MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/07/2011

Os prazeres do épico infinito: a obra inacabada de Alexandre Dumas

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MAIS VERDADEIRO QUE A HISTÓRIA

    Publicado de forma seriada em 1869, e depois interrompido, O Cavaleiro de Sainte-Hermine ficou esquecido até que, num trabalho quase detetivesco, Claude Schopp, especialista na obra de Alexandre Dumas o “reconstruísse” na medida do possível: apesar de suas mil páginas, o último romance histórico do genial criador dos Três Mosqueteiros e do Conde de Monte-Cristo permanece incompleto.

    Para o leitor, pouco importa. Prosseguindo a titânica ambição de Dumas de retratar a história da França desde o Renascimento, a trama é um colossal afresco da época em que Napoleão passa a ocupar o palácio das Tulherias, voltando do Egito como Primeiro Cônsul na França pós-revolucionária (e tendo de enfrentar as dívidas de sua esposa, Josefina).

    O protagonista é Hector de Sainte-Hermine, cuja família se opôs à Revolução. Resultado: o pai e os dois irmãos foram executados. Um deles era um dos líderes do bando de assaltantes cavalheirescos e honrados conhecidos como “companheiros de Jeú”, os quais se apropriam apenas do dinheiro do governo, nunca de particulares, e, quando preso e julgado, tenta se apunhalar antes da decapitação, contudo sua extrema vitalidade o impede de morrer, e mesmo após ser guilhotinado, “sua cabeça, em vez de cair no cesto como as outras, pulou por cima, rolou toda a extensão da plataforma, vindo cair no chão. Abri, numa sacudidela brutal, a fileira de soldados que continha a multidão e deixava um espaço vazio entre ela e o cadafalso e, jogando-me, antes que conseguissem me deter, sobre aquela cabeça querida, tomei-a nas mãos e beijei-a. Seus olhos tornaram a abrir-se, seus lábios estremeceram sob os meus. Oh, juro por Deus, ela me reconheceu”. Hector relata esses fatos descabelados para sua amada, Claire de Sourdis, amiga da enteada de Napoleão. A princípio, ele não se atrevia a se aproximar dela porque havia se tornado um Jeú por conta da sina fatídica que obrigava um membro masculino a suceder o outro na tarefa de vingar a honra familiar (destino ao qual adere Hector de muito má vontade uma vez que admira o futuro imperador, o qual, de fato, da maneira como Dumas o retrata, ofusca inequivocamente o herói da narrativa aos olhos do leitor).

    Por sorte, o chefe dos Jeús, Cadoudal, aceita fazer um pacto com Napoleão, retirando-se para a Inglaterra e “liberando” seus seguidores. Mas Fouché, chefe da polícia napoleônica, é destituído oficialmente do seu cargo, e para obtê-lo de volta cria um falso grupo de Jeús, que comete barbaridades, o que deixa Cadoudal ultrajado e faz com que ele obrigue os “companheiros” a retomarem seu juramento como legítimos Jeús. Assim, na sua própria recepção de casamento (tendo Napoleão como padrinho), numa cerimônia que atraiu toda a alta sociedade francesa, Hector é obrigado a desaparecer, cumprindo o vaticínio de uma vidente, que dizia que Claire seria a “viúva de um marido vivo e esposa de um marido morto”…

    E esse é apenas um dos fios de uma trama multifacetada e fascinante, até às vezes confusa, porque o autor a estilhaça, sem muito rigor de ordenação, em mil sub-tramas. A questão é que cada uma delas é interessante por si só. E o que as unifica milagrosamente é o desejo oceânico de Dumas de dar conta da França inteira no seu relato (e de uma Providência que solapa a ação individual, mesmo que seja a de um Napoleão). Ao responder críticas sobre o livro, ele disse que havia os que escreviam sobre a história baseando-se em documentos oficiais e os que (como ele) perseguiam a história nos pequenos detalhes recolhidos das memórias da época: “Seguindo esse método, entrando nesses pequenos detalhes, é que escrevi quatrocentos volumes de romances históricos mais verdadeiros que a história”. Sorte nossa.

 (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA, de Santos,  em 20 de junho de 2009)

O ÉPICO E O ULTRA-ROMÂNTICO

Comentando O Cavaleiro de Sainte-Hermine, último romance (1869)  fiz o mesmo que Alexandre Dumas na primeira metade da trama: submergi o destino do herói no imenso oceano das conspiração à volta de Napoleão. Depois de esmagá-las, o futuro imperador, em 25 de junho de 1804, volta a ser alertado por seu ministro da polícia, Fouché, sobre o destino a ser imposto a Hector de Sainte-Hermine, encarcerado há três anos por seguir (a contragosto) a sina familiar, marcada pela fidelidade à monarquia.

    A partir daí, Hector assume de fato a própria história: indultado por Napoleão, com a condição de “sumir” da sociedade e engajar-se como soldado raso ou o mais reles dos marinheiros, a conselho de Fouché  se incorpora, com o nome de René, à tripulação de um navio corsário (que tem mais a ver com a atual marinha mercante do que com pirataria tal como a imaginamos;aliás, se dêssemos o mínimo crédito à descrição da vida marítima e miitar de O Cavaleiro de Sainte-Hermine teríamos de considerar todos os marinheiros e oficiais franceses como seres dotados do mais profundo cavalheirismo, senso de honra e de apreciação do próximo, embora  o livro seja coalhado de saques e assassinatos).

