MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/06/2013

Carlos Ruiz Zafón: entre Dickens e Dan Brown

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  28 de março de 2009)

Para  minha querida amiga Maria Amélia, grande companhia destes últimos anos

Um fenômeno interessante de se acompanhar na ficção atual é a vigência (e pujança) do  modelo dickenseniano (o órfão que nos desvela um mundo) em romances ambiciosos:   além das obras do genial John Irving (como As regras da Casa de Sidra e O filho de Deus vai à guerra), tivemos recentemente o deliciosamente esplêndido Sua resposta vale um bilhão(2005), de Vikas Swarup, e acabo de ler O jogo do anjo, publicado ano passado na Espanha. O livro faz parte de uma tetralogia que o catalão Carlos Ruiz Zafón (atualmente com 44 anos; Swarup é apenas dois anos mais velho) está urdindo, misturando diversos registros de linguagem, que vão do folhetim deslavado, do grand guignol, até altas discussões sobre o fazer literário, a história, as religiões. O primeiro título foi o grande sucesso A sombra do vento, que, levado pela idéia de que se tratava de outro Código da Vinci ou outro Caçador de pipas, eu ignorei. E, para ser sincero, só me decidi a ler O jogo do anjo porque me foi emprestado por uma amiga muito querida, cujas opiniões sobre livros, mesmo que difiram das minhas, eu prezo muito.

A primeira coisa a se destacar no romance de Zafón é que ele se alinha aos escritores atuais que ainda apostam no requinte retórico, como o Ian McEwan de Reparação ou o Alan Pauls de O Passado. É um prazer ler o portentoso texto, em todas as suas modulações (imagens, descrições, reflexões, diálogos) mesmo que às vezes a trama adquira contornos pífios, e até maçantes, pela previsibilidade. Será que ele avaliou o risco de abarcar mesmo todos os registros possíveis, até aqueles que coincidem com as receitas mais baratas dos mais reles best sellers?

A narrativa em primeira pessoa é feita por David Martín, começando em 1917, concentrando-se muito no final da década de 20, e com um epílogo em 1945. Martín tem a idade do século XX: escritor bem sucedido de histórias sanguinolentas, góticas e enfarruscadas, aluga uma casa bizarra, com um passado obscuro. Cansado de escrever na linha grand guignol e apaixonado por Cristina, secretária do seu protetor, escritor mais velho, Pedro Vidal (o qual guarda um segredo relacionado ao violento assassinato do pai do narrador), ele decide interromper uma série popular (A cidade dos malditos) e produzir dois romances ao mesmo tempo: um deles, de seu próprio punho, e mais “autêntico” com relação às suas ambições literárias (Os passos do céu) e, auxiliado por Cristina, que lhe traz os manuscritos capengas que eles, mais do que copidescam, acabam por reescrever, um romance de Vidal (A casa das cinzas). Tudo isso porque recebeu de um médico a notícia de que teria pouco tempo de vida devido a um tumor cerebral.

Pois bem, os dois livros são publicados ao mesmo tempo: o de (hãhã) Vidal se torna um clássico instantâneo, o de Martín-ele mesmo é ignorado e achincalhado, ao ponto de ser criticado como imitador do outro. Seu destino é ser enterrado num misterioso Cemitério de Livros Esquecidos, no qual David Martín (D.M.) encontra um manuscrito, Luz Aeterna, datilografado por um D.M. na mesma máquina (uma Underwood) que foi um dos atrativos para que nosso herói alugasse sua casa. Diga-se de passagem, o último proprietário chamava-se Diego Marlasca (D.M.) e seu fim fora misterioso.

Para cúmulo dos infortúnios, Cristina e Vidal se casam. Sozinho, desiludido, fracassado, Martín recebe a proposta de escrever um livro que “crie uma religião” (e cuja descrição se parece com o ideário fascista, que a Espanha logo conhecerá com Franco) de um editor “francês”, Andréas Corelli, o “anjo” do título (e que já se comunicara por escrito com ele algumas vezes antes de aparecer pessoalmente na história). Martín passa uma noite na casa de Corelli e acorda curado da sua doença, embora comece a ser suspeito (é seguido e importunado por três policiais, um simpático, inspetor Grandes, e dois truculentos) de crimes que vão se sucedendo (os primeiros a morrer são os editores que exploravam o talento de Martín com um contrato draconiano) na colorida e diversificada Barcelona.

