Kazuo Ishiguro, que hoje reconhecemos como um dos grandes autores da atualidade, e que agora ganhou nova tradução no Brasil (como Os resíduos do dia, provavelmente para torná-lo totalmente independente do filme).

“Um mordomo de qualidade tem de ser visto sempre ocupando seu papel, absoluta e completamente, não pode deixá-lo de lado por um momento para retomá-lo no momento seguinte, como se não fosse nada mais que um figurino de pantomima”, lemos ao longo do relato (…)

A luta de miss Kenton para humanizar o que é basicamente desumano (e tão arraigado na cultura inglesa que aparece até nos livros de J.K. Rowling: em Harry Potter e o Cálice de Fogo, a bruxinha Hermione se revolta ao descobrir que há criadagem em Hogwarts: elfos domésticos, explorados e alienados ao mesmo tempo; comentando esse fato, o padrinho de Harry, Sirius Black, um outsider por excelência, diz algo revelador sobre a estrutura social britânica: “Se você quer saber como um homem é, veja como ele trata os inferiores, e não os seus iguais”—note-se que ele é um outsider, mas um aristocrata também, da gema), nesse exercício de fraturamento, é entremostrada através da rememoração dos diálogos-duelos que ambos travaram, nos quais o que é importante nunca é dito, ficando à revelia das palavras, abafado, portanto opressivo (…) Mesmo que o duelo entre Stevens e miss Kenton assuma proporções monstruosas, eles jamais caem na caricatura ou no chavão (como acontece, por exemplo, em Crime em Gosford Park, apesar da vitalidade do filme de Robert Altman).

(…) O que não dá para entender é por que a edição incorporou o pequeno conto Depois do anoitecer (A village after dark, publicado em 2001, na New Yorker), uma vez que é uma parábola que pouco tem a ver com a atmosfera de Resíduos do dia, apesar de ser também uma “volta ao passado”, mas de forma difusa, impalpável, abstrata (ou seja, mais a ver com outro texto de Ishiguro, O desconsolado), bem distante da materialidade e do peso social da história dos criados de Darlington Hall.

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THE REMAINS OF THE DAYremains-of-the-day

02/08/2012

O jovem Vidal e os estreitos caminhos da homossexualidade

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de fevereiro de 1998)

Na semana passada, comentei nesta coluna 1876, de Gore Vidal. Um dos mais famosos romances do autor norte-americano chega em 1998 aos 50 anos: A cidade e o pilar (The city and the Pillar, em tradução para a Rocco, de Eliana Sabino; houve uma anterior, com o título A longa espera do passado), marco histórico no tratamento ficcional da homossexualidade.

No livro, Jim Willard e seu melhor amigo,Bob, ambos ainda adolescentes, passam um fim-de-semana numa cabana de floresta e acabam transando (desejo antigo de Jim). Bob vai embora da cidade e Jim tenta seguir seus passos, contudo perde contato com ele e, aos poucos, mergulha nos códigos estereotipados do mundo gay, no qual penetra pela mão de um astro de cinema que passa a sustentá-lo.

Jim acredita que ele e Bob viveram algo especial e diferente. Para ele, não houve com o amigo uma experiência homossexual e sim uma completa identificação. Ele, Jim, não ama homens. Ama Bob. Por isso se mantém uma figura solitária (“tão completamente fechado em si próprio, incapaz de expressar-se, sem meio de comunicação, sem ter que oferecer além do corpo”, lemos a certa altura, e aí sempre procuro me lembrar que Vidal o publicou aos 23 anos) até que, no final da guerra, passados quase dez anos, reencontra seu parceiro da adolescência. É quando Jim terá de encarar o peso da tão falada “opção sexual”.  Uma opção que, segundo Sullivan, um dos amantes do protagonista, segue trilhos pré-estabelecidos: “Começa na escola. Você é um pouquinho diferente dos outros. Às vezes é tímido e um pouco frágil; ou talvez precoce, ou bonito demais, um atleta, apaixonado por si mesmo. Depois começa a ter sonhos eróticos com outro garoto, procura ficar amigo dele; se ele é suficientemente ambivalente e você for suficientemente audacioso, vão se divertir fazendo  experiências um com o outro. É assim que começa. Depois encontra outro garoto e mais outro; quando cresce vira caçador, se tiver uma natureza dominadora. Se é passivo, vai virar uma esposa. Se é visivelmente afeminado, pode juntar-se a um grupo de semelhantes e assumir ser conhecido e marcado”.