     Ali, ele realiza feitos notáveis (é praticamente  um super-herói de tanto que o autor exagera seus atributos, que vão da força física ao talento poli-instrumental) e torna-se proprietário de uma chalupa, que o levará, e às primas (às quais salvou do estupro sem se dar a conhecer como parente), à Birmânia. Assim, a narrativa que começou na França, estende-se para os mares e para as terras longínquas exóticas que o colonialismo vai abrindo para a imaginação européia.

    Na Birmânia, um quase antipático René mata tigres, cobras imensas, incendeia uma mata, numa desfaçatez ecológica que nos horroriza hoje em dia, mas que não causa o mínimo espanto nem nos personagens nem no autor. Além disso, assiste o definhamento da prima, Jane, que o ama (só que sabemos que ele não pode amar outra, após ter sido banido e perder a sua amada, Claire de Sourdis), com quem mantém belíssimos diálogos sobre a alma e Deus (um ponto alto do texto). Ela se suicida (fazendo uma feiticeira local picá-la com uma cobra), ele parte, chegando à Europa justamente quando Napoleão se prepara para a guerra com a Inglaterra. Ainda como René, se engaja num dos navios que participam da célebre Batalha de Trafalgar, na qual o Almirante Nelson destrói a esquadra francesa e, no entanto, morre atingido por um tiro que a narrativa insinua ter sido endereçada pelo seu herói (é um dos elementos constitutivos da sua “lenda” posterior). Aprisionado, René salva o navio em que está sendo levado para a Inglaterra do naufrágio, e na Irlanda consegue fugir. Voltando à França, apesar dos seus feitos, esbarra na má-vontade de Napoleão, que não o condecora nem o admite como oficial. Graças a Fouché e seus “conselhos”, ele parte para a Itália (que na verdade é uma colcha de retalhos de pequenos reinos) e, ali assume uma terceira identidade, o conde Léo, que perseguirá, com sua tropa de cinqüenta atiradores, bandidos locais que auxiliam os ingleses e os monarcas depostos.

    O livro repete a seguinte estrutura: René-Hector-Léo aparece em determinada situação (navio corsário, batalha de Trafalgar, caça ao banditismo) como um desconhecido e comete algum ato prodigioso. Essa proeza garante que ele fique próximo ao comandante em cena, que lhe dá liberdade para agir ao seu talante, o que propicia mais proezas e mais admiração. É um esquema muito simples,nem por isso menos eficiente.

De fato, para nossa tristeza (até para quem tem reservas quanto ao herói), esse triunfo do épico se interrompe justamente quando o conde Léo está caçando um facínora, o “Bizarro” (só que aí já foram 1.014 páginas fascinantes). O organizador do texto, o zeloso Claude Schopp fez uma escolha interessante: escreveu ele mesmo o resto do episódio e até que não fez feio, utilizando inclusive os truques dumasianos como a inclusão da correspondência dos personagens históricos.

    Depois, há uma solução de continuidade porque os três derradeiros capítulos (que foram encontrados num arquivo em Praga) já mostram o conde Léo a serviço do imperador, e já envolvido na Grande Guerra, da qual sempre ambicionou participar (além disso, ele recupera sua aura de herói byroniano, melancólico e mórbido). Pena que o mundo foi se alastrando no romance e não houve tempo de terminá-lo (haveria como?). É o velho adágio, a vida é curta, a arte é longa. Mas ninguém vai se arrepender de começar esse infinito O Cavaleiro de Sainte-Hermine.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos,  em 30 de junho de 2009)

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IMPRESSÕES DA LEITURA DIÁRIA (de  13 a 25 de junho) 

                                                                                  I          A editora Martins lançou o último romance (que ficou incompleto) do genial Alexandre Dumas (1802-1870), que só foi publicado em livro (saiu em folhetins ao longo de 1869) em 2005, na França, após uma década e meia de trabalho detetivesco para reconstituí-lo: O cavaleiro de Sainte-Hermine, continuação de um grupo de romances (Os azuis e os brancos, Os cavaleiros de Jeú) que abordam o período napoleônico (por exemplo, a intriga do romance que comentarei esta semana começa em 1801, quando Napoleão se instala nas Tulherias).

       Incompleto que seja, é uma delícia de ler, Dumas deveria ser estudado não só literariamente como também em cursos de criação de roteiros. Com sua experiência no teatro, ele consegue nos fazer “ver” as cenas através de diálogos admiráveis, rápidos, cinematográficos. Já trezentas páginas (são  1047) e nem sei por onde começar a comentar: de cara, além dos diálogos, impressiona a maneira imparcial como Dumas, como grande espírito épico que era, aborda tantos os republicanos quanto os monarquistas. Além disso, a figura de Napoleão é tratada de forma particularmente inspirada, chegando quase a ofuscar a trama central. Na verdade, talvez seja essa a alma do romance: o fascínio pelo destino de Napoleão. Espero ao longo da semana comentar as teorias de Dumas sobre o romance histórico (e também de que forma o destino da sua família, através do seu pai, está ligado a Napoleão), mas antes de mais nada devo dizer que a sua ambição enquanto romancista era criar um vasto painel, desde a época do Renascimento, no qual, mais do que cada indivíduo importante na história da nação francesa,a FRANÇA fosse o personagem central: uma espécie de “comédia humana” em que a história da França fosse o fio condutor.

     O que me impressiona constatar agora, depois que li tanto Dumas quando pré-adolescente (“Os três mosqueteiro”, “O conde de Monte Cristo”, “O máscara de ferro”) é ver como ele era um escritor consciente e refinado. Acho que vou sofrer sempre de uma síndrome de Peter Pan literária porque não consigo deixar de voltar aos mestres da narrativa de aventuras (pelo menos, na superfície) dos meus tempos de garoto (Verne, Twain, o Stevenson de “A ilha do tesouro”, já que conheci o Stevenson de “Jekyll e Hyde” e “O clube dos suicidas” um pouco mais tarde, o próprio criador de D´Artagnan). Quanto mais volto a eles, mais os acho geniais.

