MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/05/2012

NEGÓCIO DA CHINA: Uma “escapada” dos tomos de 500 páginas

nota de 2012- Saiu uma nova edição de O MANDARIM pela Tordesilhas, muito bonita, fazendo jus ao aspecto devaneante e lúdico do livro de Eça.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de agosto de 2000)

Esta semana marca o centenário da morte de Eça de Queirós (16 de agosto). Leitura imposta no colégio, o autor de O crime do padre Amaro & O primo Basílio surpreende, entretanto, a cada revisão, pela sua genialidade. É um fato: quanto mais se lê Eça, mais ele se torna apaixonante e mais se percebe a riqueza multiforme de sua obra, a qual, de uma maneira ou de outra, escorre como areia da didática divisão em três “fases” distintas: 1) romântica, antes de sua adesão à escola realista-naturalista (são os tempos pré-Questão Coimbrã, tempos do Mistério da estrada de Sintra; 2) a programática tentativa de, bem mais do que descrever, radiografar, expor e desmascarar a vida portuguesa em todos os seus aspectos, seguindo os ditames do romance experimental de Zola (nessa fase enquadram-se seus três romances mais célebres: Amaro, Basílio & Os Maias; 3) neoromântica ou conformista, quando ele se volta a uma idealização heróica do passado português e da vida campesina (a essa fase pertencem A Ilustre Casa de Ramires & A cidade e as serras)…

O próprio Eça tinha consciência dos limites a que se impunha, ao aderir aos ditames naturalistas. Por isso, propôs a si mesmo uma “escapada”, uma pausa no reino do fantástico chamada O MANDARIM.

É a história de Teodoro, reles funcionário público lisboeta que, para animar sua vida medíocre e tediosa, tem o hábito de ler livros obscuros. Num deles encontra o seguinte desafio: se ele for capaz de tocar a campainha que está ao seu lado causará a morte de um mandarim chinês e herdará uma fortuna incalculável. O Diabo (vestido como um burguês, como mais tarde aparecerá ao Dr. Fausto de Thomas Mann) em pessoa aparece para persuadir Teodoro a tocar a campainha.

Ele o faz e torna-se um nababo. A sua existência de milionário é atrapalhada, contudo, por dois fatores: primeiro, ele sofre de um tédio incurável; segundo, o cadáver de Din Jin Fu aparece a ele em todos os lugares. Para aplacar o tédio e a consciência, resolve empreender uma viagem à China para, de alguma forma, retribuir aos chineses (ou pelo menos à família de Din Jin Fu) a sorte que lhe coube.

Não convém estragar o prazer do leitor contando os deleitosos episódios que acontecem a Teodoro na terra de Din Jin Fu. Só se pode antecipar que, saindo da China, o tédio volta e também a visão do cadáver inoportuno do mandarim, este vestígio do dia.

Será que O MANDARIM, mesmo fugindo do  figurino típico com que Eça exercitou o realismo, é tão diferente dos seus outros livros? Acontece que em todas as suas obras, mesmo as mais áridas do ponto de vista da ação, Eça foi um grande experimentador. Ele seria um maravilhoso caso a ser estudado por Harold Bloom no tocante ao famoso conceito da angústia da influência. Seus textos sempre são a história que contam, mas também a história da releitura que estão fazendo de outros textos. Um caso gritante (assim como a presença de Zola em O crime do padre Amaro), para ficarmos no óbvio, é a presença de Flaubert em O primo Basílio e Os Maias, os quais dialogam respectivamente com Madame Bovary e A educação sentimental. Isso, para não falar de diversos outros autores franceses. Aliás, em várias oportunidades Eça deixou claro a importação de modelos franceses em Portugal: “É que nós imitamos ou fingimos imitar a França em tudo, desde o espírito das nossas leis até a forma dos nossos sapatos, a tal ponto que, para um olhar estrangeiro, a nossa civilização, sobretudo em Lisboa, tem o ar de ter chegado ontem de Bordéus, encaixotada no paquete das Messageries…”


Desenvolvido a partir de uma anedota narrada em O Pai Goriot de Balzac, decerto uma das influências em O MANDARIM foi a dos contos filosóficos de Voltaire (Zadig, por exemplo).