Resistirá A cidade e o pilar ao peso dos 50 anos? Literariamente, não muito. Apesar do título pretensioso, o livro se ressente da juvenilidade e superficialidade do autor. A estrutura é fraquíssima e tende à monotonia, a ligação entre as várias fases  da vida de Jim é frouxa, mesmo quando parece ao leitor “literária” demais (como o triângulo no México). O próprio motivo que “amarra”, se é que isso acontece, a trama (reencontro com Bob) é forçado  e chega às raias do inverossímil (curiosamente, essa ideia da experiência “única e especial” vai alimentar até um romance tardio de Vidal, Império, onde Blaise Sanford,  um dos personagens principais, só encontra um único homem que lhe agrada, justamente o amante da irmã).

Ainda assim, o livro tem qualidades (e, é claro, Vidal não é um escritor qualquer). No plano da cansativa discussão homossexual, é ainda uma das melhores obras a abordar a questão do desejo masculino, sem martirológios ou apologias (embora apresente um desdém pela mulher que chega a ser  chocante). Há até deliciosas maldades, como o gay convertido ao catolicismo que imagina um céu onde os anjos se parecem com fuzileiros navais.

Por outro lado, no que se refere especificamente à evolução da obra de Vidal, o livro mostra o que ela ganhou e perdeu. Vidal hoje é senhor de muito mais recursos  do que as ingenuidades narrativas de A cidade e o pilar, basta lembrar de grandes obras como Juliano, Washington D.C, Kalki ou Criação; porém, ele foi adquirindo um tom enfatuado, um incômodo cinismo exibicionista, quase folclórico, que faz o  leitor ter sempre a impressão de que ele tem medo de ir a fundo nas questões, receando não se mostrar brilhante ou inteligente demais, ou parecer que ainda mantém algum tipo de ilusão sobre o mundo. Em A cidade e o pilar, comm seu estilo cru (no mau sentido), talentoso-mas-não desenvolvido, Vidal parece simpático e verdadeiro ao leitor. Com certeza porque nele ainda havia ilusões sobre o mundo. Nos americanos, a perda da inocência é sempre mais apaixonante do que o cinismo.

07/08/2011

“O Clube dos Suicidas”: um texto central para o imaginário da leitura

(o texto abaixo foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc.

Publico esta parte do material em função do recente lançamento da CosacNaify, O clube do suicídio, que reúne vários textos de Robert Louis Stevenson, para mim um dos gênios da literatura).

Temos o fio vermelho do crime entremeando-se no novelo descolorido da vida e nossa obrigação é desentranhá-lo, isolá-lo, expondo-o em toa a sua extensão.”

(Arthur Conan Doyle, Um estudo em vermelho, 1887)

 “Seguiu-se uma batida forte e autoritária. Entre, disse Holmes. Entrou um homem que dificilmente teria menos de 1,97 m, com o peito e os braços de um Hércules. Suas roupas eram luxuosas, de um luxo que, na Inglaterra, seria visto como beirando o mau gosto… Segurava um chapéu de abas largas e trazia na parte superior do rosto, descendo até abaixo das maçãs, uma máscara negra; parecia ter acabado de ajustá-la, pois a mão ainda estava erguida quando entrou. A julgar pela parte inferior do rosto, era um homem de forte caráter (…) Antes que Vossa Majestade abrisse a boca eu já sabia que estava falando com Wilhelm Gottsreich Sigismond von Orstein, grão-duque de Cassel=Felstein e rei hereditário da Boêmia”.

(Arthur Conan Doyle, Um escândalo na Boêmia, 1891)

 “Labirinto, pura racionalidade destinada a conter o perigo. Sem o perigo (Minotauro, monstro andrógino, duplo e ambíguo), o labirinto seria o sublime ideal, construção sem destino.”

IAutran Dourado,Proposições sobre Labirinto, 1976)

. Antes de Conan Doyle criar seu Sherlock Holmes e fazê-lo percorrer os subúrbios e submundos londrinos, às vezes disfarçado, em 1882 Robert Louis Stevenson lançou The New Arabian Nights, As novas mil e uma noites. Desse grupo (infelizmente pequeno) de histórias, uma parte ficou mais famosa, O clube dos suicidas.