Cada vez mais intimidado por Corelli, horrorizado e ao mesmo tempo fascinado pelo texto que escreveu para ele (tanto que não consegue destruí-lo), Martín começa a investigar o passado da sua casa e a verdade sobre a morte de Marlasca…

Bom, acho que isso dá uma idéia mínima do que ocorre em boa parte de O jogo do anjo. E não há como negar que clichês à parte (casa mal assombrada, passagens secretas, aparições sobrenaturais, crimes que parecem sempre apontar para o “homem errado”: o protagonista) é tudo muito envolvente e acima da média. O problema é o excesso, a intoxicação de dados ficcionais que estrangulam a narrativa e fazem com que seu terço final se assemelhe cada vez mais com um balão que murcha, murcha, pela impossibilidade de se resolver a narrativa, tal como foi armada, de uma forma satisfatória. Então, o autor nos empurra goela abaixo a providencial burrice do seu herói (é difícil de alguém com o background folhetinesco e grand guignol que ele carrega não adivinhar que Diego Marlasca nunca poderia estar morto, que o policial que foi afastado do caso por investigar demais, na verdade é um dos vilões, e que Cristina, a heroína, foi atacada por Corelli por sua tentativa de ler o manuscrito maldito do amado, e por isso vai parar num sanatório, estropiada e semi-catatônica… e, incrível, ele não relaciona um fato com outro!!!!), uma narrativa que vai se encaminhando, como muitos filmes que desperdiçam seus engenhosos argumentos, para a luta corporal como forma de resolução dos conflitos (Martín lutando com o simpático, mas corrupto, inspetor Grandes num teleférico; Martín em luta com o demoníaco Marlasca no quarto secreto da casa onde ambos moraram) e, por fim, a aceitação pacífica de uma sobrenaturalidade espúria pairando sobre a trama e o real, gerando até personagens imortais que repetem ciclos de tormento e maldição (D.M); apesar de haver um aspecto interessante nisso, que é a ligação com a luta pela imortalidade através das palavras e da literatura. Mas Zafón vem, ele mesmo, acrescentar um toque de senso comum piegas que ajuda a entornar o caldo: há uma personagem a que não me referi até agora (talvez porque ela seja um dos elementos irritantes e excessivos de O jogo do anjo), Isabella, que se apresenta a Martín como aprendiz de escritora, que vai morar na casa dele e que aparecerá com a seguinte pérola lá pela página 316, “resolvi que prefiro viver a vida a escrevê-la”. Ta bom, Zafón… Ah, a nostalgia de VIVER a vida. Nada mais certeiro para abalar um bom romance do que essa falácia.

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O jogo do anjo (El Juego del Angel, Espanha-2008), de Carlos Ruiz Zafón. Tradução de Eliana Aguiar. Editora Objetiva- Selo Suma de Letras (que cafona!), que apresenta uma das mais horrendas capas que já vi na vida. 410 páginas. R$ 42,90.

27/05/2012

A FICÇÃO DO POETA BENEDETTI

 

“Não é boa uma vida sem fantasmas, uma vida cujas presenças sejam todas de carne e osso ”

“Existem matizes, não? (Mario Benedetti)

(uma versão da resenha abaixo foi  publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  06 de junho de 2009)

      UM ESPELHO POLIFÔNICO EM 45 FRAGMENTOS

    Quem escreve periodicamente sobre qualquer assunto, percebe, ao longo do tempo, que a tarefa não fica mais fácil, que o maior desafio é encontrar ganchos diferentes, formas diferentes de abordagem, e que na verdade estas últimas se reduzem a umas poucas variações. Por isso, acaba sendo providencial e confortável um gancho fornecido pelas efemérides da vida. Exemplo: a morte de Mario Benedetti, em 17 de maio, que coincidiu com o lançamento da tradução de Primavera num espelho partido (Primavera con  una esquina rota, em tradução de Eliana Aguiar para a Alfaguara).

O Uruguai tem um gênio: Juan Carlos Onetti, autor de romances que eu considero obrigatórios como A vida breve; Junta-Cadáveres; O estaleiro; Deixemos falar o vento e de contos igualmente notáveis (Tão triste como ela). Não conheço quase nada da prolífica obra poética de Benedetti (o que conheço não é de molde a me fazer um admirador), porém um romance como A trégua (1960) é suficiente para que ele não fique ofuscado pelo responsável por colocar nosso país vizinho no mapa da literatura.

mario benedetti

A trégua (ver resenha abaixo) era um exercício modelar da narrativa em primeira pessoa, imitando a forma de diário e ocultando, numa superfície de simplicidade, requintes psicológicos e de estilo.

