MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/08/2015

Edson Amâncio e uma linhagem literária a salvo de modismos: “Diário de um médico louco”

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[uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 26 de agosto de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/08/uma-literatura-salvo-de-modismos-edson.html]

«… já na minha infância fui tomado por estranhos pressentimentos e muitas vezes chamado de habitante “do mundo da lua”. De tal forma era envolvido por êxtases e arrebatamento da alma que me perguntava se não estaria vivendo um sonho. Que tipo de sortilégio me dominava o espírito ainda na minha mais tenra infância! Meus pais, cujo equilíbrio mental está exageradamente distante de exemplar, levaram-me aos curandeiros da vizinhança e um deles me faz passar a mais terrível experiência que uma criança é capaz de suportar. Colocaram-me nu, sentado no chão, coberto de folhas de bananeira de uma cabana e despejaram sobre a minha cabeça o sangue ainda quente de uma galinha esgorjada…»

1

Há uma vinculação óbvia que podemos fazer de Diário de um médico louco com certa linhagem na ficção cujo protótipo encontramos em Diário de um louco (1835), de Gógol: trata-se do discurso de alguém que já não distingue o que é realidade ou delírio, um discurso desassossegante porque deixa entrever que toda noção de realidade, no final das contas, não passa de uma ficção. É o reino de Poe, Dostoiévski, Hoffmann, Robert Walser, entre outros, além do já referido e paradigmático Gógol[1].

Como inserir, entretanto, o romance de Edson Amâncio na ficção brasileira atual, ainda mais quando ele utiliza o recurso consagrado, mas algo anacrônico (a não ser que seja retomado de forma paródica), tão século dezenove, de um primeiro narrador apresentar-se como depositário do diário do colega, que desaparecera?

Para agarrar o touro à unha (um ótimo livro de ficção, o qual parece um tanto desusado e deslocado na cena literária em voga), uso como arma a comparação: no caso, com  Tólia, um dos contos que Ricardo Lísias reuniu em Concentração e outros contos[2], e no qual o narrador (Ricardo Lísias) desiste de todos os seus investimentos existenciais (o xadrez, a literatura) e, na Rússia, se junta a uma comunidade mística,  dedicada ao silêncio radical e à reunião de Mestres dispersos pelo planeta, que possam levar a humanidade a outro estágio de evolução.

      Tólia faz parte de um recente ciclo na obra de Lísias (a que pertencem também romances como O céu dos suicidas e Divórcio), cujo tema recorrente são as experiências “malucas” e dissociativas de um protagonista homônimo (o qual se encontra um tanto quanto “surtado”) do autor.

Há uma etiqueta da moda para essa prática: “autoficção”. Experiências pessoais deformadas e reformatadas, criando um universo movediço, um terreno pouco firme (típico da pós-modernidade), onde o leitor perde a noção do que é fato e do que é forjado, “fingido” na vida do autor-personagem em questão.

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2

Na tentativa de derrubar o touro, pode-se enquadrar Diário de um médico louco também nessa linha, com a ressalva de que o narrador (chamado simplesmente Dr. B.) não tem, como nos exemplos mais notórios da autoficção, o nome do autor[3].

Faço tal alegação porque, sem dúvida, ali estão experiências vividas biograficamente (viagens a Paris e à Rússia, por exemplo; aliás, a pátria de Dostoiévski, como acontece em Tólia, ocupa largo espaço no romance:  « primeira vez eu viajava com quem chega a um lar durante muito tempo abandonado. Eu não era um turista, nem mesmo um simples viajante. Eu era um russo. Eu estava de volta à casa…»), com as quais ele joga de forma a desconstruí-las, ao contá-las sob o ângulo da consciência alterada e disfuncional: «… fui tomado de uma estranha sensação que já se apoderou de mim em outras ocasiões. É como seu eu estivesse vivendo outra vida, como se não fosse eu que estivesse presente ali naquele quarto, e um impostor tivesse se apoderado do meu espaço e do meu próprio ser. Naqueles poucos segundos transportei-me para os lugares mais recônditos de Petersburgo, aqueles lugarzinhos que eu já havia visitado de outras vezes, becos escuros onde se escondem os pequenos demônios russos, escadarias imundas e malcheirosas, por onde circulam bêbados e as mais disformes criaturas do submundo…».

A lógica que guia o percurso narrativo está contida na seguinte passagem: «eu não me esquecia de como utilizar meu endoscópio, mas era incapaz de encontrá-lo quando precisava»[4].