Mas este artigo pretende chamar a atenção para o fato de que Eça apenas dissimulou o figurino realista, ou melhor, expandiu-o, carnavalizou-o e fez dele uma coisa mais maleável, inteligente e criativa, tal como fez nosso Machado de Assis (um tanto quanto desafeto do português, um caso de incompreensão fascinante) no curiosamente contemporâneo Memórias póstumas de Brás Cubas (ambos são de 1881). Em ambos, apenas simula-se uma situação fantástica inicial, tudo o mais serve para a crítica e o desmascaramento da sociedade burguesa, o centro gravitacional do realismo. Ao descrever sua situação de funcionário pobre, depois a existência como milionário, Teodoro não se afasta do mundo descrito por Eça em outras obras. Quando parte para o Oriente (uma atração recorrente em escritores da época, Flaubert que o diga), sua maior “aventura” será típica do anti-herói burguês que povoa o mundo do realismo (entre eles, o Brás Cubas machadiano): o adultério.

Todavia, o prisma de O MANDARIM que mais me fascina, e que prova como Eça era um gênio, um dos maiores do seu século, que nunca se limitou a nenhum molde, mesmo quando aparentemente o fazia, é sua convergência com um dos prolongamentos do realismo do final do século XIX: a literatura decadentista. Quando nos damos conta de que o grande oferecimento do Diabo ao homem oitocentista é apenas o extremo bem-estar material (ao contrário do que Mefistófeles oferecia a Fausto: o conhecimento e a juventude), a riqueza, a possibilidade de se entediar infinitamente no mundo do consumo, já estamos no umbral da angústia estéril e triste dos personagens de Oscar Wilde (O retrato de Dorian Gray) e Huysmans (Às avessas), personagens cujo conforto material, cuja vida sensorial exacerbada e sofistica, se alimentam de um grande vazio. Um estado de coisas que a narrativa de Teodoro resume muito bem: “…uma saciedade enervante mantém-me semanas inteiras num sofá, mudo e soturno, pensando na felicidade do não-ser…”

Portanto, a “escapada” dos “tomos de 500 páginas” que abordam apenas as “coisas entristecedoras e baixas, a mesquinhez dos caracteres, a banalidade das conversas, a miséria dos sentimentos”, mostra que ele fi capaz não só de se exercitar superiormente dentro do que se fazia de melhor na ficção de sua época (Os Maias é certamente um dos maiores romances) como também intuir e até indicar os caminhos secretos que “perverteriam” o realismo-naturalismo e modificaria a literatura até empurrá-la em direção ao modernismo.

18/03/2012

OUTRA CAPITAL, MAS NÃO TÃO DIFERENTE

eça à beça

a capital

(resenha publicada, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 25 de agosto de 2007)

A Capital!, romance engavetado por Eça de Queirós, após ter nele investido bons anos, quando então se deixou absorver por Os Maias (produção que o fez abandonar vários projetos, publicados apenas postumamente), ganhou uma edição brasileira que incorpora as modificações introduzidas pela edição crítica portuguesa (1992).

Ele aparecera inicialmente em 1925, um quarto de século após a morte de Eça, numa versão realizada pelo filho. Comparando agora as duas, vemos que as maiores diferenças ocorrem nos dois primeiros capítulos, a parte provinciana da trama (quando Artur Corvelo, o protagonista, após a morte do pai, tem de abandonar os estudos em Coimbra para “enterrar-se” com as tias em Oliveira de Azeméis). A grande novidade é a inclusão da prima Cristina, eliminada sem dó nem piedade na versão anterior (e o filho de Eça se refere explicitamente a ela, e aos seus motivos para fazê-lo, no prefácio que escreveu às obras então inéditas do pai), a qual enriquece extraordinariamente a história nesse ponto. Foi um grande achado de Eça e o maior mérito da nova versão foi resgatá-la.