     Bem, voltando à trama de O cavaleiro de Sainte-Hermine, Napoleão voltou da campanha do Egito, tornou-se o Primeiro Cõnsul, mora nas Tulherias com Josefina, a qual está sendo acossada pelos credores e tem medo de falar ao marido o montante das dívidas. Napoleão por sua vez consegue a palavra de Cadoudal, grande monarquista e líder dos chouans (grupos monarquistas que se sublevaram na Bretanha) de que vai viver tranquilo no exílio na Inglaterra (devo dizer que Cadoudal é um personagem inesquecível), além de conseguir desbaratar os cavaleiros de Jeú, bandos de assaltantes cavalheirescos, que não roubam particulares, apenas dinheiro do governo :há um episódio delicioso em que um particular teve seu dinheiro roubado durante um assalto e está reclamando numa taberna, justamente onde está, disfarçado, Napoleão, e então aparece inopinadamente o líder dos jeús, mascarado, pede perdão pelo equívoco e lhe devolve a quantia.

Amava, se é que se pode chamar a isso de amar, havia reparado seria um termo mais adequado, havia repardo num belo rapaz de uns vinte e três, vinte e quatro anos. Ele era loiro, tinha lindos olhos pretos, feições demasiado regulares para um homem, mãos e pés de mulher e, com tudo isso, formas tão precisas e tão em harmonia consigo mesmo, em todos os aspectos, que se percebia que aquele invólucro aparentemente frágil continha uma força hercúlea… quando se mostrava em sociedade, não precisava atrair sobre si os olhares por meio de excentricidades. Todos o miravam naturalmente. Seus companheiros, não vamos dizer de prazeres, mas de caça e de viagem, nunca conseguiam levá-lo a um desses divertimentos a que cedem até os mais rígidos,  pelo menos uma vez ao acaso, e ninguém se lembrava de tê-lo visto, não vamos dizer rindo com o riso franco e alegre da juventude, mas simplesmente sorrindo…”

    Pois bem, a enteada de Napoleão, Hortense, tem uma amiga, Claire de Sourdis que está apaixonada pelo belo e misterioso porque melancólico e sombrio  rapaz descrito na passagem acima, Hector de Sainte-Hermine (embora seja o personagem-título, a primeira menção ao nome dele é feita apenas do capítulo X, na pág.  155, numa cena de confidências mútuas entre Claire e Hortense). Ele também é visivelmente apaixonado por ela , mas não permite uma maior aproximação. Eis porque: aquele Morgan, o líder mascarado dos jeús, era seu irmão, e foi preso e guilhotinado (numa trama rocambolesca: um dos membros do grupo era o sr. de Fargas, um sujeito meio pusilânime, com uma irmã mais corajosa que ele,  Diana; ora, Fargas com medo de ser torturado, trai os jeús, e é punido com a morte por seus ex-companheiros,  o corpo sendo largado numa praça em frente à sua residência; Diana jura vingança e fica dois anos combatendo meio disfarçada de homem ao lado dos chouans de Cadoudal para ganhar a confiança dele; seu plano é descobrir a identidade dos jeús, sua localização, e levá-los a cair numa armadilha; ela consegue ser designada como mensageira de um pedido de dinheiro de Cadoudal aos jeús e faz com que eles sejam presos; após serem julgados, como acham indigno morrer na guilhotina, todos os quatro líderes, inclusive o irmão de Hector, se suicidam, mas Sainte-Hermine tem tanta vitalidade que mesmo se apunhalando várias vezes, ainda é levado com vida à guilhotina;  o irmão assiste a tudo; o pior é que seu pai também foi guilhotinado durante a revolução e um outro irmão foi fuzilado, e cada um passou ao outro a missão de vingar-se). Aliás, a cena da morte do irmão suicidando-se a caminho da guilhotina, e depois sua execução, é absolutamente descabelada:  “com a implacável vitalidade que não lhe permitira morrer por sua própria mão, sua cabeça, em vez de cair no cesto como as outras, pulou por cima, rolou toda a extensão da plataforma, vindo cair no chão. Abri [pois é Hector que está narrando, para Claire], numa sacudidela brutal, a fileira de soldados que continha a multidão e deixava um espaço vazio entre ela e o cadafalso e, jogando-me, antes que conseguissem me deter, sobe aquela cabeça querida, tomei-a nas mãos e beijei-a. Seus olhos tornaram-se a abrir, seus lábios estremeceram sob os eus. Oh, juro por Deus, ela me reconheceu!”

       Portanto, eis a situação fatal de Hector: ele está atado ao fatalismo familiar, à questão de honra de ser o varão responsável pela vingança. É por isso que quando o recrutam para os jeús ele não pode recusar. É por isso que ele não pode se aproximar de Claire de Sourdis e por isso ele, que admira Napoleão, não pode aderir ao regime do Primeiro Cônsul (“não pense que sou desses que teimam em elogiar o antigo regime em detrimento do novo, nem que sou cego para as grandes qualidades do Primeiro Cônsul. Eu o vi, outro dia, pela primeira vez, na casa da senhora de Permon e, em vez de sentir repulsa, senti-me atraído”) . Mas Cadoudal, que é o verdadeiro líder da resistência monarquista, sai do caminho de Napoleão, vai para Londres, liberando todos os jeús e chouans das promessas que fizeram (a não ser que ele volte e peça o cumprimento delas…). Dessa forma, Hector se sente livre, declara-se para Claire, narra a ela os destinos dos seus familiares, e eles marcam o casamento,  cujo contrato terá a honra de ter como signatário o próprio cônsul e Josefina, numa grande recepção, digna de um romance de Balzac ou de Proust.