As novas mil e uma noites supostamente são narradas, umas encadeadas às outras, por um “erudito árabe, em dois blocos principais, o já referido O clube dos suicidas (dividido em três histórias, a do rapaz com as tortinhas de creme; a do médico e do baú de Saratoga; e a aventura do cabriolé) e O diamante do rajá (com quatro histórias, a da caixa da modista; a do jovem clérigo; a da casa das persianas verdes; e a aventura do príncipe Florizel e um detetive).

Começa assim: “Enquanto morou em Londres, o fabuloso príncipe Florizel, com seu jeito simpático e sua generosa sabedoria, conquistou o afeto de todas as classes sociais” 1. Exotismo: o príncipe de um país distante (a Boêmia); qualidades de herói: fabuloso, generoso e sábio; liberdade de movimentos: é rico. Estamos numa atmosfera de inverossimilhança e liberdade ficcional, também. E temos de aceitá-las para usufruir as tramas que começam com A história do rapaz com as tortas de creme.

O príncipe Florizel fica entediado quando não há nenhum peça engraçada nos teatros londrinos ou quando a estação do ano não lhe permite um dos esportes em que ele sempre vencia seus competidores, e então ele convoca seu homem de confiança, o coronel Geraldine para experiências na metrópole, convenientemente disfarçados, é evidente): ‘Longa experiência e variado conhecimento da vida deram a Geraldine uma habilidade única em matéria de disfarces; ele conseguia adaptar não apenas o rosto e a postura, mas a voz e quase que os pensamentos, aos de qualquer classe, caráter ou nacionalidade… e às vezes conseguia que os dois fossem admitidos em estranhas sociedades”. Como se vê, é um prenúncio do mundo de Holmes & Watson, e aliás, segue o padrão da dupla díspare: um, com alguma superioridade sobre o outro, seu seguidor e contraste. E não podemos esquecer a mobilidade social permitida por esses expedientes, como se fossem os Hydes de uma dupla de Jekylls.

Dessa forma os encontramos numa noite de março no Bar da Ostra ,nas proximidades de Leicester Square, bebericando conhaque com soda: “o príncipe já começara a bocejar e a cansar-se da excursão, quando a porta foi empurrada com força e um rapaz entrou no bar, seguido pó dois criados. Cada um carregava uma grande bandeja de tortinhas de creme. O rapaz oferece as tortinhas aos presentes. Quando alguém recusa, o rapaz mesmo engole o doce. Ele diz a Florizel que desde as 5 da tarde já comera 27 tortinhas. Florizal pergunta qual é o espírito que rege o oferecimento das tortas: O espírito, caro senhor, é de zombaria”. Como condição de aceitar o oferecimento, o príncipe o convida para jantar. Acompanhando o rapaz, eles visitam outros estabelecimentos. Quando faltam algumas ainda, o rapaz diz: “Cavalheiros, não terão de esperar mais. Embora minha saúde esteja abalada por antigos excessos, arriscando minha vida porei término à circunstância que nos serve de obstáculo” e engole as nove tortinhas restantes (e ele ainda pretende jantar!!??). Chama os criados e lhes dá algumas moedas de ouro: “E dispensou-os, com uma reverência a cada um[notem como Stevenson dá um ar de exotismo aos gestos e cerimoniais em plena Londres oitocentista]. Durante alguns segundos manteve os olhos fixos na bolsa de onde tirara o dinheiro… então, com uma risada, jogou-a no meio da rua e declarou estar pronto para o jantar”.

Num restaurante do Soho, Florizel e Geraldine captam a ansiedade sob a capa de alegria ruidosa. O príncipe se apresenta como Godall e Geraldine como o major Hammersmith: “Passamos a vida à procura de aventuras extravagantes, e não há extravagância com a qual não possamos nos sentir solidários”.

O rapaz conta sua história: dissipou sua fortuna 2 e chegou ao ponto de possuir menos de 400 libras: “Sinceramente, eu pergunto aos senhores: um homem que se respeita pode se apaixonar ou viver com quatrocentas libras?… acelerando o ritmo dos meus gastos, cheguei hoje de manhã às últimas oitenta libras. Essa quantia dividi em duas partes iguais: quarenta libras reservei para um propósito particular[esse propósito particular é que constituirá o centro da história]; as quarenta restantes eu devia gastar até a noite… e quando os senhores me viram jogar a bolsa na rua, as quarenta libras haviam terminado. Agora me conhecem tão bem quanto eu mesmo: um tolo, porém coerente em sua tolice”.