Médico em Santos (cidade no litoral de São Paulo), o Dr. B. narra como a pulsão do suicídio foi se inoculando em seu ser. Como tantos anti-heróis literários, ele também é visitado pelo diabo, e no ir-e-vir não muito cronológico e linear de seu diário, e em todas as anedotas biográficas[5], ele sente a presença zombeteira dessa entidade, instigando-o e espicaçando-o:  « Já lhes falei que o Mestre me visitou certo dia (os russos o chamam assim). Isso mesmo, o demo em pessoa (…) vejam a que ponto cheguei. Em poucos segundos vocês começam a imaginar que sinto falta dele. Explico melhor. Antes de tudo, é uma criatura sem travas na língua. Um conversador nato. Nada de monossílabos, como estamos hoje acostumados. A pessoa acomoda-se diante de você e não abre a boca. Ninguém mais sabe conversar…».    

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                                                            3

Portanto, Edson Amâncio poderia se gabar de ver seu romance associado a duas práticas recorrentes entre escritores jovens e “up to date”, e em vários deles (não Lísias decerto), tomadas como se fossem a reinvenção da roda: além da “autoficção”, a “intertextualidade”.

O que diferencia abissalmente Diário de um médico louco é que justamente a imersão na literatura (pois o Dr. B. é useiro e vezeiro na citação de autores) revela-se antípoda à usual complacência dos praticantes desse jogo metaficcional, pois ele nos reinsere no coração de uma linhagem criativa que propõe o mais doloroso e profundo diagnóstico das fraturas da condição humana, da situação aberrante de sermos criaturas tão racionais e ao mesmo tempo presas de instintos primitivos, de pulsões destrutivas e derrisórias. É o ato de escrever (sem se prender a modismos) conforme caracterizado com precisão por Pedro Meira Monteiro: «A escrita nunca é liberação. Quando escrevemos selamos acordos com uma corte de demônios que mal conhecemos».

E o uso de um alter ego negativo, o Dr. B, aponta justamente para o lado “saudável” da literatura: enquanto todo o universo da loucura, da fragmentação do ser, das dicotomias dilacerantes, aponta para o caos, para a ausência de sentido, o discurso literário—mesmo passando a pente fino toda essa realidade lancinante—é ainda a ordem, a coerência, a possibilidade de um “remate de males”, no mínimo.

Ricardo Lísias (enquanto personagem) e o Dr. B. perdem a partida contra a realidade, e mergulham no autoengano da loucura, procurando suavizar o estado de vexame existencial em que estavam mergulhados, como não-participantes funcionais do sistema social. Ricardo Lísias (enquanto autor) e Edson Amâncio nos proporcionam, paradoxalmente, a sensação de que a literatura ainda é um muro de contenção contra o caótico e o dissolvente[6].

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NOTAS

[1] A ligação mais gritante do autor de Diário de um médico louco, grande dostoievskiano, seria a princípio com narrativas febris e alucinatórias como O duplo (1846), não obstante esta não ser em primeira pessoa, ou Memórias do Subsolo (1864). Há episódios que evocam parodicamente cenas de obras dostoievskianas, como o pedido de perdão à prostituta, em nome da humanidade em geral, de Crime e Castigo (1866).

[2] Alfaguara, 2015 (o livro de Amâncio foi editado pela Letra Selvagem em 2012).

[3] Confesso-me um pouco avesso ao termo porque me soa a etiqueta nova de uma prática velha. Segundo Ana Maria Lisboa de Mello a tal da autoficção «reivindica para si a possibilidade de reconstrução livre, arbitrária e ficcional dos fragmentos da memória, sem compromisso com a transcrição literal dos acontecimentos». Ora, não é o que a literatura desde a quebra do classicismo sempre fez (a começar pelos autores arrolados no início do meu texto)?

André Bernardo, em matéria para a revista Metáfora (número 14), sumarizou as características recorrentes da “autoficção”;

-autor, narrador e protagonista têm o mesmo nome (coincidência onomástica);

– o tempo presente é predominante na narrativa;

– os limites entre memória, ficção e realidade se confundem;

-narrativa fragmentária, descentrada e não linear;

-sensação de work in progress, como se o leitor participasse da escrita do romance;

– postura de perplexidade e de questionamento do leitor.