       Na hora da assinatura do contrato de casamento, no entanto, aparece um sujeito distinto mas misterioso, chama Hector à parte e o noivo desaparece, cumprindo o vaticínio que uma profetiza fez a Claire de que ela seria “viúva de um marido vivo” e “esposa de um marido morto”.

      Acontece que Napoleão havia dispensado do seu cargo de ministro da polícia o maquiavélico e sinistro Fouqué, e este resolvera ressuscitar por sua conta os ataques dos cavaleiros de jeú para desestabilizar a nação e conseguir o cargo de volta. Só que os falsos jeús impõem a barbárie: são fogueiros, criminosos que queimam as vítimas para fazê-las confessar onde estão os bens. O pior de tudo é que esses crimes são cometidos sob a invocação do nome de Cadoudal. Este, na Inglaterra, ao saber do fato, fica indignado com Napoleão e desfaz todo o pacto, convocando por apelo à palavra de honra os verdadeiros jeús a se mobilizarem novamente. É por isso que um contrafeito Hector desaparece do próprio casamento…

II

“O que seria dos pobres sem os pobres?”  (Dumas, “O cavaleiro de Sainte-Hermine”,  cap. XXVII, pág. 316)

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     Dumas inicia o capítulo XXX da seguinte forma: “Os leitores devem ter percebido com que profundo escrúpulo apresentamos as personagens históricas que desempenham algum papel nesta narrativa,  sem qualquer posicionamento a priori, e tal como elas se apresentam à imparcial história. Não nos deixamos impressionar nem pelas recordações pessoais de nossas desgraças familiares [o pai dele perdeu um posto para Napoleão, significando para este o primeiro passo para sua ascensão meteórica, e para o sr. Dumas a decadência e a subseqüente penúria econômica para sua família, embora neste trecho ele dê outra explicação, mais  enfeitada], cuja fonte remonta às divisões no Egito entre Bonaparte e Kleber, pelo qual meu pai tomara partido, nem pela hosana de seus eternos adoradores, cujo princípio é tudo admirar, nem por essa moda, vinda com um retorno de oposição a Napoleão III, de denegrir todo o passado a fim de solapar as bases em que se apóia a sua vacilante disnatia”.

    Cito esse trecho para mostrar que, conversando com o leitor o tempo todo sobre os seus méritos, e sempre alegando (inclusive com notas de rodapé e referências bibliográficas) estar documentado (o que é desmentido pelas pesquisas do restaurador do texto, o valente Claude Schopp, que mostra várias invenções, deformações e inexatidões, tiradas de textos inexistentes, listas de nomes falsas, recordações vagas, etc), o grande autor de O cavaleiro de Sainte-Hermine é um escritor profundamente consciente do seu ofício, e faz uma performance de narrador digna das suas teorias sobre a arte do romance histórico. Enquanto avanço na trama (após fugir do seu casamento, Hector é preso. A última vez que o vemos, por muito tempo, é quando ele consegue de Fouché, chefe do serviço secreto de Napoleão, a promessa de que será executado no anonimato, e eles se despedem com o seguinte diálogo:  “Adeus, senhor Fouché, disse Sainte-Hermine, e mil vezes obrigado. Até logo, respondeu Fouché. Até logo?, exclamou Sainte-Hermine, O que quer dizer com isso? Quem sabe, meu Deus, respondeu o ministro da polícia; e a trama, a partir daí, por duzentas páginas, pelo menos, se estilhaça magnífica mas confusamente em mil sub-tramas, a partir de um atentado contra a vida de Napoleão, e a reação dele, de sua polícia, oficial e secreta, aos conspiradores, particularmente os grandes chefes, Cadoudal, Pichegru, Moreau e um suposto herdeiro dos Bourbons, que seria o Duque de Enghien; há, além disso, vinhetas narrativas que traçam retratos de Haydn e Chateaubriand), creio que é a hora de revelar o lado “teórico” da realização dumasiana.

    Quando Dumas começou a publicar seu folhetim, um tal Henry d´Escamps o anatematizou por solapar o “senso de moralidade” e contar intimidades e fatos comezinhos sobre Josefina, o Primeiro Cônsul, o secretário Bourrienne. Para o sr. d´Escamps esse senso de moralidade deveria vir em primeiro lugar, antes da imaginação, do talento ou do espírito, mesmo que o autor afirmasse (antecipando a História das Mentalidades) que a “melhor maneira de escrever a história” é procurar não em documentos públicos e sérios, mas em Memórias do tempo.

     Decerto na esperança de sua história “acontecer” (não aconteceu, Dumas já estava saindo de moda e o realismo-naturalismo já era a nouvelle vague, o noveau roman), mas também com toda a tarimba de quem escreveu dezenas de romances históricos, o romancista enviou uma carta endereçada ao diretor do jornal onde saíra o comentário de d´Escamps:

“Existem duas maneiras de escrever a história.

