MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/12/2012

O autor como personagem de si mesmo e dos outros: Edgar Allan Poe

 

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Nos 200 anos do nascimento de Edgar Allan Poe (1809-1849), o leitor pode encontrar duas obras sobre ele: a biografia-almanaque O Livro Completo de Edgar Allan Poe e o romance A Sombra de Allan Poe[1].

A biografia escrita por Shelley Costa Bloomfield é muito  prejudicada pelo bizarro aparato que cerca o texto principal. O livro se assemelha àquelas páginas da internet nas quais vão se abrindo janelas e janelas. O que parece evidente, no entanto, é a falta de confiança na inteligência do leitor, infantilizado por uma divisão idiota em subtítulos e janelas explicativas (pífias e cheias de informações banais) que fica mais chocante ainda porque o trabalho de Bloomfield, discutível na medida em que se deixou editar desse jeito, é bastante sólido: ela nos dá uma boa medida de como Allan Poe foi precursor de Fernando Pessoa em imaginar vidas alternativas à sua deprimente condição de pobreza, estendendo a literatura até os seus dados biográficos, incessantemente recriando sua ascendência e até seu nome.

Já o romance de Matthew Pearl mostra mais uma vez, após O Clube Dante, o domínio que ele tem do século XIX. A narrativa é feita por Quentin Hobson Clark, jovem advogado de Baltimore que, ao saber que seu ídolo literário morreu em sua cidade e foi enterrado de forma tão indigente, resolve investigar os fatos que cercam esse triste fim, como num relato policial. Ao fazer isso, perde sua posição social, sua noiva e até é preso, acusado de tentativa de homicídio, escapando da prisão de uma forma bem romanesca, durante uma enchente.

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Antes de ficar nessa situação que o irmana à vida terrível que Poe levou, ele vai a Paris em busca da pessoa que supostamente teria inspirado os dons de dedução e raciocínio do mítico detetive dos contos de Poe, Auguste Dupin. E aí Pearl tem o maior achado de seu texto porque aparecem em Baltimore dois candidatos que rivalizam para ser o protótipo de Dupin e dar a solução ao caso: o Barão Dupin, um charlatão, especialista em disfarces, intimidação e penetração no submundo, que conta com uma ladra assassina, Bonjour, para as suas ações, e o melancólico e aparentemente inerte (em termos de ação) Duponte, o qual se instala na casa de Clark e cuja principal ocupação é ler jornais.

As implicações da morte de Poe, segundo o relato de Clark, envolveriam até os problemas políticos da França e os parentes “americanos” de Napoleão.

A Sombra de Allan Poe tem seu calcanhar-de-aquiles no narrador: raras vezes se viu um protagonista tão tolo e bocó quanto esse Quentin Hobson Clark. Além disso, assim como na sua obra anterior, Pearl mostra que não aprendeu a grande lição de Edgar Allan Poe: a criação de uma narrativa enxuta, no tempo certo, em que o efeito é construído pela ausência de lengalenga. Umas cento e cinqüenta páginas a menos e o romance seria outro e melhor. E, por favor, outro herói, menos indigno do mestre.

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de janeiro de 2009


[1]  O primeiro, lançado pela Madras, com tradução de Soraya Borges de Freitas; o segundo, cujo título original é The Poe Shadow (EUA, 2006), traduzido por Maria Inês Duque Estrada (Ediouro).

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22/12/2012

O AMERICANO NADA TRANQÜILO: os 200 anos de Poe

Ver também no blog:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/06/para-seguidores-e-neofitos-de-poe-os-arabescos-de-contos-de-imaginacao-e-misterio/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/meu-duplo-no-meio-do-caminho-havia-um-superego/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/dr-fortunato-e-o-sr-valdemar-o-medico-e-a-cobaia/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de janeiro de 2009)

Por muitos motivos, Edgar Allan Poe (que nasceu em 19 de janeiro de 1809) é o mais importante escritor dos últimos 200 anos. Certos críticos (como Harold Bloom) se queixam da sua “prosa atroz” e lendo seguidamente sua enorme produção de contos constatamos diversos problemas que vão do pedantismo das referências até a repetição de soluções e a reiteração irritante dos mesmos motivos e do mesmo vocabulário, sem falar na monotonia da primeira pessoa que praticamente tem a mesma “voz” em quase todos os relatos.