Primavera num espelho partido é mais diversificado e ambicioso, um espelho polifônico (são muitos os narradores) estilhaçado em 45 fragmentos. Polifonia era a técnica que permitia o que o grande pensador russo Mikhail Bakthtín denominava “texto dialógico”: várias vozes na montagem das quais não havia hierarquia ou predominância (a nossa outra leitura da semana, As meninas, também pratica isso, embora ambos sejam aplicações mais simples do dialogismo bakthiniano que tem os romances de Dostoievski como a grande referência e cuja textura discursiva é bem mais complicada).

O núcleo do romance é uma família cujo pai “caiu” em decorrência do golpe de estado de 1973 (e a transformação do país naquela nossa velha conhecida latino-americana, a Ditadura) e a qual tem de se exilar na Argentina. Em torno desse núcleo, o autor constrói e diversifica  seis segmentos narrativos:

–Intramuros (mais tarde, Extramuros), com a narrativa em 1ª. pessoa de Santiago, o pai,  preso por “cinco anos,  dois meses e quatro dias”, e depois anistiado (“intra”, articulada, linear; “extra”, desarticulada, primavera num espelho partido). São oito capítulos;

–Feridos e contundidos, em 3ª.pessoa, e muito caracterizado pela abundância de diálogos, onde Graciela, a esposa de Santiago, é focalizada em sete capítulos;

–Don Rafael, com a narrativa em 1ª. pessoa feita pelo pai de Santiago (num dos capítulos há uma longa carta do próprio Santiago narrando ao pai o único assassinato que cometeu em sua militância política), em sete capítulos;

— Exílios, no qual às vezes Mario Benedetti é o personagem, às vezes ele se refere a compatriotas exilados (há até uma linda história de solidariedade, no capítulo chamado “Adeus e Boas-vindas”), em nove capítulos;

–Beatriz, na qual a narrativa em 1ª. pessoa é feita pela filha de nove anos de Santiago e Graciela, em sete capítulos;

–O outro, no qual o foco narrativo é um discurso indireto livre focalizando Rolando Asuero, useiro e vezeiro em citar versos de tangos, também exilado em Buenos Aires, como a família de Santiago (seu velho amigo) e que se torna o novo amor de Graciela,  em sete capítulos.

Portanto, o problema é que Graciela já não consegue mais amar o Santiago, e se culpa porque a condição de preso político do marido se arrasta durante anos, o que faz com que sua vida fique emperrada até que resolve declarar sua paixão por Rolando. Um dos aspectos mais pungentes na alternância de vozes do livro é que ao mesmo tempo temos acesso às cartas de Santiago, com sua paixão por Graciela, e conhecemos o embate que se passa dentro dela (o marido ficando a cada ano mais e mais fantasmático). Não haverá mais Penélopes à espera dos desterrados Ulisses? “Ah, se pudesse jogar no imperialismo a culpa por essas olheiras”, diz outro personagem. Também conhecemos o papel secundário que os maridos militantes (Rolando é um caso à parte, um solteirão inveterado, don juan) reservam às mulheres, o machismo-leninismo dos ilustres varões”.

Até voltar em 1983 ao Uruguai Benedetti viveu na Argentina, no Peru (de onde foi expulso). Durante alguns anos sua obra girou em torno da descompressão do golpe (com todos os sentidos que a palavra pode ter), o “desexílio”, como chamava.