Afora isso, nenhuma outra modificação ou acréscimo é substancial e, se  me é permitida  uma heresia, a tão condenada –por especialistas-  versão de José Maria (acusado de “ seleções e ordenações sem apoio em critérios adequados e justificáveis ou na consumação de alterações de grande envergadura”, escreve Elza Miné) acaba sendo a mais coerente e coesa, porque prima Cristina desaparece do resto do manuscrito (toda a imensa parte não-revista e não-retrabalhada por Eça). Para o leitor comum, talvez fosse preferível continuar-se publicando a versão mais coesa (e infinitamente menos mutiladora e censurada do que nos faziam pensar) e, num posfácio, à parte, essa outra demão, com a inclusão da memorável Cristina, nos capítulos iniciais.

Tais intervenções editoriais poderiam parecer muletas de um texto fraco e cujo interesse seria apenas adstrito ao conjunto da obra daquele que é, com toda certeza, o maior romancista da nossa língua. Não é o caso de A Capital! O livro não faz feio nem sequer colocado ao lado de Os Maias ou A ilustre Casa de Ramires, as obras-primas de Eça (ou melhor, um pouco mais obras-primas, uma cabeça a mais, digamos assim, do que os maravilhosos A Cidade e as Serras, O Primo Basílio ou O Mandarim). Não obstante a história ser bem previsível no seu feitio Ilusões Perdidas, de Balzac (moço provinciano ganha herança e vai para a capital, achando que ganhará celebridade, será amado,  só encontrando barreiras sociais, exploração e traições, voltando à província desenganado), mesmo nesse estado de primeiro esboço que boa parte do romance conservou, nota-se a assombrosa genialidade estilística de Eça, que o faz ser lido hoje com uma naturalidade que parece impensável associar a escritores contemporâneos  portugueses, e que não encontramos, por exemplo, nas traduções feitas em Portugal. No primeiro caso (dos escritores) parece estarmos diante de outra língua); no segundo, e sempre mencionando as exceções de praxe, de um incompreensível desejo de destruir qualquer prazer de leitura. O “rascunho” de Eça parece escarnecer desse afastamento que foi se formando entre as duas “línguas” com sua petulância, vivacidade e brilho Seria tarefa temerária começar a citá-lo, porque não teria fim.

Alguns podem argumentar que, se a história é previsível, o herói também é irritantemente ingênuo em demasia. Pois talvez esteja em Artur Corvelo o toque de gênio de Eça em A Capital!. E a nova versão veio contribuir decisivamente para essa impressão ao mostrar a sua complexa relação com prima Cristina, que o humaniza e o torna um legítimo predecessor do inesquecível Gonçalo Mendes Ramires.

Machado de Assis escreveu (no conto Miss Dollar, a respeito do seu “herói”): “Aceitemo-lo com seus ridículos; quem não os tem? O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento”. Ao descrever impiedosamente tanto o mundo da província quanto o da “deslumbrante” capital (deslumbramento que justifica a exclamação no título do romance), a mediocridade dos interesses, o horizonte plano que ela oferece ao protagonista e às suas ilusões, o malicioso Eça também nunca deixa esquecer o quanto essas ilusões tão grandiosas trazem de bêtise, o matiz flaubertiano da aventura balzaquiana, de estupidez. Afinal, trata-se de um cabeça de vento! Fica meses contemplando embevecido uma fachada de casa e lançando olhares de adoração porque crê que, ali, mora a eleita do seu coração, até descobrir que o vulto que via era de outra (“uma carinha pequena, de feições amarfanhadas, torcidas, os olhinhos, que tinham caspa nas pestanas, pareciam apenas dois buraquinhos negros”): “Oh! E fora aquele bicho que ele mandara o seu livro de versos! Fora para as janelas dela que ele mandara toda a sua alma, na adoração dos seus olhos!… Caiu-lhe na alma o vexame da sua existência:achou-se grotesco…” Aceitemo-lo com seus ridículos… Felizmente, para ele e para nós, que passamos a gostar tanto dele, ele possui outro tipo de lastro. Mas o mar da vida que nos é mostrado em A Capital! permite só a visão da navegação por meio do lastro do ridículo. Seria em A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e As Serras que veríamos outros ventos em ação. Mas aí são outros quinhentos, aqui são favas contadas.

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A Capital!, de Eça de Queirós (1845-1900).  Escrito entre 1877-1884. Editado originalmente em 1925. Edição de Luiz Fagundes Duarte & Carlos Reis. Editora Globo. 426 págs.