Para os seus interlocutores, a farsa burlesca das tortinhas começa a ter a aparência de uma tragédia disfarçada. E Geraldine lança uma isca: “Ora, não é estranho que nós três tenhamos nos encontrado por mero acaso, em uma cidade tão grande quanto Londres, estando os três na mesma situação”. Ou seja, apresentam-se como arruinados. Para provar sua situação e sua disposição às loucuras, Florizel joga um rolo de notas no fogo. O rapaz tenta impedir e lhe diz que deveria ter guardado quarenta libras: Sem elas, não se pode entrar. O regulamento é rígido… Vida amaldiçoada, onde um homem sem dinheiro não pode sequer morrer!” Ele ainda testa a “situação” do príncipe: “Terá o senhor chegado, depois de uma vida de prazeres, ao ponto em que só pode se permitir mais uma coisa?” Como ele ainda parece desconfiado, Geraldine insiste mais: Nós também, como o senhor, já nos cansamos da vida, e estamos decididos a morrer… Um trio sem vintém deveria entrar de braços dados no reino de Plutão e dar uns aos outros algum apoio entre as sombras!” O rapaz acaba dizendo: “Mal imaginam quão afortunado foi para os senhores o momento em que aceitaram minhas tortinhas de creme! Sou apenas uma unidade, mas uma unidade dentro de um exército. Conheço a porta da Morte; sou um dos íntimos, e posso introduzi-los sem cerimônia e sem escândalos. E explica que as quarenta libras são o preço da entrada para o Clube dos Suicidas: “sabemos que a vida é apenas um palco onde representamos o papel de bufões enquanto isso nos divertir. Faltava ao conforto moderno uma facilidade: uma maneira decente e fácil de sairmos do palco, a escada dos fundos para a liberdade. Vejam a futilidade e desfaçatez de classe embutido nesse discurso. É a frivolidade decadentista com a morte, ainda uma maneira de ser esnobe: “Para pessoas como eu, e para todos os que desejam fugir do laço sem escândalos póstumos, foi criado o Clube dos Suicidas… se estão realmente cansados da vida, posso levá-los a uma reunião esta noite”.

Apesar das reservas de Geraldine (De todas as nossas loucuras, esta é a mais desvairada e a mais perigosa”) quanto a essa aventura, o príncipe aceita o convite. Num beco escuro, após aguardarem um momento o rapaz entrar e conseguir a admissão deles, eles entram numa porta. Num pequeno aposento, eles esperam o presidente do Clube: “Uma janela alta dava para o rio; pela disposição das luzes da margem eles calcularam não estar muito longe da estação de Charing Cross. A mobília era parca, o estofamento gasto, não havia qualquer enfeite a não ser uma sineta no centro de uma mesa redonda e, pendurados em ganchos ao longo das paredes, chapéus e sobretudos de um número considerável de cavalheiros. Que espécie de espelunca é esta, perguntou Geraldine” [e aqui temos o gosto pelo submundo, que caracteriza parte da ficção vitoriana, esses lugares escusos escondidos nas vielas e becos da grande cidade, e que ficariam consagradas particularmente pelas histórias de Sherlock Holmes].

A princípio, o presidente do suposto Clube nega a sua existência e pedem que se retirem do local. O príncipe resolve bancar o durão: “Deixe-me lembrar-lhe que uma pessoa em minhas circunstâncias tem muito pouco a perder e não vou tolerar grosserias”. E assim abre o caminho para a admissão. Eles são entrevistados separadamente então. O presidente pergunta a Florizel qual a sua razão para estar “cansado da vida”: “Pura e simples preguiça [antes do decadentismo imperar, antes de Dorian Gray, que aparecerá só na outra década, antes mesmo de Às avessas, de J.K. Huysmans, Stevenson dá uma cacetada no espírito decadentista] e acrescenta: Não tenho mais dinheiro…isso também é um problema. Eleva minha tendência à preguiça a um ponto sem volta O presidente do Clube: “conheço o mundo o suficiente para saber que as mais frívolas razões para um suicídio são com freqüência as mais difíceis de suportar”.