[4]  Noutra passagem: «Termino-a (a vida, é claro!) muito melhor do que comecei. Hoje tenho meu endoscópio e uma profissão digna, nenhuma sinecura—rejeitei todas que se estenderam diante de mim. Vivo só, isso é verdade e lhes daria de presente mais um clichê, se não fosse abusivo e não quero parecer autoritário. Mas seja, vá lá: às vezes é melhor só. Agora, penso eu, devo voltar à análise do primeiro motivo verdadeiro que me levou inexoravelmente a essa estória do suicídio. É uma estoriazinha, não mais do que meia dúzia de linhas. Ei-la: eu vinha caminhando pela rua, o pensamento imerso nesse mar de questões que tenho levantado desde que completei 65 anos—curioso: faz exatamente 3 anos, 4 dias e 2 horas que os completei. Depois disso, não tive mais sossego. É como se aos 65 anos tivesse ocorrido na minha vida um divisor de águas. Algo assim: Pois bem, agora vai ser diferente. Vamos ao que verdadeiramente interessa: o suicídio! Dessa data em diante, não parei de pensar ´no assunto´. Sei que os aborreço com essas longas introduções e interrupções, mas me declaro incapaz de fazer de outra maneira. Vejamos. Eu, como já dizia, vinha caminhando. Ao passar por uma janela aberta, alguém, uma criatura da pior catadura possível, disparou uma cusparada. O míssil, se posso assim me expressar, por pouco não me atingiu em cheio, no rosto. Apenas um passo mais acelerado e isso fatalmente não teria acontecido. Mas, felizmente, aquilo me atingiu no ombro esquerdo. Eu havia olhado para o interior daquele cômodo miserável, onde pessoas trabalhavam, por mera curiosidade. Depois entendi que naquele quarto de subúrbio funcionava uma alfaiataria. O alfaiate, ao perceber que a cusparada havia me atingido, ficou paralisado, ainda com uma das mãos suspensas no ar para limpar os últimos resíduos de umidade nos lábios. Eu, de minha parte, também estaquei na calçada. Aquilo era demais. Vocês estarão loucos para saber como reagi, não é? Pois bem, imaginem-se, portanto, numa situação semelhante. Isso os possibilitará ter uma ideia do que aconteceu a seguir. Eis aí o cerne da questão…».

[5] Por exemplo, em Paris, é acometido pela tentação de roubar um desconhecido que sacara alta quantia no banco, e repassa cada giro mental—até atingir a ideia de latrocínio—a partir do impulso original, naquela mistura tão típica de método e racionalidade com estado-limite da mente.

[6] Aqui no blog há uma versão ampliada do texto, VER: https://armonte.wordpress.com/2012/11/27/destaque-do-blog-diario-de-um-medico-louco-de-edson-amancio/

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27/11/2012

Destaque do Blog: “Diário de um médico louco”, de Edson Amâncio

 

             

“E tenho especial apreço por meu aparelho de endoscopia e meus livros…”

 “Como estou inabalavelmente determinado  a continuar o diário—só Deus sabe se vou acabá-lo—preciso estabelecer regras fixas, pois me propus, também, antes do ´desfecho final´, a ler, como assinalei em outra parte, todos os livros da estante na ordem em que estão colocados…”

“… passo agora o dia todo a escrever o diário. Como essa tarefa deverá ser a última coisa que realizo e vida, dá-me prazer ainda maior do que o trabalho diuturno. Dá-me a sensação da onipotência, da onisciência, de ser dono dos meus dias, das minhas horas e minutos, da minha verdade enfim…”

(uma versão  da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, de 27 de novembro de 2012, com o título Uma literatura a salvo de modismos)

                                         I

Pensei muito no que poderia escrever a respeito da experiência da leitura de Diário de um médico louco que não fosse a óbvia vinculação a uma certa linhagem na ficção  cujo protótipo encontramos em Diário de um louco (1835), de Gógol[1]: trata-se do discurso de alguém que já não distingue o que é realidade ou delírio, um discurso desassossegante porque deixa entrever que toda noção de realidade, no final das contas, não passa de uma ficção. É o reino de Poe, Dostoiévski, Hoffmann, Robert Walser, entre outros, além do já referido e paradigmático Gógol.

Como inserir o romance de Edson Amâncio na ficção brasileira atual, ainda mais quando ele utiliza o recurso consagrado, mas algo anacrônico (a não ser que seja retomado de forma paródica), tão século XIX, de um primeiro narrador apresentar-se como depositário do diário do colega, que desaparecera?