Uma, ad narrandum; uma, para contar…

Outra, ad probandum; a outra para provar…

Esse segundo modo nos parece ser o melhor e eis por quê: o primeiro consulta as peças oficiais, o Moniteur, os jornais, as cartas e as certidões depositadas nos arquivos, ou seja, os acontecimentos escritos por aqueles que os realizam, e consequentemente, quase sempre desfigurados em seu benefício. É Napoleão revendo a sua vida em Santa Helena, e arrumando-a para a posteridade.Vi nas mãos do sr. Montholon o original do bilhete que anunciava a Hudson Lowe a morte de Napoleão. Estava, em três passagens, corrigido pela mão do próprio Napoleão. Assim, ele, ao morrer, ajeitava para si uma morte napoleônica…

A segunda maneira é bem distinta: estabelece a linha cronológica dos acontecimentos, ou seja, dos fatos incontestáveis, depois procura as causas e os resultados desses acontecimentos nas memórias contemporâneas. Por fim, ela tira uma dedução que não pode ser estabelecida por aqueles que escrevem apenas para relatar, mas de que se servem  vitoriosamente aqueles que escrevem para provar.

Assim, por exemplo, dirá a história ad narrandum: a unificação da Itália efetuou-se sob a alta proteção de Napoleão III. E a história ad probandum dirá: a unificação da Itália efetuou-se apesar da oposição de Napoleão III, que adotou a conquista da Sicília como fato consumado, mas proibiu que Garibaldi transpusesse o estreito de Messina, e os grãos-duques da Toscana e outros caíram apesar do apoio que lhes dava, por ordem do ser. Walewski, nosso cônsul em Livorno, o qual, por ter fracassado, foi despachado para a América.

Seguindo esse metido, entrando nesses pequenos detalhes, é que escrevi quatrocentos volumes de romances históricos mais verdadeiros que a história. O autor de Os três mosqueteiros, O máscara de ferro e A rainha Margot pode afirmar isso. Aliás, ao longo do texto, ele comenta a dificuldade de escrever a história. Por exemplo: É difícil esta nossa posição de romancista: se omitimos esse tipo de detalhe acusam-nos de não conhecer melhor a história do que certos historiadores, e se os revelamos, acusam-nos de querer impopularizar as classes monárquicas”. E ele chega a detalhes extremos como a investigação policial do atentado contra Napoleão feita a partir da descrição dos despojos da égua que morreu durante a tentativa de assassinar o primeiro cônsul.

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    E apesar de ele deixar o leitor completamente siderado pela figura de Napoleão em O cavaleiro de Sainte-Hermine (ainda quero ver se faço uma antologia de suas frases memoráveis no livro), o que ele quer “provar” através da narrativa, entrando nos pequenos detalhes, tem lá sua similaridade com o intuito de Tolstói ao escrever Guerra e Paz (no sentido de restringir o poder individual ante o peso da providência) :

“Quando  é decretado por essa força invisível e desconhecida que um acontecimento feliz ou fatal irá acontecer, tudo contribui para essa vontade que toma conta dos homens e os empurra aqui e ali, ao acaso, para um mesmo objetivo. O que caracteriza os grandes acontecimentos dos tempos modernos, sem  nenhuma exceção, é a pouca influência que os indivíduos neles exercem. Aqueles  homens considerados mais fortes e mais capazes não dominaram nada, não conduziram nada, foram arrastados pelos acontecimentos. Poderosos enquanto  foram os apóstolos do movimento, nulos quando tentaram opor-se a ele, foi essa a verdadeira estrela de Bonaparte, que se manteve brilhante enquanto ele próprio representava os interesses populares e foi se perder naquele insensato cometa de 1811. Aliando-se aos Césares romanos, ele quis aliar, o que era impossível, a causa da Revolução à causa das velhas monarquias. O que o filósofo pode perceber com humilde surpresa é essa força que paira acima das sociedades e cuja ação está nela mesma: não é nas superioridades de gênio ou de casta que devemos buscar os meios de governar”.

III

         Dumas trapaceia desavergonhadamente com relação ao destino de Hector Sainte-Hermine, que volta à baila na pág. 507, três anos após sua prisão e seu mergulho no anonimato. Em 25 de junho de 1804,  Fouché (que consegue reaver seu cargo como ministro da polícia, após esmagarem os conspiradores  e matarem injustamente o Duque de Enghien, morrendo também vários personagens interessantes: Cadoudal, Pichegru, o elegante e janota Coster de Saint-Victor) pergunta a Napoleão o que farão com Sainte-Hermine.

    A partir daí, libertado, mas degradado (terá de servir como simples soldado), Hector ocupará o centro da narrativa. A conselho de Fouché (que tem um estranho e ambíguo interesse por ele e seu destino; o engraçado é que Hector nem questiona as decisões do ministro), ele resolve se engajar num navio corsário. O leitor atual logo imagina: navio pirata. Mas parece mais, a princípio, o equivalente à marinha mercante (embora, na seqüência dos acontecimentos, o Revenant (“aquele que retorna” ou “assombração”), navio no qual ele se engaja, realmente aborde outras embarcações de um modo piratesco, que no entanto parece ser conseqüência do estado de guerra entre França e Inglaterra).

     Quando também imaginamos o nosso herói, um nobre, como simples marinheiro (o equivalente a soldado raso), imaginamos uma vida de sofrimento, de trabalho duro. Que nada! Logo de cara ele impressiona o comandante do Revenant, Surcouf, pelo seu denodo, beleza, força física (ele atira balas de chumbo pesadíssimas a uma distância impressionante), capacidade de esgrima, mais tarde, com o seu inglês fluentíssimo, que é essencial num momento crítico… e o supostamente degradado Hector, agora simplesmente René, vai a bordo como secretário do comandante, com uma rede própria para dormir, e de simples marujo sua vida não tem nada. Ele usa sua fortuna para avalizar dívidas dos outros marinheiros, bebe taças que contêm três garrafas de vinho de uma só vez sem ficar bêbado, canta e toca violão de uma maneira arrebatadora e ainda se atira na água e abre um rasgo de um metro com o seu punhal na barriga de um tubarão que ameaçava um companheiro. Vida mais de diversão do que de degradação. O pobre do Ben-Hur teve de remar, remar e remar nas galés, mas ainda que Hector/René diga a Surcouf que, com quase vinte e seis anos, tem o coração “morto” e que só lhe resta “passar o tempo”, esse tempo é passado de forma bem interessante. E apesar de seus feitos, é um herói de muito pouco carisma para o leitor. O que salva o livro, afastando-se de Napoleão e abrindo-se para o mar é justamente a vitalidade narrativa que nos recria quase cosmicamente a época (só acho que, mesmo para um romântico, Dumas exagerou na dose ao idealizar de tal forma a vida marítima: nem Hollywood aplicou tanto glamour; até as carnificinas cometidas parecem um elemento de pitoresco a mais).