Após as entrevistas, dando-se por satisfeito, o presidente apresenta-lhes um juramento a ser assinado: “ao homem que aceitava uma promessa tão horrível não devia restar sequer um farrapo de honra ou qualquer dos consolos da religião. São levados para um salão, onde há quinze outros membros, a maioria bebendo champanhe e fumando, num clima de “hilaridade febril”: “enquanto ia de uma pessoa a outra, Florizel mantinha os olhos e os ouvidos atentos, e logo começou a ter uma idéia geral do ambiente em que se encontrava. Como em todos os lugares de convívio social, um tipo predominava: rapazes na flor da juventude, com todos os sinais de inteligência e sensibilidade em sua aparência, porém com poucos indícios de força ou daquela qualidade que leva ao sucesso. Poucos tinham mais de 30 anos, e não poucos não tinham chegado aos 20… A cada nova garrafa de champanhe aberta, a jovialidade crescia visivelmente… Havia pouca decência entre os sócios do Clube. Alguns se vangloriavam de atos indignos, cujas conseqüências os tinham levado a procurar refúgio na morte; outros escutavam sem desaprovação”. É o típico agrupamento de classe alta inglês, meio homo, meio vago. E Stevenson usa o truque do olhar estrangeiro para uma crítica social precisa. A opinião mais engraçada é do rapaz que declara que “nunca teria entrado para o Clube se não tivesse sido induzido a acreditar no Sr. Darwin. Não consigo suportar a idéia de descender de um macaco, explicou esse notável suicida”. Há um homem que se destaca no grupo: um quarentão (mas parecendo ter dez anos a mais), uma verdadeira ruína: “nunca tinha visto um homem mais naturalmente hediondo, mais estragado por doenças e por emoções perniciosas. Imaginem-se as “emoções perniciosas”.

Os sentimentos de honra cavalheiresco do príncipe se revoltam com esse mundanismo dos que já pensam gozar das “imunidades do túmulo”: “Se um homem resolve matar-se, que o faça, em nome de Deus, como um cavalheiro. Este alvoroço e toda esta conversa são impróprios”. De sua parte, Geraldine está apreensivo com relação aos rituais do Clube. Por isso, o falso Hammersmith puxa conversa com o quase inválido quarentão, Sr. Malthus, que afirma freqüentar há dois anos “este Clube maravilhoso”. Geraldine fica aliviado. Se alguém freqüenta tanto tempo tal lugar, “pouco perigo haveria para o príncipe em uma única noite (se ele tivesse lido Breve história de Sonho, de Schnitzler, ele nunca pensaria assim: uma noite pode ser equivalente à odisséia de Ulisses). O Sr. Malthus se vangloria de ser uma espécie de “sócio honorário”. E elogia o presidente, que a Geraldine não impressionara nem um pouco: “Que histórias! Que cinismo! Tem uma enorme experiência da vida e, cá entre nós, é com certeza o bandido mais corrupto de toda a Cristandade!… Esse homem, meu caro Sr. Hammersmith, é de uma engenhosidade sem par. Há três anos vem desempenhando em Londres esse ofício tão útil e, acho que posso acrescentar, artístico[outra característica de época: o lado esteta do criminoso; aliás, sempre tive para mim, desde a primeira vez que li esse texto, que o presidente do Clube dos Suicidas inspirou os arquiinimigos sherloquianos, do tipo professor Moriarty, com sua rede subterrânea de crimes, à sombra da sociedade cumpridora do Dever do universo vitoriano]; jamais surgiu sequer uma sugestão de suspeito. Eu, por mim, acho que ele é inspirado. O senhor sem dúvida se recorda daquele famoso caso, há seis meses, do cavalheiro que foi envenenado acidentalmente dentro de uma farmácia? Que simplicidade, que segurança!”. O Sr. Malthus diz que experimentou “todas as libertinagens, sem exceção”,”colocando a mão no braço de Geraldine…e declaro que não há uma só que não tenha sido grosseira e mentirosamente superestimada… eu me recuso a dizer que o amor é uma paixão forte.O medo é a única paixão forte; é com o medo que deve brincar quem deseja experimentar a intensa alegria de viver”. E ele explica as regras do Clube: cada noite é sorteada uma vítima e um outro sócio, que será o instrumento, o “sumo-sacerdote da morte”: “Meu Deus, exclamou Geraldine, então eles se matam uns aos outros (note-se que, excluindo-se, com o termo “eles”, já que teria ingressado como membro, ele meio que se denuncia, mas Malthus está tão absorto no seu discurso que nem percebe), “Dessa maneira resolve-se o problema do suicídio.

