MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/09/2013

De penetra na folia: os poemas de Eduardo Lacerda

IMG_0600outrodiadefolia (1)

PRIMEIRA PARTE

“Quanto há

de

penetra

no dono

da sua

própria

festa?”  (Trecho de Outro dia de folia, Eduardo Lacerda)

Provavelmente entrará na conta do absurdo um resenhista começar o elogio a um livro atacando o impulso que levou seu autor a concretizá-lo, o seu fundamento ético-existencial, por assim dizer, comportando-se como um convidado mal-educado e inoportuno.

Assumindo o contrassenso, devo dizer que, se projeto gráfico,  capa e ilustrações para Outro dia de folia são lindos (um trabalho inspirado de Leonardo Mathias; tivesse eu encontrado numa livraria, seria atraído para ele de imediato; pena que praticamente não se encontre livros da Patuá em livrarias não-virtuais), e se o conjunto de 37 poemas é um apurado cardápio, em suas ramificações do conceito de festa (ou a folia do título, palavra também associada à loucura, como se sabe), tanto na sua acepção de congregação, comunhão, conjunção, quanto na sua contraparte de alienação, solidão e disjunção (no livro, desdobrando-se em brinquedo/sonho/jogo/espetáculo/dionisismo/fogos de artifício/ blefe/logro…)–como veremos a seguir–, o também editor Eduardo Lacerda ultrapassou o limite de vagas para sua “folia” como poeta, abarrotando-a com gente demais, vozes demais, presenças demais, largando seu leitor num ambiente de algaravia, no qual ele se sente atordoado por apelos excessivos da decoração para conseguir prestar atenção no que realmente importa do evento: temos um prefácio (vezo malsão , cada vez mais difundido entre os jovens escritores), dedicatória (para a autora do prefácio, Aline Rocha, para os pais, e para 9 outras pessoas), epígrafes gerais e para vários poemas, dedicatórias em poemas específicos (são 18, 7 delas para pessoas a quem o volume já fora dedicado) e, no final, 27 encômios ao autor, dos quais 11 escritos por pessoas a quem se dedicou livro ou poema). Acabou?  Não, temos uma página de agradecimentos ainda (para mais de 100 pessoas)!!!??

Quando, porém, afirmo ter consciência do contrassenso da minha reação desfavorável a esse alarido de cumplicidade e afeto, é porque isso faz parte de uma escolha programática de Lacerda: “Se, para uma boa parte dos escritores, vale a afirmação de que escrever é um ato solitário, para mim escrever sempre foi uma experiência coletiva, feita entre amigos e cúmplices”.

Sob essa perspectiva, e sem que incorra aqui numa arenga dicotômica entre fazer literário e amizade, leitura e partilhamento, etc etc, não me resta alternativa senão me comparar ao penetra de festa alheia, em que, num cômodo qualquer, meio apertado, pude usufruir dos seus quitutes e iguarias. Tomara outros leitores possam curti-la mais à vontade, sem se preocupar com o entorno claustrofobicamente congestionado.

patua

SEGUNDA PARTE

Como

um equipamento

que

 

funciona, mas

apresenta

 

defeito,

 

em

algum momento

 

escolhi como gesto

 

algo entre

a dúvida

e o excesso… (trecho de Aceno)

Apesar de “festeiro”, chama a atenção a contenção de Eduardo Lacerda como artífice de versos. Eles geralmente são curtos, e  o trecho em epígrafe desta segunda parte é, nesse sentido, uma amostra bem adequada. Em sua sequência, ele também nos oferece um exemplo perfeito de um dos procedimentos mais interessantes de Outro dia da folia: mesmo tratando de situações que representam disjunções, alienação ou vicissitudes naturais da existência, o poeta se vale de um efeito parentético intenso (através dos próprios parênteses, ou de outros sinais gráficos, às vezes usando o itálico), como se, ao invés de digressão ou quebra de discurso, insinuasse que está tentando congregar, chamar à festa-brincadeira-espetáculo-jogo, mesmo que à primeira vista como discurso “em separado”.[1]

Vejamos a sequência:

…/se me dou meio abraço,

 

(pois isso é o que eu faço:

passo meu braço direito

pelo meu peito

 

e toco no meu ombro

esquerdo.)

 

o meu reflexo

quando me toco

e me chamo

 

e olhar para o outro lado./

Temos, então, barras que destacam uma parte do discurso, e dentro dessas barras o abre-parênteses desenvolvendo o que seria o meio-abraço, esse algo “entre a dúvida e o excesso”. É o discurso tomando um aspecto “festonado”; logo, o discurso “simples”(versos curtos e contidos) se engalana e exibe os seus festões.