     Ah, tem mais: o Revenant ataca um navio inglês e nesse navio morre um passageiro inocente, e quem ele é? Em todo o vasto mundo, no oceano René foi encontrar o tio, que na sua infância lhe deu rudimentos da vida de marinheiro, e do qual foi afastado por causa da Revolução. Esse tio, que morre na abordagem, tem duas filhas (primas, portanto), que ficam sob a proteção do “simples marinheiro” (aliás, ele as salva de serem violentadas, tendo de matar um companheiro para isso).

     Após a abordagem e captura de uma chalupa que fazia comércio negreiro ilegal (pelas informações, sempre duvidosas, de Dumas, só oito barcos tinham permissão de fazer esse comércio), René acalenta um projeto: pede licença de seis semanas a dois meses a Surcouf (que está com o navio sendo reparado na Ilha de França) para levar as protegidas (a quem não revela ser seu primo), compra a tal chalupa e vai navegar até o litoral da Índia, o destino do navio inglês que abordaram. René quer cuidar delas até o desembarque e reencontro com a família, e quer caçar tigres, panteras e elefantes. Antes disso, fazem excursões pela Ilha de França, com a população negra carregando as jovens em palanquins (e olha que elas estão supostamente de luto), para o meio da exótica mata, com piqueniques e visitações aos cenários do romance pastoral “Paulo e Virgínia”, que foi um tremendo sucesso na Europa da época.

     Para quem se dizia com o “coração morto”, até que não foi mau negócio, não?

IV

     Só na página 787, após alguns indícios, é bem verdade, é que a situação política da França reaparece em O cavaleiro de Sainte-Hermine. Na pág. 631, Hector como René e suas primas vão na chalupa  “Le coureur de New York”, adquirida por nosso herói, para a Birmânia. Essa viagem é descrita com a maior exuberância, com todos os dons de narrador épico do nosso amigo Dumas, e tem até um toque pré-Coração das Trevas em alguns momentos em que mostra a ameaçadora majestade da selva ainda intocada:

“…tudo então parecia ganhar voz para ameaçar o homem: a floresta, a água, as matas pareciam ter cedido o campo de batalha para um exército de demônios pronto a se destroçarem mutuamente; o ar foi o último a se povoar, mas, por volta das onze horas, morcegos do tamanho de corujas vieram esvoaçar sobre as chamas do acampamento e acrescentar suas notas agudas à assustadora sinfonia,passando pelos rolos de fumaça, como se essa fumaça surgisse das bocas do Inferno…”

     Só que Dumas não é autor de problematizar; ele, como Jorge Amado, é um autor afirmativo, os aspectos mais escorregadios da existência sempre são levantados, mas de forma a fazer contraste com um conjunto antes alegre e luminoso do que inquietante.

      O que nos revolta e nos choca, a nós leitores de hoje, é a alegre desenvoltura com que seus personagens massacram vários tigres, em cenas de caça minuciosamente descritas. O meu exemplar está cheio de pontos de exclamação indignados diante dessa barbárie tida como coragem, por mais que eu tente me colocar na mentalidade da época.

     Bem, não vou me ater muito a isso, mesmo porque há todo um lado exasperante na composição de Hector. Ele é tido quase como um super-herói nesse passo da narrativa, e chega um momento cômico em que ele até se torna médico improvisado. E como faz tudo bem, é mais um traço no seu super-heroísmo. Agora me lembrei porque nossos heróis de hoje,mesmo heróicos, sempre apresentam uma pontinha de ironia, como Indiana Jones. Ninguém conseguiria levar um tipo como Hector de Sainte-Hermine a sério, nem que ele fosse interpretado pelo Zach Effron.

      Quando ele e as primas chegam à propriedade delas na Birmânia, encontram um paraíso terrestre: uma colônia harmônica de seres gentis, bacanas, prestativos, honestos, capitaneados por um intendente de lealdade ao patrão a toda prova. Se os homens de Conrad se desmancham moralmente nos “postos avançados da civilização”, os de Dumas florescem e desabrocham. Quem não floresce nem desabrocha é a prima Jane, a qual apaixonada pelo heróico primo, e não correspondida, vai definhando, definhando, até que num gesto desesperado (quando ele comunica sua partida, após cumprida a missão), ela combina com uma feiticeira local uma morte à la Cleópatra (é picada por uma serpente, e depois da mordida a pessoa só tem 24 horas de vida).

