MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/06/2012

Borges: de que secretas regiões da astronomia ou do tempo, de que antigo e agora incalculável crepúsculo, haverá alcançado este arrabalde?

(esta resenha foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de julho de 2001, antes da Indústria Borges ser transferida para a Companhia das Letras; nesta nova fase, O LIVRO DA AREIA foi traduzido por Davi Arrigucci Jr.)

Além de editar a Obra Completa de Jorge Luis Borges (1899-1986), em quatro volumes, a Globo está relançando alguns títulos avulsos, que já trazem a bem-vinda mudança (na verdade, um resgate) do logotipo da editora.

E assim como fez a Companhia das Letras com as obras de Milan Kundera, os treze contos de O LIVRO DA AREIA (El Libro de Arena, Argentina-1975, em tradução de Lígia Morrone Averbuck) foram mesmo revisados (por Maria Carolina Araújo & Jorge Schwartz). Corrigiram-se, por exemplo, alguns trechos mal alinhavados em A noite dos dons; lia-se, antes: “Com uma chicotada, Moreira deixou-o estendido de costas no solo. Caiu de costas e morreu movendo as patas”; agora se lê algo mais eficiente e fiel ao original: “Com uma chicotada, Moreira deixou-o estendido no chão. Caiu de costas e morreu movendo as patas” (“De un talerazo, Moreira ló dejó tendido en el suelo. Cayó de lomo y se murió moviendo las patas”).

No entanto, o título anteriormente dado, A noite das dádivas, era bem melhor, e sente-se uma fidelidade demasiada ao espanhol em certas modificações. Por exemplo, se Borges pode colocar em seu original Adolfo Hitler, ao invés de Adolf, por que Adán de Bremen não pode virar Adão?

Em Como e Por que Ler, Harold Bloom afirma que o conto foi dominado, grosso modo, por duas tendências. Por um lado, a tchekhoviana, seguindo o impressionismo do autor de A dama do cachorrinho; por outro, a borgiana: “Em Borges, ouvimos a voz solitária de um elemento submerso no turbilhão, uma voz acossada por uma pletora de vozes literárias que a precederam (…) Borges encanta-nos e transporta-nos a um mundo de forças impessoais, onde a memória de Shakespeare constitui um imenso abismo, capaz de tragar-nos, fazendo com que percamos quaisquer resquícios da nossa pessoa”.

As palavras de Bloom caracterizam bem as narrativas (quase todas em primeira pessoa) de O LIVRO DA AREIA: nelas, encontramos solitários, senão misantropos: “Para um celibatário entrado em anos, o oferecido amor é um dom que não se espera” (Ulrica); “Por indecisão ou negligência ou por outras razões, não me casei e agora estou só. Não me dói a solidão, já é bastante esforço alguém tolerar a si próprio e suas manias” (O Congresso); “O homem esquece que é um morto que conversa com mortos” (There are more things); “Moro sozinho (…) Essas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia” (O Livro de Areia).

Acossados por situações fantasmagóricas, onde o “eu” se dilui e a experiência de vida se torna sonho, esses solitários nem sequer acreditam na alteridade, pois um torna-se o outro e uma experiência alheia tem o mesmo peso do sonho: “No curso fui muitos, mas esse torvelinho foi um longo sonho”, lê-se em Undr. Dessa forma,  duas posturas divergentes, como a dos acadêmicos que protagonizam O suborno acabam indiferenciando-se. Borges já fizera uma experiência inesquecível nesse terreno, em Os Teólogos, um dos seus maiores contos. Como diz o narrador de O Congresso: “Haverá na terra algo sagrado ou algo que não o seja?”.

Mesmo que tudo seja sagrado, em O LIVRO DA AREIA encontramos dois textos que despertam aversão: O Outro & Utopia de um homem que está cansado.

O Outro ainda tem a fascinante situação do encontro entre o Borges de quase 70 anos com seu “eu” de 18, onde semelhança e alteridade entram em discussão. O conto torna-se discutível e antipático quando percebemos que o enfadado escritor aproveita o encontro para desautorizar seu “eu” jovem, suas opiniões, suas paixões políticas. E lemos pérolas do tipo: “A América, presa pela superstição da democracia, não se decide a ser um império” !!!!????

Já o desagradável Utopia de um homem que está cansado, que irrita desde o título (se ele estava tão cansado, por que não se matou de uma vez?), narra uma visita de Borges ao futuro, o qual se apresenta árido, povoado por homens tão enfadados quanto ele próprio e que vivem uma espécie de nirvana auto-complacente, com direito a um elogio do suicídio. O tom é blasé, permitindo-se até uma brincadeira  leviana com o holocausto: “É o crematório… dentro, está a câmara letã. Dizem que foi inventada por um filantropo cujo nome, creio, era Adolf Hitler”!!!???

Nesses passos em falso do mais importante autor da segunda metade do século XX, sentimos que ele está retocando a imagem que esculpiu para a mídia, a sua personalidade-clichê. Mas seis outros textos é que compensam a leitura de O LIVRO DE AREIA: 1) o conto-título, no qual se imagina um livro monstruoso porque infinito e irrepetível; 2) O Congresso, talvez o ponto alto da coletânea, no qual uma confraria torna-se tão abrangente que se confunde com o universo, tal como já acontecera com a loteria da Babilônia, ou tal como a memória de Funes, que anulava-se por não ser seletiva, por se confundir com a experiência; 3) O espelho e a máscara e 4) Undr, dois relatos que se passam em países remotos e lendários, onde o universo  é reduzido a uma única palavra (que pode ser qualquer uma), e que trazem a marca do melhor Borges; 5) A noite dos dons (meu favorito pessoal) e 6) Avelino Arredondo, que se acrescentam a uma das vertentes mais férteis do grande escritor argentino, o uso da história e da mitologia dos pampas e da banda oriental (Avelino, por exemplo, é o uruguaio que assassina o presidente Idiarte Borda, em 25 de agosto de 1897).

Sendo uma das melhores obras da fase final de Borges, O LIVRO DA AREIA funciona tanto para o leitor que se inicia na sua leitura, servindo como ótima introdução, como também para o leitor já aficionado, que pode apreciá-lo (às vezes, não) no exercício de sua maestria, depois de passar pelos desafios das suas criações supremas, Ficções & O Aleph, diante das quais (e do seu autor) a reação coincide com a experimentada pelo protagonista no final da lovecraftiana There are more things: “Como seria o habitante? Que podia buscar neste planeta, não menos atroz para ele do que para  nós? De que secretas regiões da astronomia ou do tempo, de que antigo e agora incalculável crepúsculo haveria alcançado este arrabalde e esta precisa noite? (…) Meus pés tocaram o penúltimo lance da escada, quando senti que algo subia pela rampa, opressivo e lento e plural. A curiosidade pôde mais do que o medo e não fechei os olhos.”

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