Primavera num espelho partido, que é de 1982, se situa nessa fase, entre os poemas de Vento do exílio (1981) e os ensaios de O desexílio e outras conjeturas (1984). “O exílio (interior, exterior) será uma palavra-chave desta década”. O título tem sua justificação interna (fora sua justificação poética) no relacionamento entre Santiago e a mãe. Dom Rafael lembra: “Quando tínhamos apenas dois anos de casados, em um dos seus infreqüentes impulsos de confidência, que eram como uma concessão que nos fazia às vezes (a ela e a mim), disse que bom seria morrer ouvindo alguma das Quatro Estações, de Vivaldi. E muitos anos depois, exatamente em dezessete de junho de mil novecentos e cinqüenta e oito, quando estava lendo e de repente ficou imóvel para sempre, no rádio (não era sequer um toca-discos) estava tocando a Primavera.  Santiago ficou sabendo e talvez por isso essa palavra, primavera, tenha se ligado para sempre à sua vida.  É como o seu termômetro,  seu padrão, sua norma”…

Todos os personagens e situações do romance são interessantes, porém Benedetti é particularmente feliz na criação da pequena Beatriz. Além do tour-de-force da linguagem (mimetizando a lógica infantil, por isso é sensacional o capítulo em que ela confunde “poluição” com “polução”), há a perplexidade (que eu nunca vi ser tão bem colocada) da criança que tem um pai preso e de quem se diz que é um herói e não um criminoso. Como ajustar isso a uma percepção incipiente da realidade? “Liberdade quer dizer muitas coisas. Por exemplo, se você não está presa se diz que está em liberdade. Mas meu pai está preso e no entanto está em Liberdade, pois é assim que se chama a prisão onde está há muitos anos… Meu pai é um preso, mas não porque tenha matado ou roubado ou chegado tarde à escola. Graciela diz que meu pai está em Liberdade, ou seja, preso, por suas idéias. Parece que meu pai era famoso por suas idéias. Eu também tenho idéias, às vezes, mas ainda não sou famosa. Por isso não estou em Liberdade, ou seja, não estou presa… De forma que liberdade é uma palavra enorme. Graciela diz que ser um  preso político como meu pai não é nenhuma vergonha. Que é quase um orgulho. Por que quase? É orgulho ou é vergonha? Gostaria que eu dissesse que é quase vergonha? Estou orgulhosa, não quase orgulhosa, de meu pai, porque teve muitíssimas idéias, tantas e tantas que foi preso por causa delas. Acho que agora  meu pai vai continuar tendo idéias, idéias espetaculares, mas é quase certo que não fale sobre elas com ninguém, porque se falar, quando sair da Liberdade para viver em liberdade, podem fechá-lo outra vez na Liberdade.  Estão vendo como é enorme?”. Com uma realidade como a latino-americana (espelho partido) essa é uma lógica de rigor impecável.


   

16/11/2011

ECOTERAPIA: a auto-ajuda necessária

Resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em quinze de julho de 2003

Numa excelente entrevista a Roberto D´Ávila, Marcelo Gleiser afirmou que é muito difícil idéias ou pesquisas falsas/anti-éticas durarem muito tempo porque a comunidade científica tem sempre como comprovar ou negar sua validade e credibilidade.

Será? O que o físico teórico e autor de livros de divulgação científica (e pelo que está anunciando, futuro romancista) não levou em conta é que essas pseudo-idéias ou pesquisas não atingem somente a comunidade científica. A força do falso, um dos textos reunidos por Umberto Eco em SOBRE A LITERATURA, discute justamente como “no curso da história, tiveram crédito crenças e afirmações que a Enciclopédia [no sentido de saber consolidado]  atual desmente factualmente…” Eco informa até os sites nos quais teremos acesso a informações sobre a teoria da “Terra Oca”: “Existem por aí muitíssimos seguidores da teoria. E é inútil dizer que os sites (e os livros que divulgam) foram criados por alguns espertalhões que especulam com um público de tolos e/ou devotos da New Age. O problema social e cultural não é representado pelos espertalhões, mas pelos tolos, que evidentemente ainda são legião”.

Sempre imagino Eco com os traços psicológicos de Guilherme de Baskerville, o monge-detetive de O nome da rosa, presumivelmente inspirado em Sherlock Holmes. Pois é, ele pode até conter uma homenagem ao herói de Conan Doyle, contudo Baskerville é muito mais inteligente do que o limitado e superestimado Holmes (cujas qualidades como personagem são de outra ordem, a meu ver), muito mais perceptivo e compassivo em relação ao que é humano, ideológica e passionalmente falando. Assim também é o pensador Umberto Eco: sempre brilhante, mas sempre interessado pelos fenômenos humanos, pelas ideologias e pelos investimentos passionais da humanidade, até mesmo pelos tolos que ainda formam legião.