     A parte mais interessante desse passo da narrativa, a meu ver, são os diálogos trocados nas noites majestosas pelos dois primos em que são expostas idéias sobre a vida após a morte, Deus, a eternidade. É meio difícil imaginar essas colocações como colóquios de dois jovens que no mais são dois tontos, mas eu gostei muito desses capítulos (vê-se que o assunto preocupava Dumas): “… em vez de criar um Deus dos mundos, que estabeleça a harmonia universal pela ponderação dos corpos celestes, fizemos um Deus à nossa imagem, um Deus pessoal, a quem cada qual pede contas, não dos grandes cataclismos atmosféricos, mas dos nossos pequenos infortúnios individuais. Rezamos a Deus, esse Deus que o nosso gênio humano não pode compreender, que as linhas humanas não podem medir, que não se vê em parte alguma e que, no entanto, se existe, está em toda parte, rezamos como os antigos rezavam ao deus do seu lar, pequenas estatuetas de um côvado de altura, como o índio reza ao seu fetiche, como o negro reza ao seu amuleto (…) minha cara Jane… não atenta para o fato de que está confundindo o tempo com a eternidade. Somos pobres átomos arrastados nos cataclismos  de uma nação, esmagados entre um mundo que se acaba e um mundo que começa…” Jane pergunta se ele não acredita em Deus: “Acredito, sim, Jane, acredito, mas acredito num Deus que fez os mundos, que traçou seus caminhos no éter, mas que, por isso mesmo, não tem tempo para cuidar da felicidade ou da desgraça de dois pobres átomos que rastejam na superfície deste globo… Deus é uma palavra que me serve para nomear aquele que procuro…”

    Jane morre, René parte e volta para a Ilha de França (na volta, ainda socorre Surcouf no combate contra duas embarcações inglesas). Ali, toda a incoerência da narrativa com relação à degradação contida no indulto a Hector se confirma: ele, que nunca fez nada como “simples marujo” no navio de Surcouf, simplesmente pede ao governador da Ilha que o indique como aspirante à oficial em algum navio francês oficial, para que possa lutar na guerra que se prepara. Mas Napoleão e Fouché tinham combinado expressamente que ele não poderia fazer isso. E não combina também com o sentimento de auto-renegação por parte do herói (sentimento que nunca convence ninguém, aliás).

     A verdade da condição de René/Hector, mais literária do que verossímil, mais dentro da psicologia do Alto Romantismo, é que ele é uma encarnação já tardia do herói byroniano, do ultra-romântico. Basta conferir o fato de que ele pede ao governador que o recomende para um comandante de navio, porque deseja se fazer matar. O governador pensa que ele está brincando: “Não estou nem um pouco brincando, estou morrendo de tédio; um dia, num acesso de spleen, vou estourar os miolos; vou ter então uma morte inútil e ridícula, vou estar sendo louco. Ao morrer pela França, vou ter uma morte útil e gloriosa, e vão me chamar de herói”. Antes, por causa do amor de Jane, já lêramos: “Sendo ele próprio jovem e cheio de magnetismo, não escapava da embriagante influência de uma moça bonita, apaixonadamente enamorada, que com seus olhares, apertos de mão, suspiros, flechava a sua própria vida nas artérias do homem que amava. Havia para ele, naquelas conversas apaixonadas, uma atração a um só tempo dolorosa e sensual. Proibir-se de amar aos 26 anos, ou seja, no auge da vida e da juventude, quando o céu, a terra, as flores, o ar, a brisa, os embriagantes estímulos do Oriente, tudo diz Ame, significa lutar sozinho contra todas as forças da natureza”. É a morbidez ultra-romântica na sua manifestação mais plena: o amor fica mais poético e bonito banhado pela morte e pela impossibilidade de amar.

V

Apesar de em certos aspectos (é preciso ter em mente que o autor não reviu para publiccação definitiva) ser uma narrativa desordenada, O cavaleiro de Sainte-Hermine, desde a partida de René/Hector da Ilha de França e do retorno às questões napoleônicas consegue fazer convergirem as duas linhas desenvolvidas pelo autor: a do registro amplo da passagem do consulado ao império, isto é, a liquidação da Revolução; e a da vida marítima, das aventuras em mar aberto, que constituíram o pano de fundo principal da segunda existência do cavaleiro de Sainte-Hermine como René.

      Após (como consumado épico que é, que não tem pressa, e é equânime com todos os lados da questão) ter feito um parêntese para contar a trajetória do Almirante Horatio Nelson e seus amores com Lady Hamilton (assunto de tantos livros e filmes, inclusive da obra-prima de Susan Sontag, O amante do vulcão), ele faz René se engajar como terceiro-tenente de um dos navios franceses que vão participar da Batalha de Trafalgar, vencida pelos ingleses, mas na qual perece Nelson (Dumas chega a insinuar que a bala que o matou foi endereçada por Sainte-Hermine).É certamente o grande momento épico do romance inteiro, tanto que os dois capitulos que narram a batalha e seu resultado (há uma tempestade depois, que atrapalha os planos dos ingleses de se apoderarem de boa parte dos despojos da esquadra francesa) são os mais longos até agora.

 Dumas se esmera nos detalhes quase ao ponto do fastidioso, mas que romance longo não tem seus momentos fastidiosos? , já é quase  um elemento componente do gênero (por isso, tantos desgostam dele). Talvez por minha leitura parcelar, quem está acompanhando-a talvez pense que já não acho a mesma coisa do princípio, de que estamos diante de uma obra-prima do gênero, ainda que inacabada. É certo que não gosto muito do herói, mas ele é quase secundário no efeito geral do livro,que cada vez mais acho poderoso.

                                                             dumas & sainte-hermine

09/06/2011

A SÍNDROME DE CAIM

“Não queria, no entanto, que pensassem em mim como num bandoleiro escaldado em todo tipo de desgraça”  (Cesare Battisti, SER BAMBU).