Abrem-se as portas e todos se dirigem a outro aposento, Malthus pedindo o braço de Geraldine para ampará-lo até lá: Mesmo com a bengala e o braço de Geraldine, o Sr. Malthus caminhava com tanta dificuldade que todos já estavam sentados quando os dois, mais o príncipe, que esperara por eles, entraram no salão; em conseqüência, os três tomaram lugares juntos, no fim da mesa”. Nesse recinto, o presidente embaralha cartas e explica que o ás de espadas é o signo da morte e o ás de paus designa o agente da morte: “Geraldine pôs rapidamente o amigo a par de tudo que aprendera com o sócio honorário, e da horrível alternativa diante deles. O príncipe sentiu um frio mortal e uma contração no peito; engoliu com dificuldade e olhou de um lado para outro como um homem preso em um labirinto”.

Começa a distribuição das cartas: “À medida que se aproximava a vez do príncipe, ele se via tomado por uma excitação crescente, quase sufocante; mas tinha algo da natureza de um jogador, e reconheceu, com espanto, que havia certo prazer em suas sensações [Thânatos atrai tanto quanto Eros]. Recebeu o nove de paus, o três de espadas caiu para Geraldine, e a rainha de copas para Malthus, que não conseguiu reprimir um soluço de alívio. O rapaz das tortinhas de creme logo virou o ás de paus. Ficou paralisado de horror, a carta presa entre os dedos; não viera para matar, mas para ser morto[curiosamente, é o papel de agente da morte que configura a perversidade do Clube, como se a própria idéia de um Clube de suicídio, assim como devem existir sites e comunidades no Orkut desse tipo, não fosse perversa a priori].

O presidente inicia a segunda rodada, e a carta da Morte ainda não apareceu. Quando dá o ar da graça, o sorteado é Malthus: um ruído horrível, como de algo que se quebra, escapou-lhe da boca; pôs-se de pé e tornou a sentar-se, sem qualquer sinal de paralisia. Era o ás de espadas: o sócio honorário tinha brincado demais com seus terrores”. Mais tarde, ele permanecerá sentado ali, bêbado e imóvel, “como um objeto quebrado.

Retirando-se nossos heróis dali, Florizel comenta a maçada que é estar preso a um juramento (que fez ao entrar no Clube): Ter que permitir que esse comércio de assassinos continue a dar lucro impunemente! Se ao menos eu ousasse quebrar minha promessa” [note-se que o sentido de aventura amesquinha-se muito sob essa perspectiva; presos nas convenções, por uma ética que não deveria se aplicar à situação, nossos aventureiros padecem de uma impotência aviltante; são vítimas de uma armadilha, e caiu bem a imagem do homem “preso num labirinto”; o labirinto é a racionalização humana: sempre nos perdemos nos seus corredores, porque temos a tendência de pensarmos contra nós mesmos]. Geraldine replica que se é impossível ao príncipe, cuja honra é a honra da Boêmia, quebrar a hedionda promessa, ele ousa, e deve, quebrar a dele: “Geraldine, se sua honra for atingida em qualquer das aventuras a que eu o levo, não apenas nunca o perdoarei, mas também, e acho que isso vai sensibilizá-lo mais, nunca perdoarei a mim mesmo. Geraldine acata sua decisão. Antes de partir, Florizel anota bem o endereço do Clube.

No dia seguinte, lêem no jornal o “trágico acidente” que vitimou Bartholomew Malthus, que teve morte instantânea ao cair do parapeito superior de Trafalgar Square: Quase fico feliz em saber que ele está morto, disse Geraldine, mas confesso que meu coração chora pelo rapaz das tortinhas de creme”. O príncipe fica resolvido a acabar com o presidente, embora não saiba como isso deve ser feito. E recorda a “experiência” que foi o jogo de cartas. Geraldine pressente que ele pretende voltar ao Clube: Os deveres de sua alta posição proíbem a repetição de um risco como esse. E o príncipe faz uma curiosa confissão, que é do superego afrouxando em favor dos impulsos do id: “Não estou inteiramente satisfeito com minha decisão. Sob as roupagens do maior dos potentados, o que existe, senão apenas um homem? Nunca senti minha fraqueza tão agudamente quanto agora, Geraldine,mas ela é mais forte que eu[vejam que genial: a fraqueza é mais forte que ele]… Posso deixar que o presidente siga sem empecilhos sua carreira funesta? Posso começar um aventura tão fascinante e não segui-la até o fim [aqui se entremeiam a exigência ética, deter o presidente, e o capricho, seguir até o fim a fascinante aventura; superego e id tentando um balanceamento]? Não, Geraldine, você está pedindo ao príncipe mais do que o homem é capaz de fazer”.