Lembrei, então, de Tólia, conto de Ricardo Lísias publicado na GRANTA dedicada aos melhores jovens escritores brasileiros, em que o narrador (chamado Ricardo Lísias) desiste de todos os seus investimentos existenciais (o xadrez, a literatura) e, na Rússia, se junta a uma comunidade mística,  dedicada ao silêncio radical e à reunião de Mestres dispersos pelo planeta, que possam levar a humanidade a outro estágio de evolução.

Tólia faz parte de um recente ciclo na obra de Lísias (ao qual pertencem também os contos Meus três Marcelos, Evo Morales e o romance O céu dos suicidas), que tem como tema recorrente as experiências “malucas” e dissociativas de um protagonista homônimo (o qual se encontra um tanto quanto “surtado”) do autor. E é uma ótima amostra de uma prática que anda muito em voga, a autoficção: experiências pessoais deformadas e reformatadas, criando um universo movediço, um terreno pouco firme (típico da pós-modernidade), onde o leitor perde a noção do que é fato e do que é forjado, “fingido” na vida do autor-personagem em questão[2].

Posso me arriscar a arrolar Diário de um médico louco também nessa linha, com a ressalva de que o narrador (chamado simplesmente Dr. B.) não tem, como nos casos mais exemplares da autoficção,  o nome do autor. Faço essa alegação porque, sem dúvida, ali estão experiências vividas biograficamente (viagens a Paris e à Rússia, por exemplo; aliás, a pátria de Dostoiévski, como acontece em Tólia, ocupa largo espaço no romance: “Pela primeira vez eu viajava com quem chega a um lar durante muito tempo abandonado. Eu não era um turista, nem mesmo um simples viajante. Eu era um russo. Eu estava de volta à casa…”), com as quais ele joga de forma a desconstruí-las, ao contá-las sob o ângulo da consciência alterada e disfuncional (ao mesmo tempo, não se vexando em se valer de um topos literários já cristalizado no imaginário do leitor ocidental): “..quando fui tomado de uma estranha sensação que já se apoderou de mim em outras ocasiões. É como seu eu estivesse vivendo outra vida, como se não fosse eu que estivesse presente ali naquele quarto, e um impostor tivesse se apoderado do meu espaço e do meu próprio ser. Naqueles poucos segundos transportei-me para os lugares mais recônditos de Petersburgo, aqueles lugarzinhos que eu já havia visitado de outras vezes, becos escuros onde se escondem os pequenos demônios russos, escadarias imundas e malcheirosas, por onde circulam bêbados e as mais disformes criaturas do submundo…”

A lógica que guia o percurso narrativo está contida na seguinte passagem: “… eu não me esquecia de como utilizar meu endoscópio, mas era incapaz de encontrá-lo quando precisava.”

Médico em Santos, o Dr. B. narra como a vontade de suicidar-se foi se inoculando em seu ser. Como tantos anti-heróis literários, ele também é visitado pelo diabo, e no ir-e-vir não muito cronológico e linear de seu diário,  e em todas as anedotas biográficas (por exemplo, em Paris, é acometido pela tentação de roubar um desconhecido que sacara alta quantia no banco, e repassa cada giro mental—até atingir a ideia de latrocínio—a partir do impulso original, naquela mistura tão típica de método e racionalidade com estado-limite da mente), ele sente a presença zombeteira dessa entidade, instigando-o e espicaçando-o: “Já lhes falei que o Mestre me visitou certo dia (os russos o chamam assim). Isso mesmo, o demo em pessoa (…) Vejam a que ponto cheguei. Em poucos segundos vocês começam a imaginar que sinto falta dele. Explico melhor. Antes de tudo, é uma criatura sem travas na língua. Um conversador nato. Nada de monossílabos, como estamos hoje acostumados. A  pessoa acomoda-se diante de você e não abre a boca. Ninguém mais sabe conversar…”

                                      II

Portanto, Edson Amâncio poderia se gabar de ver seu romance associado a duas práticas recorrentes entre os “melhores” escritores jovens,  e em vários deles (não é o caso de Lísias decerto) , tomadas como se fossem a reinvenção da roda: além da autoficção, a intertextualidade. O que diferencia abissalmente Diário de um médico louco é que justamente o mergulho que nos proporciona na literatura (pois o Dr. B. é useiro e vezeiro na citação de autores) revela-se antípoda à usual complacência dos praticantes desse jogo metaficcional: pois ele nos insere no coração de uma linhagem criativa que propõe o mais doloroso e profundo diagnóstico das fraturas da condição humana, da situação aberrante de sermos criaturas tão racionais e ao mesmo tempo presas de instintos primitivos, de pulsões destrutivas e derrisórias. É o ato de escrever conforme caracterizado por Pedro Meira Monteiro: “A escrita nunca é liberação. Quando escrevemos selamos acordos com uma corte de demônios que mal conhecemos”.