…E se me ignoro, quando me chamo,

 

(quando toco meu ombro)

 

como a um aparelho

para que

pegue

 

no tranco,

 

eu me soco

 

para que aceite

 

o meu afago.

 

Não funciona.

 

Dar de ombros é

 

o meu aceno.

     No poema citado, outra característica evidenciada pelo conjunto: o aproveitamento significativo, verdadeiramente reflexivo, dos gestos banais da vida, transformados em expressões proverbiais, como “dar de ombros”.

É interessante oferecer outros exemplos desse desdobramento parentético tão bem-realizado em Outro dia de Folia. É o caso de Outro extremo:

O vizinho mudou de lugar

a caixa do correio

 

(Como se mudam cardumes

de peixes no meio

 

do mar.

 

/Quando há pesca

Fora de época/)

 

Conto isso porque o garoto

nunca mais fisgou,

 

pelas frestas

 

do portão,

 

as cartas de amor (sua primeira

literatura)

 

tão raras entre e

 

nem mesmo, as contas de luz

telefone, água

 

esgoto

 

impostos

 

cobranças

 

(acúmulos de mágoas, cartas datadas)

 

Antes da improvável

 

hora certa.

 

/Ele

 

depois pensaria

que se cortasse os dedos

e os desse de isca

aos peixes (os segredos

em mãos que não sabiam

escrever) enviaria cartas

 

a quem nunca mais

 

o escreveu/

Note-se a concentração e não a dispersão que esse desdobramento parentético fornece, livrando ao mesmo tempo, caso isso fosse necessário, o poeta da dicção poética regida pela facilidade. Além do mais, é muito bonita a associação da pesca com a atividade de tentar fisgar, pelas frestas, a vida alheia, sinalizada tanto pela  correspondência pessoal quanto pelos pequenos “nadas” cotidianos, tais como as contas e cobranças. Pela fresta, a festa íntima. E seus avessos.

Como já dito, o pêndulo oscila entre a reunião e a disjunção. Não à toa, no poema de abertura, A última ceia, temos um menino que se evade das “regras à mesa”, que lembram “um brinquedo/de quebra-cabeça”:

Já não me encaixo

depois que aprendi

 

a olhar de lado

e sair por baixo.

   Como se pode constatar facilmente, mesmo numa leitura superficial, Eduardo Lacerda não se furta de escrever versos fecundos em proverbialidade, ou seja, aqueles que se destinam, com a maior naturalidade ao citável, sem sucumbir à banalidade.

patua

TERCEIRA PARTE

Se 31 poemas compõem Festins, a outra seção do livro, Despachos, apresenta apenas 6 peças, uma das quais, Oxumaré, também é um ótimo para exemplificar o feitio de agregar parênteses (independentemente do sinal gráfico específico) que se desdobram:

A escada é uma serpente,

que se curva, e desce.

Como quem deve e descende

de quem sobe. E cresce.

 

Ela cresce a cada passo que

Me desse./ (Olho-a pelo

espelho). Olho-a pelo espelho,

sem olhar-me para trás.

 

(Lembro-a de pequeno—

não a sinto como hoje, mas

quando a subia com medo

como hoje não se faz–)

 

–tinha medo dos maus,

mas procurava-os

sempre abaixo, pelos

brilhos da cera,

 

(reflexos)

 

nos degraus.

 

(Eu nunca encontrei nada,

 

a escada é uma espiral.

:

impossível uma

queda

impossível um

tombo./

 

Sou a serpente, uma escada

que, em seu próprio lombo,

 

galga.

   Contudo, se fosse para apontar um poema que sintetize temas e procedimentos do livro, escolheria Domínio. Dedicado ao responsável pelo “visual” do volume, com uma citação de Orides Fontela (“Quebrar o brinquedo/é mais divertido”) e uma espécie de introdução em prosa, é composto por versos especialmente curtos:

Combinar o destino:

Cada peça

de pé

à

queda.

(ou que seja

isto, por impulso

desistência,

sono, leito

de jogo cansado,

ou apenas

dominó.

Infância, regra,

arte ou domínio.

Em círculo

[curto-circuito]

ou linha

reta.