Muitos dos temas de SOBRE A LITERATURA, que resgata palestras e debates mundo afora, são difíceis. O método do grande escritor italiano é um pouco como o que descreve em Ironia Intertextual e Níveis de Leitura. Quem não perceber tudo não será excluído do prazer da leitura. Ele está se referindo a obras de ficção (incluindo as suas) que trabalham com um duplo código de leitura (o leitor é uma peça-chave nos esquemas teóricos de Eco). Poderia estar se referindo aos ensaios. A imagem que utiliza é ironicamente aristocrática, a ironia e o sabor da maneira como é colocada tirando o travo da antipatia classista que ela pudesse sugerir: “É como um banquete em que sejam distribuídos no andar de baixo os restos da ceia posta no andar superior: não os restos da refeição, mas os da panela e bem postos eles também e como o leitor ingênuo acredita que a festa desenrola-se em um andar apenas, há de saboreá-los pelo que valem (e serão, ao fim e ao cabo, saborosos e abundantes), sem supor que alguém tenha recebido mais”.

Assim, leitores do andar de baixo ou do andar superior podem apreciar a análise do Paraíso de Dante e do estilo retórico do Manifesto Comunista de Marx e Engels; ensaios sobre o conceito de símbolo e sobre a ideologia do estilo; a história de três gerações intelectuais italianas e sua relação com a idéia da América (leia-se EUA). São pontos altíssimos o ensaio (mais um, e que bom!) sobre Joyce, a intersecção entre a biblioteca de Dom Quixote de La Mancha e a biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges (e, depois, um ensaio maravilhoso sobre a influência do autor argentino na sua própria trajetória), o ensaio sobre os rípios (os pontos amorfos na estrutura de uma obra), além de um texto sobre a Poética de Aristóteles.

Eco prolonga o seu delicioso e inestimável Pós-escrito a O nome da rosa, de 1984, em Como escrevo, reflexão sobre sua produção ficcional que se estende a seus três outros romances já publicados (O pêndulo de Foucault; A ilha do dia anterior; Baudolino).

E no ensaio que deu origem ao título da coletânea, Sobre algumas funções da literatura, ele surpreendentemente parece se alinhas ás reflexões de Harold Bloom em O cânone ocidental da literatura como confronto com nossa mortalidade: “A função dos contos imodificáveis é precisamente esta: contra qualquer desejo  de mudar o destino, eles nos fazer tocar com os dedos a impossibilidade de mudá-los. E assim fazendo, qualquer que seja a história que estejam contando, contam também a nossa, e por isso nós os lemos e os amamos. Temos a necessidade de sua severa lição repressiva… Creio que esta educação ao fado e à morte é uma das funções principais da literatura. Talvez existam outras, mas não me vêm à mente agora”.

16/05/2010

Destaque do blog: O DIA DA CORUJA, de Leonardo Sciascia

O INIMIGO MORTAL DAS PALAVRAS OCAS (ou o insólito cruzamento Rulfo-Borges)

INTRODUÇÃO

Mesmo entre os maiores ficcionistas,  poucos poderiam aspirar ao adjetivo “irretocável”, a uma essencialidade quase que absoluta da expressão. Os nomes que me vêm à mente de imediato, nesse sentido, são o mexicano Juan Rulfo, autor de Pedro Páramo & Chão em Chamas, e o bem mais prolífico italiano Leonardo Sciascia (1921-1989), de quem eu li pelo menos quatro obras-primas que posso considerar irretocáveis: Il giorno della civetta- O dia da coruja (1961), Il Consiglio  d´Egitto- O Conselho do Egito (1963), A ciascuno il suo- A cada um o seu (1966) e Il contesto- A trama  (1971).

Interessei-me por Sciascia devido a um grande filme de Francesco Rosi (que, aliás, fez um dos meus filmes favoritos, Tre Fratelli- Três Irmãos,uma das coisas mais belas feitas na virada dos anos 70 para os 80 do século passado), Cadaveri eccelenti- Cadáveres ilustres (convenhamos, um título maravilhoso), de 1976. Por sorte, na época do lançamento no Brasil da adaptação de Rosi de Il contesto, a editora Fontana e o Instituto Italiano di Cultura lançavam os três outros.  Até hoje foi a única edição brasileira, salvo engano, do melhor de todos, O Conselho do Egito (traduzido por Aurora Bernardini), magistral romance sobre imposturas e perseguições inquisitórias no século XVIII. A cada um o seu (traduzido por  Homero Freitas de Andrade) teve uma recente nova versão (por Nilson Moulin), publicado pela Alfaguara, que publicou há pouco uma nova tradução de O dia da coruja (de Eliana Aguiar), a terceira: a primeira foi a de Solange Lima Caribé da Rocha, e a segunda (de Mario Fondelli) fez parte de uma série de lançamentos sciascianos pela Rocco (entre eles, a tradução do mesmo Fondelli para A trama, que eu considero o romance que Jorge Luis Borges escreveria se ele fosse dado a alegorias políticas.[1]