E o uso de um alter ego negativo, o Dr. B, aponta justamente para o lado “saudável” da literatura: enquanto todo o universo da loucura, da fragmentação do ser, das dicotomias dilacerantes, aponta para o caos, para a ausência de sentido, o discurso literário—mesmo passando a pente fino toda essa realidade lancinante—é ainda a ordem, a coerência, a possibilidade de um “remate de males”, no mínimo.

Ricardo Lísias (o personagem) e o Dr. B. perdem a partida contra a realidade, e mergulham no autoengano da loucura, procurando suavizar o estado de vexame existencial em que estavam mergulhados, como não-participantes funcionais do sistema social. Ricardo Lísias (o autor) e Edson Amâncio nos proporcionam, paradoxalmente, a sensação de que a literatura ainda é um muro de contenção contra o caótico e o dissolvente.

ANEXO 1- TRECHOS SELECIONADOS DE DIÁRIO DE UM MÉDICO LOUCO:

“… já na minha infância fui tomado por estranhos pressentimentos e muitas vezes chamado de habitante ´do mundo da lua´. De tal forma era envolvido por êxtases e arrebatamento da alma que me perguntava se não estaria vivendo um sonho. Que tipo de sortilégio me dominava o espírito ainda na minha mais tenra infância! Meus pais, cujo equilíbrio mental está exageradamente distante de exemplar, levaram-me aos curandeiros da vizinhança e um deles me faz passar a mais terrível experiência que uma criança é capaz de suportar. Colocaram-me nu, sentado no chão, coberto de folhas de bananeira de uma cabana e despejaram sobre a minha cabeça o sangue ainda quente de uma galinha esgorjada…”

“Voltei do banco onde tive uma curiosa entrevista com o gerente.

     Ele disse que não havia saldo em minha conta. Exigi explicações (…)

__ Não há um único depósito na sua conta desde dezembro do ano passado.

__ Por que dezembro?-eu disse.

__ Ué! Sei lá!-respondeu.

   Pensei cá com meus botões: Esse sujeito está querendo me enrolar ou não passa de um biruta (…)

__ Dezembro é o mês do Natal, é ou não é?

__ Sim…

__ Acontece que no Natal costumo dar presentes. Vê se acompanha o meu raciocínio—falei pedagogicamente, já a ponto de perder as estribeiras.

__ Hum…-ele resmungou.

__ Pois bem- continuei- Se é Natal, e costumo dar presentes, é claro que tem de haver—acentuei o tem de haver- saldo em minha conta!

__ Sim- disse ele, e desta vez sorriu.- Desde que o senhor deposite alguma coisa.

__ Como assim? (Eu já estava além do meu limite—de paciência).

__ Simples- ele retrucou.-Basta o senhor colocar o dinheiro em sua conta. Dessa forma, poderá gastá-lo com presentes ou com o que for.

  Ora essa! Depositar em conta! Veja só…”

 

“Termino-a (a vida, é claro!) muito melhor do que comecei. Hoje tenho meu endoscópio e uma profissão digna, nenhuma sinecura—rejeitei todas que se estenderam diante de mim. Vivo só, isso é verdade e lhes daria de presente mais um clichê, se não fosse abusivo e não quero parecer autoritário. Mas seja, vá lá: às vezes é melhor só. Agora, penso eu, devo voltar à análise do primeiro motivo verdadeiro que me levou inexoravelmente a essa estória do suicídio. É uma estoriazinha, não mais do que meia dúzia de linhas. Ei-la: eu vinha caminhando pela rua, o pensamento imerso nesse mar de questões que tenho levantado desde que completei 65 anos—curioso: faz exatamente 3 anos, 4 dias e 2 horas que os completei. Depois disso, não tive mais sossego. É como se aos 65 anos tivesse ocorrido na minha vida um divisor de águas. Algo assim: Pois bem, agora vai ser diferente. Vamos ao que verdadeiramente interessa: o suicídio! Dessa data em diante, não parei de pensar ´no assunto´. Sei que os aborreço com essas longas introduções e interrupções, mas me declaro incapaz de fazer de outra maneira. Vejamos. Eu, como já dizia, vinha caminhando. Ao passar por uma janela aberta, alguém, uma criatura da pior catadura possível, disparou uma cusparada. O míssil, se posso assim me expressar, por pouco não me atingiu em cheio, no rosto. Apenas um passo mais acelerado e isso fatalmente não teria acontecido. Mas, felizmente, aquilo me atingiu no ombro esquerdo. Eu havia olhado para o interior daquele cômodo miserável, onde pessoas trabalhavam, por mera curiosidade. Depois entendi que naquele  quarto de subúrbio funcionava uma alfaiataria. O alfaiate, ao perceber que a cusparada havia me atingido, ficou paralisado, ainda com uma das mãos suspensas no ar para limpar os últimos resíduos de umidade nos lábios. Eu, de minha parte, também estaquei na calçada. Aquilo era demais. Vocês estarão loucos para saber como reagi, não é? Pois bem, imaginem-se, portanto, numa situação semelhante. Isso os possibilitará ter uma ideia do que aconteceu a seguir. Eis aí o cerne da questão…”