Desenho que caiu

em si

ou não se combinou)

/desenho

do zero

na pedra,

ao número

infinito./

A queda ao

abismo

 

(movimento

ambíguo)

 

é um grito

uníssono: som

de osso

quebrando

ou de

fósforo

que risco.

/está grudado

ao ouvido:

zumbido, zumbido

móbile de

moscas (cabe o asterisco)

contínuo./

Som de algo

caindo.

Ou sendo chamado:

Uivo,

som

de livro

sendo

lido.

Som

De Livro

Sendo

Lido.

    Como de habitual na tradição do gênero, há uma poética, mesmo que implícita (colada a uma visão da vida “explícita”) em Outro dia de folia? Sim, e associada ao jogo, esse elemento de folia e aposta contrastado ao “não que cresce”[2], o inelutável fato de que

/a tristeza

é que

na vida não se

pode,

como no jogo

o roque/

e a encontramos no poema O falso enforcado:

Todo homem

é arcano

em seu jogo

e destino.

 

Digo,

 

Todo homem o enforcado. Todo homem seu demônio.

Todo homem seu impossível

 

significado.

 

O poeta, o poeta é sibilino.

 

Face à forca

 

ele força

seu pescoço

contra a corda.

 

acorda

o grito

 

vibra a

vida,

 

engasgada na garganta.

 

O poeta canta,

mesmo morto

a carta da morte.

patua

QUARTA PARTE

Portanto, o penetra tem muito a degustar nos festins insatisfatórios ou nas frestas proporcionadas pelo “não que cresce”, acompanhando o eu-lírico em sua conduta de olhar de lado, sair por baixo. Belas colocações e imagens felizes não faltam. Encontramos uma “falta de ter-te”[3]; o ovo-vida, se fosse possível lê-la [vivê-la), a vida, como o ovo-palavra, nos dois sentidos (no poema Ovo); o “blefe de um frio”[4]; o “músculo da água” rompido a nado, e em especial, o belo achado da “água-fátuo”[5], até pelo choque de gêneros, quase que evocando um choque de elementos.

Para encerrar essa minha quase clandestina folia dentro da folia, a atitude do gato do poema Fiel, com todo o seu significado de intrusão do princípio da realidade nos árduos jogos da sensibilidade:

Ele fareja, mas

ignora.

 

Ele não me espera,

do lado de

fora.

 

É só um animal

que não faz

nenhuma

festa.

 

E se engasga

com seu

bolo

 

de arestas.

(setembro de 2013, escrito especialmente para o blog)

EDUARDO-1


[1] E como que contrariando o título da primeira parte, Festins, pelo menos na acepção dicionarizada:

FESTIM- festa particular, ou em família, pequena festa.

Aliás, a imagem (carregada, em termos de afeto, de negatividade) dos fogos de artíficio remete—por associação—à  outra significação da palavra:

FESTIM- Cartucho sem projétil, usado em tiro simulado.

O ruído dos fogos de artifício indica a não-festa (o anti-lúdico), o princípio da realidade contra o princípio do desejo:

Tenho ido

um mínimo possível

pelo rastro

de fogos de artifício.

 

/Meus ouvidos

são só recusa ao

som de hinos.

 

(Não peço esmola,

ouço o que nos sobra

: ruído e disparo)/

Tenho ido

pelo mesmo caminho

contínuo.

 

E, antes que eu chegue, cheguem

Sempre à minha frente, sem festa

(e aos gritos), fogos de artifício. (Cantiga)

Dentro desse campo significativo, é curioso que haja um modo de andar (fruto de enfermidade), a “festinação”: “partindo devagar, vai paulatinamente acelerando o passo”. Veja-se o poema Trânsito:

Tenho andado errado:

o passo largo,

à frente do tronco (do

resto inteiro, do corpo,

este cimento).

 

Somente em sonho,

neste ligeiro

plano de

voo,

 

me alcanço.

 

Somente em trânsito

esbarro no que

reconheço,

 

no que sinto,

 

e estranho.

[2] Como lemos em Céu:

É como um não

que cresce.

Voa,

explode.

É como

existir um desenho

de mil fragmentos…

[3] …como uma falta de ar:

Ou uma falta

de ter-te. (em Para o grande amor)

[4] (Um

blefe

de um frio,

que se respira,

e exausta), versos de Iansã

[5] Ambas as imagens em Iemanjá:

…rasgará, a nado,

o músculo

da água.

(…)

…água-fátuo,

deixar-se-á, um pouco,

à matéria

que

engolirá, a seco,

o gole

do

santo

capa Outro dia de Folia-red

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