I-

“Com efeito, disse o advogado Di Blasi, cada sociedade gera o tipo de impostura que, por assim dizer, lhe convém. E a nossa sociedade, que de por si é uma impostura, impostura jurídica, literária, humana (…) Nossa sociedade nada mais fez a não ser produzir, naturalmente, obviamente,a impostura oposta (…) se na Sicília a cultura não fosse, mais ou menos conscientemente, uma impostura, se não fosse um instrumento nas mãos do poder dos barões, a falsificação da realidade, da história… Pois bem, eu lhes digo que a aventura do abade Vella [um religioso com rudimentos de árabe que falsifica um Código, que na verdade era apenas uma corriqueira vida de Maomé, anunciando-o como um documento sobre os anos de domínio árabe na Sicília, e que se serve dele para chantagear toda a nobreza da região, temerosa de revelações incômodas a respeito dos ancestrais e de como adquiriram a posse da terra] teria sido impossível… Digo mais: o abade Vella não cometeu um crime, apenas montou a paródia de um crime, trocando os termos… De um crime que na Sicília se perpetra há séculos”… (O Conselho do Egito)

“… tratava-se de defender o Estado  contra aqueles que o representavam, os que detinham o poder. O Estado detido. Era mister libertá-lo. Mas ele mesmo estava em detenção: só podia tentar abrir uma rachadura no muro”… (A trama)

Em  A cada um o seu, o fabuloso  Sciascia mostra o protagonista (um corretíssimo e quixotesco professor de literatura) indo ao fórum, para obter o atestado de antecedentes que lhe facultará a licença para dirigir: “Subia as escadarias, masoquistamente desenvolvendo aquelas apreensões que são típicas do italiano que está para entrar no labirinto de uma repartição pública, ainda mais dedicada à justiça”.  

Em nenhuma região da Itália essa desconfiança com relação à justiça enquanto instituição do Estado, enquanto instância que não combina com sentimentos atávicos e milenares, é tão profunda quanto na Sicília, e esse é o tema do paradigmático  O dia da coruja: o dirigente de uma cooperativa de construção, que recusou a “proteção” dos mafiosos locais (apesar de que, oficialmente, a Máfia não existe,é como se fosse uma lenda: “existiu alguma vez um processo que tenha concluído pela existência de uma associação chamada Máfia a qual atribuir, com certeza, o mandado e a execução de um delito? Foi, alguma vez, encontrado um documento, um testemunho, uma prova qualquer que constitua uma relação segura entre um fato criminal e a assim chamada Máfia? Faltando essa relação, e admitindo que a Máfia exista, eu posso dizer-lhe que é uma associação de socorro mútuo e secreto, nada mais nada menos como a maçonaria”) é assassinado numa aldeia e o encarregado da investigação é um “continental”, o capitão Bellodi [2]. Aqueles que são intimados para prestar esclarecimento, ao conhecerem o oficial, pensam: “os continentais são gentis, mas não entendem nada”. 

E realmente, Bellodi “não entende nada”: insiste em ligar o crime à ação local da Máfia (incomodando, com isso, várias instâncias políticas: deputados, senadores) enquanto todos propõe uma explicação “passional”, como raiz desse e de outros dois homicídios (uma testemunha incauta, que vira o assassino, e um delator): “um daqueles motivos passionais que, para a Máfia e a polícia são, em proporções iguais, um grande recurso. Desde quando,no súbito silêncio do seio da orquestra, o grito ´Mataram o compadre Turiddu` tinha, pela primeira vez, estremecido o fio da espinha dos apaixonados da ópera,nas estatísticas criminais relativas à Sicília e nas combinações do jogo da loto, entre chifres e mortos assassinados estabeleceu-se uma freqüente relação. O homicídio passional se descobre rápido e logo passa a fazer parte do ativo da polícia; o homicídio passional se paga pouco, e entra portanto no ativo da Máfia.”  