O fato é que isso não importa: tal como Shakespeare, Poe é um fenômeno, o impacto cognitivo e imaginativo das suas obras supera a simples leitura e o fato literário e se estende por toda a cultura, nos mais diversos estratos. Esgotada a influência realista de um Balzac e de um Flaubert (pelo menos, no que diz respeito aos aspectos “óbvios” das obras desses autores), que mesmerizou por décadas a ficção ocidental, hoje vemos o alcance dos contos fantásticos do norte-americano: ele é perceptível na obra sofisticada de um Borges tanto quanto no gosto de um adolescente aficionado pelo gênero terror e que é discípulo de Poe mesmo que não saiba. Ironia à parte, é que ele sempre teve consciência disso, embora tivesse sido desprezado na sua curta e tribulada vida (morreu aos 40 anos).

Escrevendo visionariamente as obras que determinariam muito do nosso horizonte ficcional, aos 20 e 30 anos, ele não tinha tempo de burilar muito sua prosa mesmo (não que ela deixe de ter seus momentos da mais alta inspiração), bastava criar o seu legado inimitável, o efeito, atendo-se quase sempre (com exceções notáveis) a poucas páginas, de modo a criar um máximo de expectativa e não desgastá-la com um desenvolvimento excessivo.

Raciocinador sempre, malgrado o universo passional e tétrico que descortinou em sua ficção, não é à toa que ele praticamente criou (com Auguste Dupin) a figura do detetive que seu sucessor Conan Doyle iria cristalizar em Sherlock Holmes. E menos à toa ainda é ele ter criado uma fabulosa teoria poética para seu belíssimo poema O Corvo, que até hoje é discutida ardentemente.

Se não bastassem sua ficção e sua poesia, os ensaios filosóficos e os textos humorísticos de Poe mostrariam sua genialidade. Aliás, um conto filosófico de Poe deveria ser incluído entre os documentos que esclarecem ao ser humano o que ele é, mais do que ele pensa que é: falo do quase inacreditavelmente freudiano O Demônio da Perversidade:

“ …sob sua influência nós agimos pelo motivo de não devermos agir. Em teoria, nenhuma razão pode ser mais desarrazoada, mas, de fato, nenhuma há mais forte. Para muitos espíritos, sob determinadas condições, torna-se absolutamente irresistível… esta acabrunhante tendência de praticar o mal pelo mal. É um impulso radical, primitivo, elementar (…) Estamos à borda dum precipício. Perscrutamos o abismo e nos vêm a náusea e a vertigem. Nosso primeiro impulso é fugir ao perigo. Inexplicavelmente, porém, ficamos… uma forma se torna palpável, bem mais terrível que qualquer Gênio ou qualquer Demônio das fábulas. Contudo, não é senão um pensamento, embora terrível, e um pensamento que nos gela até a medula dos ossos com a feroz volúpia do seu horror. É, simplesmente, a idéia do que seriam nossas sensações durante o mergulho precipitado duma queda de tal altura… E porque nossa razão nos desvia violentamente da borda do precipício, por isso mesmo mais impetuosamente nos aproximamos dela. Não há na natureza paixão mais diabolicamente impaciente como a daquele que, tremendo à beira dum precipício, pensa dessa forma em nele se lançar.”

Infelizmente, embora haja uma Ficção Completa de Poe (pela Nova Aguilar), não temos uma edição satisfatória no Brasil dos seus Contos do Grotesco e do Arabesco, que universalmente ficaram conhecidos, graças a Baudelaire, como Histórias Extraordinárias.