ENTRE O TÉDIO E O FOLHETIM

 Se depois da morte existe a reencarnação, eu queria renascer como bambu, aproveitar a prodigiosa flexibilidade que lhe permite curvar-se a todas as correntes e sempre se reerguer para continuar contemplando os escombros do alto de sua folhagem”.

    É possível avaliar objetivamente, do ponto de vista literário, uma obra de Cesare Battisti, sem levar em conta a celeuma causada pela batalha em torno da sua extradição (ainda não-efetuada) para a Itália, em função de assassinatos supostamente cometidos durante sua militância política? Não sei. Aliás, a militância política merece pouco espaço em SER BAMBU, livro que me caiu nas mãos nos últimos tempos:  “O que mais machuca são as inúmeras interpretações capengas de todos esses que hoje nos chamam de ´terroristas´(…) É um erro grave, não raro perigoso,  esperar que os outros acatem nossas conclusões e experiências subjetivas como fatos objetivos. Eu estava, àquela época, convencido de que injustiça mais povo revoltado era igual a Revolução! Como 1+1= 2. Fazer o quê, sou um filho do século passado.”

Ser Bambu me revelou o escritor Battisti, que nunca é mencionado em todas as fastidiosas e bombásticas opiniões pró e contra extradição, Um escritor de muitos livros anteriores e que se debruça, numa curiosa mistura de autobiografia e romance alegórico, sobre seu bloqueio como escritor: a condição de eterno foragido é agravada pela paralisia da escrita, a má consciência que pode se tornar um laptop abandonado e acusador (“esse conflito obsessivo com meu passado de escritor“), uma vez que a vida que se leva é construída na sombra, no nada: “A febre do escritor levava a melhor sobre a minha firme convição de eu já não tinha mais nada a dizer”,uma certa “incompetência de viver”, como os heróis de Juan Carlos Onetti ou João Gilberto Noll, e um apetiter pela irritação ininterrupta da imperfeição: “Um cômodo que não serve para nada, uma torneira pingando, barulho, moscas,  uma divindade pavorosa a um canto, eu precisava de alguma coisa do gênero… Acho monstruoso quando não há do que reclamar”.

      Pois quem espera aventuras trepidantes e peripécias rocambolescas envolvendo fugas, passaportes falsos, endereços diversos no mapa-múndi, vai se decepcionar. Os grandes momentos de Ser Bambu, os que fazem dele um livro em certos aspectos notável, são aqueles que vasculham justamente a sombra, o nada, o tédio que constitui a existência desse Caim dos tempos modernos, o qual, no momento em que a narrativa se abre, perambula por países asiáticos: “É impressionante as histórias que o tédio que a gente é capaz de inventar quando o tédio toma conta. Era possível  que, como estrangeiro crônico, eu desse a essa palavra um sentido que não lhe coubesse de fato. Experimentei algumas outras para definir esses momentos em que precisamos a todo custo de um pretexto para continuar em pé. Mas descartei uma a uma, como deve ser feito quando nos prendemos a sinônimos (…) Posso reconhecer facilmente que as iniciativas mais importantes da minha vida foram inconscientemente tomadas por impulso do tédio (…) Depois de certas experiências decisivas, tornei-me quase apto a pressentir as coisas trazidas  por essa espécie de febre latente que é o tédio…”

     Esse clima, e a presença de uma mulher estranha, Áurea,  com algo ameaçador em torno dela, uma espécie de sorvedouro existencial (“aquela mulher, que enfrentava o mundo com a frágil nobreza de um antigo papiro”) , parece indicar que estamos num terreno mais próximo de Marguerite Duras do que de pregações marxistas ou memórias militantes.

    Infelizmente, a mulher (uma brasileira) abre a boca (os diálogos são terríveis), e o encanto se desfaz;  pior ainda, conta sua história. E enveredamos para uma narrativa com certo teor alegórico-brega, e que poderia ter sido escrita por Paulo Coelho: ela é uma dondoca ambiciosa, que trabalha para multinacionais, e que se apaixona por um líder do MST, na verdade um carreirista sem escrúpulos, cuja participação no massacre de ocupantes de uma grande propriedade, fez com que ela o assassinasse, após encampar seus ideais e abandonar sua antiga vida.

    O tom com que tudo isso é narrado é de folhetim, como se Danielle Steel ou Nora Roberts se ocupassem de uma história de amor, tendo como pano de fundo as nossas lutas pela reforma agrária.

   Volta e meia, Cesare Battisti nos surpreende com uma passagem maravilhosa, com uma percepção literária incrível: “Sei perfeitamente que as omissões dizem muito mais aos leitores que essas tantas explicações confusas e pesadas. É bom fechar os olhos sobre um livro aberto e evocar todos os seus não-ditos…Uma réplica interrompida nos evoca uma seqüência lógica e profunda que nenhuma boa escrita saberia oferecer. A arte de não dizer, caros amigos, aí está o livro que ainda não escrevi. Por enquanto, contento-me em ser o mais fiel possível à imagem que eu criara de Áurea, e de nóis dois, e isso dentro dos limites da minha capacidade de expressão. Não há dúvida de que, naquela hora, mãos cruzadas às costas e queixo erguido, Áurea estava tão furiosa quanto um chefe de pelotão irritado com a inaceitável inépcia de seus homens. É verdade que, em vez de enclausurar esse estado de Áurea numa só palavra, ´furiosa´, eu poderia deixá-lo em liberdade, ao sabor da imaginação dos leitores….” etc etc.

       Entretanto,  a vida de foragido e a luta contra a voragem do tédio embotaram sua escrita. Esperemos que, qualquer que seja seu futuro, ele a reconquiste na plenitude.

 (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em março de 2010)

 

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