ANEXO 2- TRECHOS SELECIONADOS DE OUTRAS OBRAS:

Diários e narrativas em primeira pessoa disfuncionais (quatro amostras):

“Ela não me reconheceu, e eu mesmo procurei esconder-me ao máximo porque estava com um capote cheio de manchas e, além disso, de corte fora de moda (…) A cadelinha dela, que não conseguiu passar pela porta a tempo, ficou na rua. Eu conheço essa cadelinha: chama-se Medji. Eu mal havia passado um minuto ali quando de repente ouvi uma vozinha fina: Olá, Medji!. Vejam só que coisa: de quem será essa voz? Olhei ao redor e vi duas mulheres que passavam sob um guarda-chuva: uma velha, a outra bem mocinha.  Mas elas já haviam passado, e no entanto tornei a ouvir ao meu lado: Estás em falta, Medji!. Que diabo é isso! Vi Medji se cheirando com uma cachorrinha que vinha atrás das mulheres. Sim senhor!—disse eu cá comigo—mas chega; será que estou bêbado? No entanto, tenho a impressão de que isso me acontece raramente.—Não, Fidèle, não é o que pensas—e vi com meus próprios olhos Medji pronunciando essas palavras—, eu estive au! Au!Eu estive au, au, au! Muito doente.

  Ah, essa cadelinha! Confesso que fiquei muito surpresa ao vê-la falando como gente. Mas depois de compreender bem tudo isso, não me surpreendi mais…”

(Gógol, Diário de um louco, em tradução de Paulo Bezerra)

“Chegou-se à hospedaria. Entrei para o pequeno quarto que me foi designado. O pesado bafio do corredor sufocava-me. O porteiro entrou com a mala; a camareira acendeu a vela (…)

  A chama reavivara-se e iluminava o azul raiado de amarelo das paredes, o tabique, a mesa gasta, o pequeno divã, o espelho, a janela e a estreiteza de todo quartinho de hospedaria. E, de repente, o terror de Arzamas agitou-se dentro de mim. Meu Deus! Como farei para pernoitar aqui? (…)

   Passei uma noite horrível, pior do que aquela de Arzamas. Somente de manhã, enquanto atrás da porta começava o velho a tossir, adormeci; e não sobre a cama, onde tentara tantas vezes deitar-me, mas sobre o divã. Durante toda a noite sofrera de modo intolerável; de novo, torturantemente, a alma se destacara do corpo. Vivo, vivi, viverei ainda, e, de repente, a morte, o aniquilamento de tudo. Para que fim, então, viver? Morrer? Matar-se de repente? Causa-me medo. Estar assim esperando a morte, até quando chegar? Causa-me ainda mais medo. Viver, então. Mas para que fim? Para morrer? Não saía deste círculo (…) Deus fez isto. Com que fim? Não perguntes (dizem), reza. Bem: eu havia rezado, rezava ainda agora, como já havia feito em Arzamas. Mas lá, e depois, tinha rezado, simplesmente, à maneira dos meninos. Agora, ao contrário, a minha oração tinha um significado: Se Tu existes, revela-me então: para que fim, que coisa sou eu? Curvava-me para o chão, recitava quantas orações sabia, compunha orações minhas e depois acrescentava: Revela-me então! E ficava em  silêncio, à espera de uma resposta. Mas não havia resposta, como se não existisse nem mesmo alguém que pudesse responder. E procurava, então, dar-me qualquer resposta em lugar de quem não queria responder…”

(Tolstói, Memórias de um louco, em tradução de Oscar Mendes, ligeiramente adaptada).