14/04/2011

Um decadentista fora da estufa: AS CIDADES E AS SERRAS

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de janeiro de 2001)

Para o leitor, o evento mais interessante do centenário da morte de Eça de Queirós (1845-1900) talvez seja o lançamento conjunto de A Ilustre Casa de Ramires (1900) & A cidade e as serras (1901) pela editora Hedra. Há muito tempo Eça não ganhava uma edição não-didática tão bonita e caprichada no Brasil, uma iniciativa editorial ainda mais pertinente porque também os dois romances também estão tornando-se centenários.

Nos dois, o protagonista é o último membro de uma antiga estirpe fidalga, com uma diferença fundamental: Gonçalo Ramires é um fidalgo arruinado; Jacinto (de A cidade e as serras) é riquíssimo. Mas ambos são decadentes e a narrativa apresenta sua reabilitação moral e patriótica, porque o destino deles espelha as preocupações e expectativas de Eça com relação a Portugal.

E é nesse sentido que ambos são injustamente desprezados por uma parcela da crítica, a qual vê neles a degringolada ideológica do combativo e anti-conformista autor de O crime do padre Amaro & O primo Basílio. Quando se elogia A Ilustre Casa de Ramires, e especialmente A cidade e as serras, é para exaltar o estilo, a qualidade do uso da língua portuguesa. Mas é uma visão muito pobre e insuficiente de duas obras-primas.

Examinemos primeiro A cidade e as serras, publicado depois de A Ilustre Casa de Ramires, mas cujo ponto de partida é Civilização, conto de 1892 (bem próximo, portanto, de Os Maias, de 1888, e muito próximo também de Às avessas—publicado em 1884—de Joris-Karl Huysmans, com o qual tem pontos de contato evidentes).

Em Os Maias denunciava-se o “anseio francês”, a imitação da civilização de Paris pelos portugueses, tanto que o herói, Carlos da Maia, terminava o livro morando em Paris, nada querendo saber da sua pátria. Em Civilização, Jacinto é ultra-sofisticado, um lisboetaparasiense, por assim dizer, e que, no entanto, morre de tédio, até que resolve visitar suas terras no interior e encanta-se com o mundo rural, como nos conta seu melhor amigo (um narrador para lá de mordaz), que dá um salto no tempo, quatro anos, para nos informar que o ex-paladino da civilização pelas serras interioranas permanecer: “Jacinto ainda habita Torges… Não faz a barba. Nos caminhos silvestres, pára e fala com as crianças. Todos os casais da terra o bendizem. Ouço que vai casar com uma forte, sã e bela rapariga de Guiães. Decerto crescerá ali uma tribo, que será grata ao Senhor”.

Em A cidade e as serras é a mesma história, o mesmo Jacinto hiperbolicamente cercado pelos produtos da civilização, e desta vez morando em Paris (nunca botou os pés em Portugal). Seu amigo, José Fernandes, preocupa-se (um pouco maliciosamente, é verdade) com o tédio e a saciedade bocejante que ele ostenta. E novamente são as serras (em vez de Torges, Tormes), a vida rural e bucólica, que resgatarão Jacinto dessa paralisia da vontade e do viver.

Civilização tem 15 páginas, A cidade e as serras tem 200. Por que ler a mesma história ampliada? Também não é romantizar demais o campo colocá-lo como pólo positivo de uma negatividade absoluta com relação a um estágio civilizatório artificial e neurotizante?

O fato é que Eça não apenas “ampliou” ou “esticou” a história de Jacinto. A mudança para Paris permite continuar de onde Os Maias parara, e propor uma reflexão sobre o fim de século europeu e todas as suas manifestações decadentistas. O mundo de Jacinto, do seu “lodoso fastio”, ecoa o mundo superabundante e saciado do Teodoro de O Mandarim, do Dorian Gray de Oscar Wilde, ou do Des Esseintes de Às avessas. Ampliando o conto no romance, o maior autor português taça um esplêndido painel urbano, e quem pensa que neurose de cidade grande ou obsessão por novas tecnologias são coisas dos dias atuais, que leia A cidade e as serras; além disso, a narrativa feita pelo amigo tornou-se mais sutil, menos afrontosamente satírica, enriquecendo com uma afável malícia que não deixa de trazer interessantes ambivalências psicológicas do narrador quanto ao seu herói.