Há um recente lançamento da Companhia de Bolso com esse título, utilizando uma insuspeita tradução de José Paulo Paes, mas é apenas de uma seleção que se limita a 18 textos, muito bem escolhidos, só que longe de ser completa ou mesmo ampla. Pelo menos ali figuram os contos obrigatórios, a quintessência de Poe . São eles, por ordem de preferência pessoal (embora esta ordem esteja sempre mudando, conforme os anos e as releituras), o extraordinário William Wilson, certamente a sua obra-prima, paradigma no tratamento do duplo; Berenice, cuja situação da amada sepultada ainda viva (além disso, há a horripilante fixação do protagonista nos “dentes” dela) Poe iria variar à exaustão, porém é certamente o melhor tratamento que ele deu a ela; O Gato Preto (que faz parelha com O Coração Delator, também presente na coletânea, pois ambos, o coração e o gato emparedado, denunciam o criminoso no momento em que ele ia se safar); O Homem da Multidão, do qual só se pode dizer, singelamente, que inventou o ser humano que ainda está andando pelas ruas nos dias de hoje; A Carta Roubada, o melhor dos contos de mistério policial escritos por Poe, muito superior a Os Crimes da Rua Morgue e Mistério de Maria Roget (entretanto, como não ler estas duas histórias canônicas, quase míticas?; mas atenção, elas não foram incluídas por José Paulo Paes); o maravilhoso O Caixão Quadrangular, que mistura relato de viagem aventuresca (onde os passageiros se tornam até náufragos) com um misterioso artefato a bordo, e que é uma das raras narrativas absolutamente perfeitas de Poe, do início ao fim; O Poço e o Pêndulo, cujas modulações narrativas encontramos até em Borges, e que quando garoto era o conto que mais me impressionava e dava medo (e relido agora não perdeu nada da sua força de pesadelo); A Máscara da Morte Rubra, onde a Peste aparece como “penetra” num castelo onde o Duque e mil convidados se mantinham isolados e protegidos (a descrição do cenário, dos sete salões, é uma das coisas que me autorizam a fazer a afirmação que abre este artigo); e, por fim, dentre os escolhidos, O Barril de Amontillado, a mais canônica das histórias curtas de vingança (outro com uma atmosfera cênica, a da adega labiríntica, alucinante).

Com relação ao tema da vingança, pena que Paes não incluiu outra variação excelente, Hop-Frog, história de um bobo da corte que se vinga do seu cruel senhor de uma forma terrível, assim como não incluiu o debochado Rei Peste I , no qual, numa área interditada porque empestada de Londres, dois marinheiros encontram uma estranha Corte.

No entanto, só me reservo o direito de lamentar, de fato, a não inclusão de um conto que para mim figura entre as grandes realizações imaginativas da literatura: Os Fatos do Caso de Mr. Valdemar (e que acho superior aos famosos, e cheios de detalhes impressionantes, mas muito não tão perfeitos, A Queda da Casa de Usher e O Escaravelho de Ouro), o outro conto de Poe que mais me aterrorizou na época das leituras de adolescência (ainda que meu preferido, desde então, fosse William Wilson), junto com O Poço e o Pêndulo. Como esquecer a história do moribundo que é mantido vivo à força pelo transe do “magnetismo”, e, quando libertado dessa influência (após sete meses)

“ … todo seu corpo de pronto, no espaço de um único minuto, ou mesmo menos, contraiu-se… desintegrou-se, absolutamente podre, sob minhas mãos. Sobre a cama, diante de toda aquela gente, jazia uma quase líquida massa de nojenta e detestável putrescência…”

Eis o resultado de uma ciência que pretende dominar o que está além do seu alcance, a ciência que faz emergir os Hyde dos doutores Jekyll. A ciência que não respeita os limites, sujeitando tudo e todos à idéia de um hipotético “avanço”. Como se vê, a morte foi detida. O resultado: um cadáver vivo. Apesar das suas grandes descobertas, invenções e tecnologias, eis uma boa descrição da ciência enquanto substituto da religião.

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