“Pois aí está: foi, digamos, para me autoeducar, ou para me preparar para uma futura autoeducação, que me tornei pupilo deste Instituto Benjamenta, porque aqui nos prevenimos para o duro e o sombrio que está por vir. É por isso também que não escrevo para meus pais, porque já um simples relato me desencaminharia, arruinaria por completo meu plano de começar bem de baixo. Uma empreitada grandiosa e ousa precisa acontecer em silêncio absoluto, ou estará corrompida, debilitada, e o fogo já vivido tornará a se extinguir. Conheço meus gostos, é quanto basta. Ah, sim, ia me esquecendo. De nosso velho criado, Fehlmann, que segue vivo e servindo, tenho uma história divertida para contar. É o seguinte. Um dia, Fehlmann cometeu uma falta grosseira e seria demitido. Fehlmann, disse minha mãe, pode ir. Não precisamos mais de você. O coitado do homem, que acabara de enterrar um filho, morto de câncer (divertido não é), atirou-se, então, aos pés dela e foi logo suplicando clemência. O pobre-diabo tinha lágrimas nos olhos velhos. Mamãe o perdoou. No dia seguinte, contei o episódio a meus camaradas, os irmãos Weibel, que se puseram a rir muito de mim e a me desdenhar. Daí em diante,  passaram a me recusar sua amizade, porque, em sua opinião, vigorava em nossa casa hábitos demasiado monárquicos. Acharam suspeita a história de lançar-se aos pés de alguém e começaram a caluniar da maneira mais disparatada tanto a mim como a minha mãe. Como verdadeiros garotos, sim, mas também como verdadeiros republicanos mirins, aos quais o uso da clemência ou da inclemência, pessoal ou senhorial, inspira horror e repugnância. Como tudo isso me parece engraçado agora! E, no entanto, como esse pequeno incidente é emblemático do correr dos tempos. O juízo dos irmãos Weibel de outrora é hoje o do mundo todo (…) Devo me entristecer por isso? Nem me passa pela cabeça fazê-lo. Por acaso, sou responsável pelo espírito desta nossa época?”

(Robert Walser, Jakob von Gunten-um diário, em tradução de  Sérgio Tellaroli)

“Mantenho um diário porque gosto de escrever. Não pretendo mostrá-lo a ninguém. A vista anda  espantosamente fraca, não consigo ler quanto gostaria e, como não tenho outras distrações, estou sempre disposto a escrever para passar o tempo. Uso pincel grosso e escrevo graúdo para facilitar a leitura. Guardo o diário num cofre pequeno, não quero que ninguém o leia. Já lotei cinco desses cofres. Imagino que será melhor queimar os manuscritos algum dia, mas me agrada também a ideia de deixá-los para a posteridade. Às vezes, abro e releio alguns mais antigos e me espanto de ver como ando esquecido. Fatos ocorridos há um ano me impressionam com a força de uma novidade, não cansam de despertar em mim um agudo interesse.”

(Junichiro Tanizaki, Diário de um velho louco, em tradução de Leiko Gotoda)

A autoficção

“A autoficção reivindica para si a possibilidade de reconstrução livre, arbitrária e ficcional dos fragmentos da memória, sem compromisso com a transcrição literal dos acontecimentos” (Ana Maria Lisboa de Mello)

Características Recorrentes do romance de autoficção:

-autor, narrador e protagonista têm o mesmo nome (coincidência onomástica);

– o tempo presente é predominante na narrativa;

– os limites entre memória, ficção e realidade se confundem;

-narrativa fragmentária, descentrada e não linear;

-sensação de work in progress, como se o leitor participasse da escrita do romance;

– postura de perplexidade e de questionamento do leitor.

(fonte: A ficção da realidade? Ou a realidade da ficção?, de André Bernardo, Revista Metáfora 14)

A autoficção de Ricardo Lísias

“Esse silêncio me faz bem. O barulho da cidade me deixava aturdido. Para conseguir terminar a versão final de O livro dos mandarins, meu  último romance, cheguei a alugar uma casa de pescadores em uma praia isolada. Funcionou por algum tempo, mas percebi que eu mesmo produzia uma espécie de tumulto interno muito forte. Comecei a roncar. Estava agitado e infeliz: meu corpo não parava de fazer barulho.

   Fiz algumas tentativas depois de O livro dos mandarins, mas em poucos meses optei por abandonar a literatura para tentar me encontrar em algo mais silencioso: o jogo de xadrez.”