Quanto à romantização da vida rural, é inegável. Felizmente, a narrativa indireta “protege” o texto, se se pode dizer assim, de qualquer kitsch bucólico. O recurso de fazer as desventuras iniciais e venturas posteriores de Jacinto em Tormes chegarem ao leitor pela voz narrativa de José Fernandes permite muitas ironias, matizes diversos, que relativizam bastante os chamados bordões do Arcadismo (o movimento literário do século XVIII, todo baseado no bucolismo) detectados no texto: o fugere urbem, a fuga do mundo falso e artificial da cidade, cheio de apelos debilitadores (segundo José Fernandes, ecoando Balzac, dois desejos insaciáveis movem o espaço urbano: o lucro e o gozo); a áurea mediocritas, a vida equilibrada, sem grandes paixões ou sobressaltos.

Agora pense, leitor: será que esses temas não estão sempre presentes? Ou melhor, eles não estão cada vez mais presentes?

Talvez a solução dada por Eça ao seu protagonista seja fácil demais (como diz José Fernandes, Jacinto tem os quatro elementos à sua disposição: o ar, a água, a terra e o dinheiro), mas ele estava repensando sua nação e o mundo europeu. E o estilo a que chegou é o máximo que se alcançou em língua lusitana.  Tanto que, ao reler A cidade e as serras para este artigo, eu comecei, como sempre faço, a anotar trechos que pudesse utilizar como citações. Depois de ter enchido 12 páginas em papel ofício, desisti. Mesmo assim, só para dar um gostinho da melhor escrita que se pode encontrar na nossa língua, veja-se esse momento em que o narrador mostra, como, na sua patuscada bucólica, Jacinto descobre, espantado, que há miséria nas suas terras, ao visitar a casa de uma camponesa: “…em redor, a natureza e o trabalho tinham, através de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiras cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam deliciosas para uma écloga aquela morada da fome, da doença e da tristeza…”


O engenhoso fidalgo Dom Gonçalo

O MEU EÇA FAVORITO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de janeiro de 2001)

A editora Hedra lançou uma caixa contendo A Ilustre Casa de Ramires (1900) e A cidade e as serras (1901), este último já comentado.

Agora é a vez de Ramires, aproveitando que Eça está na ordem do dia, com a exibição na tevê do filme Amor & Cia (simpática, porém pálida versão de Alves & Cia, um dos textos mais cínicos e cruéis do fantástico escritor português) e a estréia da minissérie Os Maias.

Em A Ilustre Casa de Ramires, Gonçalo Mendes Ramires, o Fidalgo da Torre, é um anti-herói. A expressão nunca foi mais adequada, tendo em vista que ele é o último representante de uma família aristocrática, mais antiga que o reino português, cuja história é repleta de feitos heróicos. Como símbolo da antiguidade e grandeza da estirpe, ergue-se a Torre de Santa Irenéia. À sua sombra vive Gonçalo, com uma modesta renda, sem poder fazer frente à posição de “mais genuíno fidalgo português”.

Sua vida, no buraco rural onde está enterrado, é um tecido de pequenas humilhações, contrariedades, covardias, bravatas e fantasias, em que aparecem alguns rasgos de generosidade e cavalheirismo. É como se concentrasse em si o pior e o melhor de sua raça.

Para aumentar um pouco sua renda, falta à palavra dada a um agricultor que desejara arrendar suas terras (e palavra dada era ponto de honra para os antigos Ramires). Para entrar na política, a “fenda no muro que o separa do futuro”, como deputado pelo seu distrito, ele se deixa subjugar pelo administrador da região, André Cavaleiro, antigo companheiro com o qual esfriara relações por causa de seu comportamento desprezível com a irmã, Gracinha Ramires. Por reatar interesseiramente a amizade com Cavaleiro, Gonçalo acaba amargando uma nova intimidade amorosa entre o administrador e Gracinha, agora casa. E, é como se ele tivesse consentido e aplainado o caminho para o sedutor.