Ele coloca em detenção três suspeitos, e vai juntando provas irrefutáveis, que serão refutadas entretanto através da impostura, uma palavra cara ao universo sciasciano: cidadãos respeitáveis juntam-se para fornecer álibis para os culpados.

II-

Bellodi (“com a fé de um homem que  participou de uma revolução e desta viu surgiu a Lei; a esta Lei que assegurava liberdade, justiça, a Lei da República, servia e fazia respeitar. E se ainda vestia a farda, por circunstâncias fortuitas envergada, se ainda não havia deixado o serviço para enfrentar a profissão de advogado à qual era destinado, era porque o mister de servir à Lei da República, e de fazê-la respeitar, tornava-se cada vez mais difícil”)  pertence a uma categoria recorrente nos romances de Sciascia: o herói de antemão derrotado, de ação por fim irrisória, e resignado com sua derrota, como o investigador Rogas, de A trama ou o nobre libertário e iluminista de O Conselho do Egito, Francesco Paolo Di Blasi, sem falar no iludido e incauto professor Laurana, aquele mesmo que subia a escadaria do fórum em A Cada Um o Seu, o qual, ao contrário dos outros, nem faz idéia de onde está se metendo.

O Dia da coruja é uma narrativa maravilhosa, no seu registro dos costumes, da mentalidade e do dialeto sicilianos. O preciso e calibrado estilo de Sciascia faz dele o “inimigo mortal das palavras ocas” (como Goethe se caracterizou pouco modestamente na sua Viagem à Itália, ao chegar em Veneza), estas tão celebradas na Sicília como aqui no nosso país: “Bellodi contou a história do médico de uma prisão siciliana que enfiou na cabeça que ia retirar dos presos mafiosos o privilégio de ficar na enfermaria…O médico ordenou que voltassem às dependências comuns.. Nem os agentes nem o diretor deram seqüência às determinações do médico. O médico escreveu ao ministério. E assim certa noite foi chamado à prião…os chefões o espancaram, cuidadosamente, metodicamente. Os guardas não viram o nada… O médico foi exonerado de suas funções pelo ministério, visto que seu zelo era causa de distúrbios…Como não conseguiu obter satisfação pela agressão sofrida, procurou outro chefão da Máfia que lhe desse pelo menos a satisfação de mandar espancar, na prisão para onde tinha sido transferido, um daqueles que o haviam agredido. Teve, pouco depois, a confirmação de que o culpado já tinha recebido a surra que lhe competia”. 

 

(uma parte deste post foi publicada, de forma condensada, numa resenha em “A Tribuna” publicada em 11 de maio de 2010)


[1] Aliás, Borges é citado explicitamente no texto: “Fecho os olhos e vejo um bando de aves. A visão dura um segundo, talvez até menos. Não sei quantos pássaros vi. O número deles era definido ou indefinido? O problema abrange o da existência de Deus. Existindo Deus, o número era definido, uma vez que Deus sabe quantos eram os pássaros. Não havendo Deus, o número é indefinido, pois ninguém podia contá-los. Digamos, neste caso, que eu vi menos de dez pássaros e mais de um, mas não vi nove, nem três,nem dois. Vi um número de pássaros compreendido entre dez e um, e que não é nove, nem oito, nem sete, nem seis,nem cinco  etcetera. Ese numero entero es incocebible, ergo, Diós existe. Quando a breve página toma forma na sua memória do jeito que está aqui impressa, ele procura afastá-la do pensamento e voltar a prestar atenção no que o presidente dizia: mas com a impressão de que aquele bando de pássaros, que durante um segundo ou menos tinha passado voando pelos olhos fechados de Borges, fosse muito mais real, além de mais definido, do que o homem que estava falando e qualquer outra coisa ali em volta”.

[2]  Apesar da sua alta qualidade, as traduções de Fondelli & Eliana Aguiar cometem alguns pecados contra o pitoresco siciliano, ora adotando um tom muito formal, ora abrasileirando em excesso: por exemplo, uma das coisas mais saborosas desse e outros romances de Sciascia é o fato de que a hierarquia dos carabinieri ter suboficiais com títulos pomposos como “marechal” e “brigadeiro”, o que, convenhamos, dá maior sabor à sua subalternidade.

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