E pela segunda noite consecutiva eles freqüentam o Clube dos Suicidas, desta vez com menos gente, só meia dúzia de rapazes (entre os presentes, um deprimido rapaz das tortinhas de creme, ou de crime, do qual ele se arrependeu ao que parece, pelo que conta à nossa dupla amiga). O presidente comenta a morte de Malthus com o príncipe, que o cumprimentara pelo sucesso: “O Clube vai ficar irreconhecível sem ele. A maior parte dos sócios é de jovens, senhor; jovens poetas, ainda por cima, que não são grande companhia para mim. Não que Malthy não tivesse sua poesia também, mas do tipo que eu conseguia entender. Posso muito bem imaginar que o senhor simpatizasse com o Sr. Malthus, replicou o príncipe, ele me pareceu um homem muito original”.

Dali a pouco começa nova distribuição de cartas: “Quando o príncipe Florizel viu seu destino sobre a mesa à sua frente, o coração imobilizou-se. Era um homem corajoso, mas o suor começou a pingar de seu rosto: havia exatamente cinqüenta chances em cem de que estivesse condenado. Virou a carta: era o ás de espadas. Um tumulto tomou conta de seu cérebro, e a mesa dançou ante seus olhos… Reconheceu que seu comportamento tinha sido tolo, criminoso: em perfeita saúde, na flor dos anos, herdeiro de um trono, ele arriscara seu futuro e o de um país corajoso e leal”(é interessante ele lembrar-se de seu país “corajoso e leal” quando vive e se aventura em Londres, bem longe dele). Preso à honra, ao superego, ele, que se deixou embaraçar pelo id, sente-se condenado, sem saída. O rapaz das tortinhas de creme cumprimenta-o (ele é o único, além do presidente, e do “agente” da morte que restou no salão; Geraldine escafedeu-se): “Eu daria um milhão, se o tivesse, pela sua sorte. Enquanto o rapaz se afastava, Sua Alteza não pôde deixar de refletir que teria vendido a oportunidade por uma quantia menor”. Ele pergunta quais são as instruções ao presidente: O senhor seguirá pelo Strand na direção do centro da cidade, pela calçada do lado esquerdo, até encontrar o cavalheiro que acabou de sair daqui. Ele dará prosseguimento às instruções, e faça o favor de obedecer; por esta noite ele está investido da autoridade do Clube”.

Florizel se despede e sai, tentando se encorajar. Numa esquina próxima, três homens caem sobre ele e jogam-no dentro de uma carruagem, onde está Geraldine: “Embora estivesse disposto a enfrentar a morte, ficou felicíssimo em ceder à amistosa violência e voltar mais uma vez à vida e à esperança” (mas eu me pergunto: essa ação de Geraldine resolve o problema da honra, da maneira como os personagens o colocam para si? Não é uma fuga, uma quebra do juramento?).

Geraldine explica: “Esta tarde procurei um detetive, a quem pedi e paguei sigilo absoluto. A Vasa estava cercada desde o anoitecer…”. O “agente” da morte foi capturado na saída também e está esperando a sentença do príncipe no palácio, assim como os cúmplices. Quer dizer, então, que se exerce um poder paralelo na grande metrópole? O príncipe pode executar sua justiça pessoal, tem todos os meios à disposição (como os Treze de Balzac); mas não vemos sempre no universo da aventura essa “justiça paralela”?: Vossa Alteza tem no momento um grupo considerável de prisioneiros. Há entre eles pelo menos um criminoso a quem deveria ser feita justiça. Nosso juramento nos proíbe de recorrer à lei; e a discrição nos imporia a mesma proibição, se o juramento fosse anulado. Florizel decide que o presidente deve morrer em duelo e Geraldine sugere seu próprio irmão como adversário.

O clímax da história é a reunião de Florizel, já em roupagem oficial e ostentando as insígnias da Boêmia, com os sócios do Clube dos Suicidas capturados, aos quais passa um sermão (a cena me parece um daqueles finais das comédias de Shakespeare), e depois diz: “Amanhã ouvirei suas histórias; quanto mais franqueza usarem, melhor poderei remediar sua infelicidade. Quanto ao presidente, ele propõe o seguinte, colocando a mão no ombro do irmão do coronel Geraldine: “Eis aqui um jovem oficial que deseja fazer uma viagem pela Europa; peço ao senhor o favor de acompanhá-lo nessa excursão. O senhor atira bem com a pistola? Porque pode precisar disso; quando dois homens viajam juntos, é melhor estar preparado para tudo. Deixe-me acrescentar que se por acaso o Sr. Geraldine perder-se no caminho, terei sempre outro oficial para colocar à sua disposição; e sou conhecido, senhor presidente, como uma pessoa de visão longa e braço igualmente longo” (não sei se isso é muito tranqüilizador, essas conexões do poder absoluto).