Quando conhece melhor seus eleitores, que acorrem para votar nele maciçamente, devido aos rasgos de generosidade e cavalheirismo, Gonçalo percebe que não precisava ter se sujeitado a conchavos degradantes. Num momento doloroso de tomada de consciência, intui que, se permanecer em Lisboa como deputado, estará condenado ao servilismo e à bajulação para obter e manter cargos e mandatos. Por isso, resolve mudar radicalmente de vida, indo para a África (A Ilustre Casa de Ramires transcorre, como se sabe, numa época ainda colonial). No final, ele é comparado por um amigo à própria nação portuguesa, igualmente uma mistura contraditória de misérias e grandezas, de apego à realidade chã e de espera por milagres.

Paralelamente (e de uma forma que antecipa procedimentos da ficção modernista), o livro mostra Gonçalo empenhado na tarefa de fazer brilhar sua família, através de uma novela que narre os feitos de um antepassado medieval, Tructesindo Ramires. Além de parodiar o estilo dos romances históricos românticos, derivados de Walter Scott, Eça coloca em questão o próprio heroísmo façanhudo desses antepassados de Gonçalo. O “grande feito” de Tructesindo é de uma barbárie atroz: para vingar a morte do filho, ele ordena que coloquem o assassino num lago, localizado num lugar sinistro, para vê-lo sendo chupado por sanguessugas até a morte!

Eça faz confluírem no texto esse clímax da história medieval que Gonçalo está escrevendo e sua subseqüente eleição. Ao terminar sua “obra”, o último Ramires se desilude com esse mundo anacrônico e brutal que procurou evocar, tanto quanto se desgosta com suas mesquinhas maquinações e mazelas para se ver deputado. Esse desgosto duplo sinaliza que tanto ele quanto Portugal devem sair da sombra da torre do passado glorioso e se preocupar com o futuro, com o que está por fazer.

Portanto, o grande satirista, o mais irreverente dos autores, acaba tendendo para o espírito de redenção, mais do que para o da condenação pura e simples que governava obras como O crime do padre Amaro. Talvez se possa dizer que o final de A  Ilustre Casa de Ramires acaba sendo demasiado “arrumadinho”. Antes disso, entretanto, cria um inigualável retrato da vida rural portuguesa, e no Fidalgo da Torre seu personagem mais inesquecível, mais humano e completo, um daqueles personagens que parecem tão reais quanto qualquer um de nós.

OS MAIAS E A TRAGÉDIA DA MEDIOCRIDADE

(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 22 de agosto de 2000)

Uma estirpe ilustre. Uma sina monstruosa que se abate sobre ela: a ironia do destino torna amantes dois irmãos separados na infância. São elementos para tragédia, conforme aprendemos com os gregos. Não é, porém, o que acontece em OS MAIAS, de Eça de Queirós.

Temos efetivamente no livro uma família fidalga e todo o segundo volume gira em torno do incesto praticado pelo casal central, Carlos Eduardo e Maria Eduarda. Quando ambos descobrem seu parentesco não há, entretanto, o elemento trágico: ninguém se enforca, ninguém arranca os próprios olhos,  ninguém enlouquece, ninguém vira ermitão num penhasco inacessível. Todos tratam de tocar a vida para a frente, se possível com o máximo de luxo e conforto. Talvez a grande tragédia mostrada em OS MAIAS seja a tragédia da mediocridade.

Estamos longe do desfecho da história de amor entre os pais de Carlos e Maria Eduarda: a mãe deles abandona Pedro da Maia, o pai, fugindo com um italiano (e levando a filha); ele, após entregar o filho ao pai, Afonso da Maia (que fora contra o casamento), suicida-se.

Mas Pedro da Maia vivia num mundo de romantismo e passadismo, era um sujeito melancólico e mórbido. Carlos, o filho, pelo contrário, é guiado pelo espírito científico e materialista, que também é a bandeira assumida pelo seu melhor amigo, João da Ega. O vocábulo Ega lembra Eça e isso não é acidental, leitor: há muito do autor nesse personagem que é o mais marcante de OS MAIAS, responsável pelas suas frases-chaves.

Eça, aliás, para ser mais exato, parece ter se desdobrado entre Carlos e Ega. Fez algumas transposições biográficas para a figura de Carlos, como o fato de não ter sido criado pelos pais, injetando também algo de obscuro e vergonhoso no casamento dos pais do personagem, de forma a espelhar seu próprio nascimento. E projetou-se em Ega no plano intelectual e filosófico.