(Tólia)

“Minha mãe ficou um mês morando comigo em Campinas. Depois, cheia de medo, voltou para São Paulo. Nos finais de semana, meus dois irmãos vinham.

   Tenho algumas fantasias imaturas de provar-me forte: dessa vez consegui e nunca mais usei nenhum tipo de drogas. Comecei um longo tratamento psicológico. O meu grande medo era ver de novo os anõezinhos. Perguntei se sou esquizofrênico. Essa doença que nos faz ver coisas, anõezinhos nos rodeando. Depois de seis meses o terapeuta me respondeu. Nada disso, Ricardo. O seu problema é a memória.”

(Meus três Marcelos)

“Meu caro Evo, sinto-me um pouco mais animado hoje. Resolvi levantar-me da cama. Minha mãe me disse que logo devo ver o médico. Talvez até o final dessa semana. Ou na próxima, se estou bem lembrado. Não tenho mais passeado tanto lá fora. No inverno, o jardim não fica tão bonito. À rua, não nos deixam sair. Deve ser por causa deles lá, os que estão aqui por motivos psiquiátricos. Eu vim operar minhas bochechas. Nunca imaginei que uma simples operação plástica exigisse tanto tempo assim de descanso. Tenho ficado deitado. É o que mais faço. Não se trata apenas de um mero relaxamento. Às vezes acordo com um peso muito grande embaixo do peito. Por isso, prefiro ficar deitado. Se eu encher os pulmões bem lentamente, consigo manter um ritmo razoável de respiração. Só dá certo se eu me concentrar bastante. Mas esse nunca foi um problema para mim. Não me incomodo nem um pouco de ficar o dia inteiro deitado, já que não nos deixam sair à rua e o jardim agora no inverno não é tão bonito. Mas percebi que isso tem deixado minha mãe bastante aflita.”

(Evo Morales)

“Meu rosto ficou muito vermelho, mas a sensação de queimado que mais incomoda é nas orelhas. Na testa também é desagradável, porque com o suor a reação imediata é esfregar as mãos na pele. Dói. Depois que acordei na praia desse jeito, demorei algumas horas para acostumar. Resolvi não entrar na água. Voltei para o hotel, comi alguma coisa e saí para comprar uma loção para a pele. A balconista da farmácia insinuou que talvez fosse melhor ir ao hospital. Insinuei que talvez fosse melhor ela ir à merda.

  Telefonei para o herdeiro dos taxímetros e disse que não cuidaria daquela bosta. Vende para um desmanche, idiota. Eu queria perguntar uma coisa: por que vocês herdeiros querem sempre vender tudo? Porque vocês herdeiros só pensam em dinheiro.

   Fui direto à Fundação Arquivo e Memória de Santos. Pedi à mulherzinha que me atendeu todos os registros que pudesse haver sobre a presença de terroristas na cidade. Então, sua tonta, vou explicar melhor. Meu tio-avô trocou cartas, durante toda a década de 1970, com uma pessoa que vivia em Santos. Desconfio que essas cartas tenham ligação com o terrorismo. Não sei o nome da pessoa, minha senhora. Também não sei o endereço. Então a senhora vá tomar no cu.

   Como a maior biblioteca de Santos também é uma merda, voltei para São Paulo. Caí na besteira de atender o telefone e minha mãe insistiu em me visitar. Expliquei que não poderíamos nos ver porque eu viajaria para o Líbano a trabalho. Ela começou a chorar e eu bati o telefone.”

(O céu dos suicidas)


[1] Embora no caso de Edson Amâncio a ligação mais gritante seja com as narrativas febris e alucinatórias de Dostoiévski, como O duplo (1846), não obstante esta não ser em primeira  pessoa, ou Memórias do Subsolo (1864). Há episódios que evocam de forma paródica cenas de obras dostoievskianas, como o pedido de perdão à prostituta, em nome da humanidade em geral, de Crime e Castigo (1866).

[2] O próprio termo que utilizo no texto acima, “fingido”, que evoca a definitiva concepção do fazer literário de Fernando Pessoa, mostra que autoficção é um daqueles termos da moda que não trazem nada de novo, substancialmente. Fosse assim, o Marcel-personagem, de Em busca do tempo perdido, já seria uma experiência pós-moderna avançada. Não há nada de novo sob o sol.

DICA- Sobre o livro de Edson Amâncio acesse também:

http://revistapausa.blogspot.com.br/2012/11/lugares-para-se-matar-em-santos.html

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