O texto termina assim: “Aqui (diz meu escritor árabe) termina A história do rapaz com as tortinhas de creme, que agora é um feliz morador de Wigmore Street, na Cavendish Square. Por motivos óbvios o número da casa não será revelado aqui. Aquele que desejarem acompanhar as aventuras do príncipe Florizel e do presidente do Clube dos Suicidas podem ler A história do médico e do baú de Saratoga…”

Esse flerte com a morte: uma pessoa que tem tudo, todos os privilégios da sociedade ocidental, todo o bem-estar e consideração do mundo, arriscando-se a perder tudo. Por quê? Porque, como nos ensinou nosso bom amigo do subterrâneo dostoievskiano, ‘”derramai sobre ele todos os bens do mundo, mergulhai-o de cabeça na felicidade… satisfazei suas necessidades econômicas a tal ponto que ele nada mais tenha que fazer senão dormir, comer pão-de-ló e cuidar da continuidade da história universal, pois bem, mesmo nesse caso o homem por pura ingratidão, pela necessidade de se sujar, cometerá à guisa de agradecimento, uma torpeza qualquer. Correrá até o risco de perder seu pão-de-ló e procurará deliberadamente as bobagens mais arriscadas, os absurdos mais desvantajosos, apenas para misturar a esse bom senso tão positivo seu pernicioso elemento fantástico” 3.Há uns 2.800 anos, no épico de Homero, Ulisses perdia-se na volta ao lar. Em Breve romance de sonho (1926), o protagonista (não por acaso um médico) tem algumas inesperadas e perigosas aventuras noturnas. Ao cabo da noite, Fridolin sabia agora por que, em vez de conduzi-lo para casa, seus passos seguiam levando-o sempre e involuntariamente na direção contrária”. O mundo do Desejo não conhece lar nem estabilidade.

 

1 Há uma tradução completa das Novas mil e uma noites pela editora Três (só que de 1974); a Rocco publicou em 1985-86 uma série de textos maravilhosos na Coleção Novelas Imortais: um deles foi O clube dos suicidas (outros títulos da série: Sylvie, de Gérard de Nerval; O Homem da Areia, de E.T.A.Hoffmann; Bartleby,de Melville; A fera na selva, de Henry James; O monge negro, de Tchekhov; Um coração singelo, de Flaubert), traduzido por Eliana Sabino.

2 Ele fala do seu “temperamento estouvado”, clássico exemplo de falta de controle do superego: “meu maior divertimento tem sido satisfazê-lo”. Sua educação: “Toco violino quase suficientemente bem para ganhar dinheiro na orquestra de um teatro barato… Aprendi o suficiente de uíste para perder umas cem libras por ano nesse jogo científico. Meu conhecimento do francês foi suficiente para me permitir gastar dinheiro em Paris com quase a mesma facilidade com que gasto em Londres etc.

3 No final das Novas mil e uma noites, após a Aventura do príncipe Florizel e o detetive, lê-se: “Quanto ao príncipe, essa sublime pessoa, uma vez cumprida agora a sua missão, possa ele ir, juntamente com o autor dos mil e uma noites, torvelinhar pelo espaço afora. Mas, se o leitor insiste em obter dados mais específicos, apraz-me informar que uma recente revolução derrubou-o do trono da Boêmia, em conseqüência de suas contínuas ausências e edificante incúria dos negócios públicos e que Sua Alteza atualmente é proprietário de uma tabacaria na Rupert Street, muito freqüentada por refugiados estrangeiros. Vez por outra lá compareço, para fumar e conversar, e vejo que ainda é tão esplêndida criatura como nos seu dias de prosperidade, com o seu ar olímpico por trás do balcão. E embora a vida sedentária comece a evidenciar-se na projeção do colete, sem dúvida ele é, considerando-o em conjunto, o mais belo cigarreiro de Londres”. Ou seja, o avatar do príncipe dos disfarces é o comerciante próspero, burguês, com uma barriguinha começando a ficar saliente. Sinal dos tempos.

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