Os dois amigos, após estudos e viagens, fixam-se em Lisboa, onde a casa em que vão residir Carlos e o avô, o Ramalhete, torna-se ponto de encontro diário de um grupo exclusivamente masculino, o qual dá margem ao incomparável tanto caricatural de Eça de Queirós.

Carlos e Ega compartilham um mesmo defeito: com todo o seu esclarecimento e sua visão crítico-cínica do país onde vivem, eles não passam de diletantes, acomodados na sua confortável posição de rapazes endinheirados, ociosos, cujo maior passatempo é o adultério. Ega envolve-se com a esposa de um judeu, Raquel Cohen; Carlos, com a Marquesa de Gouvarinhos, casada com um importante político. Essas diversões à primo Basílio ocupam a maior parte do primeiro volume. Mais tarde, ele se interessará por Maria Eduarda, supostamente esposa do brasileiro Castro Gomes. Ela é alvo, também, das atenções de um dos mais admiráveis personagens de OS MAIAS: o repelente Dámaso Salcede, obcecado pelo que é chique e uma verdadeira personificação da mediocridade imperante.

Carlos até que tem planos grandiosos: formado médico, abre um consultório luxuoso. Só que, como não há praticamente clientela, ele passa os dias dormindo ou matando o tempo de alguma forma. É o seu status de médico, contudo, que o aproxima de Maria Eduarda, pois ela o chama para tratar da preceptora da filha, durante uma prolongada ausência do suposto marido.

O caso de amor entre os dois desdobrar-se-á em duas revelações tempestuosas: primeiro, Maria Eduarda não é casada com Castro Gomes, sendo apenas sua manteúda; segundo, a descoberta do incesto. Que, enfim, serve como alavanca para que ele abandone Portugal e passe a residir em Paris, concretizando o anseio francês que toma conta de quase todos os personagens do romance.

O único realmente afetado de forma trágica pelo aspecto de maldição que reveste o encontro dos irmãos, talvez por ser um glorioso representante do passado, é o avô (que parece ser o único personagem poupado pela corrosiva ironia do autor): “…afastou-se, todo dobrado sobre a bengala, vencido enfim por aquele implacável destino que depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho, o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto…”.

Muitos reclamam que não acontece praticamente nada em OS MAIAS, especialmente no primeiro volume. Quem sobreviver a ele constará que pouquíssimos romances conseguiram retratar de maneira tão poderosa um determinado tipo de sociedade. E com tal genialidade literária, de um modo tão natural e coeso, que é impossível saber o que é mais impressionante, se o ato narrativo, se o ato descritivo (e pouquíssimos romances fizeram uso tão majestoso e orgânico da descrição), se os diálogos incríveis.

Como já afirmei, a propósito de O mandarim,  muitos dos livros de Eça foram releituras de outros livros. OS MAIAS recria no contexto português A educação sentimental (1869), de Flaubert. Seria muita impertinência e ousadia dizer que a releitura supera o original? Concordando-se ou não, seria bom que a publicidade em torno da data centenária motivasse um conhecimento mais amplo da maior obra de ficção da literatura portuguesa, pois embora OS MAIAS seja a obra-prima de Eça de Queirós sempre perdeu longe em popularidade para O crime do padre Amaro e para O primo Basílio e, nos últimos anos, para A cidade e as serras e A Ilustre Casa de Ramires (que estão em alta), e até mesmo para A relíquia (o qual nunca teve um consenso por parte dos críticos). Por isso, é ótimo que finalmente apareça uma edição brasileira acessível, como a da Ática, de um livro que é, em última análise, bem pouco conhecido.

Só assim o leitor poderá verificar por si mesmo se é justo o mortífero diagnóstico que ali se faz do homo lusitanus: “indivíduo inferior que se governa pelo sentimento e não pela razão”.

nota de 2011– Não sou fã do novelão pseudoviscontiano que Luis Fernando Carvalho extraiu de Os Maias (com contribuições de A relíquia). Faltou a viga principal da construção: o olhar sarcástico de Eça. Como sempre, Carvalho se leva a sério demais. Está para Eça como Franco Zefirelli para Visconti.

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